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   > O HOMEM



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

O HOMEM

            O HOMEM
           
            Eu pesco com um grupo bem diversificado em termos profissionais; contudo muito homogêneo, em se tratando de cumplicidade e companheirismo.
            Numa dessas pescarias, quando falávamos sobre justiça, avareza... coisas assim, um dos amigos cristão, preludiou uma história contada por seu pastor, para justificar aos irmãos a importância do dízimo.
            Meia-noite. Maré repontando. A rainha do alto exibia-se majestosamente para nós, todo seu corpanzil esbelto e desnudo. É hora do lanche. Momento ideal para se ouvir um bom caso. Daí, cobramos do parceiro detalhes da história prefaciada.
Ele iniciou dizendo que numa tarde, quando um agricultor labutava na roça, não percebeu que, por trás de seus pensamentos, um senhor se aproximava, afugentando seus fiéis companheiros.
- Boa tarde, senhor! - cumprimentou-o o forasteiro.  
- Boa tarde! Estava tão distraído cá com meus pensamentos que nem vi o moço chegar!
- Se eram bons, aceite minhas desculpas por tê-los assustado.  
- Nada importante. Apenas preocupação de quem depende da agricultura para viver. Logo, logo eles estão aqui de volta.
- Eu sei o que é isso.
- O moço, aí, também é agricultor?
- Ando por aí procurando e semeando boas sementes.
- Que tipo de semente?
- Das mesmas que as suas.
- Infelizmente esta safra eu vou me contentar com o pouco.
- Não é o que parece. A meus olhos, suas plantações prometem muito!
- Quisera que tudo estivesse como seus olhos veem. Mas, obrigado pelo estímulo.
- Qual a razão do pessimismo?
- Eu sempre comparo o vigor das plantas da época com as dos anos anteriores. 
- Entendo. Mas não é cedo para tanta preocupação? O milho nem está dobrando ainda!
- Decerto que sim. Mas, gostaria que tivesse visto a do ano passado. Aquilo, sim, é que foi safra!
- Eu vi, digo, fiquei sabendo.
- Verdade?
- Tanto que gostaria que me reservasse algumas este ano.
- Como soube?
- Por intermédio do seu pastor.
- O moço conhece o Reverendo Brás? E o que ele lhe disse?
- Que sua roça será abençoada com muitos frutos!
- Foi isso que ele me garantiu, ano passado. Disse que Deus ia multiplicar tudo isso aqui.
- Você acreditou, e está decepcionado, certo?
- Dá pra notar, não é? Dei um quinto de toda minha colheita para a Igreja...
- Mas, quanto a isso não me parece estar arrependido, ou estou enganado?
- Eu nunca me arrependo dos meus atos; eles são pensados. Doei a Deus, não a o homem.
- Mas acreditou no homem!
- O Reverendo é homem bom; um mensageiro de Deus! Ora por nós, mas não é Santo!
- O que leva a pensar assim?
- Ele divide tudo com os necessitados!
- Eu notei isso desde as primeiras vezes que ele me procurou.
- Quando você chegou, eu pensava justamente nessas coisas.
- Que coisas?
- Coisas que fazemos, e não somos recompensados.
- Você se refere às doações que fez e acha que não vai ser recompensado; é isso?   
- Não! Como já lhe disse e repito: não me arrependo do que faço! Eu penso antes de agir!
- Então em que pensava?   
- Nas coisas que o pastor faz pela comunidade, e ainda tem quem fale mal dele.
- Isso me faz lembrar minha era de pastor.
- Você também é pastor?
- Fui de um jeito diferente. Deixei de ser, depois de confiar num homem
- Também já passei por coisas parecidas. Agradar a uns, causa inveja a outros.
- É verdade.
- Mas o senhor ia dizendo que deixou de ser pastor porque confiou em alguém...?
- Isto mesmo! Confiei minha vida a um homem poderoso, quando mais precisei.
- E o que aconteceu?
- Ele, apenas, lavou suas mãos e me deu as costas.
- Que covarde!
- Mas foi para o bem de muitos.
- Bem! Não se trai um amigo honesto, ainda que seja para agradar uma nação!
- Mas foi a partir de então que eu ganhei poder e mais sabedoria para semear e colher boas sementes.
- Mesmo que minha colheita prospere, ainda vai demorar a madurecer.
- Vai vicejar bastante, sim, e quem precisa tem paciência e sabe esperar!
- Quer dizer, então, que o moço vai estar por aqui na época da colheita!
- De certa forma, sim. Mas gostaria que fosse entregue a o reverendo; ele sabe o que fazer e como pagar. 
- Tá certo. Mas vai me dar muito prazer se passar por aqui de vez em quando para mais uma prosa.
- Passarei. Espero que me reconheça quando eu retornar.
- Mas é claro que vou lhe reconhecer! Como não? A propósito meu nome é Zé Pequeno, e o seu...?
José tinha se virado para apanhar uma caneca e a cabaça com água para oferecer ao visitante e beber, também. Mas, quando se voltou, ele havia sumido por entre o verde do milharal. José estranhou a forma sutil como aquele homem, tão simpático, saiu sem se despedir.
Depois do culto daquele domingo, Zé Pequeno foi falar a sós com o pastor sobre a prosa que havia tido com o amável senhor, a quem ele tinha recomendado seus produtos. Surpreso, o reverendo lhe disse:
- Filho, eu não procurei nem recomendei suas plantações a nenhum senhor cá da Terra, apresentei somente a o Homem lá do Céu!     
 
            Do livro Pescando em Grumari.


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