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   > Chica, a pretinha de alma de ouro



jose carlos ribeiro
      CONTOS

Chica, a pretinha de alma de ouro

Naquela cidade do interior de Minas ninguém se arrisca num palpite sobre os familiares da Chica. Ninguém nunca ouviu falar.
Chica apareceu no cenário da vida já mocinha; corpo duro, tetas grandes. “Baita tetas tinha a Chica.” Se a Chica vivesse na época da escravidão com certeza seria escolhida pela sinhá para amamentar seus filhos. E com certeza também ia ter que se deitar com o sinhô porque tinha as bandas da bunda dura e arrebitada que tinha que ver. Fazia inveja a qualquer branquinha. A danada era volumosa tanto na frente como no traseiro.”
Chica era da zona, era moça dama, mulher da vida, do bordel da cidade. Assim que a chamavam naquela cidadezinha intrigueira do sul de Minas.
Mas Chica era limpa. Sempre dizia que tinha que estar limpinha para o homem voltar outras vezes. E sempre dizia “Sou preta mas, sou limpa!” Não que em sua cabeça houvesse o preconceito, esse problema ela não tinha, às vezes acho que até se esquecia que era preta. Quando Chica nasceu, deve ter passado três ou quatro vezes na fila da honestidade. Era direita nos negócios. Mandava todo mês dona Guilhermina fazer um vestido novo para ela. Um mês era amarelo, ou vermelho e assim o guarda-roupas da Chica era um dos mais variados da zona. Pagava até o colchete que dona Guilhermina punha por sua conta. Uma vez que Chica mandou fazer um vestido de chita da melhor, pois ia ter um baile no bordel. Dona Guilhermina preparou e meia hora antes do baile ao passar o ferro de brasa no vestido novo de Chica, queimou boa parte do vestido. Pobre dona Guilhermina ficou apavorada com o incidente e se pôs a chorar e mandou chamar a Chica para contar sobre o acontecido e logo disse que iria pagar o estrago. Chica que já tinha bebido muita cerveja se pôs a rir quando viu o vestido furado, olhou para uma cortina azul pavão que a costureira tinha na sala e passou a mão na cortina, amarrou daqui e dali e pronta foi para o baile e todos adoraram o novo modelito que Chica inventou, dia seguinte outras meretrizes foram até o suposto atelier da costureira encomendar um modelito igual ao da Chica. Só sei que naquela noite Chica dançou, bebeu, riu e acabou acordando no dia seguinte na cama ao lado do Dr. Biano de Carvalho. O velho fazendeiro que vivia de tro-lo-ló com as loirinhas do bordel.
A Chica era tão preta que tinha quem, às escondidas chamavam-na de frigideira. Durante o dia amarrava um pano branco na cabeça. Seus cabelos eram engruvinhadinhos que parecia cocô de cabrito. Só que nas noites quando ia para o salão esperar os homens, estava sempre de cabelo esticado e nunca se soube como ela fazia para se apresentar assim. Um dia viram Chica sentada em frente ao fogão de lenhas. Esquentava um ferro roliço e esticava os cabelos e dizia que de branco queria ter igual só os cabelos, mais nada. Sempre dizia que gostava de ficar bonita para ela mesma se sentir bem e nunca para os homens. Ela se achava bonita. A danada tinha um par de olhos esverdeados que fazia inveja a muitas branquinhas lá na zona.
Quem ouvisse suas gargalhadas, ria muito, estivesse a bons metros de distância sua gargalhadas era inconfundível.
Pobre da Chica teve uma ocasião que a esposa do médico encafifou que a Chica era a amante do seu marido, de fato era mesmo. A madame fez tocaia junto de duas irmãs e quando a pretinha ia passando as três montaram de murros encima da Chica. Mas a pretinha era ligeira como vento, escorregou daqui e dali, deu unhada de lá para cá. E saiu dizendo “Apanhei mas também bati. Sai com as unhas cheia de cabelo loiro” Ao longo de três horas a polícia veio prender a Chica. A madame deve ter dado dinheiro para o doutor delegado, pois a Chica ficou presa na cadeia por umas três semanas. E logo quando saiu mandou notícias para o médico e naquela mesma noite fez e desfez na cama com ele. Ate sugou seu pescoço para a esposa ficar com a pulga atrás da orelha.
A Chica tinha cheiro bom de flores quando ia para o salão beber com os homens. Negrinha ousada e atrevida no jeito de se vestir. Com decotes enormes exigia dos machos do salão os mais ardente olhares de desejo mesmo que esses estivessem acompanhados por outras meretrizes.
Seus carinhos, suas leves carícias e seus amores eram dos mais caros, dizia que cobrava mesmo bom dinheiro daqueles prostitutos, pois ela tinha o que eles gostavam e eles tinham que pagar bom preço para serem às vezes aturados. Ria de se cansar e dizia “Eu tenho a pirsiguida”.
Por Deus do céu, muitas vezes, vi-se essa pretinha mergulhada na tina cheia de leite de vaca para deixar a pele mais macia e quem pagava esses muitos litros de leite era o coronel Tavares de Miranda que exigia mais maciez em seu corpo, então que pagasse por aquilo. Quando ele avisava que ia dormir com ela o dia inteiro ela tinha que se preparar para o tal velho cara de cavalo, como ela mesma o titulava. Só que suas quantias eram suculentas e essas mordomias para Chica nada custava quando lembrava na dinheirama que iria receber na manhã do dia seguinte quando o cara de cavalo ia embora.
A Chica quando queria ser debochada não tinha páreo para ela, veja só o que contou outro dia sob gargalhadas:
Disse que o senhor Tavares de Miranda, o tal velho da cara de cavalo tinha suas fantasias sexuais e gostava de ser cavalo quando estava com suas vontades no quarto.
Ele ficava pelado e a Chica tinha que passar mel pelo seu corpo todo e montar nele como se ele fosse verdadeiramente um cavalo. E não podia faltar o chicotinho. Chica punha corda no pescoço dele e tudo começava. Ela andava pelo quarto todo puxando ele pela cordinha, ás vezes ele empacava e ela já sabia que tinha que bater de leve com o chicote e dizer assim: “Vamu, vamu cavalin” ai ele a obedecia e começava a trotear de quatro. Ai ela tinha que passar mel no corpo do cavalinho e montar e chicotear e galopar pelo quarto todo. Disse que às vezes se cansava daquelas loucuras, mas dizia assim: “Fantasia é fantasia e ele paga bem, então vamos satisfazê-lo” Ela contava e ria que se esborrachava.
Ouvia-se isso de sua própria boca, quando queria seduzir um novo homem esperava quando ele estivesse passando pela rua da zona e debruçava na alta janela e punha as tetas para fora e já tinha laçado a caça, quando na noite o homem vinha com toda certeza e sem sombras de dúvidas.
A Danada deitava mesmo com quem queria. Vivia dizendo assim: “Já deitei com os Joões, com os Josés e com os Bastiões.” Dizia e ria.
Ah Chica!..Como a Chica era danada, era da pá virada. Com ela não tinha tempo ruim, era pau pra qualquer batalha. Às vezes lá na zona, todos morrem ainda de saudades dela, do seu jeito de saber viver sorrindo sem tristeza. Ela mesma dizia que não conhecia a tal tristeza que o povo tanto falava. Dizia que o povo que fazia a vida se tornar difícil, que o povo procura a tristeza para ficar triste. Que o povo tinha prazer em ser chamado de coitado por outro. Que eram pessoas frustradas que não faziam o que queriam então eram tristes. O povo do interior da muita confiança para que os outros vão pensar e que ela não dava confiança não porque se ela não tivesse dinheiro para o seu sustento ninguém iria bater em sua porta para saber se ela estava precisando de alguma coisa, então o povo fofoqueiro que se danasse.
A tal da Chica era famosa naquela zona no sul de Minas.
Era preta como tição e quando menos esperava ela aparecia com os cabelos pintados de loiro da cor do sol. Outra hora aparecia com os cabelos cor de cobre. Uns riam e outros a elogiavam, porém ela mesma pouca importância dava aos comentários, o que queria era se sentir bem, e isso era o que mais ela sentia. Não só nos cabelos usava cores berrantes, seus vestidos e blusas eram amarelos, vermelhos, roxos, enfim da cor que ela quisesse.
Onde Chica estava não tinha tristeza, era só alegria.
Na verdade Chica se deitou com quem bem quis, com ricos, com bonitos, com jovens enfim deitou mesmo com quem quis, mas foi Abílio, um pobre pedreiro de calos nas palmas das mãos quem ganhou seu coração. Chica conheceu Abílio numa dessas noitadas no bordel e ficou a noite toda dançando e bebendo com o homem que parecia lhe dar carinho verdadeiro, foi logo na manhã daquele domingo que Chica acordou enroscada e cegamente apaixonada nos braços peludos de Abílio. O homem por quem Chica estava apaixonada era forte, brusco, meio café com leite na cor, as palavras saiam erradas de sua boca mas, foi esse bruto por quem Chica se interessou, foi naquelas palavras pela metade que Chica entendeu as frases mais completas de sua vida. O olhos de Chica amanheceram brilhosos, sua fala meio trêmula, sua fortaleza se tornou mera fragilidade. Chica estava sentindo um cheiro de bem estar, de paixão. Os carinhos de Abílio foram os mais fortemente sentidos. Homem nenhum fez até então que Chica sentisse o que estava sentindo naquela hora, até o gozo chegou.
Abílio amou Chica pela última vez naquela madrugada querendo clarear. Chica gemeu um gemido verdadeiro, não aqueles que fingiu com os homens ricos da cidade. Chica retribuiu os abraços fortes que Abílio lhe dava. E os beijos então, os mais calorosos. Chica pensava e pensava em não aceitar o dinheiro de Abílio pela noitada naquela casa de meretriz. O dia chegou e Abílio se pôs de pé, vestiu a camisa branca de mangas compridas que só aos domingos ele usava, deu um nó vagabundo na gravata azul amarrotada, apertou a cinta no côz da calça de casimira preta, encarou Chica e disse numa voz rouca: “Bamu imbora Chiquinha meu amô!” Chica arregalou os olhos e a voz lhe faltou naquele momento. Quis sorrir mas, não achou jeito também, sem querer perguntar perguntou, pois no fundo do seu coração ela sabia o que Abílio tinha dito. A vida inteira foi isso que ela esperou. “O que cê falô, homê?” Abílio sorriu mais uma vez, chegou bem perto e enfiou nos ouvidos da negrinha: “Isso memo que ocê iscuito, bamu imbora daqui pa sempre cumigo, minha neguinha dos zóio de canaviá!” Chica não pode conter as lágrimas que como enxurrada escorregavam dos seus olhos, e pouco a pouco foi se levantando e se dirigindo para a cômoda de roupas e separando as melhores e assim deixando para trás as mais usadas e um triste passados de dissabores e má querência.
Chica foi morar junto do café com leite. Era assim que ela o chamava enquanto ele a chamava de neguinha.
A tal da Chica era danada mesmo, pois era mesmo e isso nunca ninguém se cansou de dizer, veja só o que ela fez.
Mandou fazer vestidos novos e blusas novas com o dinheiro do Abílio. Os vestidos eram abaixo dos joelhos e as blusas sem decote algum, era outra mulher. Se lá na zona já era respeitada, agora então nem se fala. Fazia questão de falar que era mulher casada. Um belo dia por causa de briga de cachorro uma vizinha inventou de falar que ela era mulher de zona. Meu Deus do céu e da terra não é bom nem lembrar, ai a Chica virou mulher baixa mesmo e rolou com a mulher e arrancou manojos de cabelos da cabeça da coitada que ficou no chão gritando e implorando socorro. Nunca mais ninguém chamou a Chica de mulher de zona.
De sábado e domingo, o Abílio a levava na missa. Chica punha o melhor dos seus vestidos decentes, empinava a cabeça e fazia questão de entrar na igreja e se sentar com o marido na primeira fileira de bancos e ficava com o nariz empinado o tempo todo até abria a bíblia quando o santo padre mandava e fazia cara de quem entendia tudo. Há, há, há, ela não sabia ler!
Diz que ia entrar na escola só para poder acompanhar o santo padre na hora que ele lesse a bíblia.
Ela deu volta por cima mesmo, pois até a santa hóstia ela foi tomar. Quem viu quem vê, como o mundo da voltas. O que ninguém acreditou mesmo foi na procissão de nossa senhora das Dores, quando olharam uma das mulheres que carregava o andor da santa, quem era? A Chica, toda de branco e fazendo aquela cara de coitada que todas as beatas de interior fazem quando estão nas proximidades do vigário.
Às vezes em algumas tarde Chica ia no portão de um vizinho buscar pó de café. Ela fazia um bolo de fubá que nem cachorro comia, porque não sobrava. O Abílio fez várias canecas de lata de margarina e ela enchia as canecas de café e cortava bom pedaço de bolo de fubá e dava para as mais amigas, todas sentavam no chão de tijolos da casa dela e comiam e recordavam o passado não muito distante e era só risadas de felicidade.
O Abílio fez guarda-louças de madeira e todo sábado a Chica arrumava jornais e repicava para fazê-los de toalhas para os compartimentos do armário novo.
A casa era simples, o Abílio passou vermelhão no chão e ela encerava todos os sábados. A casa parecia um brinco, com êsmero tudo em seu devido lugar. A Chica tinha dois cachorros também; um chamava sonho porque era branco e peludo como algodão e a outra chamava-se neguinha. Achavam engraçado porque às vezes o Abílio gritava “ Neguinha” a cadela e a Chica olhavam ao mesmo tempo e ele ria. Às vezes quando alguém chegava sorrateiramente na casa dela ela estava olhando para a cadela e cantava assim: “Lili é uma boneca, que fala, que chora e que ri... Ai Lili ai Lili ai lô.” As pessoas se encantavam e não atrapalhavam até que ela terminasse de cantar.
Ah! Chica como todos gostavam dela. Meu marido se chama Carlos e quando ele ia comigo na casa dela o Abílio o convidava para jogar cartas e ele aceitava. A Chica cantava quando via o Carlos aparecer: “Calu! Calu tira o verde desses olhos não é seu.” Ai o Carlos respondia que seus olhos não eram verdes e ela retrucava dizendo que só cantou por cantar.
A Chica engravidou e pariu por duas vezes, na primeira trouxe uma menina e na segunda trouxe um menino. Eles cresceram, se casaram e a Chica se tornou avó, os netos também casaram e os cabelos da Chica embranqueceram e um dia a Chica morreu de velhice.
Semana passada me deu uma baita saudade da Chica quando liguei o radio e alguém estava cantando:
“O mundo gira depressa e nessas voltas eu dou,. Cantando a canção tão feliz que diz ai Lili ai Lili ai Lô”
Senti que meus olhos arderam e sem que eu menos esperasse rolou uma lágrima calma dos meus olhos já tristonhos.
A lembrança me levou para aquela cidade do sul de Minas e eu chorei de saudade da Chica. Carlos me olhou muito tristemente e percebeu que eu havia me lembrado dela, pois ele também lembrou, acariciou minha cabeça puxando-me para junto de seu peito e eu percebi que uma lágrima vinda dos olhos dele molhou meu braço, ai ele disse.
___Ah Chica, Chica!...Que saudade de você.

Fragmento retirado do meu livro Biografias "Divinas Divas do Seculo XX"
José Carlos Ribeiro/Escritor

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