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   > O retorno



ANDERSON GIBATHE
      CRôNICAS

O retorno


Já fazia mais de dez anos que não batia palmas na frente do portão enferrujado e comido pelo tempo, na velha Rua Quinze.
Pouco havia mudado, o pé de cedro mantinha suas folhas verdes, as quais troca todo ano. Sua sombra ainda forte se projetava sobre a calçada quebrada. Pouco tinha crescido, ou nada diante de meus olhos azulados e cansados, atrás dos meus óculos com bordas bem definidas. O velho cachorro rabujento, insistia em latir, porém em um tom fraco, já desgastado pela velhice. Era Jagunço, cão antigo e companheiro, mas não mais me conhecia.
Continuei a bater palmas na frente da antiga casa, com sótão, pintura quase apagada  pelo sol e pelas chuvas. Ou vi uma tosse profunda e um barulho de alguém caminhando lentamente pela velha casa, uma voz rouca perguntou-me quem eu era.
Meus olhos se encheram de lágrimas, pois reconheci a voz, fiquei sem palavras e meu corpo todo se arrepiou. A voz era feminina e tudo indicava que a pessoa que ali se encontrava estava sozinha.
Me identifiquei, mesmo sem enxergar a pessoa com quem eu falava, já sentia quem era. A velha porta se abriu e em frente aos meus olhos se projetou uma face cansada, com os olhos no fundo e um corpo corcunda apoiado por uma bengala de madeira que me chamando pelo nome, perguntou-me o porque de minha ausência por todos estes anos.
Respondi chorando que não estive ausente daquele lugar e sim, estive ausente de mim mesmo, falei do peso de meus sonhos, das verdades aprendidas, de meus medos, escombros e assombros que carregava em meus frágeis ombros.
Fui acolhido por um abraço forte e em prantos conversamos sobre os anos que se passaram, sobre a distância que separou nossas vidas e sobre o tempo que corrói nosso corpo e aos poucos nossa lucidez.
Ao entrar na casa via o velho quadro de “São João Maria”, profeta do Contestado já bem amarelado, servindo de abrigo para algumas aranhas marrons que ali habitavam, uma vela amarela queimava lentamente ao lado do quadro de São Jorge, o guerreiro do cavalo branco, caçador de dragões.
            Era o fim do começo ou o começo do fim. Falei de minhas decepções, de meus altos e baixos na vida financeira, social, amorosa e política.
Logo, comecei a ouvir, quando daquela mulher cansada saía uma voz fraca e, dentre outras frases que me chocaram esta me abalou:
-Quando jovem quisera eu dominar a natureza, hoje a natureza me domina.
Olhou vagarosamente para a caixa de remédio tarja vermelha e para seus livros sobre plantas medicinais dispostos numa mesa circular coberta com uma toalha xadrez com bordados de Ponto Cruz.
Deixei minha mala no chão, enquanto a senhora esquentava a água para bebermos um chimarrão e mais tarde um café, que seria servido com broa. Ao ver as fotos de família, os quadros de santo e os calendários de gatinhos brincando com novelos de lã, meu coração pulsou forte, pois tive inúmeras lembranças de tal casa e seus utensílios, quando lembre do meu tempo de infância. Ainda vi um pião e algumas latas antigas, senti forte nostalgia, meus pulsos aceleraram.
Continuamos a conversa e fatos me levaram a tentar explicar o motivo de minha ausência inexplicável. Sem êxito, deixei de arrumar desculpas e fiquei ouvindo as palavras de alento vindas de uma pessoa tão nobre, abandonada naquela casa de madeira, esperando o dia de sua partida. Quanto conhecimento armazenado naquela mulher guerreira.
Ousei ouvir mais, até que a água borbulhava na velha chaleira de ferro e, desde então começamos a tomar um amargo chimarrão, uma bebida sagrada, nobre e vital.
Há mais de 10 anos não visitava dona Francisca, ou melhor, Dona Chica. Há 10 anos abandonei-me e tentei fugir de mim mesmo se refugiando em casas estranhas, sem o cheiro humano. Era preciso, ter feito o que fiz, mas era difícil aceitar tamanho vácuo no coração. Ela também tinha seu vácuo, seus filhos quase nem a visitavam, achavam que ela estava caduca, decadente. Pura imaginação, ela tinha muito vigor. Senti meu peito se preencher com as palavras baixas, mas muito enérgicas de Dona Chica.
Começou a mostrar fotos, algumas bem antigas, vindas da Europa, outras de desfiles cívicos, casamentos e fotos de família. Remexeu alguns documentos velhos e resolveu me doar alguns deles, agradeci e guardei estes em minha mala, poderia ser útil um dia, pelo menos para ser uma amostra do tempo que passou. Havia a foto de uma Igreja, que me chamou a atenção, cartas amareladas e algumas folhas datilografadas.
O sol começou a se por, resolvi me despedir, recebi a bênção e em silêncio me retirei.
Passados dois meses uma carta chegou, dona Francisca havia morrido e seu velório foi no asilo, onde residia há 3 dias. Fiquei sem palavras, sou humano e meu coração ainda pulsa.
Nunca abandone ninguém. Nunca abandone você.
 
(Anderson Gibathe)
 
*Os nomes, fatos e relatos são fictícios. Qualquer semelhança é mera coincidência.



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