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   > ALÔ! QUEM FALA?



Airo Zamoner
      CONTOS

ALÔ! QUEM FALA?

O sobressalto despeja adrenalina no sangue e o coração acelera. Ele pula do casulo tênue do descanso forçado. As fibras do corpo extenuado se retesam. A voz ameaça um salto da garganta trêmula. Pigarreia. Disfarça. Ameaça relaxar. A excitação impede. Os ouvidos tentam espasmos inúteis para estenosar entradas. O som digital rompe as barreiras e vibra no cérebro suplantado.

Atender é voltar ao mundo. Ouvir pessoas e seus disfarces malditos é abrir novamente os canais apodrecidos de líquidos imundos. É ter a morte a seu lado. Se ela ao menos tivesse a comiseração de o levar para sempre! Mas não! Fica ali para mostrar a supremacia pervertida.

Não atender é enlouquecer a cada segundo. Perder a consciência do inferno.
O ruído metálico insiste. As mãos apertam as têmporas. Levantá-lo do gancho é deixar fluir os demônios liquefeitos a escorrer pelas orelhas, promiscuindo sua pureza.

Olha as janelas encortinadas de cobertores escuros, tapando o Sol fingido. Pensa! Valeu a pena o trabalho para esconder esse traidor que agora ilumina e alegra, mas depois desaparece e impõe a perfídia da noite.

E ela se junta com outras tantas irmãs, planejando mortes. E os corpos imploram alarmes estridentes como o som deste maldito aparelho.

Não quer mais o Sol, nem a primavera, nem as flores. Amostras mentirosas da verdade escondida nos axiomas que ele flagrou imperfeitos.

Não quer o dia fraudulento que só existe para trazer a noite. É nela que o sangue jorra em cascatas mornas e desliza pelos esgotos civilizados.

Relâmpagos fluem por sinapses assustadas, gerando idéias de fugas.

Para escapar terá que transpor a porta. Transpondo-a entrará novamente no engodo que o dilacera.

Lá fora o transeunte admira o detalhe da abelha que esvoaça sobre as margaridas. Olha o céu e lê as novidades desenhadas por nuvens aleatórias.

Cumprimenta a vizinha que rebola na calçada, provocando desejos adolescentes.
Vê o casarão antigo.

Estranha as janelas tapadas com mantas corrompidas. Plantas secas choram nos parapeitos. Vidros quebrados trincam o passado. E o som digital a escorrer fendas afora.

O contraste segura os passos. O abandono apodrecido cá fora e o tilintar digital lá dentro o intriga. Pára. Espera. Examina.

Procura a campainha da entrada. Acha o botão de cobre antigo. Aperta-o e surpreende-se. Funciona!

Ninguém atende. Cola o ouvido em busca de sinais. O silêncio se aglomera em torno do som metálico da chamada insistente.

Tenta abrir a porta. O rangido tétrico desarmoniza o ritmo do sinal. Afasta-se com asco. O cheiro liberto foge pela fresta. Ele recua e grita por socorro. A ambulância sem pressa recolhe o corpo. Escorrega da maca a mão retesada que agarra o telefone, agora mudo.


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