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   > GODOFREDITE



Renato Prado
      CONTOS

GODOFREDITE

 
Godofredo julgava-se com todas as doenças de seu tempo.
Falava expansivamente, em meio da multidão, no lanchinho da praça:
 - Gastrite? Eu também tenho!... Queima tudo!
Tomo remédio todo dia. Já tem um ano.
- É preciso se cuidar – dizia o amigo, sentado em frente, pouco interessado.
- É verdade!... Não bebo mais... Parei de fuma... Nem como isso ou aquilo...
“Diabetes descobri há pouco tempo”, Afirmava articuladamente.
- Sério? E quais os sintomas?
- Uma fraqueza danada rapaz... Muita sede. Pouca fome... Muito difícil – Disse levando a mão no bolso da camisa- sacando, com orgulho, dois tabletes imensos de remédios.
- E esses remédios são para gastrite? Indagou o moço na mesa ao lado, que bebia uma cerveja em lata calmamente.
- Não, não! Esse é para diabetes; esse outro aqui é para ansiedade e este aqui – sacou do bolso da calça – para relaxar a musculatura. Ando muito tenso. Também com tantas doenças! Quase nem vivo! E minha ex-mulher ainda está me processando por pensão. Que sacana! Esta vida ainda me mata!...
E Godofredo continuava orgulhoso. Agora sobre os cabelos:
Veja você, estão com alguns fios brancos já. Idade chegando. É tanta coisa! Deus do céu...! 
O amigo em frente olhava-o tranqüilamente, como se atencioso, mas sua mente estava em “outros carnavais.” Um o outro ao lado às vezes mexia a cabeça concordando, mas ninguém na verdade se empolgava com aquela “Godofredite”. Até porque, poucos são os que se animam a dissertar sobre doenças, ainda mais em um lanchinho de praça.
Mas Godofredo, incansável, continuava animado:
 -“E você amigo quais os seus males? Indagou bem empolgado.
- Nada de mais, não. Apenas uma gastritezinha de antro, leve- Disse sem muita empolgação.
 
 
- Pois eu vou dizer, hein – continuava Godofredo imperioso- não ando podendo nem comer! Tudo que cai em meu estômago parece que explode como bomba. Sinto cada pontada que parece “Bomba de Hiroxima”. Não consigo comer nada. Tudo me faz mal! Já fui a muitos médicos e quase todos me disseram que isso vem de meu psicológico e que doença mesmo grave não tenho nenhuma. Mas a mim eles não enganam! Não sei não!... Acho que tenho é úlcera, ou começo de câncer maligno. Sem contar a dificuldade para dormir. Se não tomar remédio não adianta que não durmo a noite toda! Tenho certeza, sou mesmo muito doente – Afirmava orgulhoso com ênfase e esbugalhando os olhos para dar maior impacto. 
Teobaldo era o nome do dono do lanchinho e já estava acostumado a escutar toda aquela ladainha do amigo cliente.
A mais de três anos Godofredo freqüentava aquelas redondezas sempre a contar seus possíveis males. Praticamente todos os comerciantes daquela praça já conheciam seus hipocondríacos assuntos. Começava aos poucos com pequenas indiretas depois já estava até dando de médico e receitando remédios aos freqüentadores mais atentos.
Diferente de Godofredo Teobaldo era um homem de bem com a vida e gostava de papos alegres e descontraídos. Estava sempre alegre e atento ao atendimento de seus fregueses. Uma coisa que nunca chamava a atenção ou despertava seu interesse era assuntos sobre a vida alheia ou conversas pessimistas. Quando descobria um defeito alheio guardava para si e procurava ajudar da melhor forma. As pessoas sempre se sentiam bem em sua presença e muitos até chegavam a lhe confidenciar assuntos particulares pedindo sua opinião e ajuda. Seus produtos eram de melhor qualidade e cheirava gosto de quero mais. Era amigo, confidente, gentil, humilde e versátil e muito sorridente. Muitos tinham até certo grau de inveja de seu estilo de vida - incluindo nestes o amigo Godofredo. Mas inveja, pensamentos negativos ou mesmo mandingas era coisa que nunca pegava Teobaldo, devido sua energia ser muito positiva e segura. Seu semblante era calmo, pacifico! Seu comercio estava sempre com melhores vendas e entre os mais bem vistos pela sociedade daquela região. Era mesmo um homem feliz.
Teobaldo visitava, sempre que podia, com sua esposa, um grupo de apoio aos doentes. O grupo visitava os hospitais públicos, clínicas psiquiátricas, casas de apoio a crianças com câncer e vírus HIV...  O propósito era levar atenção e um pouco de consolo aos doentes de corpo e alma. Não havia distinção de idade. Crianças, adultos e senhores eram auxiliados. Batiam papo ou simplesmente escutavam os desabafos levando esperança e diminuindo a solidão dos hospedes.
Todos eles ficam agradecidos e sentiam-se bem com aquelas visitas.
Godofredo era sempre convidado pelo amigo, mas nunca se anima. Dizia estar ocupado, com muito trabalho ou cuidando da saúde. Sempre arrumava um jeito de se despistar daquela empreitada que considerava ingênua ou sem motivo. “Também sou doente e não preciso de visitas” – pensava ele em meio às escorregadas saindo pela tangente.
O tempo passou e Godofredo foi ficando cada vez mais infeliz e solitário. Estava cansado. Não chamava mais a atenção das pessoas. Sentia-se solitário e desvalorizado. Ninguém parecia animar-se em sua companhia. Mesmo a família não lhe dava muita atenção.
Um dia resolveu fazer uma visita junto ao grupo de Teobaldo. Chegou ao lanche, pediu um refrigerante e um “X - Godofredo” e disse decidido: Hoje irei com vocês!... Teobaldo, ao ouvir aquelas sinceras palavras, sorriu contente e solícito...
Hoje, após sete anos de sua primeira visita aos enfermos, Godofredo passeia muito sorridente e solícito pelos corredores de uma casa que fornece apoio a vários enfermos. Onde ele é proprietário-diretor. E o único remédio que toma é amor.
 


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