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   > Aos dez anos



Isis Berlinck Renault
      INFANTIL

Aos dez anos

O irmão chegou com uma novidade: se ela colocasse um fio de cabelo dentro de um vidro cheio d’água e tampasse bem tampado, ele se transformaria em uma cobra.
- Mas tem que ser com a raiz, disse. Porque ela é que vai ser a cabeça da cobra. E tem mais – não pode ficar dentro de casa. Tem que ficar no chão, perto da terra.
Arrancou o fio de cabelo mais comprido que encontrou, com raiz e tudo. Colocou num vidro, tampou bem tampado, colocou no chão embaixo de uma mangueira e ficou esperando.
- Já tem três dias e não tô vendo nada mudar...
- Calma, né?
- Quem disse pra você que cabelo vira cobra?
- O Betinho. Ele disse que a vó dele disse que um irmão dela fez isso e virou cobra.
- Ah!...
Outros tantos dias, e nada...Todo santo dia lá estava ela no quintal examinando o vidro.
- Você acha que tá virando?
- Sabe quê que eu acho? Que deve ter de botar qualquer coisa pra ela comer. O Betinho disse que se botar sal ela fica braba. Se botar açúcar ela fica mansa.
Botou açúcar...
Chegou a achar que já tava virando... Um dia mostrou ao irmão:
- Não acha que tá mais gordinho?
O irmão não ouviu. Já tinha saído, correndo atrás da bola e do Betinho. Ficou com o vidro na mão, olhando e pensando no bichinho de estimação que ía ter. Mansinho por causa do açúcar. Sentou-se numa pedra com o vidro na mão, olhando e esperando.
Sua mãe, dentro de casa, ligou o rádio. Toda manhã fazia ginástica pelo rádio e sempre ficava chamando todo mundo pra fazer também, mas só quem ia era o pai. Depois da ginástica sempre tinha um programa só de música. Essa hora ela gostava. Tinha umas músicas tão bonitas!...
Ouviu aquele homem cantando. Não sabia seu nome, mas toda vez que ouvia ele cantar sentia uma coisa que não sabia explicar. Largou o vidro, subiu as escadas e sentou-se no último degrau para ficar bem pertinho da voz. Fechou os olhos e ficou sentindo a música. Cada agudo da voz parecia que saía lá do fundo do seu coração. Parecia que era ele que cantava. Muitas vezes não entendia a letra. Quase nunca! Era a música, era a voz que tomavam conta dela e enchiam seu coração que, mesmo sem entender, cantava junto, palavra por palavra. Às vezes ficava levinho, levinho... Outras, quando o cantor, dando um agudo, esticava uma palavra, seu coração parecia que parava e só voltava a bater quando a palavra terminava. E ela só saía daquele encantamento quando a música acabava.

O tempo passou. O cabelo nunca virou cobra. A menina cresceu. Ficou sabendo o nome do cantor e passou a entender as letras das canções. Mas a emoção daquela menina de dez anos nunca foi embora. Até hoje quando, por um acaso, escuta uma daquelas músicas, ela volta a ter dez anos e seu coração dentro do peito é só saudade, só emoção, só ternura.


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