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   > A CASA DO VOVÔ



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

A CASA DO VOVÔ

             A CASA DO VOVÔ
 
Como há tantas noites, ontem cheguei em casa, encontrei-a trancada. Abri a porta com chave, entrei. Tudo escuro, nenhum ruído. Acendi as lâmpadas, sentei na cadeira, tirei o tênis... Havaianas, como eu havia deixado ao sair. Fiquei por alguns instantes ali, restaurando antigas pegadas. Estas lembranças conduziram-me a determinado lugar muito aquém dessas minhas últimas noites tediosas. Lá, reencontrei meus avós, meus pais; tios e muitos primos!
Não querendo tais recordações, pulei do assento, indo direto ao chuveiro. Banheiro seco; apenas uma toalha para banho, outra para rosto enxutas aguardavam-me. Chuveiro abriu-me o apetite.
Na cozinha encontrei panelas frias, pratos limpos. Recorri à geladeira. Esta, com olhar gelado e vazio, dizia-me estar como eu a deixara.
Era muito tarde para sair. Além do mais, internamente a necessidade era ínfima, comparando aos grandes riscos vigentes lá fora. Não tinha pretensão alguma em ser manchete da manhã: “Homem ganhou bala, quando saía para comprar comida”.
Infelizmente este é o retrato atual do Rio de Janeiro. O que me leva ao meu avô, vendo sua casa em balbúrdia:
- Isto aqui está parecendo casa de pu... ta governada por sacana: é um entra e sai danado; todo mundo manda!
Ele dizia rindo, entrando também na zoeira. Ficava feliz observando tudo revirado: varando na sala; quarto na cozinha, terreiro no quintal... Acolá, entretanto, bagunça era diversão; por cá, não é brincadeira!
Mas, eu continuava com fome! E não havendo melhor opção, coloquei seis ovos para cozer, enquanto assistia velho filme desbotado.
Não era bem o que eu queria: sentar sozinho num sofá, àquela hora, para assistir película antiga, comendo salada de tomate e ovo duro - assim dizia minha mãe, quando se referia a o ovo cozido - em rodelas ao azeite, acompanhada com suco de caju. Não obstante, muito bom, creia! Fui repousar logo depois.
No quarto indolente, cama estreita, arrumada jurava-me de travesseiros juntos - embora só houvesse um - que ninguém havia nela deitado, durante minha ausência.  
Pobre leito! Jurando lealdade a um servo criado feito eu! Não conhecia, deveras, minhas raízes! Nem sei como ele se portaria, caso soubesse que eu daria tudo para encontrá-lo de cobertores revirados...
Eu gostaria muito poder entrar em casa sem utilizar chave. Encontrar toda iluminada, com rádio, computador, televisão ligados. Procurar chinelo e não encontrá-lo onde eu havia posto. Ver banheiro encharcado, contendo várias toalhas umedecidas penduradas ao desmazelo. Panelas quentes, pratos sujos. Geladeira alegre, esbanjadora, abrindo-se e fechando toda hora. Cama larga com lençóis amassados por alguém ansiosa pela minha chegada...
Eu sempre quis ter uma casa: não importa se grande ou pequena, pobre ou rica; mas, que fosse alegre, brincalhona, bagunceira, curiosa... Que risse e até chorasse, às vezes, mostrando-me outros sentimentos; velhas emoções. Um lar com quem eu pudesse me dividir; brincar, correr, e brigar até! Não uma residência comedida, calada; sem risos, sem traquinagens, feito esta que mais parece uma pousada.
Agora sei por que vovô muitas vezes até ria no meio do furdunço, quando algumas paredes rangiam.
- Quem chora não fica forte! - alertava, afagando partes prejudicadas com aquele seu jeitinho exclusivo e dedicado - Queda endurece músculo e osso; corte, arranhão retiram o sangue ruim do corpo!
Concluía de maneira tal, que, muitas vezes, toda casa fingia-se machucada, só para obter seus dengos. Ele era, sem duvidas, colossal!
Certo dia, porém, a caixinha, que ele trazia escondida no peito por nove décadas, não cabendo mais tanta bondade, se rompeu e o esteio daquela casa ruiu. Foi uma tristeza medonha! Via-se que ele não queria, mesmo com aquela idade... Ninguém queria! Contudo, infelizmente ele foi obrigado a partir: aquele templo desmoronou. Seus destroços foram açoitados dali e espalhados por cantos longínquos deste Brasil.
Anos além, pedaços dele fincados noutros solos fizeram-se novos lares. Se algum, igual ao do vovô, não sei! Melhor, certamente, jamais!
Sempre sonhei em possuir uma casa igualzinha àquela: sorridente, enérgica, traquina, buliçosa... Não assim prudente, fechada, escura, nebulosa, solitária como a minha! Mas infelizmente, foi só nisto que esta porção daquele monumento se tornou!
 
Obs.: A Casa do Vovô é um dos contos do livro Pequenas Historia Pedaços de Vida editado nesta Casa - Editora Protexto.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                              
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
                                                          
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


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