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   > A SOMBRA DO RATO



LEOMAR BARALDI
      CONTOS

A SOMBRA DO RATO

 
 
Dalton se levantou naquela manhã muito estranho. Sentia-se diferente, mas não sabia explicar o que estava diferente. Fez como fazia todos os dias. Foi até o banheiro desceu a bermuda e sentou no vaso sanitário. O que havia dentro de si escoou com uma facilidade incrível, nem precisou muito esforço. Esperou mais um pouco, talvez algo mais teria que sair. Deu descarga, nem olhou para aquilo rodopiando sobre a água turva do vaso, deixou vazar para bem longe. Naquela manhã estava mais disposto. Com ânimo renovado alcançou a pia. Lavou o rosto, a água descendo por sua pele possuía uma outra densidade, não se assemelhava a água, nem tinha o cheiro de cloro, nem de cloridrato de iodo, nem sulfato de zinco, nem de óxido de potássio. Era água mesmo. A sensação era a mesma de estar no mato, o hálito silvestre do vento, as mariposas circunvagueando pelo céu que era mais azul. Um animalzinho branco procurava alimentos. O zumbido das abelhas rodeando as flores amarelas de uma árvore bem alta. A brisa refrescante trazia um cheiro, um odor que saía das profundezas do floema e dos pecíolos das florezinhas dos jasmins silvestres. Era bom, e se era bom significava que era bom. Dalton apertou o tubo de pasta de dente e passou a escovar os dentes. A refrescância que sentiu partia das células mais profundas das epidermes mais raras do tecido de uma flor que só se reproduz nos jardins mais recônditos. Uma flor bem cuidada, uma flor que só recebe os melhores fertilizantes. Não fertilizantes, mas uma divina composição, uma divina fórmula que torna tudo mais aromático. Não existe comparação do seu perfume, e da sua doçura entre nós pobres mortais. Para Dalton naquela manhã, tudo estava sendo perfeito. O Paraíso. Só podia estar no Paraíso. Dalton sentiu-se envolto num mar de alfazemas, como Caren Spencer num filme qualquer, que não lembro o nome. Nem sei se era Caren Spencer, a loira que deixou-se deitar nua num campo de alfazemas. E era bom, e se eram bom significava que era bom. Assim seja feito.
Dalton acabou de escovar os dentes. Pegou o suavizador de catingas, ou seja, o desodorante seco que esfregava no sovaco todos os dias (cientistas dizem que somos parentes de gambás, mas há como disfarçar). Percebeu que aquele desodorante não era uma fórmula química, não exalou um odor alcoólico, existia uma coisa envolvente, um perfume de flores de plantazinhas que sobrevivem apenas nas montanhas mais altas. Um dos odores mais raros de se encontrar. Que só é identificado por um especialista de sentido olfativo muito bem apurado. E era bom e se era bom, significava que era bom.
Saiu do banheiro com os cabelos penteados. Faltava se trocar. Divisou o relógio na saleta, oito e dez. Só tinha vinte minutos. O tempo de comer uma fatia de pão de forma com maionese, sorver o gole do café  grosso da Dona da pensão pegar a sua bolsa para o trabalho.
Oito e vinte e dois. Melhor se apressar. Ainda mastigava quando conferiu os papéis dentro da bolsa, e preparava-se para sair. O telefone toca. Atende. É Penélope, quer saber se vão assistir ao filme que ele prometera na semana passada. Ele diz que sim, está atrasado, precisa correr se não perde o ônibus. Penélope quer saber se ele havia feito o trabalho de Biologia. Sim, ele responde. Está atrasado.
-Dalton, o que está acontecendo?
-Penê, estou atrasado. Liga mais tarde.
-É sempre assim. Toda hora que eu ligo tem uma desculpa.
-Penê, eu trabalho. Tenho de estar no trabalho na hora senão...
-Você quer dizer o que, Dalton? Que eu seja uma vagabunda, uma qualquer. Por isso...
-Penê, não foi isso que eu quis dizer.
-Aiii, que ódio! É sempre assim. Eu estou sempre incomodando. Eu ligo sempre na hora errada...
-Penê, depois eu ligo. Tenho dois minutos.
-Dalton, acho que precisamos conversar. Se chegamos nesse ponto, acho que devemos sentar e discutir tudo.
-Tudo bem, Pene, eu te ligo.
-Ah, sei. Não tem tempo pra mim.
-Ai, meu Jesus, eu só tenho dois minutos. Depois eu te ligo.
-Você não gosta mais de mim?
-Não é isso.
-Não gosta. Sei disso. Nunca gostou de mim.
-Quer para com isso Pene.
-Não grita comigo, Dalton.
-Não estou gritando com você.
-Está sim.
-Penélope, olha, estou atrasado, depois eu te ligo.
-Eu sou um saco, não sou?
-Não é não.
-Sou sim. Você quer desligar.
-É porque estou atrasado. Vou chegar tarde no trabalho, o chefe não gosta que chego atrasado.
-Você chegar atrasado nos nossos encontros pode.
-Depois eu te ligo, Pene. Tchau.
-Dalton, espere...
-Eu te ligo. Mas que droga! Tchau.
Dalton apertou o telefone. Sentiu um aperto por dentro também. Seria o fim. Só tinha um minuto. Apressou-se.
Abriu a porta do quarto para o corredor da pensão. Foi fechando a porta quando a dona da pensão surgiu no final do corredor com o carrinho grande, apanhando as roupas sujas. As roupas sujas ficavam num saco preto à porta dos quartos, e a mulher apanhava-os. Naquela manhã ele não tinha roupas sujas.
-Um rato! Um rato!
A mulher deu um berro que ecoou pelo corredor fechado e úmido.
Dalton levou um susto grande.
-Meu Pai Eterno! Um rato!
Rato aonde?
Ele procurou por todos os lados. Não viu o rato. Rato aonde?
-Rato onde, dona Rosa?
-Madre de Dios, ele fala!
Dalton finalmente caiu em si. Ele era o rato. Um rato grande. Um rato usando óculos, de camisa branca, terno e gravata azul, o uniforme da empresa. Sem falar do rabo grande se arrastando no chão. Como que não percebera isso? Estava assim desde quando?
-Dona Rosa, sou eu o Dalton.
A mulher balofa desabou no chão. Dalton correu ver se a mulher estava bem.
A faxineira da pensão que ouvira os berros subia as escadas para se certificar.
Levou um baita susto quando viu a Dona Rosa caída ao chão e aquele enorme rato sobre ela.
-Ahhhhh! –e desmaiou também.
Dona Rosa recobrou os sentidos, o ratão olhando para ela.
-A polícia! Chamem a polícia!
O ratão tentou uma corrida, mas se atrapalhou com o seu rabo comprido e caiu.
Dona Rosa apavorada. Apanhou um cano solto do carrinho de roupas sujas que empurrava e caminhou em direção ao ratão. Uma pancada bem dada e pronto, tudo estaria resolvido. Mas...
Uma luz se acendeu na cabeça de Dona Rosa.
Com a ajuda da faxineira arrastou o ratão para dentro de um quarto. Quando o ratão queria voltar os sentidos a faxineira lhe dava uma cacetada na cabeça com um livro pesado de filosofia que havia no sofá do quarto de Dalton.
Dona Rosa procurava o telefone do programa do Domingão do Ernestão.
O ratão foi apresentado ao povo num domingo de inverno. O povo ficou admirado. O ibope do programa nunca fora tão alto.
Naquela semana surgiram para o ratão anúncios de cuecas, anúncios de cerveja. Anúncios de lenços, sabonetes. Até anúncio de empresas de celulares. Entrevistas em programas de auditório noturnos. Fotos em revistas. O ratão ia acumulando uma fortuna imensurável.
-Pois, não. –atendia o telefone a atendente Maria da Graça, -Um comercial de xampu? Ah, fale com a Dona Rosa, a empresária de Dalton, o ratão.
O dinheiro nunca crescera tanto para Dalton daquela maneira. Ele que vivia sempre na pendura, não podia sequer oferecer um conforto para Penélope em seus encontros. Dalton rico, milionário, bilionário.
-Ah, pois não. Um anúncio de um modelo novo de carro?! Vou passar a ligação para a empresária Dona Rosa. Ela que cuida das cifras e dos contratos.
Plin! Plin! Plin! O ruído do dinheiro não cessava nos ouvidos da Dalton. Não tinha um único dia de folga. Os anúncios o prendiam o tempo todo. O dinheiro jorrava na conta de Dona Rosa. Dalton tinha o que queria, o que pensava. O que imaginava. Se aquilo que queria ainda não havia sido inventado, contratava cientistas para que inventasse pra ele, dinheiro não era problema. As garotas davam em cima. Gritavam histericamente quando o ratão subia no palco vestido de Elvis Presley, com costeleta e tudo. As garotas iam ao delírio quando o ratão abria as pernas, jogava o topete pra trás e entoava “ba-ba-ba-ba-ba-be-lure.”
Porém naquela manhã de agosto, Dalton amanheceu esquisito. Havia um cansaço aparente. Sentiu um grande esforço despendido para chegar ao banheiro. Sentou no vaso e para levantar foi uma temeridade. Havia algo errado. Passou pasta na escova e escovar os dentes foi um sacrifício. Saiu do banheiro.
Dona Rosa veio à tarde trazer outro contrato quando...
-Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!
A mulher caiu no chão.
Dalton não sabia o que fazer. O que aconteceu com aquela mulher? Devia ter ficado louca com toda essa correria de contratos e ligações pedindo a presença do ratão.
Foi que Dalton percebeu. Ele não era mais um rato grande. Voltou a ser o medíocre Dalton em carne e osso.
Os anúncios desapareceram, os contratos não foram cumpridos, Dona Rosa teve de pagar multas milionárias. Perderam todo o dinheiro. Dona Rosa voltou a ser o que era, Dalton voltou para o quarto de pensão. Conseguiu arranjar um trabalho temporário de entregador de pizzas.
Dalton passa minutos contemplando pela janela as luzes da cidade.
Enquanto eu era um rato eu tinha tudo.
 



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