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   > MIRAGEM DE VERÃO



Izabel da Rosa Correa
      CRôNICAS

MIRAGEM DE VERÃO

Andei rapidamente. O vento espalhou meus cabelos crespos. Os pés afundaram na areia úmida. A casa em parcial desmoronamento atraiu minha atenção. Esqueci o objetivo ao começar a caminhada. Para onde eu ia? Lentamente aproximei-me das paredes cor de vinho. A sujeira e a podridão das tábuas, o beiral dependurado. A viga frontal balançava ao sabor da brisa. Uma força carregava-me até lá. Na porta escancarada, a cadeira quebrada. As venezianas permaneciam lacradas com grossas trancas. Ignoravam o caos que se apoderara de todo o ambiente. Inutilmente tentavam impedir a entrada de intrusos. Entrei e o silêncio acompanhou-me. O mar não bramia mais seu ronco surdo. O vento não fazia ruído nas frinchas. O ambiente era largo e impressionante. Um pássaro vermelho-sangue bicava uma mesa quebrada. Era lindo. Brilhava como se houvesse sido polido. Abriu o bico e pareceu gorjear. O som não se reproduziu. Acheguei-me, cautelosamente. Ele voou. Procurei-o entre as telhas expostas. Não o localizei. Alcancei outro cômodo. Sombrio e escuro. Raízes expostas acalentavam-se num abraço de morte. Continuei a andar e o cão farejou meus passos. Agarrei-o num salto. Corri até o mar e o afoguei. Sem gritos ou latidos. Deixei-o estendido na areia. Reentrei na casa atravessando uma falha na parede lateral. Abriu-se um campo de areia repleto de olhos de caranguejos. Eles cavavam e a areia escura surgia do solo e formava montículos. Observei fixamente os buracos. Eram cavernas sem estalactites. As entranhas da terra sendo revolvidas sem reverência. Entrevi um pescador na sala contígua. Calças arregaçadas até o joelho. Camiseta suja, pele maltratada e barba por fazer. Falava palavras estranhas, com um aspecto compenetrado e sério, como se todas as verdades pudessem ser ditas. Quis perguntar-lhe o porquê da casa com janelas trancadas, o motivo do silêncio do mar, a enigmática cor do pássaro. Ele se fez miragem e desapareceu sob meus olhos. Voltei, busquei a saída. Meus pés mergulhando no solo instável. O silêncio absurdo torturando os ouvidos. Saltei as árvores mortas a alimentar parasitas. Na praia, tocos queimados eram testemunhas de uma tragédia. As águas teciam rendas brancas em toda sua extensão. Não havia estrondos. O movimento não gerava atrito. A ave rubra sobrevoou minha cabeça. Segui sua rota. Ela atacou uma árvore alta e escorreu pelo tronco ferido uma secreção viscosa, pegajosa. Envolvi minha mão esquerda na substância de forte coloração vermelha, quente e malcheirosa. Esfreguei-me na areia, ansioso. A mão tinta e áspera continuava marcada. A ave saltou diante de mim. Um troar terrível comprimiu meu cérebro. Mil canhões deviam estar sendo ativados. Uma poderosa bomba poderia ter sido lançada. Sentei-me enlouquecido. O barulho do mar retornou e liberou no mesmo átimo os outros ruídos encarcerados. Neles havia o trinado do pássaro, as palavras inteligíveis do pescador, o ganido do cão afogado e gritos, muitos gritos. Reconheço neles meus urros de horror. Os pés lançam-me e sou envolvido pela velocidade. Meu corpo afasta-se e mergulha no mar. Lavo o rosto. Tento arrancar dele a frieza de mil pares de olhos de caranguejo. Grito. O eco multiplicado devolve milhares de palavras. A mão esquálida acena, pedindo socorro. O cheiro queimado dos troncos mortos inunda o ambiente. Tropeço. Há pêlos de cães na areia fria.
Frases soltas levadas pelo vento. Gotículas de água revestidas de chumbo. Chuva de cacos de vidro ulcerando a pele fria. A corrida insana, sem rumo ou destino. As feridas nos pés nus e gelados. A fuga é o começo de um eterno final. A queda. O espasmo. O reabrir de olhos.

A construção depredada ao longe. Tudo parece calmo e sem riscos. A tábua solta continua seu balanço pendular. As janelas, tristemente travadas. Uma jovem magrinha dirige-se à porta tosca. O pássaro carmim surge e desaparece no escuro da sala. A menina o segue. Penso em gritar, impedir que ela viva a experiência apavorante que me atordoou. Estou paralisado. O som da minha voz é muda intenção. As venezianas rompem-se e revelam o interior oco. Tento andar. As pernas desobedecem. Ruídos nítidos de fuga. Busco os cabelos louros da menina, seu olhar apavorado. Nada encontro. No chão não há pegadas. O cão anda sem deixar marcas na areia. O sangue de boi voa em círculos em torno de minha cabeça. Tudo roda e volto a cair na areia. A onda alcança meu rosto. A menina deve estar lá. Seu cérebro comprimido pelo silêncio mortal. Os olhos extasiados pela beleza tétrica. As sensações dúbias de prazer e terror. Desisto de qualquer traço de lucidez e enfurno-me na bruma da sala escura.

Os olhos duros do Delegado. São olhos de caranguejo. Sua sala cheira a lenho incinerado. O som de sua voz vem de longe. É apenas um grasnar de tié-sangue. Volta a sensação de paralisia, revejo os cabelos louros sendo levados pelas venezianas fechadas. O plasma escorrendo nas paredes laceradas. A mudez invade meu cérebro doentio.
- Podem soltá-lo. A menina chegou em casa sem sinais de violência. Está muda e em estado de choque.
Vislumbro o céu. Aspiro o ar. É apenas uma linda manhã de verão. A argila ocra tinge minha bermuda bege. A mão esquerda suja de resina vermelha. O cão afogado brinca feliz . Caranguejos pálidos na areia molhada. Ao longe, um pescador continua seu ofício. O barco oscila num balanço eterno. Não há pássaros. Nem vermelhos ou negros. Não há meninas, nem cabelos louros ou gritos. O silêncio, agora, traz sons azuis vindos do mar. O dia termina em lilás. A casa abandonada, ao longe. Meu crânio pressionado pelas imagens doentias. As venezianas rompidas, o beiral destruído... continuam a convidar-me.


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