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   > Falar com as plantas



Vicência Jaguaribe
      CRôNICAS

Falar com as plantas

            A vizinha, sempre que viaja, deixa sua plantinha de estimação — filha única — em meu apartamento, para evitar morte prematura causada pela sede. Tem dado certo, mas, desta vez, estou a temer um desfecho infeliz. Não sei por que razão, o pequeno vegetal, que chegou em meu apartamento tão viçoso e tão alegre, de repente ficou triste e desalentado. As pequenas folhas estão caindo, e as que restam estão murchas, pendendo de galhos finos e sem nenhum vigor.
            Falta de cuidados não é, pois a Noêmia, minha secretária, cuida dela como cuida das nossas — que tenho algumas espalhadas no pequeno recinto que forma a sacada de meus dois quartos. Que estará acontecendo, então? Será que vegetais têm sensibilidade suficiente para se melindrar com a falta das pessoas, para sofrer com a mudança de ambiente? Já ouvi de muitas bocas — não sei se confiáveis — ser necessário que conversemos com as plantas para que elas fiquem viçosas. Um dia, queixando-me de que minhas plantinhas não iam pra frente, morriam com facilidade, a empregada de uma prima minha saiu-se com esta pergunta:
           — A senhora conversa com elas?
          — Ah! Paula, respondi. Eu não gosto de conversar nem com gente, imagine com planta.
         — Pois elas precisam de conversa.
       Mas a Paula é o que minha avó chamaria de cavilosa. Gosta de romancear os fatos sem graça do cotidiano. E aí eu fico sem saber se essa história de conversar com as plantas tem fundamento. Se tiver, e a plantinha de minha vizinha estiver acostumada a bater papo, encontra-se em maus lençóis hospedada em meu apartamento, porque, se eu converso pouco, a Noêmia é a própria personagem muda.
          Bem, mas será que é por isso que minhas plantinhas estão bem e, de repente, como por magia ou mau olhado, entristecem, murcham e morrem? Epa! Agora é que estou me lembrando que existe — ou dizem que existe — o tal do mau olhado. Minha mãe e minha avó contavam histórias variadas envolvendo esse poder paranormal de muita gente. Elas diziam que pessoas conhecidas e até amigas delas — e declinavam os nomes —, sem querer, faziam crianças novas adoecerem e plantas murcharem. Recordo que, muitas vezes, minha mãe mandava esconder um jarro de planta para evitar o olhar de alguém que ia fazer-lhe uma visita. Mas no meu apartamento não anda muita gente, ou melhor, não entra quase ninguém de fora. Quem poderia, então, ter obrado esse milagre às avessas.
          Eu sempre digo que não tenho mão boa para planta, seja lá o que signifique isso, na verdade. Mas o que quero dizer é que planta que eu mudo, que eu rego, da qual eu cuido, enfim, não ganha viço. Será que, como há olhos que matam (parece nome de filme americano, não parece?), há mãos que matam? Não, não as mãos que portas um revólver ou uma faca, ou que estrangulam, essas coisas que estão dentro da normalidade (?). Essas nós sabemos que matam, esfolam, esquartejam. Digo matam, sem armas, brancas ou de cor. Matam porque possuem poder paranormal. Isto é, mãos que têm força negativa? Porque mãos com força positiva, dizem que há. Existe, inclusive, a expressão impor as mãos, com um sentido bem específico. Em Mateus e em Marcos, nos Atos dos Apóstolos, por exemplo, aparece a imposição das mãos para abençoar e para curar. Mas, segundo um texto que li a respeito do assunto, no Novo Testamento a ação de impor as mãos era meramente simbólica: “As mãos não transferiam algo invisível, como uma corrente magnética, mas o gesto de impor as mãos era uma expressão visível do desejo por parte de quem o fazia de que Deus concedesse determinada coisa à pessoa sobre quem impunha as mãos. Era um gesto simbólico, apenas (www.fatos-biblicos.info)”.
          Bem, mas vejam onde fui parar! Comecei na minha sacada, com a plantinha da minha vizinha, e acabei na Bíblia. Esse movimento de libertação do texto em relação a seu autor sempre me fascina. Mas o que sei e posso adiantar, no término desta crônica, é que, quando minha ilustre amiga e vizinha de apartamento chegar, poderá ter de chorar por sua bela plantinha, que talvez tenha passado desta para melhor. Queira Deus ela não ache que foi falta de cuidados. De qualquer maneira — mas eu me lembrei disto agora, juro por Deus — esta crônica poderá ser um instrumento de defesa, caso ela queira me processar por maus tratos a um ser vivo.
 



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