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Gilbamar de Oliveira Bezerra
      RESENHAS

A CABANA

A Cabana
Autor: William P. Young
Editora: Sextante
236 págs.

Prepare a emoção para adentrar o deslumbrante universo do inimaginável, incompreensivo e inusitado. Mas também abra seu coração para receber jorros intensos de ternura e de palavras que calarão fundo em sua alma. E fique ciente de que o livro A Cabana excede toda e qualquer expectativa de criatividade e profundidade num assunto polêmico, difícil de ser tratado, mas ao mesmo tempo terno e instigante. A obra envereda de maneira a princípio singela, a seguir dolorosamente explosiva, depois intrigante, embarcando pelos caminhos da fascinação, do amor e da paz, ao descrever como o pecado, o perdão, o arrependimento e a salvação podem ter uma diferente e inesperada percepção sob o ponto de vista de Deus no Seu relacionamento com a humanidade. Há algo desse naipe na mensagem do escritor William P. Young, é perceptível.

O autor ousou ao extremo ao colocar frases surpreendentes nos lábios dos personagens por ele denominados de Papai, Jesus e Sarayu, porém, bruscamente o leitor descobre de imediato que esses três são apenas um, e este não é só um, mas três, embora continue um. E fica atônito. Essa perplexidade, contudo, não é negativa, pelo contrário. Parece que uma repentina luz, mais brilhante e intensa, brilha ante seus olhos e novas perspectivas se lhe mostram ao espírito. Anela-se, a partir de tal momento da leitura, beber mais e mais dessa inesgotável fonte sublime, envolver-se nesse manancial para dele obter o máximo, o infinito. Torna-se docemente impossível, então, desse ponto em diante, controlar o ritmo das pulsações aceleradas do coração. A rapidez dos diálogos, o imediatismo dos raciocínios entre as personagens e a dificuldade para compreender de pronto a lógica e a coerência do pensamento divino chega quase a desnortear. Porém, esses são os instantes mais fascinantes do livro.

Nada é banal em A Cabana, a trama é um encaixe perfeito apesar de sinuoso. Mack Allen vai passar um fim de semana acampado com os filhos num lugar onde a natureza esmerou-se em esbanjar beleza, mistério e grandeza. O passeio, que tinha tudo para ser divertido e feliz, termina numa macabra tragédia: sua filha caçula, Missy, é assassinada por um desconhecido matador de meninas. Parte das vestimentas da garota é encontrada cheia de sangue na Cabana, mas o seu corpo desaparece sem deixar nenhum vestígio. Sobrecarregado pela agonia da perda irreparável, uma grande tristeza desaba sobre o pai enlouquecido de dor e afeta o relacionamento familiar. Depois, quando a subsequencia dos anos ameniza parcialmente o horror das lembranças e da ausência de Missy, Mack recebe um bilhete assinado por "Papai" convidando-o a voltar à Cabana, onde estará esperando por ele para um encontro de fim de semana. O assombro enregela a alma de Mack. "Papai" era como a mulher dele, Nan, chamava Deus.

O ângulo religioso de cada leitor de A Cabana tenderá a sofrer entorces e contusões, hematomas e reviravoltas, terminando em cicatrizes perenes após fechar a última página do livro. Por outro lado, um irresistível desejo de recomeçar a leitura se esboçará logo a seguir, levado pela recordação das enternecedoras frases sussurradas por Papai, Jesus e Sarayu e dirigidas a Mack ao longo das quase 220 páginas em que os três-um, o um-três, participa(m) da história, e saem de cena. Dúvidas e perguntas surgirão na consciência de quem folhear A cabana lendo capítulo por capítulo e se deleitando ou se deixando conduzir por sentimentos contraditórios dos quais não poderá fugir. Ninguém terminará o mesmo ao fim. Por mais que tente.



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