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   > UMA ROSA COLOMBIANA



Achel Tinoco
      CONTOS

UMA ROSA COLOMBIANA

O dia amanheceu feio, como se se inspirasse em meu olhar suas horas turvas e, por capricho ou incontida saudade, dependesse de ti a minha aura de sorte e alegria.
Somente teu seio, porque é generoso e tem o bico doce de abiu encravado nas minhas lembranças, constituiria motivo suficiente para a celebração de outro riso, posto diante daquele beijo mais íntimo que ontem à noite eu quis guardar no fundo da minha alma.
            Assim sendo, o dia continuará feio, sem a claridade do teu sorriso lindo; tépido, sem a certeza do teu olhar carinhoso. Por consequência, vou-me sentindo tão feio quanto o dia de hoje.
Dize, meu amor, que o nosso amor é infinito! Um naco de amor formidável, mas avesso a essa distância hedionda e a esse muro alto à minha frente.
— Preciso de uma marreta.
Eu escrevi à minha amada na manhã fria de agosto em que ela partiu. Havíamos construído uma relação amorosa, equilibrada, verdadeira, de diálogos intermináveis e divertidos. Tanto cuidado um com o outro, era possível a mim, mesmo à distância, sentir quando Eleonora ficava doente, triste ou alegre...
Já era verão na cidade, e eu saí à praia, quando avistei no “orelhão” da esquina uma menina telefonando. Parei para admirá-la — quanta beleza em uma só pessoa! — mas ela nem percebeu. Na manhã seguinte a encontrei novamente andando pela rua, com livros debaixo do braço, os longos cabelos castanhos, amarrados de rabo-de-cavalo e ainda molhados, vestindo calça-bailarina preta, blusa baby look branca de alças finas. Logo pensei que, se fosse coisa do destino, haveria de conhecê-la um dia desses. Mas como...? Dias depois a vi entrando numa academia de ginástica. Coincidentemente, eu conhecia a recepcionista, para pedir-lhe informações sobre a jovem em questão: nome, endereço, telefone; qualquer coisa que se pudesse acoplar ao meu encantamento.
Logo uma ideia, que me pareceu tola mas muito romântica, veio à tona: mandar-lhe rosas. Corri à floricultura e comprei uma rosa colombiana — sobre a qual a florista garantiu uma semana até ela murchar — surpreendentemente grande, vermelha, de pétalas aveludadas. Escrevi no cartão que ela era a mulher mais linda do mundo, e o quanto ficaria feliz em conhecê-la, mas acovardei-me à hora de assinar meu nome, entreguei-o anonimamente na portaria do prédio dela.
Passaram-se quinze dias, repeti o gesto; depois, um mês, outra rosa, e outra, e outra...
Num finalzinho de tarde de um domingo desanimado, vesti camisa nova azul com florais brancos e calça de brim também azul. Perfumei-me com exagero e saí disposto a me apresentar à moça dos meus sonhos mais recentes.
— Oi, aqui é Husthuck, o das rosas! Lembra? Gostaria de falar com você... — disse eu com nervosismo, pelo interfone.
Eleonora sorriu com simpatia:
— Só se for por dez minutos... Tenho de estudar.
Mas foram tantos assuntos.
— Eu pensei que você fosse um dos meninos aqui da rua... Eles ficam mexendo comigo sempre que passo. Mas logo desconfiei de que aquelas rosas não podiam ter sido mandadas por eles, principalmente pelas palavras tão bonitas e poéticas que vinham escritas nos cartões — disse ela, sentada de frente para mim, no sofá preto de couro do playground. — Eu ficava morrendo de curiosidade para saber quem poderia ser tão romântico assim!
Eu ouvia a tudo com redobrada atenção, olhando fixamente para dentro dos seus olhos esverdeados, inebriado com a boniteza daquela menina de pele cetinosa e morena.
— A cada dia eu ficava mais desesperado para conhecê-la. Mas cadê coragem? Você podia ser casada, noiva, ter namorado...
— Não tenho ninguém — apressou-se em dizer em voz delicada.
— Eu via você passando quase todos os dias, tão linda, tão mulher, tão distante! Tinha vontade de correr e lhe agarrar!...Encher-lhe de beijos.
— Você é doido!
Conversamos por mais de quatro horas seguidas. Falamos de nossas famílias, de nossos livros preferidos, de nossas vidas, de nossos amores passados e de sexo, é claro. No dia seguinte eu a presenteei com chocolates, um ursinho de pelúcia e um convite para jantar.
A paixão não tardou, à beira da piscina, no mesmo playground. Eleonora estava de short tão curtinho, que eu não pude deixar de olhar com lascívia para suas pernas grossas e torneadas. Abracei-a com carinho e nos beijamos de repente e não mais que de repente eu a toquei nos seios, como um menino travesso, sem experiência, vexado demais. Ela olhou-me profundamente e deixou que duas lágrimas me revelassem a importância e a emoção daquele momento:
— Aqui não! — sussurrou apenas
— Vamos para dentro da sauna então.
O amor se fez com sofreguidão, incalculável, prematuro e inesquecível, até que o incauto porteiro entrasse no banheiro contíguo e acendesse a luz...
Ao longo de dois anos o amor foi assim: completo, extravagante e permanente. Mas a belíssima Eleonora ainda me surpreenderia com um segredo medonho a ser revelado agora:
— Eu sou noiva há muito tempo e vou-me embora para casar...
E eu chorei ao escrever-lhe a carta.
 


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