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   > OU ELE OU EU



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

OU ELE OU EU

Nabuco chegou em casa, com uma cara feia.
-Vamos ver quem pode mais.
Tirou de dentro de uma sacola uma ratoeira. Há tempos que vinha tendo problemas com um roedor. Tentou de tudo. Até música. Passava noites inteiras tocando sanfona próximo da toca do Inácio (o rato tinha até nome. Tinha até profissão: assessor de deputado). Mas não surtia efeito. Talvez baseado naquela lenda de um rapaz que tocou flauta todos os ratos de uma cidade inteira o acompanharam.
-Ratos apreciam sanfona? –perguntou Eulália.
-A música tem o poder de enfeitiçar.
Sabe-se que Inácio, numa noite daquelas, chegou até a roer a sanfona para aquele inferno acabar.
Tentou certa vez uma abordagem mais séria. Ficou com um porrete esperando na porta da toca de Inácio, mas ele não saía de jeito algum. Era só Nabuco se afastar, pronto, Inácio saía. Acontecia também de Nabuco adormecer. Inácio percebia, então aproveitava para sair. Passava por cima do corpanzil de Nabuco, chegava a esfregar as patas na camisa. Conferia o brilho de suas unhas e ousava dar um peteleco no nariz de Nabuco.
Arranjou um gato. Um gato enorme. O batizou de Cavalo, pelo tamanho. O gato pesava vinte e dois quilos.
-Monstro seria um nome mais específico para ele.
-A Lei da Selva, Eulália. Temos uma pirâmide alimentar na selva. Animais imbecis comem capim e outros animais acima deles comem eles. Gatos comem ratos. Certo?
-Viu isso numa enciclopédia, suponho?
-Sou um cara arguto.
Aberta a porta da jaulinha, o gato correu e saltou sobre o sofá.
-Cavalo! Sente-se! Viu, Eulália, ele já sabe quem manda.
-Acho que ele já ia sentar mesmo.
-Cavalo! Deite-se! Viu Eulália! Cavalo! Sentido!
Agora o gato coçou uma pulga.
-Cavalo! Coce uma pulga!
-Impressionante, Nabuco.
Finalmente momento de dormir. Eulália e Nabuco foram para o quarto.
-Cavalo! Se avistar o roedor, cujo nome é Inácio. Ataque-o, inutilize-o para sempre. De preferência, morto.
Dormiam, o relógio apontava uma hora e doze minutos da madrugada. De repente um barulho, um baque. Semelhante e uma explosão.
-Nabuco, o que foi isso?
-Fogos de artifício...
-Veio da cozinha.
-Talvez...
-Nabuco. Vá lá ver.
-De certo Cavalo está lutando com o roedor.
Procurou suas chinelas e levantou um tanto sonolento. Acendeu a lâmpada. Eulália ouvia o tiquetatear das chinelas de Nabuco contra o piso do corredor em direção à cozinha.
Um grito!
-Nabuco! –Eulália procurava levantar-se.
-Cavalo!
Eulália chegou e presenciou o desastre. A geladeira tombada, a porta toda torta e o que havia dentro da geladeira espalhado pelo chão. Deu a impressão que um trator passou por cima da porta. Cavalo comia carne de um pacote que havia aberto com seus dentes. Assustou-se com a chegada de Eulália, deu um salto na tentativa de alcançar a janela. A janela estava fechada. Mas o que poderia conter aquele pequeno tanque de guerra peludo? Feito os cálculos usando-se de física quântica, física nuclear e geometria trigonométrica, o impacto daquele gato contra a janela era o mesmo que o impacto de uma bala de canhão. A janela não suportou, foi arrancada onde estava fixada na parede com barras de ferros retorcidas, bloco de tijolo e tudo. O gato desapareceu pela noite.
-Eulália, está me olhando, por quê?
-Sem comentários, né Nabuco.
-Algo saiu errado.
-Você acha, Nabuco.
Uma semana depois Nabuco procurou um psiquiatra.
-Será que um roedor, um mísero roedor, pode mais que eu?
-Temos limitações, Caro Nabuco, e a partir do momento em que nos damos de cara com essas limitações, temos de supera-las. Diga sempre que você pode, diga sempre que você vai conseguir. Para um ser humano não há limitações.
Nabuco comprou um livro de auto-ajuda. Não há nada que não possa vencer. Sou um vencedor.
Claro que o livro foi devorado pelo roedor. Quando Nabuco foi procura-lo encontrou apenas meia página roída. Além do mais, Inácio era intelectual. Havia um livro inteiro de psicologia em seu sistema digestivo. Era realmente um livro de auto-ajuda.
Agora, porém. Chegou no limite. Uma ratoeira.
Nabuco armou-a.
-Vai usar de isca um pedaço de queijo?
-Eulália, quem disse que ratos gostam de queijo?
-Todos dizem.
-Eulália, a não ser se for um rato mineiro.
-Vai colocar um pedaço de mortadela?
-Ratos são sofisticados.
Armou a ratoeira. Na manhã seguinte não houve progressos. Inácio não havia sido pego. A mortadela sumiu.
Novamente armou a ratoeira. Manhã seguinte nem sinal do rato. Desapareceu apenas o naco de mortadela.
-Nabuco, alguma coisa está errada.
-Eu digo que não.
Foram assim mais de oito meses. Inácio estava gordo, obeso. Só comia mortadela. Nabuco chegou até a sonhar que o rato Inácio aparecia, gordo, imenso, com dificuldade para caminhar e clamava:
-Estou ficando gordo, estou sedentário, surgiram vários problemas de saúde na minha vida. Pelo amor de Jesus, seo Nabuco, arme essa ratoeira corretamente! Eu não agüento mais! Estou tendo de pagar academia para perder peso. Meu orçamento mensal está um colapso. Me tornei um rato obeso. Estou com minha auto-estima abalada. Estou tendo de freqüentar consultório de psicólogo, estou fazendo terapia. Seo Nabuco, eu lhe peço, olhe a minha situação! Arme direito essa ratoeira! Perdi a minha identidade. Eu estou fazendo terapia.
-Com o Dr. Abreu?
-Não. Com o Dr. Juscelino.
-Ah, bom!
-Mas, seu Nabuco, presta atenção, vou lhe ensinar como armar uma ratoeira. Sabe essa latinha aqui, se a varinha de metal estiver muito pra frente...
-Eulália! Eulália!
Nabuco acordou subitamente, todo ofegante, suando.
-Nossa, Nabuco. O que foi?
-Espere um pouco.
Desapareceu em direção ao quartinho de ferramentas. Ouviam-se ruídos metálicos, dava a impressão que ele procurava por algo, por alguma coisa. Foram mais ou menos quarenta minutos.
-Eulália, agora vai funcionar.
Apagou a lâmpada e deitou-se. Sereno, respirava mais tranqüilo.
Quando na manhã seguinte. Ele chamava por Eulália. Todo feliz e alegre. Pulava, dava gritos de felicidade. Parecia o Pelé comemorando um de seus gols. Nabuco estava efusivo. Mostrou o corpo de Inácio. Finalmente se livrou do roedor.


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