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   > MEMÓRIAS DE UM LAVRADOR



José Azevedo Amâncio
      CONTOS

MEMÓRIAS DE UM LAVRADOR

Foi meu Avô quem colocou aquela marca em mim, por isso eu era daquela cor, preto. Também por isso o Enoque nasceu preto; grande parte da minha descedência nasceu escura, como tudo era no Princípio. Eu não me incomodava um tanto que fosse pela minha coloração, e nem alongava a túnica para as extremidades do meu corpo tentando ocultar minhas canelas e braços. Às vezes e não pouco, eu campeava por essas terras com minhas vergonhas à amostra. Os construtores de poços e pastores desleixados se riam de mim, uns mais exaltados, me abominavam, mas cautelosos, pois eram sabedores do sinal que meu Avô pusera em mim para que qualquer um que me encontrasse caminhando errante por essas terras, não me ferisse de morte. Mas eu é que me punha a rir deles e dos filhos que eles descendiam com as irmãs. Eu corria nu pela minha cidade, ultrapassava os portões, ia além, beirava as terras de Lameque, rumava para o extremo Oriente, contornava por Canes e retornava para Node, cá. Mas se meu avô pensou que me fustigaria, assim como o homem fustiga o seu gado, pondo em mim essa maldição, Ele estava enganado. Na hora, confesso, estremeci ante a sentença, não lograva de como tangeria o viver fora dos arredores de Havilá; sem banhar-me no Pisom, sem a companhia do bdélio, das pedras de ônix, e eu nem mesmo sabia se o ouro das outras terras, se nelas houvesse, seria tão reluzente quanto o dali. Não era tanto pelo tesouro que eu reclamava, mas sim pelo laço de amizade que havia atado com Havilá. Só por isso estremeci e quase caí por terra quando ouvi aquele derradeiro ultimato. Mas logo que me retirei para as terras de Node, ao oriente do Édem, já com o sinal em meu Templo, aquele pesar de outrora abandonava-me aos poucos. Meu corpo fora marcado, assim, qualquer um que se levantasse contra mim, de morte, seria castigado sete vezes. Eu não corria perigo. Meu Avô me despachou para fora dos limites de Havilá e Cuxe, cheguei as terras de Node, lá coabitei e gerei meu segundo filho, a que pus o nome de Enoque. Em Node também edifiquei uma cidade para ser lembrado entre meu povo, e chamei-lhe Enoque, o mesmo nome de meu segundo varão.

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II.

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“Onde está Abel, teu irmão?”, meu Avô já sabia que eu o tinha ferido; Ele estava sendo cínico. Não sei, respondi; acaso, sou eu tutor de meu irmão? “Que fizeste? A voz de teu irmão clama por mim.” Eu não sabia que matar era tão grave, nem na hora que fui expulso para as terras do Oriente soube o tamanho da afronta que havia cometido. Pelo meio do caminho que compreendi aquele tufo que eu sentia dentro de mim desde que tinha matado meu irmão. Aquilo me incomodava, era pior do que o enfado, a dor e a ira que meu corpo hospedava quando meu Avô se agradou, sobremaneira, da oferta de meu irmão, e não da minha, naquele sétimo dia. Aquela dor era passageira, tanto era que, quando açoitei Abel com a saraivada de pedra no crânio, ou mesmo antes disso, quando caminhávamos para o campo perto da floresta onde adubei o Mica, o pequeno pé de palmeira que um tempo atrás ali o havíamos plantado, eu já me sentia melhor. Sim… era real, eu já podia amar de volta. Mas ao olhar para meu irmão, ali no chão, feio agora - pois sempre foi formoso -, e ao ver que a formosura que sempre andou com ele, se dissipara, e reparando que não se levantava, de maneira alguma - só se batia - (parecia que estava mangando de mim, como sempre mangava nas vezes que íamos para o campo juntos: jogava pedrinhas na minha nuca quando eu ia a frente; quando íamos ao Pisom, ele me empurrava pra perto de uns peixes que davam um tremelique estranho), ao ver que ficava estendido por terra, senti um desconforto não maior que aquele que sentia antes de matá-lo, mas mais eterno. Pensei que conviveria com aquilo por longos anos. Meu Avô retomou: “És agora, pois, maldito por sobre a terra, cuja boca se abriu para receber das tuas mãos o sangue de teu irmão. Quando lavrares o solo, não te dará ele a sua força; serás fugitivo e errante pela terra.” E despediu-me com o negrume na pele.

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III.

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Papai e mamãe… Altos, bem altos. Papai era da altura de doze côvados e um palmo. Mamãe media nove côvados inteiros. Ah mamãe!, como era viçosa e formosa. Não sei se ainda vive, mas sei que era formosíssima. Eu sentia um sentimento, se é que era, muito esquisito por ela; queria que deitássemos, queria a possuir por mulher. Não sei se Abel sentia o mesmo, talvez não; ele ficava só com o papai: os dois se riam juntos, viviam galhofando por Cuxe, e quando retornavam, narravam os gozos que tiveram tangendo o rebanho e banhando-se no Giom. Foi numa dessas partidas dos dois a Cuxe que eu me vi sozinho, com Eva. Estávamos em nossa habitação - naquele tempo, nem nos víamos habitando em tendas, como de meu tetraneto Jabal para lá começou a se habitar. Vivíamos pelo campo, pela floresta mesmo, e os anjos supriam qualquer necessidade nossa a mando do Vovô. Mas nesse momento Ele não existia pra mim, apenas Eva. Eu não sei por que a estou chamando de Eva, talvez porque naquele momento ela não fosse minha mãe. Eva estava deitada, quase a dormir num tronco crespo de cipreste. Eu estva em pé, parado, a observá-la. Quando notou minha presença, Eva deu um salto e botou seus olhos quase pra fora. Ela viu minha brancura, mais do que a tez branca habitual. Verdade, eu estava sem cor, suarento, e tremia como quando Abel empurrava aqueles peixes estranhos pra cima de mim e eles me tocavam. Eu fui em frente, disposto a fazer um filho com ela. Agarrei-a, tirei a pele de cordeiro que a cobria, tomei seus braços, os abri contra o tronco do cipreste, pus minhas pernas por entre as suas, empurrei-as com as minhas em extremidades opostas e feito. Eva estava lá, nua em minha frente; não se manifestava, com um olhar barrento. Suas vergonhas estavam ali, expostas. Seus seios, os seios que me amamentaram, dos quais não mos lembro quando ofereceram-se a minha boca, também ali estavam, para eu lembrar por onde fosse. Despi-me sem a soltar, ela não oferecia nehuma revolta. Deitamos por entre a folha seca caída, por entre a terra gelada que era sufocada pelas folhas, por sobre as pragas que ferroavam as costas de Eva, pela raiz saliente que corria do cipreste, e passado um tempo, por sobre o suor que seguia o curso que vinha do meu queixo, gotejava nos seus seios, escorria até as linhas ocidente-oriente da sua garganta, lá se confundia e se empoçava com o seu suor, e juntos os suores, desciam numa só carne o seu pescoço roliço em direção ao chão.

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IV.

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Eva deu à luz ao meu primeiro filho, a que ela mesma chamou Sete. Papai sempre pensou que Sete era seu filho, o filho que viera no lugar de Abel. Porém o menino parecia de todo comigo, antes de eu ser marcado. Matei Abel porque ele foi injusto. Quando acertamos em levar o melhor de nossa renda ao Vovô, e fomos colher o que presenteá-lo, Abel foi desleal. Estávamos a procurar nossa oferta no sexto dia, passamos o dia selecionando a oferenda. Mas quando o pôr-do-sol já se mostrava, eu parei minha colheita. Entrava o sétimo dia, o dia em que Deus descansou de toda sua obra, e por isso o abençoou e o santificou. Mas Abel continuou ajuntando uns carneirinhos do rebanho, já no sétimo dia! Quando pois, fomos até nosso Avô, mostra-lhe nossas oferendas, Ele se agradou, sobremaneira, da de Abel, por ser mais pomposa e rica que a minha. Mas também pudera… Deixei minha oferenda sob os olhos do Ofertado e retirei-me com um sentimento novo, eu estava irado. Algo me açoitava por dentro, descaí o semblante. Enquanto caminhava me remoendo em intensas inquisições, ouvi a voz dEle: “Por que andas irado, e por que descaiu o teu semblante?” Ele me conteve no mais alto de minha ira, ao ouvir sua voz, ergui a cabeça e desenrijei a face. Parei, e uma força provinda não sei de que ventos, induziu-me a procurar reverência ante Ele, e ser consoante com o que dizia. “Se procederes bem, não é certo que serás aceito? Se, todavia, procedes mal, eis que o pecado jaz à porta; o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo.” Imóvel eu ainda esperava mais de Suas palavras, que nesta vez não as dei atenção - pois estava envolvido em alguns pensamentos doidos. No entanto, não houve mais voz nenhuma. Comecei a correr e não parei até chegar às margens do Pisom. Mamãe estava se banhando na beira. Quando percebeu minha presença ela saiu da água e correu, tão instintiva, que esqueceu da pele de cordeiro que deixara estendida por sobre uma pedra. Correu nua para os campos do Oriente, onde o papai estava campeando. Mamãe correu com força. Eu ainda fiquei olhando seu cabelo balançar pra lá e pra cá enquanto ela corria… Depois mergulhei no Pisom e por lá fiquei durante duas luas cheias. Por esse tempo juntei a ira que vinha sentido. Lembrei de cada passo meu e de Abel naquele nosso pequeno divertimento de agradar a Deus. Lembrei-me que sentia algo que me incomodava ao olhá-lo e ver que sua oferta era demasiado formosa; e esse sentimento se cravava mais em mim quando eu comparava nossas dádivas. Eu sentia vontade de abandonar os frutos que ajuntava, e partir em tomada dos cordeirinhos e ovelhinhas que meu irmão angelicalmente, como aqueles arcanjos de quatro asas que eu via pairar sobre nossas cabeças, os decepava o pescoçe e os batia na cara. Era cedo de manhã quando me levantei da água e fui me secar na relva, já com meu estratagema formado contra Abel. Meus pais voltaram flanqueando pelo Ocidente e ficaram à distância de um tiro de arco de mim. Estavam parados, muito parados, à sombra de uma sapopema - meu pai olhando pra mim, não piscava, era como se tivesse morrido. Só as bochechas que tremiam, ondulavam, muito espevitadas. Mamãe estava atrás do papai, quase dentro dele de tão encostada que estava. Ela se escondia atrás dele, deixando só metade do seu corpo à amostra. Ela também olhava pra mim, mas não com a mesma profundidade do papai. Eles estavam duros, especialmente papai, e ele parecia mais torto também. Papai era torto, andava torto, fazia tudo torto, não se endireitava nem para falar com o Vovô. Ele pendia para um lado, dele faltava alguma coisa; e o braço ficava rendido, quase encostando na canela. Mamãe deu passos para trás, virou as costas, puxou os cabelos para cima dos seios, quedou o pescoço no ombro, e papai começou a esfregar as mãos na costa dela: de cima a baixo, de um lado a outro, nos flancos até o ventre e parava quando passava os dedos com uma delicadeza especial pelas ferroadas das formigas. Esfregava os dedos nos caroços. Doía em mim.

Virei meu rosto deles e corri. Não sei por que eu fazia aquilo, eu apenas corria. Na corrida, lembrei que tinha de fazer uma coisa. De súbito, desviei minhas pegadas em direção do Giom; tão abrupta foi minha virada de corpo, que por pouco não caí pelos abrolhos. Eu tinha que pegar Abel. Eu precisava dar na cara dele.

Quando cheguei ao Giom, Abel não estava lá, mas logo o encontrei pendurado num galho, se rindo. Convidei-o para uma caminhada no campo. Alegre e bem sorridente, ele tanto aceitou que saiu em disparada a minha frente. Para, para, para, mandei, com uma autoridade que eu não conhecia até então. Ele parou e me olhou com uma cara de cordeiro. Abel tinha cara de cordeiro, tudo que um cordeiro não podia fazer eu via se realizando nele. Se cordeiro risse, seri como ele rindo, idêntico. Pedi para que ele caminhasse do meu lado para conversarmos. Eu comecei a falar da morte, e o envolvi na conversa, até então, nem Abel e nem eu mesmo, sabíamos do que se tratava. Já tínhamos ouvido o Vovô falar a respeito, mas não conhecíamos de nada a morte. Eu até cheguei a pensar, de tolo que fui, que Abel voltaria para nós, como fazia quando ia ao campo. Mas não, ele não voltava assim, demorava bastante. Caminhando ao lado dele eu já não me sentia tão irado, mas eu tinha que castigá-lo, para que quando voltássemos eu pudesse lhe dizer, na frente do papai e da mamãe, que nunca mais fizesse aquilo comigo.

Chegamos perto de umas pedras, daquém do campo,  e Abel se sentou em uma delas, se rindo. Eu sentei do lado, mas não por muito tempo, porque a pedra que escolhi para sentar era pontiaguda e me machucava. E porque, já levantado, peguei a pedra, a suspendi, e deixei-a cair no crânio de Abel. Ele ainda olhou para mim antes do baque, aí ele não se ria. Abel estava caído na terra. Me ajoelhei para que ficasse mais cômodo a tarefa de golpeá-lo; tomei a pedra outra vez e atire-a na cara. Depois outra vez. Outra. E Outra. Eu fiz aquilo muitas vezes: pegar a pedra, levantar a pedra, e atirar a pedra bem no meio do nariz, ou do que ia sobrando dele. O sangue já não me deixava ver a sua cara de cordeiro, e a pedra já estava banhada pela metade com aquela água alegre. Bastava, ele já havia aprendido, tudo bem. Levantei-me, no entanto ele ainda continuava estatelado no solo. Era estranho, por que ele não se levantava? Achei que estava mangando de mim, como sempre mangava quando íamos ao campo e ao Pisom. Abel estava feio, se tremia. Ele não tinha mais a formosura de antes, não tinha mais face. Alguns mosquitos já infestavam aquele poço de sangue, outrora um sorridente rosto. Abanei minhas mãos por cima dali para espantá-los. De repente quedei minha mão na cara de Abel, enfiei lá dentro. Gostei. Estava gelado, mais gelado que as águas do Eufrates. Sem eu querer, com as mãos embebidas de sangue, estremeci e caí para trás. Adormeci, mas eu não queria de jeito nenhum adormecer. Dormi contra minha vontade, e eu não me lembro muito bem desse sono. Quando acordei, Abel ainda estava do meu lado; não se levantava, e algumas outras bestas já estavam o rodeando. Não pude enxotá-los, pois senti imediata vontade de aliviar o ventre. Um lobo começou a mordê-lo nos pés, mas eu não tinha forças para livrar Abel. Não, eu dizia, sai daí! não faz isso com meu irmão, enquanto agachado aliviava o ventre. Joguei pedras no lobo, ele correu com outros animais que importunavam meu irmão. Eu olhava para o firmamento, muito claro… como sempre deu de ser durante o dia. Mas toda aquela claridade já não era mais digna de ser vista, não por mim. Senti como se tivesse feito algo muito raro, que aquele firmamento, com aquela claridade, eram incumbidos de esconder. Mas eles haviam falhado, e agora eu ficava olhando secamente para eles. Pareciam estar envergomhados, tentavam fugir mas não conseguiam. Estavam ali, expostos, estendidos, queriam enrolar-se como um embuá. Mas não podiam.

Depois de ter aliviado o ventre, vi um pé de palmeira que crescia perto de umas plantas que davam especiarias. Recordei-me daquele pé, era o pé que, não fazia muito, papai, Abel e eu, havíamos o pantado ali. Nós demos a ele o nome de Mica. O Mica tinha crescido depressa, com certeza aquele bocado de terra era fértil. Peguei meu cocô e coloquei-o na raiz do Mica, para que crescesse formoso entre as outras árvores. Olhei para Abel, ele ainda estava deitado; outra vez um sentimento forte me assolou e me fez correr. Tomei Abel do chão, o pus em minha costa e saí correndo na direção que me deu na vista. Eu corria, tropeçava, dobrava um pouco os joelhos como se fosse desabar em algumas partes, mas logo retinha as pernas firmes, e continuava. Com Abel nas costas, o pesado Abel, eu corria em direção ao Édem, já podia ver a espada refulgente que selava a entrada do Jardim. A princípio, eu corria para qualquer canto, mas quando enxerguei o Édem ao longe, soube que era para lá que realmente queria correr. Agora eu já via os querubins que guardavam a Árvore da Vida; eu corria como se fosse rasgar o Jardim, e se alguém se pusesse em minha frente, eu poderia despedaçá-lo. Debaixo daquele firmamento quebrantado, os querubins que viam minha desmedida fúria, baixaram voo como se suas asas tivessem sido decepadas, e me olharam com o mesmo olhar com que Abel me olhou quando eu estava com a pedra suspendida acima da minha cabeça prestes a atirar na dele. E quando os querubins, já no chão, começavam a dar passos para trás, meu Avô fez soar Sua voz.  Eu caí. Abel rolou a frente… desmedido… Para, para, para!, eu dizia, mas ele não obedecia mais… Meu Avô perguntou onde estava meu irmão, para passar na minha cara. Eu dei-lhe uma resposta. Não gosto dessa parte, é melhor eu parar por aqui.

V.

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Segui para o Oriente do Jardim, e desde aí, nunca mais vi minha mãe, meu filho Sete, e meu torto pai. Cheguei as terras de Node: lá vi varões que apascentavam, cavavam, mães que contavam a história de um tal de Gilgamesh a seus filhos -  eram todos felizes em comunhão uns com os outros. Fiquei a observá-los por um tempo sem apresentar-me a eles, não queria que se assustassem com minha cor em vão. Depois de um tempo escondido, senti que era a hora de sair do meu esconderijo e entrar na cidadela, se é que assim eu poderia chamá-la, depois de muitos anos que ajeitei a cidade. Mas para o tempo, o arruado era grande coisa.

Entrei, e para estabelecer minha estirpe ali, tive de matá-los - os varões, suas companheiras, e seus filhos sorridentes que me diziam para eu ter cuidado com um outro tal de Humbaba. Descobri que eles morriam, assim como Abel. porém, ao contrário de meu irmão, eles não voltavam. Abel voltava para conversar comigo em Node de quando em quando, era só eu ficar sozinho de noite e pensar nele. Mas de uns tempos para cá ele não veio mais, desapareceu sem avisar ao menos. Tenho para mim que Abel morreu de velhice.

A cidadela estava deserta, corpos pelo chão, pelas cabanas, no capim. Desviando dos corpos e da terra encarnada - em razão do sangue - que cobria meus pés, passando pelas habitações derrubadas dos pobres homens, andando pelo capim crescido que abundava pela região, sentindo a brisa quase inesxistente que se perdia pela minha barba densa, cheguei a um poço que ficava a dois tiros de pedra do acampamento, perto de uma jeira onde de lá uns bois velhos me olhavam estranhamente. O poço era fundo, a água era pouca, e além do mais barrenta, já que os cavadores dali, fizeram aquele poço com a boca muito rasa, o que fazia a terra entrar facilmente a medida que o vento soprava. Passei meu rosto por sobre o poço, vi-o na água - havia um tempo que eu sentia meu rosto errado, meus olhos fuscos. Eu não estava enxergando bem. Quando me olhei na água, vi que a coloração preta da minha pele havia saído, passei as mãos pelos braços e a tintura desbotava. Ao olhar meus rosto na água também vi, e o susto foi grande, que meus olhos estavam puxados. Por pouco não caí dentro do poço perdendo o equilíbrio. de um salto para trás, me afastei do buraco. Parei, olhei para a água de novo, refleti profundamente sobre algumas coisas. Depois comecei a correr. Sinceramente, eu não sei por que corria. Eu apenas corria, corria e corria mais ainda.

                                                          Davi Soledade, 16/01/2010



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