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   > Adélia Maria Wollner



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      ENTREVISTAS

Adélia Maria Wollner

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Entrevista: Tânia Gabrielli-Pohlmann
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O contato com a poesia de Adélia, trouxe-me uma série de recordações pessoais, intensificando meu interesse pelo trabalho desta Autora, cujas coragem e persistência jamais lhe deixaram desistir de ser um exemplo. A biografia, bem como alguns trabalhos de Adélia, estão disponíveis neste Site, mas gostaria imensamente que o Leitor tivesse a oportunidade de conhecer um pouco mais deste SER.

TGP: Adélia, lendo seu "Luzes no Espelho (memórias do corpo e da emoção)" não pude deixar de lhe escrever, após as primeiras páginas. As imagens, impressões e emoções ali contidas são fortes. Sua coragem, imensa. Como surgiu esta idéia, o que a levou a abrir sua vida de forma tão incondicional?

AMW: Na verdade, fui "provocada" a escrever. O terapeuta José Leopoldo Vieira justificava o pedido, alegando a ...
existência, tão somente, de livros técnicos, didáticos, abordando a Análise Relacional. Precisei de algum tempo para tomar a decisão. Guardei anotações e, de repente, senti o impulso de isolar-me para que tudo pudesse fluir novamente. Viajei para uma praia tranqüila, em Natal, no Rio Grande do Norte. Em uma semana, o livro estava escrito. Não fiz alterações; apenas incluí algumas das poesias nascidas durante o processo terapêutico e crônicas já anteriormente escritas e relacionadas com o tema do livro. Convenci-me de que poderia ajudar as pessoas, com o relato das minhas experiências e vivências. E o livro aí está.

TGP: Antes disto você já tinha outras obras publicadas - inclusive um CD com poesias, o "Nhanduti". O que significa "Nhanduti"?

AMW: Nhanduti é uma renda de origem paraguaia, disseminada no Brasil há alguns anos e confeccionada, pela rendeira, segundo a inspiração do momento, sem desenho pré-estabelecido. Assim, representa bem a criação da poesia identificada como "livre".

TGP: Ouvindo o CD, percebe-se seu tom forte, intenso e vibrante. Lendo o "Luzes no Espelho...", este tom mescla-se já a uma certa flexibilidade lingüística, que acompanha, inclusive, todo o processo de sua própria "flexibilização". Você poderia falar um pouco a respeito deste percurso paralelo?

AMW: Realmente, o trabalho terapêutico, a coragem de admitir minhas resistências, de me olhar com sinceridade, honestidade, me permitiram conhecer e aceitar a flexibilidade. Descendente de europeus (alemães, ingleses, italianos e portugueses), carreguei comigo muitos dogmas rígidos de comportamento. Se a rigidez, por um lado, me "protegia" em situações afetivas, profissionais, criando uma couraça que me garantia as condições de sobrevivência, por outro provocou conseqüências e reflexos, obviamente, em todas as áreas da minha vida. Atacada essa couraça, aquilo que estava dentro dela (eu), começou a se libertar. Obviamente, todas essas áreas - inclusive a literatura - foram afetadas por essa transformação.

TGP: Você tem desenvolvido um trabalho bastante importante de conscientização de mulheres carentes, no Paraná. Como você vê nossa mentalidade brasileira, de que "o governo é o único responsável por tudo"?

AMW: Esta é uma das coisas que me incomodam. Falo muito sobre a responsabilidade pessoal na e pela vida, nas conversas que mantenho toda semana ao iniciar a atividade com mulheres carentes de Piraquara. Procuro usar exemplos bem simples, para que elas compreendam que cada pessoa só pode crescer quando se põe a campo, a VIVER. A criança que seja sempre carregada no colo vai ficar com seus membros atrofiados e não terá condições de sequer aprender a engatinhar, muito menos andar. E nós não temos o direito de tolher, impedir o crescimento, desenvolvimento das pessoas. Dói cair? Dói, sim, mas é apenas com os tombos que aprendemos a levantar. E, quando levantamos, sentimo-nos fortalecidos e capazes de superar outros tropeços, desafios.
Penso sempre que, se assumo a responsabilidade de tudo fazer por quem quer que seja, assumo, via de conseqüência, a responsabilidade maior de não permitir que a pessoa cresça, que possa ser ela mesma. E ninguém tem esse direito. Ninguém tem o direito de usurpar as oportunidades, experiências, a VIDA dessa pessoa.
Também sempre cito mais este exemplo: "não esperemos que o maná caia do céu. Nem para o povo que atravessava o deserto o maná caiu gratuitamente, porque eles caminhavam decididos, em busca de um objetivo; faziam, portanto, a sua parte."
Assim, oferecer oportunidades de crescimento e desenvolvimento pessoal seria, no meu jeito de compreender, a melhor e mais produtiva maneira de o governo efetivamente contribuir com a melhoria da sociedade. Em vez de continuar "carregando no colo", ensinar a andar.

TGP: E sob este aspecto, teria o artista em geral um papel a desempenhar no setor social? Você acredita que o artista pode contribuir para que nossa sociedade atinja um patamar digno para todos?

AMW: Indubitavelmente, sim! Em qualquer área, a arte pode desempenhar papel importante, porque não fica limitada aos aspectos intelectuais, racionais da existência. A arte atinge o ser humano naquilo que lhe é muito precioso: a sensibilidade. Todo artista deveria, portanto, conscientizar-se dessa responsabilidade social e usar sua capacidade criativa para transformar "para melhor" as pessoas e, por extensão, o núcleo social. A arma do artista é muito poderosa, porque atinge a emoção. Daí o quanto pode ser negativa, se utilizada inadequadamente, ou altamente benéfica, quando bem aplicada.

TGP: Você lançou, há pouco, mais um livro. Com capa de Rafael, seu neto? Conte esta história ...

AMW: Raphael é meu sobrinho-neto. Aí vai a história: eu havia concluído o livro "Para onde vão as andorinhas...", em que faço um retrato histórico-afetivo de meus antepassados. Ao descrever minhas idas, quando menina pequena, ao sítio de meu avô, em Araucária (PR), o poema nasceu de um fôlego só. Certo dia, um amigo perguntou sobre o livro e lhe mostrei o poema. Ele foi enfático: "Isso dá um livro infantil!". Algumas semanas depois, meu sobrinho veio com os filhos à minha casa e também perguntou como estava o "livro da família". Relatei a ele a história do poema e disse que iria procurar algum ilustrador, pois, afinal, nunca tinha escrito para crianças. Ao que, então, ele afirmou: "O Rafinha desenha muito bem". Duvidei. Afinal, todos os pais/mães dizem o mesmo. Mas dei ao Raphael papel e lápis. Aí, quem se empolgou fui eu, consegui apoio cultural e o livro nasceu, um encanto que faz brilharem os olhos das crianças com as ilustrações que falam a linguagem que elas entendem.

TGP: Quais são seus planos literários? Há alguma obra em processo de nascimento?

AMW: A poesia está sempre presente. Como a segunda edição do meu último livro de poemas (Infinito em Mim) está praticamente esgotada, pretendo selecionar poesias para novo livro. Além disso, estou concluindo mais uma história infantil que, acredito, venha enternecer o coração de crianças e de adultos que, como eu, puderam se encantar com as histórias da carochinha, com Cinderela, Branca de Neve, Pinóquio, João e Maria, etc.

TGP: O que representou, para você pessoalmente, o exercício do Direito? Como anda a justiça brasileira?

AMW: Fazer o curso de Direito foi fundamental em minha vida. Além da aprendizagem, a nova visão da sociedade, mudei também por dentro, porque vivi o curso. Muito pouco, porém, exerci a advocacia: a prática do Direito é manca, porque as normas da lei são manipuladas conforme os interesses e não de acordo com os princípios fundamentais que deveriam reger a vida em sociedade. Decepcionei-me. Por isso, dediquei-me ao magistério. Na sala-de-aula podia mostrar a perfeição e beleza da norma legal e estimular os alunos a aplicá-las com seriedade, competência, respeito, integridade, justiça. Não sei se essa preleção surtiu algum efeito. Espero que sim.
Vejo a justiça brasileira fragilizada e claudicante. Há profissionais que, íntegros, se entregam à luta por inteiro e competentemente. E sofrem com a constatação de que muitos usam inadequada ou inabilmente o conhecimento obtido e o diploma conquistado. E o resultado pior é a perda da confiança na Justiça.
Espero, sinceramente, que estejamos vivendo apenas uma fase de transição para melhor.

TGP: Como foi possível manter-se tão intensamente ligada à poesia, tão profundamente sensível ao ser humano?

AMW: Hoje, mais do que nunca, estou convicta de que a poesia foi o refúgio que me manteve em condições emocionais de sobrevivência. Sempre foi a receptora silenciosa dos meus desconfortos e angústias. Por isso, sinto a necessidade de espalhar poesia para as pessoas. Felizmente estou tendo a colaboração de um amigo, Luiz Fernando de Queiroz que, por intermédio da Associação dos Condomínios Garantidos do Brasil, tem editado os livretes "Poemas para Orar e Meditar" e "Poemas para Amar", para distribuição gratuita. Do primeiro, já foram impressos 80.000 exemplares, em quatro edições, e, do segundo, 40.000, em três edições. Com eles, a poesia tem se espalhado pelo país e, até, para o exterior. Como a leitura é rápida, pois o livrete contém apenas 22 mini-poemas, as pessoas "descobrem" que gostam de ler poesia.
É a minha forma de retribuir à poesia tudo quanto de bem me fez.

TGP: Nem sempre o artista tem a chance de dizer o que gostaria. Nem sempre lhe é perguntado o que adoraria responder. Aproveite a deixa...

AMW: Nesta altura da vida, acho que tenho conseguido dizer tudo que preciso. A vida tem sido generosa comigo, pelas oportunidades inúmeras que me tem oferecido. Sou grata a Deus por me conceder o privilégio de poder escrever, criar, tocar o coração das pessoas. Sou-Lhe grata, também, pela filha que me permitiu trazer ao mundo, Alélia, que me brindou com mais dois motivos de emoção e alegria: os netos Fernanda e Ricardo.
Só me resta, pois, agradecer. E é por isso que, nos meus livros, venho repetindo, no final, o poema Oração


Obrigada, Senhor,
por tudo que me deste:
pela vida, os sentidos, o dom;
pela sensibilidade,
pelos momentos de inspiração;
pela dor, as lágrimas, o sofrimento,
pela alegria e, até, felicidade,
pelo poder de dar colorido à emoção.

Obrigada, Pai,
pelo amor todo que me deste,
pelo amor que foi capaz de conceber
meu corpo e minh'alma,
pelo amor que pude, também, oferecer.

Obrigada, Senhor,
pelo que já pude resgatar, nesta vida,
pelas lições que me foi dado aprender;
por tudo quanto me foi permitido fazer,
pelo privilégio
das vidas que de mim nasceram,
pelo que pude dar de afeto e compreensão;
pelas mãos e ouvidos amigos que me cercaram,
nos momentos turvos de aflição...

Obrigada, Senhor,
por este momento de paz e gratidão,
por este poema que brota com humildade...
Recebe-o, Pai!
E se não for pedir demais, tem piedade
de mim e de toda a humanidade,
e protege a todos
com teu manto infinito de perdão...


Adélia Maria Wollner coloca-se à disposição para fornecer maiores informações a respeito da vivência interior que descreve no livro. Aos interessados, a Autora solicita que os e-mails relacionados ao assunto sejam enviados sob o título “Luzes no Espelho”, no campo subject/assunto.


Contatos com Adélia Maria Wollner: adeliamaria@hotmail.com

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Tânia Gabrielli-Pohlmann é escritora, tradutora paulistana, radicada na
Alemanha, onde produz e apresenta dois programas de rádio, dedicados à
história, à cultura e à música brasileira: "Brasil com S" e "Revista Viva"
(com Clemens Pohlmann). Professora de Língua Portuguesa na VHS, Osnabrück e
região.
Contatos: a-casa-dos-taurinos@osnanet.de


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