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   > O JIPE DA CARMINHA



Isis Berlinck Renault
      INFANTIL

O JIPE DA CARMINHA




D. Zilah está costurando. Quico se aproxima da mãe:
-Mamãe...
-Que é, Quico?
-Já pensou?
-Pensou em quê, meu filho?
-Se você vai me dá o jipe. Você disse que ia pensar.
-Sim, mas só tem dois minutos que eu disse. Dá um tempo, tá?
-Depois do almoço você já pensou?
-Escute aqui, meu filho, vá brincar, vá. Deixe a mamãe costurar sossegada.
-Brincar com quê?
-Como brincar com quê? Então você não tem brinquedos, menino?
-Jipe eu num tenho.
-Sim, não tem jipe. E daí?
-Daí que eu queria um. Eu já disse pra você: igualzinho ao da Carminha. Aí eu ia brincar o dia inteiro.
-Meu Deus do Céu, Quico! Você quando cisma com uma coisa é fogo, hein? Escute aqui, a Carminha mora no térreo. Nós moramos no terceiro andar. Ela não precisa descer escada nem elevador. Já pensou que trabalhão danado você vai ter pra levar o jipe toda vez que quiser brincar?
-Mas eu num ligo nem um pouquinho de levar ele, não. Você vai me dá, num vai?
-Sei não. Já disse que vou pensar. Agora vá brincar, vá.
-Puxa, mãe!
E lá vai o Quico resmungando. Ele cismou que quer um jipe igual ao da amiguinha e quando ele cisma com uma coisa, não desiste fácil, não... Passa pelo irmão mais velho, o Carlos José.
-Vamos jogar bolinha de gude? pergunta o Carlos.
-Eu não. Vou andar de jipe com a Carminha.
-Aquele calhambeque horroroso?
-Horroroso é você! Tá é com inveja.
-Inveja daquilo? É ruim, hein?
- Pois eu vou ganhar um igualzinho ao dela.
- E quem disse que você vai ganhar?
-A mamãe, claro. Ela disse que tá pensando. Que depois ela vai me dá.
-Conversa. Vai dá nada.
-Vamos apostá ?
-Eu não! Não vai ganhar mesmo!
-Vou e vou!
-Duvido.
Quico deu de ombros, resmungando “Azar o seu” e foi brincar com a Carminha e seu precioso jipe.
À noite D. Zilah põe os filhos na cama: Carlos José, Ricardo Augusto e Cláudio Victor. Ela gosta de pôr dois nomes nos filhos. Diz sempre que se tiver uma filha vai pôr o nome de Anne Crystal. Mas pra todo mundo eles são: Cacá, Rica e Quico.
Aposto como você já sabe quem é o Cacá, quem é o Rica e quem é o Quico...
Mas, como eu ia dizendo, D. Zilah está pondo os filhos pra dormir. Carlos dorme logo. Ricardo também. Cláudio deitado de costas, com os olhos muito abertos, está olhando o teto. A mãe estranha. Ele é sempre o primeiro a dormir.
-O que há, meu filho? Não está com sono?
-Tô, mas num quero dormir.
-Que novidade é essa agora, Quico? Como não quer dormir?!
-Quero ficar acordado pra pensar.
-Pensar?... Pensar em quê, menino?
-No jipe. Se eu pensar bem fundo nele, a senhora resolve me dá é?
-Não é, não .Que idéia mais boba! E sabe o que mais? Seu Anjo da Guarda já deve estar é morto de cansado de ficar tomando conta de você o dia todo. Você não acha que já está na hora dele descansar, hein?
-Se eu dormir ele dorme também?
-Claro. Agora me dê um beijinho e procure dormir, tá?
Quico pensa por alguns instantes. Depois se senta na cama, abraça a mãe, dá –lhe um beijo demorado e diz:
-Tá. Boa noite, mamãe.
-Boa noite, meu filho. Durma bem.
-Mãe...
É Ricardo que acordou e escutou a conversa da mãe com o irmão.
-Hum?...
-Anjo da Guarda tem nome?
-Não sei, meu filho. Vai ver, tem, não é?
-Eu bem que ia gostar de saber o nome do meu Anjo da Guarda.
-Mãe – interrompe Quico.
-Que é agora, Quico?
-Eu acho que o Miguel, meu Anjo da Guarda, também quer um jipe igualzinho ao da Carminha.
-Como é que você sabe o nome do seu Anjo? - espanta-se Ricardo.
-Eu batizei ele.
-Batizou?!
-Batizei. E ele me disse que adora jipe.
-Está bem, Quico. Agora chega de conversa, tá? Vocês vão acabar acordando o Carlos. Não se esqueçam de que hora de dormir, é hora de dormir.
-Eu vou batizar o meu também.
-Tá, tudo bem. Mas agora boa noite e durmam, por favor!
D. Zilah fica por uns minutos olhando, cheia de carinho, seus três filhos. Fecha a porta sem fazer barulho e vai para a sala, onde está Alfredo, seu marido.
-Você já tá sabendo qual é, agora, a novidade do Cláudio?
-Ele está louco por um jipe, não?
-Não fala em outra coisa.
-É. Tô sabendo. Ele falou comigo também. E eu disse que falasse com você.
-E ele obedeceu direitinho, claro. Acredita que até o Anjo da Guarda ele já botou no meio?
-Quem sabe a gente dá o jipe pra ele? O quê você acha?
-Bem, pelo menos ele deixa de me perturbar por uns tempos. Espero!...

* * *


No dia seguinte Quico é o primeiro a se levantar.Ao tomar seu café da manhã, conversa com a mãe.
-Mamãe, eu fui bonzinho ontem à noite. Dormi direitinho. Você vai me dá o jipe, num vai?
-Tá, Quico! Você venceu! Vou dar o jipe pra você! Mas não se fala mais no assunto! Depois do almoço nós saímos e compramos o bendito desse jipe...
-Mesmo? Viva! Mamãe, você é a maior!
E dá um pulo da cadeira.
-Cuidado, Quico, vai entornar o mingau na mesa. Que menino mais estabanado, meu Deus! Acabe de comer, menino!
Mas Quico nem ouviu. Já está correndo em direção ao quarto.
-Cacá, Rica! Acordem! Vou ganhar o meu jipe!
-Ahn? Que foi que você disse?
-Disse que vou ganhar o meu jipe! Mamãe disse que vai comprar ele hoje mesmo!
-Jura? Que legal! Deixa eu ser o primeiro a andar?
-Deixo. Depois de mim, claro.
Fazendo uma cara de vencedor provoca Carlos:
-Você num disse que eu não ia ganhar? Bem feito. Perdeu a aposta.
-Perdi coisa nenhuma, que eu não apostei.
-Mas se tivesse apostado, ia perder!...
Ricardo interrompe:
-A mamãe disse quando é que ela vai comprar?
-Hoje, depois do almoço. Quer ir com a gente?
-Quero.Posso escolher a cor?
-Nem precisa. Eu já escolhi. Vai ser da cor do da Carminha. Agora eu vou lá correndo contar a novidade pra ela.
Quico mal consegue esperar a hora do almoço. Mal acabou, foi logo correndo para o quarto se arrumar, nervoso com a demora dos irmãos. Todos prontos, saem na maior algazarra, pra desespero da pobre mãe.
Na loja, Quico não pensa duas vezes: vai direto ao jipe vermelho.
-É esse que eu quero.
-Eu acho o azul mais bonito.
-Eu também.Muito mais bonito - disse Carlos.
-Mas ele vai ser meu e quem tem de escolher a cor sou eu mesmo. Eu acho o vermelho o mais bonito de todos, e pronto! E depois, eu disse que queria um jipe igual ao da Carminha, num disse? Então? Se o dela é vermelho, o meu tem que ser vermelho também!
-Tudo bem, Quico, chega de discussão. Leva o vermelho e não se fala mais nisso.
Voltam todos para casa na maior alegria. Algum tempo depois, que para Quico pareceu uma eternidade, o jipe foi entregue. Na mesma hora, todos descem para brincar. D. Zilah, depois de muitas recomendações, deixa os meninos brincando e vai trabalhar.
Quando volta, leva o maior susto. Bem no meio da sala está o jipe. Sem farolete, sem uma porta, com o pára-lama amassado, a pintura arranhada... Um horror!
Irritada, repreende o filho:
-Cláudio Victor! Mas o que foi que você fez com seu jipe, menino? Então você me atormenta não sei quanto tempo pra ganhar um, e logo no primeiro dia, estraga ele desse jeito! Ora já se viu uma coisa destas? Será que o senhor pode me explicar o que foi que aconteceu?
Quico está calmo e, com a maior naturalidade do mundo, responde:
-Mas mamãe, eu disse pra você que queria um jipe igualzinho ao da Carminha. Num disse? Então? Agora ele está igualzinho...

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