Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (651)  
  Contos (939)  
  Crônicas (730)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (202)  
  Pensamentos (640)  
  Poesias (2496)  
  Resenhas (129)  

 
 
Kalls - Amanhecer
Diego Lincoln Campos
R$ 42,90
(A Vista)



Sobre gatunos e...
Erasmo Júnior de Melo...
R$ 49,60
(A Vista)






   > PRESIDENTE! O SONHO ACABOU...



Airo Zamoner
      CRôNICAS

PRESIDENTE! O SONHO ACABOU...

Ele esfregou os olhos como criança. Piscou várias vezes.
A penumbra da manhã impúbere digladiava contra a noite rebelde, envelhecida, teimosa. Ela sabia de sua derrota cotidiana, desistiu e se encolheu, aguardando escondida em conhecidos cantos inabitados. Conformada, sabia da vitória certeira contra a iluminação do dia que murcharia dentro de algumas horas.
Ele voltou a esfregar os olhos remelentos, sentir o sonho recém apagado.
A agenda do dia disparou assessores pelas quinas do palácio. Desde os primeiros dias de poder, não havia mais tempo para devaneios infantilóides e o sonho se dissipava no emaranhado confuso das marchas e contra-marchas, dos argumentos e contra-argumentos, das possibilidades e impossibilidades, todas ignoradas no longo, muito longo e mal feito vestibular da posse.
Perdido nas solenidades intermináveis, descarregava seus discursos atabalhoados, mesclados de ansiedades e perplexidades, arrancando muitos aplausos e isoladas ironias.
A manhã aflorou com veemência o cansaço da impotência inesperada. Impelido por horários inexoráveis, levantou e engatinhou por espaços majestosos.
O sonho de há pouco, dissipado pelas campainhas despóticas, e estridentes a soar na consciência estarrecida, metamorfoseou-se no sonho vendido em abundância nas praças e que, de uma hora para outra, rareava perigosamente. A escassez do sonho poderia transformar aplausos em apupos e isto ele não suportaria.
A fome incomodava as entranhas. Fechado no banheiro real, sentado para desfazer-se da fome abundantemente saciada no dia anterior, apreciava o vasto ambiente e sentia uma satisfação inusitada pela amplitude, sofisticação e conforto.
Saciar a fome, porém, era imperativo para o primeiro passo do dia. Com ela viva e barulhenta nada andaria, mas sua perturbação maior era com a fome de sonhos e, lateralmente, com aquela mais distante que tanto queria eliminar, espalhada que estava pelos cantões do reino.
Ainda sentado, angustiava-se com a demora de findar sua tarefa. O pensamento vagava pelo calendário, imaginando quanto ainda faltava para chegar um sábado, um domingo. Aí sim, poderia esquecer os tais sonhos e mergulhar nas delícias da carne assada, nas brincadeiras adultas mal compreendidas pelos sonhadores fabricados por ele, dia a dia mais impacientes.
As divagações próprias da simplicidade de sua mente eram repetidamente quebradas nos apelos lá de fora sobre horários e compromissos, irritando-o sobremaneira.
A enxurrada de água tubulação abaixo, finalmente quebrou o silêncio. Voltou para os aposentos, acompanhado por um séqüito bajulador e sentiu-se profundamente rei. Elogios às mancheias o deixavam orgulhoso de si mesmo em toda a plenitude de sua formação peculiar. Mas o que o incomodava muito naquele momento de dar a largada para mais um dia, mais viagens, mais discursos, mais aplausos, era o maldito sonho. O prometido sonho que não chegava e o torturava, ameaçando sua estabilidade e a estabilidade da nação inteira.
Sentou-se à mesa. Inspecionou a multidão de pratos, frutas, doces, bolos, cremes, queijos, sucos e paralisou-se, fechando do cenho. Olhou enfurecido para seus servidores. Esbravejou:
– Não é possível! O que houve? Vocês sabem que sem isso não consigo tomar meu café.
– Desculpe-nos, presidente! O confeiteiro ficou doente e o sonho acabou!


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui