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   > M I N H A M ã E



GERALDO DE CASTRO PEREIRA
      CRôNICAS

M I N H A M ã E

             
          
      
                   M I N H A   M ã E
 
                 
                  Autor: Geraldo de Castro Pereira
 
 
               “Não há vergonha em ser pobre, mas é deveras  incômodo”
        
                   “Sydney     Smith”
 
 
                Li de Júlia Lopes de Almeida um conto, cujo título era “A Caolha”, contando a história de um filho envergonhado da mãe pelo fato dela ter um defeito físico: ser caolha. Ao final, quando a mãe estava moribunda, o garoto ficou sabendo ter sido ele o causador da desgraça. Quando pequenino, ao ser amamentado, brincava com um garfo. E, com esse instrumento, furou o olho de sua genitora.
              Fiquei pensando em minha mãe.  Eu também tinha muita vergonha da maneira como vivia ela, morando com meu pai num lugar denominado ‘Jardim das Alterosas”, perto da cidade de Betim - Minas Gerais.
              A casinha deles era constituída de quatro cômodos apenas, isto é, dois quartinhos, uma sala, uma cozinha, tudo de chão batido; telhas de amianto cobriam a casa; as paredes eram de pau a pique, pintadas com cal; o banheiro do lado de fora, não passando de uma fossa, cercada de tábuas, com um buraco bem no meio do assoalho.  As camas eram bem rústicas, os colchões recheados com paina.  Havia uma cisterna, de onde minha mãe retirava com um balde a água para comida. Para beber, ela fervia a água. Claro: não havia luz elétrica. Eles se utilizavam de lamparinas de querosene, velas ou candeias de azeite.
                 Ela criava galinhas até dentro de casa. Andava quase maltrapilha, assim como meu pai. Duas irmãs, as mais novas, moravam com eles. As meninas também viviam mal vestidas e sem poder estudar.
                Eu havia saído do Seminário, não fazia muito tempo. Fiquei horrorizado em encontrar meus pais e minhas irmãs naquela situação de penúria. Para sobreviverem ,  extraíam areia de  um riacho que  corria no fundo do quintal, utilizando-se de pás e enxadas. A areia era vendida por metro aos pouquíssimos caminhoneiros que dali se aproximavam, pagando uma irrisória importância e , às vezes, davam calotes, prometendo voltar  em  outro dia para acerto e nunca mais retornavam.
              Ainda não podia fazer nada por eles, porque não tinha nem emprego.
Quando consegui uma pequena colocação, comecei a ajudá-los. Mas, pouco me sobrava, devido ao custeio de meus estudos na faculdade, porquanto tinha conseguido, ainda quando fazia Exército, passar no vestibular para Direito na Faculdade Católica – PUC - Minas Gerais.
 
               Quando podia, ia visitá-los, pegando um trenzinho de Belo Horizonte a Betim. Sempre quis levar colegas meus em minha companhia. Mas, a vergonha gritava mais alto.
               Já cursando o segundo ano de Direito, ingressei na JUC – Juventude Universitária Católica, onde fiz alguns amigos, além dos já existentes na faculdade.
Também participei de um grupo de jovens.  Nós nos reuníamos na Igreja “Divino Espírito Santo”, no bairro Santa Efigênia, na capital mineira.
          Sempre revoltado, sonhava com dias melhores para toda minha família e para mim, assim como para todos os brasileiros. Queria ser uma pessoa influente, um político, talvez um magistrado.
         Gostava de oratória. Dois amigos, o Oswaldo e o Sérgio, incentivavam-me. Eram também de família lutadora e tinham ainda mais cinco irmãos pequenos. O pai, servidor público, e a mãe, uma professora.
         Em 1964, ocorreu o golpe militar, como é do conhecimento de todos. As três Forças Armadas se apossaram do Governo do País, implantando uma ditadura, com perseguição implacável aos chamados subversivos.
            Um dia, o Oswaldo e seu primo André procuraram-me. Precisavam de um local sossegado, se possível, ermo, para treinamento de discursos inflamados contra o Governo Militar. Juntei-me a eles.
          Tive a idéia de indicar-lhes a localidade onde meus pais moravam, ideal para nossos intentos, pois havia uma propriedade ali perto, por onde quase ninguém transitava.
          E resolvemos ir para lá, sem qualquer aviso a meus pais. Fomos de trem. Chegando, apresentei-os à minha mãe. Minhas irmãs tinham viajado para Belo Horizonte para visitar duas outras irmãs. Meu pai, montado no seu cavalinho manco, tinha ido a Betim fazer suas parcas comprinhas.
           Mamãe em casa, como sempre, estava vestida com uma roupa bem simples e remendada e o rosto cheio de carvão, devido ao contato com o fogão de lenha. Confesso, fique com enorme vergonha dela.
            Deixamos nossas mochilas em um banco de madeira. Eram cerca de nove horas da manhã. Pedi-lhe fizesse um “almocinho” para nós. Voltaríamos dentro de três horas. Rumamos para o mato.
           Cada um de nós falava de improviso sobre um tema político escolhido de comum acordo. Treinávamos gestos teatrais e caprichávamos nas gongóricas perorações. Nem Cícero com suas “Catilinárias”, nem Catão com sua frase ‘delenda est Carthago” (Cartago deve ser destruída), ou Demóstenes na defesa de Fórmion, seriam tão eloquentes quanto nós. Se a salvação da Pátria dependesse de nossa oratória, os militares já estariam alijados do poder.
          Retornamos por volta de meio dia e meia.
         Ao chegarmos, famintos, sentimos um cheiro agradável de comida. Não deu outra: mamãe havia preparado uma galinha caipira ao molho pardo, temperada com cheiro verde, acompanhada de arroz, feijão e angu, tudo cozido no fogão de lenha. Comenos até nos fartarmos. O almoço estava de “lamber os beiços”.
          Os elogios de meus amigos foram tantos que senti orgulho de minha mãe. Olhava para ela e via o brilho nos seus olhinhos azulados e o rosto pleno de felicidade. Nem mais enxergava o carvão a lhe cobrir a face. Deu-me uma vontade de abraçá-la, beijá-la e lhe pedir perdão pela vergonha que no princípio sentia dela.
         Com a voz embargada, só pude dizer-lhe: “mãe, minha mãezinha, muito obrigado”!


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