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   > O FILHO DE ADEMAR QUERIA IR PRA LUA



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

O FILHO DE ADEMAR QUERIA IR PRA LUA

Ademar chegou do trabalho, jogou a sua valise sobre o sofá. Achou estranho porque havia um silêncio em sua casa. Não era comum aquele silêncio. Ficou um tempo tentando captar algum ruído, algum barulho. Será que a Creuza tinha saído, deixado a porta aberta? Ela nunca fez isso. Não era agora que faria. Estava preocupado. Não havia sinal nem dela nem do Lennon. Alguma coisa estaria acontecendo. Procurou pelos cantos, com os olhos.
Ia chamar por Creuza quando ela aparece dos fundos da casa, provavelmente da cozinha. Da cozinha porque ele sentiu o cheiro de tempero quando ela se aproximou. Ademar logo viu nela a fisionomia da preocupação.
-O que foi? –perguntou para a esposa.
Ela fez uma careta como a querer dizer: você não vai acreditar. Ademar conhecia aquela careta. Teve um dia difícil de trabalho. Conseguiu vender só duas caixas de vermífugo para cães. Tempos difíceis.
Creuza se aproximou dele, checou uma manchinha na camisa que ele usava. Creuza era imperiosa com tudo. Qualquer coisinha diferente e seus sensores mais que anormais já acusavam.
Ademar não ia repetir a pergunta porque sabia que a esposa contaria tudo. Certamente era algo grave pelo seu semblante. Acontecera alguma coisa com o Lennon? Se acontecera Creuza não estaria apenas resignada, estaria em pânico. Se lembra de quando ele torcera o pé no escorregador no parquinho próximo à escola. Creuza tinha ligado pra ele, em seu celular, desesperada, não conseguia nem falar direito. Ademar teve de pedir para que parasse de chorar e falar ao mesmo tempo porque ele não estava entendendo nada.
Por isso tudo Ademar chegou à conclusão que não era nada de tão trágico assim. O que podia ser? Um cobrador indesejável (se algum cobrador é desejável?). Creuza estaria grávida novamente? Ou... Só podia ser a mãe dela então. Provavelmente a televisão que pifou, ou a geladeira. Falta de água talvez.
-Ademar! Nosso filho, o Lennon Francisco quer ir pra Lua.
-Como que é?
Ademar ouviu perfeitamente, mas queria ter a certeza de que teria ouvido mesmo aquilo que ouvira.
-Isso mesmo que você ouviu, Ademar. O seu filho Lennon Francisco quer ir pra Lua.
-Creuza, minha filha. Diz pra ele que isso é um tanto impossível.
-Tentei dizer pra ele. Sabe o que ele fez?! Pegou a sua caneca preferida, aquela em que você bebe cerveja e jogou no meio da rua.
-A minha caneca do tricolor?! A minha caneca do meu tricolor querido?!
-Sim.
-O que esse moleque quer, meu Jesus!
-Ele acordou pela manhã, chegou para mim e disse que queria ir pra Lua. Eu disse a ele que era impossível. Ele ficou bravo.
-Onde ele está agora?
-Pesquisando na internet quantos quilômetros tem daqui até na Lua.
Ademar deixou-se cair no sofá, aturdido.
-Como foi chegar nesse ponto?
-Não sei, Ademar, não olhe assim pra mim, o filho é seu. Ele quer ir para a Lua.
-Vou ter uma conversa com ele.
Ademar esperou a hora do banho de Lennon. De mansinho foi para o banho também. Foi no banheiro dos fundos para que o filho não o percebesse. Queria manter-se afastado do filho o máximo de tempo possível. Quem sabe era uma fantasia de criança e logo passaria. Lennon só tinha seis anos. Crianças costumam esquecer essas besteiras com facilidade. Se tivesse sorte...
-Pai.
Ademar sentiu um calafrio subindo-lhe pela espinha.
-Oi, filho. –respondeu o pai.
-Pai, eu quero ir até a Lua. O senhor me leva lá?
Ademar ficou pálido.
-Entenda, filho. Ir até a Lua pode ser um tanto difícil. Se fôssemos até na pizzaria, fica aqui mesmo, na pracinha.
-Paiiii! Buááááááááá! Eu quero ir na Lua! Eu quero ir na Lua!
“E agora o que eu faço?”
-Creuza, meu bem, venha até aqui.
A mulher veio.
-Não falei. O que eu te disse! Ele está o dia todo falando nisso. Estava só esperando o pai chegar.
-Mas por que eu, meu Jesus!? Por que eu?
-Dá um jeito, leva o seu filho pra Lua.
Ademar levantou-se, foi até a janela. Olhou para a rua. Passou a mão pela testa, empurrando os cabelos para trás.
Volta a tentar convencer o filho.
-Lennon, entenda uma coisa. Somos seres humanos, dotados de pés para caminhar aqui na terra. Não temos poderes como aqueles super-heróis do desenho animado que vão para onde querem. Somos seres humanos capazes de inventar coisas pequenas que nunca alcançarão a Lua.
-Pai, eu quero ir pra Lua! Eu quero! Pai, me leva pra Lua. Eu quero ir pra Lua, pode dar um jeito.
-Filho, eu te levo ver os cavalinhos no carrossel do parquinho. São muito emocionantes.
-Pai, eu quero ir pra Lua.
-Filho, a Lua fica muito longe.
-Não quero saber, pai. Eu quero ir pra Lua.
-Creuza, o que eu faço?
-Como vou saber?! Nunca estive diante de uma situação dessas.
-Lennon, olhe bem para o seu pai. Quero que olhe bem dentro dos meus olhos. Quero que olhe dentro da minha alma. Por tudo que é mais sagrado, eu digo, filho, ir pra Lua é impossível.
-Pai. Eu quero ir pra Lua.
-Creuza. Creuza. Creuza, você me ama, você me escolheu para viver a vida junto comigo. Creuza, você não tem idéia da aflição que estou passando. Você não faz idéia do que se passa aqui dentro deste peito agonizante. Creuza, pelo amor de Deus! Creuza me dá uma luz! O que eu faço?
-Definitivamente, meu amor, não sei.
-Pai, eu quero ir pra Lua.
-Filho, entenda, eu não posso ir pra Lua.
-Pai, o senhor pode sim.
-Ah, meu Santo Antônio.
-Pai, eu quero ir pra Lua.
Ademar calou-se, ficou olhando para a parede com a fisionomia trincada. Seus olhos arregalados miravam o nada. Passou a mão por seus cabelos. Tornou a levantar-se, caminhou pela sala. A janela mostrava a noite escura. Ademar ficou olhando para a noite. Algumas estrelas no céu. Lá o universo, lá onde estava a bendita Lua. E agora? Como ia satisfazer a vontade do filho? Se a Lua não ficasse tão longe. Por que isso tudo estava acontecendo com ele? Um dia de trabalho ruim, uma semana ruim de vendas. Agora essa. Será que todos os pais têm problemas como esse em seus dias de pais?  Você é um pai, aja como um pai!
Virou para o filho:
-Troque de roupa, filho, vamos para a Lua.
Dessa vez foi Creuza que ficou pálida. Ademar acabou de dar demonstração de que endoidecera. Um sorriso brotou nos lábios do filho. Creuza continuava de queixo caído.
-Está esperando o que, Creuza, troca esse moleque, vamos para a Lua, agora.
A mulher sem dizer uma palavra levou Lennon para o quarto. Depois de dez minutos voltou com o menino devidamente vestido.
-Quer ir também, mulher?
Creuza de início preferiu dizer não. Mas finalmente decidiu ir também. Pagaria o quanto fosse para ver o desfecho dessa história. Ademar foi até a garagem, deu partida em seu Maverick turbinado. Passaram no shoping para comprar roupas metálicas e capacetes de visores azuis, decerto para enfrentar as radiações da estratosfera.
-Pronto, garoto, vamos para a Lua.
Ademar acelerou o seu Maverick. Imprimiu uma velocidade que o carro jamais alcançou. Ultrapassou com facilidade uma Kombi cheia de abóboras e tomates que ia para o Ceasa. Essa manobra chamou a atenção de uma viatura de polícia rodoviária que o interceptou numa subida.
O soldado pediu a documentação do carro. Estava tudo em ordem.
-Onde vai com tanta pressa? –o policial verificou todos no carro. –Tem alguém ferido?
-Ah seu guarda, estou indo para a Lua.
O policial se virou para o parceiro que ficara na viatura:
-Cara, traga o bafômetro aqui.
Sem nenhuma irregularidade com qual se preocupar, o policial o liberou.
Viajaram por quase duas horas. Entraram por uma estrada rural. Depois de alguns minutos acabaram saindo atrás de um aterro sanitário em Osasco. Ademar parou o carro.
-Filho, aqui é a Lua.
Lennon desceu do carro, maravilhado. Tão extasiado, maravilhado, que não disse uma palavra que fosse.
-A Lua?
-Sim, filho, a Lua.
Chegaram em casa de madrugada. O filho não dissera uma palavra durante todo o caminho de volta.
Deitou e dormiu como um anjo. E nunca mais pediu para ir à Lua.
 



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