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   > A filha do mar



jose carlos ribeiro
      CONTOS

A filha do mar

Sabini Kynoluá

Atlânticana

 
A filha  do mar
 
Sabini foi parida no porão sujo, fétido e escuro dum navio negreiro.
 
“ Navio negreiros no mar a passar
Corrente pesada no mar  arrastar
Se a negra é escrava está a cantar Se a negra é escrava está a cantar Sarava nossa mae Iemanjá.
 
Dentro da escuridão da noite, num canto do fétido porão a negra Banju cantarolava repetidas vezes ás mesmas estrofes em forma de lamento na ânsia louca de homenagear a rainha negra Yemanjá, numa voz fraca e trêmula e num cantarejo cheio de dor...
 
Ânssim disse minha mãe:
“Sabini foi parida no porão sujo, fedorento e escuro dum navio negreiro”.
 
Só duas coisa minha mãe lembrava: A forte turbulência das águas do mar que balançavam muito o navio e a escuridão no porão..
 
Os capitão do mato e os compradô chegaram. Foi na caidinha da tarde e ela saiu correndo pasto afora pra modi num sê caçada, se caía livantava ligero pa modi num sê laçada e como javali correu e correu, mais dessa veiz num diantô, o capitão laçô e gritou:__Catei a negra imbuxada.__Dirrubô ela no chão. Arregaçô os beiço da boca dela em seguida riu uma risada de vitória e falô para o cumpanheiro.___A negra é das novas e vai sê boa paridera, oia só como é tetuda, inté parece de raça boa, vale bam dinheiro.
Cum ferro vermeio em brasa marcou os quarto dela como se ela fosse sua propriedade e com um soluço de dor ela caiu no chão puerento e memo rastejando o lado direito, tentou iscondê atrais da tora , mais num houve jeito outra marca do ferro quente cuzinhô sua carne preta em riba da coxa que inté istralô e de fato passô a sê memo dele a parti daquela hora. Ela gritô tanto, mais tanto que parece que lhe partiram a goela e de repente ela se calô e nunca mais iscuito voz naquela boca e dos seus zóio escorregô uma urtima lágrima. Ele botô ela na grieta, fucinhô bem sua boca e pinchô ela dentro da carroça que já tava cheia de negro amarrado e levô para o ancoradô. Os quarto marcado e queimado e o lombro sangrando, cortado com a guasca do capitão do mato ela seguiu calada, em seus zóio via um brilho de fera traiçuada e dentro da carroça so sintia um cheiro de carne queimada. 
Já dentro do navio negreiro  sentia muita dor no corpo inteiro uma por ter sido caçada como bicho no meio do mato e a outra pruque tava chegano a hora de pari. Vó Banju sempre falô que minha mãe nunca podia pari, seu útero era estragado desde isturdia que o cumpradô veio pra cumprá gente preta, caçá ele até que caçô, inté dirrubô ela no chão, mais levá num levô memo, na hora que ele puxou os beiçu dela pra baxo pra vê os dente, ela decepou o dedo grande dele, comeu e saiu desembestada como uma jaguatirica. Inquanto ele gritava sem dedo, o cumpanhero dele arcançô ela, montou em riba dela, abriu as pernas dela enquanto o outro, com toda dor do dedo  interrô um pedaço de pau nas parte dela, ela só deu um urro que estremeceu a mata toda e perdeu os sintido, mas logo vortô acho que pela dor e correu toda insanguentada entremeio as perna, mas pegá num pegaram, vó Banju falô que vazô sangue muitos mês afora. Até que de tanto binzimento e ervas curadera, sarô, só que diziam que minha mãe era estragada nas parte.
 
A iscuridão e o mau cheiro era muito forte no porão do vapor lotado de povo desgraçado, povo que já não sabia se era gente ou bicho, um povo esquecido até por Deus.
Os dia confundiu com as noite, o navio já tava nas água a bem pra la de mêis e logo correu buato que  seria preso por uns tar de ingreis e que o navio seria levado para um lugá que chamava ingraterra. No caminho da prisão um desses branco ingreis falô que o navio tava pesado dimais pra segui viage e pra ficá mais maleávi os feitô desceram no porão e catô grande leva de gente veia e pinchô no oceano.  Era o inferno no bojo do navio, açoite, gritos, urros, choro e lamento feito nas diferente língua, mas de nada adiantava e tudo resurtava na antecipação da morte. Alguns dia dispois a peste invadiu o navio e durante o dia os próprios negos tinha que retirá cadáver de gente que morria na noite e lançá no mar.
Segundo os boatos dos branco, o navio chegô na tar da ingraterra mas tamém lá num pode ficá e foram mais uns mêis de viage, a peste tava por todo o navio.
 
 A dor do parto chegô. Minha mãe gritava, vó Banju  franzina de fazê dó só chorava por nada podê fazê, pruque os branco não deixava. Teve hora que o feitô deu um baita chute nas costa de minha mãe que gritava como louca de dor, ela virô e rivirô uns trêis metro mais ou menos e foi baté a cabeça na quina da porta, rivirô os zóio e foi ai que minha vó avançô como leôa em riba dela  que suava como cadela e foi ali memo na quina da porta que eu nasci. Só foi o tempo de vovó chegá e benzê a pança grande de minha mãe, arreganhô as perna dela e de dentro saiu uma aguaceira e eu fui cuspida pra fora e logo atrais inxurrada de sangue. Vó Banju cortou a tripa do cordão com os dentes e as ratazana brigava e cumia as coisas que tinha saído da barriga de minha mãe, tudo isso drento do navio.
Vó banju morreu na vorta da viage, tadinha. Houve briga de negro contra negro por causa de mulher negra no cio e os branco vieram e deram tiros em riba do bolo de gente. Nesse bolo de gente tinha um fio de vó Banju e ela correu na direção do bolo de gente e o tiro estorô sua cabecinha  branca  e ali memo ela caiu e morreu, foi jogada no mar junto com seu fio. Tadinha, ela tava tão fraquinha na viage de vorta que minha mãe disse que foi mais mio ela te morrido se já tinha lhe fartado inté a vista. Lá no porão ninguém parecia gente, parecia mais um bando de feras acuada que se dilaceravam mutuamente por mínimas disputa.
A comida era posta no coxo e o bando se esbofeteava num sarve-se quem pude, pois a fome era grande.
O feitô chegô perto, me catô por uma perna e demonstrando decepção me jogô de volta no colo de minha mãe e resmungou.___Pensei que fosse macho, mais é fêmea... huhuhuhu.___E contorceu brutalmente o corpo como se estivesse se arrepiado por me tocar.
 
“Desd'o berço respirando Os ares da escravidão,
Como semente lançada. Em terra de maldição,
A vida passo chorando Minha triste condição.

Os meus braços estão presos, a ninguém posso abraçar,
Nem meus lábios, nem meus olhos
Não podem de amor falar;
Deu-me Deus um coração
Somente para penar.

Ao ar livre das campinas Seu perfume exala a flor;
Canta a aura em liberdade
Do bosque o alado cantor;
Só para a pobre cativa
Não há canções, nem amor.

Cala-te, pobre cativa;
Teus queixumes crimes são;
E uma afronta esse canto,
Que exprime tua aflição.
A vida não te pertence,
Não é teu teu coração.”
Poema de Bernardo Guimarães no romance "Escrava Isaura"

Dispois de mês e mês cheguemo num tar de Brazir. Terra bunita, cheinha de arve.
Logo que apiemu era manhã . O sor era forte e ardeu os zóio dos preto, tamém pudera estava no escuro do porão a meis. Mãe disse que viu porção de branquinha de saia armada e zóio azur como as água do mar. O guarda chuva era pa cubri a cabeça delas do sor forte da terra.
Era um lugá tudo bunito, muito infeitado, e lá nois fico, tudo amuntuado, quase que um emriba do outro esperando os compradô. Na leva que apiou do navio que nois tava todos os negros foram postos na grieta pa modi num fugi. As muiê com cria de peito valia  muito mais réis que as outra e mãe tava comigo de cria. Mãe apavorada com a feira de negros quis fuji e logo uma guascada rasgou lhe o lombo e sucedeu um grito quase rasgando a garganta, correu sangue nas costa dela. ___Poe boqueira nas mandíbula dessa negra mardita, pruque ela é negra fujona. Ai outro feitô pôs boquera. Mãe tava nas grieta, na cangaia e com a boqueira apertada na boca.
Diz que um vendedô gritava um preço de moeda e vinha uns treis ou quatro branco vê de perto, mandava tirá a boquera, puxava os beiçu dos preto pra vê os dente . Até que uma sinhá branquinha feito leite comprô mãe e eu fui junto. A sinhá falava língua enrolada que mãe não sabia que ela tava dizendo mas caricio a cabeça de mãe e mãe gostô e pra fazenda nois rumemô na carroça. A sinhá era dona de toda aquela terra e era muito grande o lugá. Quando cheguemo vimo porção de preto que num tinha fim, uns falava de um jeito e outros de outro. Minha mãe  amamentava eu e passou a sê ama de leite do fiinho da sinhá branquinha feito leite.
___Veja que peitos de turina tem essa negra Kelé.
A sinhá elogiava e quando num tava dano de mama tava grudrada no ferro de passá, engomando as anágua e os colarinho das camisa dos sinhozinhos. O sinhozinho, marido da sinhá branquinha feito leite era brabo como uma cascavé. Mãe queimou o cularinho da camisa branca dele e por pouco ele não pôs a pele dela pra quara, não fosse a sinhá branquinha feito leite mãe teria sido chibatada sem dó lá no tronco adonde vai tudos os negro crusive os mais veinho e franzido, isso tudo curpa do preto zaroio que é cuvitero e foi lá inrredá para o sinhozinho. Preto peçonhento! Mãe servia de cavalo para os filhos da sinhá montá.  
A sinhá branquinha feito leite viajô e o sinhô veio pô assédio em riba do corpo de mãe, queria sê servido na cama pur ela.
Com asco foi, pruque tinha que i e se entregô ao tar amante que se lambuzô até na hora que achou que devia, dispois ela cuspiu no chão e disse que prefiria amá cos bichu.
Tomou um bufetão que lhe quebrou os dentes e logo foi para o tronco e quase morrendo não pediu perdão por isso ficou a noite toda no tronco. João diabo depois que chicothiô muito o lombo dela, sortô as amarras e mandô ela ir para a senzala, mas a negra Kelé era marruda como mula e fugiu mato adrento que nem uma onça acuada e se escondeu nas brenhas. E quem diz de achá ela. Campiaram, campiaram. Na lua minguante o sinhozinho mandou o primeiro capitão do mato em seu rasto e esse não vortô. Na outra simana mandô o segundo capitão do mato e esse tamém num vortô. Na outra lua mandô dois capitão do mato de uma vez só, o Dioguinho Assasino que se não trouxesse viva trazia morta e arrastada e o mulato Jinuáro. Na noite os dois se perderam. Ela feiz roupa de mato verde. Kelé feiz armadilha de ponta de pau aguçada e caçô o Dioguinho assassino antes de sê caçada. O mulato Jinuáro ouviu os gritos do macho, mais chegá perto do mocambo não teve jeito de chegá memo, o estamago reviro quando ele viu ela que rasgava a carne do branquelo com os dente que ainda tava vivinho e comia até deixá o osso limpinho. A valentia do macho tava resumida nos dente da negra afriacana, por mais nome de santo que ele chamou de nada foi sua valia. Ela rasgou o peito dele e tirou sangrando, o coração, apontou para o céu enquanto o homem estribuchava como cobra peçonhenta pelo chão e gritou palavras num idioma diferente que não pôde ser entendido e com treis ou quatro mordidas com a dentuça afiada de verdadeira fera ela devorô tudo aquilo que pursava em sua mão e em seguida limpou a boca com as costa da mão. Disse o mulato Jinuáro que até quis infrentá, mas tinha uma faísca má naquela pupila garça e não soube se via uma onça preta devorano a caça ou se via uma mulher desesperada tentando se livrar, não soube se ela comia o branquelo de raiva e medo ou se comia de fome, pois tava a dias na mata. O que restou para ele fazê foi só o sinar da cruz, pois as rezação ele inté isqueceu  e sem rezá vortô, foi dano passo pra trais e com desespero vortô pra fazenda aos trupico.
Treis dias o mulato premaneceu sem proza e prostado no pé do santo fico. Foi o ruzário de pai João benzedô que lhe devorveu a vontade de fala.
___Vi satanás, sinhozinho!___Começou assim.
___Ara, ara, pau sem raiz, vê lá agora, satanás não existe.___Retrucou o seu doutô.
___Ela decepô a perna do Dioguinho e comeu sua carne, sinhá. Sem decepá o braço ela dexô no puro osso.
___Misericórdia, homem! O que ta me dizendo?___espantada disse a sinhá branquinha feito leite e levando as mãos na boca com expressão de quem ia vomitar.___Kelé é amena, por Deus diz que é mentira, homem de Deus.
___Num é inredo não, sinhá. Do lado do mocambo tava cheio de osso e com certeza era dos outros capitão.___Continuou o capataz.
___Virgem santíssima! Que tipo de alma tem essa criatura então? Que Deus proteja esse demônio em figura de mulher. Que ódio será esse que seca a mente e veda os olhos dessa negra felupo?___Completou a iaia.
___É a magoa da servidão, Sinhô.___Retrucou o capatais.
___Cale a boca seu borrabotas, negro e bicho são as mesmas coisas. Eles nasceram para servir.___ralhou o oioi.
___O zoio da negra briava como bria o zóio do gato preto na noite da danação. Parecia o zoio do Coisa Ruim, sinhô.___com voz trêmula falou o capitão do mato.___Da inté arrupio só de lembrá.
___Ara...ara, homem, pare com isso. Estas amedrontando minha esposa.
 
Acordei de manhã com uma festança na senzala e os negros grande dizia duma tar de aforria que tinha chegado. Fiquei feliz e alegre porque agora ia podê ta juntinho da minha mãe sem capitão do mato, sem feitô, sem sinhô. De repente minha alegria acabou e meu coração se tornô pequenino dimais quando vi porção de cavalero cuntratado pelo sinhozinho para capturá minha mãe. E lá foram para o pé da montanha. Eu me embrenhei mato adentro como um sagüi cortei os riacho e vi  eles fazê tucaia e caçá minha mãe. O feitô  argemô as mão dela e trazia ela de volta, mas quando perto do despinhadero, ela se jogou de corpo todo e espatifô lá em baxo. Ás pressa rudiei o sopé da montanha e quando a pequena distância vi que ela tava suzinha isticada no chão com a cabeça ensangüentada aparada na pedra. De mansinho fui chegando com os zóio cheio dágua, assustada seu nome eu chamei.
___Mamãe  Kelé!
Mas sem resposta fiquei.
Ela abriu os zóio com serenidade e eu ajoelhei, me aproximei dela. Ela me oiô com aquela mema ternura que tinha quando me pegava no colo, memo cum as mão argemada ela livantô os braço e passô os dedo na minha cara, mas nessa hora eu num pude sinti o carinho do seu toque como antes pruque o frio da argema  chegô prumero em minha face, ai eu falei em voiz baixa, meio imbargada na garganta.
___Mãe....oh  mãezinha, querida, livanta daí, vamu nois duas simbora daqui. Chegou a tar da afurria. Ocê livanta daí e nois vorta para a sua África dadonde nas primavera ocê corria livre nos pasto impareiada cuas ema, coia flô e remedava os passarinho. Tão dizeno que cabô a iscravidão, livanta mãe. Nóis vai sê livre, eu e ocê, inguar quando ocê era minina. Nois vai trabaiá e ganha muitos conto de reis e tê a nossa vida, sem feitô e sem patrão e sem sinhá branquinha feito leite.
Num tem mais capitão do mato pa ti sová, pa cortá teu lombo na guasca e dize que ocê é reberdi, pa ti marcá cum ferro quente e te chamá de égua. Num me dexá suzinha não, mãe,... fala cumigo, por favô. Sempre vo çe sua cria de peito, comu o feitô me chamava no porão do navio. Se ocê me dexá, eu não vô sabê vivê. Num carece mais fugi, mãe, vó Sandu me inrredô que a princezinha branca lá do palácio escreveu a tar lei pá modi libertá tudo nois que semo preto.
 
Ela já estava moribunda, porém ainda restava-lhe um fio de vida em sua mente, agarrando a esse com forte veemência, pôde dizer no idioma francês que era sua língua pátria.
 
___Petit fils Sabini, I`être humain  nécessaire à être libre...
___Sortou uma  gorfada de sangue que veio em riba do meu colo e com dificurdade recobrô os sentido e continuô.
___ ...de sorte que dans  l'essence du âmago , il peut vivre avec la dignité.
___Deu uma pequena pausa e encerrô.
___ Au revoir, ma cherie, au revoir..
 
Tradução do francês para o Português
___Querida filha Sabini, O ser humano precisa ser livre, para que na essência do âmago ele possa viver com dignidade.
Adeus querida filha, adeus.
 
Chorei quando vi que ela estremeceu pelo corpo intero, os zóio dela parô e arregalô, cheinho dágua pronto pa derramá, mas ela num piscô pa modi a lágrima cai.
Eu chorei sobre o aconchegante regaço de minha mãe. O soluço trepidô em meu peito e extremamente disolada abandonei o local com suas urtimas palavra calafetadas em minha mente de menina e nunca mais esqueci.
 
‘ Petit fils Sabini, I`être humain  nécessaire à être libre...
...de sorte que dans  l'essence du âmago , il peut vivre avec la dignité.
... Au revoir, ma cherie, au revoir.”
 
Escravidão, uma tormenta no mundo que deixou sequela num povo.
 
A origem da escravidão humana é demais complexa e perdeu-se junto a poeira rastejante e suja das nações.
Uma grande continente negro com senhores, leis e costumes conflitantes levou o povo a um oceano sanguinário onde navegava o sacrifício, a lágrimas e a dor, o martírio predominava sem compaixão.
O ser humano passou a escravizar o próprio ser humano. O homem passou a ser caçado e vendido por número de cabeças como gado, tornando-se mescla de fera e mercadoria. A esses homens foram impostos os mais desumanos e inimaginários castigos e torturas por uma menor reação, muitas vezes até por um simples olhar perdiam seus olhos.
O negro quando caçado era primeiro desumanizado para depois tornar-se cativo ou verdadeiramente fera muitas vezes indomável que preferia morrer a ser escravizado. Perdia a sua próprio dignidade. O homem quando perde sua próprio dignidade se torna nada.
Muitas nações vergonhosamente foram atingidas por esse câncer, alastrando-se em nódoa, impregnando pelo mundo, onde o resultado era o dinheiro e a qualquer custo queriam chegar aos extremos, esquecendo que nos meios tinham vidas.
 
A negra África tornou-se, por conseguinte, o grande palco da imoralidade onde em suas costas e encostas exibiu um mercado de insanidade infernal onde os tilintos dos fortes bridões, das grilhetas rastejantes e das desgraçadas algemas  ensurdeciam e  emudeciam a razão,  orvalhando e tingindo de sangue um oceano sem esperança, onde o negro era o protagonista no palco da vida, num espetáculo de horror.
Um povo despatriado e desrespeitado era conduzido aos sujos bojos dos navios negreiros em cujo destino nem a metade chegava, e boa parte dos que conseguiam sobreviver, enlouqueciam com a desumanidade praticada pelos compradores.
Nem os ventos do tempo conseguiu abrandar o forte baloiçar da bandeira da servidão que o mundo hasteou no mundo.
Hoje já bem distante, os ventos ainda trazem um rugido de lamento que atormenta e causa-nos um mal-estar. Um cheiro enojado entra pelas narinas adoecendo as mentes em lembranças.
Não há mais gargalheiras? Não há mais palmatórias? Não há pescoçeiras? Não há máscaras de ferro? As vezes pensamos que sim, as vezes pensamos que não, mas ainda resta a certeza que o homem não se envergonhou com o genocídio e continua sendo vil.
 
“-Lei de 1741-Negros fugitivos eram marcados com ferro quente na espátua com a letra “F”.
-Em 04/09/1850, o então ministro da Justiça, Eusébio de Queiroz, apresenta ao Parlamento um projeto de lei para acabar com o tráfico negreiro. O projeto converteu-se em lei em setembro do mesmo ano. O tráfico negreiro, mesmo com a lei assinada durou vários anos, nasceu o jeitinho brasileiro. Os navios negreiros que faziam traficos de negros para o Brasil, se comportasse 200, tinha superlotação e chegava a 300 ou mais cabeças de escravos. Os brasileiros inventaram um fundo falso e se o navio fosse vistoriado somente encontravam mercadorias pois os negros estavam no fundo falso. Foi ai que nasceu o jeitinho brasileiro.
-Em 1854-O decreto proibia o negro de ler e de escrever.
-Em 28/09/1871, o visconde do Rio Branco conseguiu que a coroa assinasse a lei do ventre livre, dando “liberdade” aos filhos das escravas nascidos a partir daquela data. Os negros nascidos nessa data e libertos pela lei tinham que ficar trabalhando de graça para os senhores de suas mães por mais 21 anos.
-Em 28/09/1885- lei Saraiva Cotegipe ou a imoral, desgraçada e vergonhosa lei do Sexagenário: os negros velhos com 60 anos tinham que trabalhar de graça para os seus senhores por mais 3 anos e depois alforriados.
-Em 13/05/1888. a lei Áurea foi assinada, pondo fim na escrivão do Brasil. E o racismo pecaminoso varou séculos e continua até os dias de hoje.
 
A igreja católica dizia ser contraria a escravidão indígena, mas aprovava a escravidão negra e ficava com 5% do dinheiro que arrecadavam nas vendas de cada escravo.”
 
Sabini Kynoluá, como era aprovado por lei, ela comprou sua carta de alforria, pelos próprios préstimos e excelente conduta em 12/05/1888. A lei teve validade a partir do dia seguinte.
Sua carta de alforria de nada lhe serviu como cidadã brasileira. Muitas vezes foi humilhada nas ruas por brancos, sentia-se excluída em tudo, enfim, por ser negra, pecaminosamente preconceituada, carregou a sequela da escravidão até os últimos dias de sua vida.
 
 
«Lei Áurea. Lei no 3.353 (13 maio 1888)
LEI N.° 3.353 - DE 13 DE MAIO DE 1888
Declara extinta a escravidão no Brasil
A Princesa Imperial Regente, em Nome de Sua Majestade o Imperador o Senhor D. Pedro II, Faz saber a todos os súditos do Império que a Assembléia Geral decretou e Ela sancionou a Lei seguinte:
Art. I.° É declarada extinta, desde a data desta Lei, a escravidão no Brasil.
Art. 2.° Revogam-se as disposições em contrário.
Manda, portanto, a todas as autoridades, a quem o conhecimento e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram, e façam cumprir e guardar tão inteiramente como nela se contém.
O Secretário de Estado dos Negócios da Agricultura, Comercio e Obras Públicas e interino dos Negócios Estrangeiros, Bacharel Rodrigo Augusto da Silva, do Conselho de Sua Majestade o Imperador, a faça imprimir, publicar e correr.
Dada no Palácio do Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1888, 67.° da Independência e do Império.
PRINCESA IMPERIAL REGENTE. ISABEL CRISTINA LEOPOLDINA AUGUSTA MICAELA GABRIELA GONZAGA DE BRAGANÇA)
Rodrigo Augusto da Silva.
.Carta de lei, pela qual Vossa Alteza Imperial Manda executar o Decreto da Assembléia Geral, que Houve por bem Sancionar, declarando extinta a escravidão no Brasil, como nela se declara.
Para Vossa Alteza Imperial Ver.
Chancelaria-mór do Império. -- Antônio Ferreira Vianna.
Transitou em 13 de Maio de 1888. - José Julio de Albuquerque Barros.”

Fragmento retirado do meu livro Biografias "Divinas Divas do Seculo XX"
José Carlos Ribeiro/Escritor



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