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   > A VIÚVA FALIDA



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

A VIÚVA FALIDA


O engenho já não moía mais, a cana pelos campos secou. O mato tomou conta de tudo. Os negros novos fugiram, os escravos velhos ficaram porque estavam velhos demais para fugirem. A viúva do coronel Rego Dias sem saber o que fazer. O neto de seis anos, a filha maluca de trinta e sete anos. O genro bêbado, o Barreta. O filho que virou cangaceiro e fugiu com o bando de Lampião. Que vida! Que destino! O velho coronel Rego Dias morreu de cirrose. O mulato Dirceu, criado desde pequeno, quando perdeu a mãe na catinga, coisa triste perder a mãe na catinga. O sorridente negro Dirceu concordava com tudo. A dona Rosa, que vinha todo dia contar da sorte do coronel Rego Dias, um homem forte de engenho, perdeu terras e tudo, bebia como um gambá. A viúva Setembrina já estava com vontade de mandar a dona Rosa para o raio que o parta. Tomou uma resolução: iriam embora.
Pediu ao mulato Dirceu que arreasse duas mulas para o carroção e a outra mulinha e a égua. Que arreasse também o jegue Toronto, ele levaria no lombo o pouco que tinha da farinha de mandioca e a rapadura.
A viúva, o Barreta bêbado, a filha e o neto iam no cabriolé , o mulato ia a cavalo no alazão que o finado Rego Dias tinha comprado do turco Abud.
O mulato Dirceu ia na montaria levando atrás de si o jegue com a farinha e a rapadura.
-Pra onde vamos, dona Setembrina?
-Para Conceição do Igarapé. Tenho parentes lá.
E começaram a caminhada. A triste caminhada através da caatinga. A poeira, o Barreta enchendo o saco.
-Deitado em berço esplêndido... impávido colosso... Eu amo esse Brasilzão.
-Barreta, quer parar.
-Oh, minha sogrinha... Eu acho... eu acho...
-Você não acha nada. Cale a boca!
-Senhora Rego Dias, dona de engenho. A minha viúva preferida.
-Minha filha, o que você viu nesse homem?!
A viagem era infernal naquele sol. Mosquitos vinham em nuvem no final do dia. Aquele zumbido terrível. Mordiam toda a viúva. No Barreta não ia um mosquito que fosse. Dava a impressão que a pinga funcionava como um repelente natural.
-Pára isso!
-Que foi, Barreta?
-A natureza tá chamando.
A viúva puxou a rédea fazendo os animais pararem. Barreta desceu que nem um foguete. Já desafivelando as calças. Procurando uma moita. Que estivesse menos seca e que o escondesse totalmente.
A viúva do coronel Rego Dias, dona de engenho falida. Através da caatinga, fugindo da humilhação de ter perdido terras. A cana, seca pelos campos. Os escravos novos fugindo. Ali, parada no meio da caatinga. Esperando o maldito Barreta.
-Vamos, Barreta! Vamos!
A viagem seguia pela caatinga. Barreta contando piadas sem graça.
-Sabe... uma viúva chegou para o açougueiro e perguntou: Tem língua?
E o açougueiro respondeu: Tenho, óh!
O marido da mulher morreu, e aí seus amigos ficaram em dúvida, como contar pra mulher que tinha perdido o marido?
Pensaram, pensaram e chegaram numa conclusão. Chegaram para ela e disseram:
Se um dia uma cigana, lesse a sua mão e dissesse que hoje, exatamente hoje a senhora ia ficar viúva a senhora ia acreditar? Ela respondeu: claro que não. Então pode começara a acreditar. Ah, rá, rá.
Qual a diferença entre um ovo de galinha e uma viúva? Joga na parede, o que quebrar é o ovo. Ah, ra, ra, rá!
-Barreta, cale a boca.
Barreta, sempre bêbado, conheceu a filha da dona Setembrina numa festa do Divino. Como sempre chegou bêbado na barraca de tiro ao pato. Tirou a espingarda da dona Setembrina e deu o tiro. A rolha acabou acertando o pároco. Deu outro tiro e acabou acertando a testa do futuro sogro.
Barreta que um dia chegou em casa com um peixe e um aquário. Tão bêbado estava que pegou o peixe, encheu o aquário de pinga, e mandou o peixe lá dentro. Barreta, devia ter sido o desgosto do coronel Rego Dias. (Ele que costumava cumprimentar o sogro: “E aí, Zé Do Rego, como vai, gente boa!?”)
Encontraram um rio pelo caminho.
-Temos de atravessar o rio num trecho mais raso. -disse o mulato.
-Eu vou encontrar um trecho mais raso. -respondeu Barreta, cambaleante, -Pode deixar. Pode deixar...
Procurou, procurou com os olhos.
-Aqui. Aqui! O trecho mais raso.
-Será?
-Pode crer. Quer ver? -se atirou dentro d'água. Desapareceu. Daí uns segundos, surgiu. Com água pelo pescoço. -Bem, errar é... humano!
O mulato entrou dentro d' água, tirou Barreta pra fora, o puxando pelo cinto da calça por trás. Encontrou um lugar raso.
Atravessou o cabriolé. Barreta agarrado na lona da capota. Olhando de olhos arregalados para a água.
-Faz tempo que eu não bebia dessa água. Não me deixem cair de novo. Isso aí é água que gato bebe.  Aiiiiiii!
No momento do mulato atravessar, uma correnteza forte carregou o jegue com o resto de farinha e rapadura. O mulato tentou agarrar o jegue, mas não conseguiu. Naquele jegue não viajavam apenas farinha e rapadura, mas sim as jóias da dona Setembrina.
Que desgraça para a viúva Setembrina. Caminho afora naquele calor desgastante. Barreta e suas piadinhas.



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