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   > O MOTIM



Airo Zamoner
      CONTOS


O MOTIM


Pela primeira vez foram colocadas lado a lado. Olharam-se desconfiadas. Estavam acostumadas a outras companhias, mais íntimas, mais promíscuas. Divertiam-se juntas.
Quando era tempo de brincar, brincavam até cansar. Quando precisavam lutar, lutavam e venciam. Quando o clima era de paixão, apaixonavam-se ao extremo. Aproveitavam-se do romance e do prazer como ninguém.
Conheciam-se a ponto de não se importarem com a falta de liberdade. Gostavam de ser manipuladas com maestria, com harmonia, com graça. Afinal, liberdade nunca se sobressaía nas conversas.
O fato é que agora estavam vivendo uma surpresa. Rompendo a rotina, desorganizaram-se, e lado a lado, quedavam-se estranhas, indiferentes, tímidas.
Pela primeira vez em suas vidas procuraram, solitária e inutilmente, uma explicação. Novas desconhecidas foram se aglutinando, se enfileirando, se amontoando desordenadamente. Em todas surgia o mesmo sentimento de estranheza, seguido de perplexidade. Sem encontrar explicações plausíveis, tornaram-se um aglomerado absurdo, sem lógica, sem alegria, sem articulação alguma.
A idéia de liberdade começou a percorrer os subterrâneos dos seus pensamentos. Ninguém, contudo, tinha coragem para dar início à conversa.
Liberdade! Sim, finalmente ela surgiu corajosa. Deu o primeiro passo. A agitação substituiu a monotonia. Conheceram-se como nunca haviam feito. Descobriram-se, descobrindo seus mais profundos desejos. Desprezaram todos os mestres. Sentiram-se poderosas.
Uma sutil alegria começava a penetrar as entranhas e lá dentro se iniciava uma revolução muda, mas poderosa. A cumplicidade se alastrava. Não conseguiam, porém, mudar de lugar. Continuavam lado a lado, mas já não eram estranhas.
Tentaram algum movimento. Desajeitadas, não sabiam como provocá-lo. Sabiam de sua importância. Movendo-se, dariam o primeiro passo para a liberdade. Desgraçadamente não se moviam, por mais esforço que despendessem. Uma corrente de frustração percorreu todas elas.
A surpresa foi estonteante. A vertigem coletiva ameaçava o sonho. Liberdade sem movimento não seria liberdade.
Silenciaram por um longo tempo. A agitação ia desaparecendo e caíram pouco a pouco no conformismo aniquilador. Mas não queriam morrer. Não podiam morrer.
Algo precisava acontecer rapidamente. Aconteceu. Ele chegou, apresentando-se como o movimento indispensável. Movia-se com desembaraço entre elas, sacudindo-as com energia, com entusiasmo, com vibração. Imóveis, elas admiravam o movimento, suave, sedutor, apaixonante, solto e ágil. Apaixonaram-se.
Um momento de profunda crise infiltrou-se em cada uma. Um fibrilar, inicialmente silencioso e logo depois ensurdecedor, foi seguido por estrondos de ruptura. Elas ganharam finalmente o movimento e com ele a liberdade.
Num salto coletivo para o alto, voaram por alguns instantes num treino experimental extasiante. O movimento liderava a desordem, criando circunvoluções complexas. E a ordem parecia se construir paulatinamente. A coreografia se esboçava e elas perderam a timidez. A indiferença deu lugar à admiração mútua.
Divertiram-se como antes. Misturaram-se. Descobriram suas entranhas. Entenderam-se, amaram-se, e num pico de histeria repentina, caíram em mergulho convulso, derramando-se sobre o papel branco, com a mais perfeita harmonia. Desmancharam-se de prazer.
A partir daquele dia, as palavras conquistaram o movimento, a liberdade e abandonaram a fileira absurda do dicionário para se tornar literatura.


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