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   > PRESIDENTE! O SONHO ACABOU...



Airo Zamoner
      CRôNICAS

PRESIDENTE! O SONHO ACABOU...

Ele esfregou os olhos como criança. Piscou várias vezes.
A penumbra da manhã impúbere digladiava contra a noite rebelde, envelhecida, teimosa. Ela sabia de sua derrota cotidiana, desistiu e se encolheu, aguardando escondida em conhecidos cantos inabitados. Conformada, sabia da vitória certeira contra a iluminação do dia que murcharia dentro de algumas horas.
Ele voltou a esfregar os olhos remelentos, sentir o sonho recém apagado.
A agenda do dia disparou assessores pelas quinas do palácio. Desde os primeiros dias de poder, não havia mais tempo para devaneios infantilóides e o sonho se dissipava no emaranhado confuso das marchas e contra-marchas, dos argumentos e contra-argumentos, das possibilidades e impossibilidades, todas ignoradas no longo, muito longo e mal feito vestibular da posse.
Perdido nas solenidades intermináveis, descarregava seus discursos atabalhoados, mesclados de ansiedades e perplexidades, arrancando muitos aplausos e isoladas ironias.
A manhã aflorou com veemência o cansaço da impotência inesperada. Impelido por horários inexoráveis, levantou e engatinhou por espaços majestosos.
O sonho de há pouco, dissipado pelas campainhas despóticas, e estridentes a soar na consciência estarrecida, metamorfoseou-se no sonho vendido em abundância nas praças e que, de uma hora para outra, rareava perigosamente. A escassez do sonho poderia transformar aplausos em apupos e isto ele não suportaria.
A fome incomodava as entranhas. Fechado no banheiro real, sentado para desfazer-se da fome abundantemente saciada no dia anterior, apreciava o vasto ambiente e sentia uma satisfação inusitada pela amplitude, sofisticação e conforto.
Saciar a fome, porém, era imperativo para o primeiro passo do dia. Com ela viva e barulhenta nada andaria, mas sua perturbação maior era com a fome de sonhos e, lateralmente, com aquela mais distante que tanto queria eliminar, espalhada que estava pelos cantões do reino.
Ainda sentado, angustiava-se com a demora de findar sua tarefa. O pensamento vagava pelo calendário, imaginando quanto ainda faltava para chegar um sábado, um domingo. Aí sim, poderia esquecer os tais sonhos e mergulhar nas delícias da carne assada, nas brincadeiras adultas mal compreendidas pelos sonhadores fabricados por ele, dia a dia mais impacientes.
As divagações próprias da simplicidade de sua mente eram repetidamente quebradas nos apelos lá de fora sobre horários e compromissos, irritando-o sobremaneira.
A enxurrada de água tubulação abaixo, finalmente quebrou o silêncio. Voltou para os aposentos, acompanhado por um séqüito bajulador e sentiu-se profundamente rei. Elogios às mancheias o deixavam orgulhoso de si mesmo em toda a plenitude de sua formação peculiar. Mas o que o incomodava muito naquele momento de dar a largada para mais um dia, mais viagens, mais discursos, mais aplausos, era o maldito sonho. O prometido sonho que não chegava e o torturava, ameaçando sua estabilidade e a estabilidade da nação inteira.
Sentou-se à mesa. Inspecionou a multidão de pratos, frutas, doces, bolos, cremes, queijos, sucos e paralisou-se, fechando do cenho. Olhou enfurecido para seus servidores. Esbravejou:
– Não é possível! O que houve? Vocês sabem que sem isso não consigo tomar meu café.
– Desculpe-nos, presidente! O confeiteiro ficou doente e o sonho acabou!


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