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   > LEMBRANÇAS DO CÁRCERE DA DITADURA



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

LEMBRANÇAS DO CÁRCERE DA DITADURA


Tito era um homem velho e corroído pelo tempo e pelas balas disparadas durante a tomada do poder. Ano de 68. Estava nítido em sua cabeça. Os protestos, a cavalaria , a polícia, Bete mandando beijos para ele enquanto era arrastado para o calabouço, de onde não sairia tão cedo. Passou ali longos anos. Ele que tinha prometido a Bete um casamento na Penha, flores, convidados, o padrinho Fidel tinha dado a palavra que viria. Fidel ainda convivia de uma maneira escusa com Che Guevara, mas isso não importava. Tito prometeu a Bete que casaria o mais cedo possível, ainda teria de operar da hérnia. Bete tinha paciência, ela ia esperar. Longos anos na prisão. Onde ele tinha apenas a companhia de um lagarto que vinha tomar sol no parapeito da sua janela. Tito olhava para o lagarto e lembrava de Bete. O lagarto olhava para Tito e tirava a língua pra fora. Bete lia o jornal onde dizia que muitos e muitos rebeldes foram detidos em cadeias e mortos impiedosamente pela tortura.  Guy Lincolson agora desmascarado,  era o procurado escritor Aníbal Germano, torturado até a morte. Tito naquela prisão desumana. Onde a comida era servida por uma janelinha que mal cabia a marmita, que ficava no alto da porta de ferro. Bete estava em casa, não saía às ruas, fechava os olhos verdes e se via dentro de um vestido branco de noiva, de longa cauda, Tito a esperando no altar. Mas Tito estava agora olhando para o lagarto. Começou a chamar o lagarto de Gonçalves, e Tito descobriu que Gonçalves também tinha uma paixão na vida. Uma calanga. Gonçalves esforçava-se muito para provar à Cíntia o seu amor, mas ela o desprezava.

Bete via nos jornais que Teodore Vascont, o procurado fotógrafo Antônio Pereira, o Toniquinho, foi pego numa ponte no Rio Grande do Sul. O dono das fábricas de biscoitos Dong-Dong foi detido e torturado, acusado de passar informações para os rebeldes. Armand Torunho, proprietário das fábricas de chinelos Olé, foi obrigado a deixar o país para escapar da tortura. Assim como Santiago Benjamim, dono de uma fábrica de línguas-de-sogra –os militares acataram aquela invenção como um insulto. Foi encontrado e torturado, sofrendo as piores privações que um ser humano poderia ter passado. Tito olhava para o lagarto Gonçalves, estendido no parapeito da janela, e lá atrás de Gonçalves estava um céu azul, sem nuvens, onde Tito via Bete entrando na igreja. Gonçalves tirava a língua pra fora, agora catou uma mosca. Tito estava calçando um chinelo Olé, sua mãe, naquela tarde lhe trouxera o chinelo, escondido no meio do pacote de verduras. Tudo tinha de ser muito bem disfarçado. Um chinelo verde, a cor preferida de Tito. Sua mãe correu risco para trazer aquele chinelo, se pegassem a dona Leila levando aquele par de chinelo camuflado entre as verduras provavelmente iriam leva-la também para a tortura.
Seriam longos anos naquela prisão. Tito imaginava quando e como seria torturado. É hoje! Mais um dia passava. A tortura estava começando pelo papel higiênico, quando tinha. Muitas vezes Tito tinha de se virar com um pedaço de tijolo. No fim do dia Tito fazia mais uma marca na parede, 432 riscos, 432 dias, parece que foi ontem. Gonçalves observava Tito.
-Puxa vida, Oswald, Gonçalves ficou na minha mente. A única lembrança boa da prisão. Tito olhava para o seu companheiro de clínica. Estava agora numa clínica de repouso para desequilibrados. Bete havia casado dom Oswald. Bete morrera na selva, num safári, atingida por um cacho de bananas de 120 quilos. Bete casou-se com Oswald, pois não poderia esperar mais. Imaginava Tito morto pelas tropas do governo. Estava matando cachorro a grito, não podia esperar mais. E Tito quando fugiu da prisão, num plano maluco do Pestana (caminharam pelo sistema de esgoto por mais de quinze quilômetros –sem saber que se aguardasse um pouco mais seria libertado), quando saiu da prisão ainda procurou por Bete, mas ela havia se mudado, não a encontrou mais. Pobre Pestana. Pestana era o cara que trazia a comida.
-Por onde anda o Pestana? –perguntou Oswald. Tito sentado numa cadeira de palha logo embaixo de um quiosque, tendo acima de suas cabeças tenras samambaias, mas Tito pensava no Gonçalves. Tito olhou para Oswald, tinha uma curiosidade, queria perguntar de Bete, como ela era realmente, sua pele, como eram seus pêlos pubianos, seu perfume. Longos anos na prisão. Bete casou-se com Oswald, que tortura! E Oswald perguntava mais uma vez, por onde anda o Pestana?


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