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   > As Cartas não mentem jamais.



jose carlos ribeiro
      ENSAIOS

As Cartas não mentem jamais.

Ciganos, um povo extinto.
As Cartas não mentem jamais”
Quem foram os ciganos? De onde vieram? Para onde foram? Ninguém sabe. Na verdade nenhum historiador sabe dizer com certeza sobre esse povo que passou sem deixar rastros. Há relatos que pelas suas feições, aproximavam dos povos Indus.
Em algumas regiões da Europa, encontraram membros desse povo, notaram, portanto, que eles se chamavam de Sindes, palavra esta que lembrava fortemente no som o rio Sindh India.
Em seguida, e não muito distante surgiram grupos desses andarilhos no Oriente da Europa, junto chegou também à quiromancia (arte de prever o futuro por intermédio das linhas das mãos). Os clérigos imediatamente reuniram-se e acreditaram religiosamente que aqueles ciganos eram oriundos do Egito; pois num capítulo de Ezequiel (Escritura Sagrada) este profeta predizia a dispersão do povo egípcio pelo mundo. Outros acreditavam que viviam em penitência pelo pecado praticado quando recusaram hospitalidade a virgem Maria e seu filho Jesus Cristo. Daí a peregrinação para saldar tal pecado. Hipóteses estas que se desbarrancavam quando lhes indagavam notícias das terras egípcias, pois davam como respostas as mais diferentes e absurdas informações que na verdade colidiam com o real. Segundo outros ciganólogos, houve bandos que chegaram também em datas iguais na Hungria 1.4l7, trazidos involuntariamente pelo exército turco durante a guerra contra o império grego. E contam que esses grupos ajeitaram-se muito bem naquelas planícies. O mesmo aconteceu em terras da Romênia, país então escassamente povoado, dava-lhes por isso um ambiente agradável. Houve uma segunda invasão involuntária registrada na Europa 1.438, essa bem mais populosa que a primeira até então única. Vieram da Turquia. Pensam os ciganólogos que este fato deu-se em resultado da vitória dos turcos conforme conquistavam os territórios da Bulgária.
Inicialmente para quem lê a história, parece ter sido a Espanha o único país que acolheu esse povo com respeitabilidade marcada. Porém não passou de mero equívoco. Foi no ano de l.447 que grupos desses chegaram em Barcelona. Nesta época, a Espanha passava por forte fanatismo religioso. Quando chegaram, trouxeram junto à quiromancia. O arcebispo Jimenez de Cisneiro, juntamente com o rei, decretaram uma lei imediatista cujas cláusulas diziam mais ou menos assim: (Quem encontrasse desses vagabundos e ladrões perambulando, poderia adotá-los como meros servidores em troca do sustento apenas. Se houvesse reincidência, isto é, os fugitivos dos cativeiros se fossem novamente encontrados, seriam deportados). Era sem dúvida um decreto tirano e polpudo, tendencioso e humilhante respaldada pela igreja, pois quaisquer atos estrangeiros aos costumes nacionais, seriam açoitados em praça pública; orelhas cortadas e desterro perpétuo. Não poderiam à partir daí, dizia o decreto, usar a língua pátria. Não poderiam usar trajes estrangeiros ao convencional espanhol, na verdade, deveriam esquecer que eram ciganos. E, para aqueles que demonstrassem resistência perante a lei, seriam exterminados em pena de morte. Pobres ciganos! O que lhes restavam, então? Foi sem dúvida catastrófica tal hospitalidade que a Espanha ofereceu a este povo. Em 1.783, abrandava a situação dos andarilhos naquele país, pois subia ao trono Carlos III, esse ajeitou as leis promulgadas pelos seus antecessores e o estatuto terminava dizendo assim: “...Para conter o castigo pela vadiagem e outros excessos aos amados ciganos...” Com isso dá para perceber que as peregrinações não findaram, porém amenizaram. Não obstante, encontraram povos errantes em Lisboa/Portugal. Os historiadores em seus discursos diziam que eram mulheres de peles trigueiras, cor essa pouco mais carregada nos homens, olhos acastanhados e até pôde ver uma cigana de olhos esverdeados. Nariz moderadamente saliente, rosto comprido, na boca trazia verdadeiros colares de marfim, pela brancura de seus dentes. Estatura por volta de 1.63 cm nas mulheres e nos homens 1.70 cm. Neste país, houve também grande perseguição aos ciganos. Dos bandos de ciganos que forem encontrados, dizia às normas locais, que fossem subtraídos os menores de dez anos e transferidos para o reformatório de ensino em Lisboa. Quase tudo que rezava em decreto espanhol, em Portugal não era muito diferente.
Os nômades foram povos perseguidos por toda vida. Sem trabalho viviam a perambular. As mulheres zanzavam de deu-em-deu fazendo adivinhações, presságio de infelicidade, promessas de breves e ricos casamentos, medicâncias. Quanto aos homens, vendiam utensílios de cobre, negociatas com cavalos etc. Sob queixas e acusações, muitas vezes repressoras, contribuíam para que a perseguição continuasse ferozmente. As populações não aceitavam esses grupos nas proximidades das cidades, com isso eles eram obrigados a instalarem-se nos arrebaldes, habitando barracas de lonas, vagões de trens abandonados. Com o precário alojamento, muitas vezes ganhavam a morte e quando não, ganhavam a verminose e tifo.
Regalias mesmo só foram vistas no Brasil, não com isso que devemos eximir esse país da vergonhosa hospitalidade para com esses estrangeiros, basta cristalizar a memória e lembrar que o Brasil era comandado por Portugal. Se os nômades eram escandalosamente perseguidos lá, aqui não poderia ser diferente, todavia a história nos conta que foi no casamento de D.Pedro com dona Leopoldina que os ciganos apareceram com muita galhardia. As ciganas com saias rodadas e coloridas, cobertas de ouro e prata, matraqueavam nos dedos as castanholas e flutuavam levemente ao vento com seus bailados soberbos. Os ciganos chegaram em bragados corceis; cantaram e tocaram os violinos pela noite afora. Sensibilizaram totalmente a família real. Receberam presentes. Pôde-se notar nas entrelinhas dessas notícias a indiferença que os historiadores mostram. Se para os ciganos essa festança tinha gosto de cordial aliança para os festeiros não passava de intenção política. Ao chegar no final desta pesquisa, pouca ou nenhuma conclusão chegou-se a respeito da origem desse povo, pois não se recebe nenhuma informação respaldada no concreto.
Há um trecho na história muito importante que conta sobre um cigano que logrou um fazendeiro das Gerais na negociata de cavalos. Não seria este mineiro um homem de pouca inteligência? Ou será um forte dom para o comércio que emana esse povo?
Somente pôde-se saber que foram pessoas que não receberam o mínimo de condição para suas sobrevivências. Hoje distante da época ainda há saques, logros, roubos por homens aristocratas ou não. Não será um sistema doentio que perseguiu aquele povo e continua perseguindo outros povos? Será o homem um animal vil?
Enfim, tanto os ciganos como os índios e os negros foram e continuam sendo perseguidos, discriminados, humilhados, impedidos de viverem com o mínimo de dignidade.
Que instinto torpe é esse que o homem tem?
O homem se diz tão inteligente por suas descobertas, por que será que não descobriu mais coisas a respeito desse povo trigueiro? Povo esse que escondia em seus olhos os grandes segredos, que tinha a sensualidade nos requebros, magia e alegria no modo de se vestir e que é imitado em dias atuais.
Quando se vê uma jovem bela, com brincos de argolas, saia longa e florida, blusa sensualmente vaporosa, enfim dentro dos mais extravagantes ornamentos que somente a embeleza, como forma de elogio é comum se dizer: Você está linda como uma cigana ou você está parecendo uma cigana.
E as fantasias de ciganos exibidas nos bailes de carnaval, expelindo pura alegria. Sem dizer da atenção e silêncio que há quando o homem é consulente das cartas e ainda propaga que “as cartas não mentem jamais”. Todos dizem não acreditar, porém difícil é quem nunca estendeu as mãos a uma cigana de rua para que ela falasse do seu destino, lesse sua sorte.
Por todos esses elogios que hoje são direcionados aos ciganos, a impressão que dá é que em forma de perdão vagabundeia pela atmosfera, gritos de arrependimentos unidos num só eco, vindo dum passado já bem distante, exige dos homens atuais, tais reverências.
Que povo extraordinário é esse que tinha o dom de saber do amanhã através das linhas das mãos mesmo sujas de um povo contaminado pelo preconceito?
Que fantásticos homens eram aqueles que mesmo rotulados de ladrões eram sempre os melhores nas negociatas?
Que majestosos seres eram aqueles que mesmo esmagados pelas descortesias recebidas, deixavam os belos sorrisos rasgarem seus lábios?
Que elegância a mais tinham nos trajes aquelas mulheres, invejadas pelas de hoje? Enfim, o homem não quis ou não se preocupou em saber.
Esse povo passou simplesmente como passa a aragem da tarde de primavera e ao homem não permitiu talvez sua biografia.
Será que o homem se amedrontou perante esses nômades e preferiu exterminá-los por não ter competência de entendê-los? Isso jamais saberemos.
O homem acabou com os ciganos, isolou os índios, discrimina os negros como se faz com um carreiro de formigas quando pisoteado. Se um dia tivermos que prestar conta a alguém superior e disso eu tenho a certeza, o que diremos a respeito do preconceito?
Ao viajarmos nas profundezas de nossas consciências, cada um de nós terá indubitavelmente a resposta, por mais rasteira e vergonhosa que seja.
No negrume dos gemidos, nos zunidos das chibatas e nos ecos das correntes, o que de bom poderemos dizer que fizemos para os negros?
Que história virgem e natural, pintada com cores de alegria teremos para contar a respeito dos índios? E sobre a magia dos ciganos, se foram exterminados da face da terra e não deixaram sequer biografias para serem lidas.
Quisera então, ser eu neste infernal dia, nada mais que um grão de areia. Confesso que me restará somente o gesto de abaixar a cabeça, pois estarei engravidado de vergonha por um dia ter recebido o nome “ humano”.
Fragmento retirado do meu livro romance "As Bayadeiras"
José Carlos Ribeiro
 



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