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   > O Retrato



Kacius Felipe Ribeiro
      CONTOS

O Retrato


Prefácio:
 
O homem desceu as escadas que davam para o piso térreo e foi diretamente ao minúsculo bar da pensão, serviu-se de uma cerveja, depois caminhou para a micro cozinha na qual uma gorda senhora cozinhava o jantar.
- Quantos dias mais o senhor pretende ficar na cidade Sr. Norman? – Perguntou a senhora sem tirar os olhos do fogão.
- Não muitos – Respondeu ele, caminhava para um canto onde se encontrava a mesa de sinuca, do outro lado, uma televisão velha passava o noticiário, aparentemente muita coisa estava acontecendo naquela pequena cidade nos últimos dias, assassinos que invadiam casas e matavam pessoas sem levar nada, crianças que desapareciam, um padre que matara todos os membros da congregação alegando que “Deus estava purificando aquele povo”, além de outras coisas estranhas. Afinal, aquela cidadezinha não era tão pacata assim...
Aproximou-se de alguns quadros na parede, sempre fora aficionado por quadros, seu escritório tinha um Portinari legítimo, além de vários outros pintores famosos que pululavam as paredes de sua casa.
- Nossa, que peças lindas você tem aqui... Quem pintou estes? Alguém da cidade?
- Ah? – A mulher desviou os olhos do que estava fazendo sem entender de imediato – Ah... Sim, sim, estes quadros estão aí já faz algum tempo... Foi o Johny quem pintou... Ele morou aqui com a gente por um tempo, nem sempre tinha como pagar o aluguel, então, às vezes ele sentava na praça e pintava alguma coisa para me agradar...
- Nossa! Este do garotinho é mesmo um bom trabalho...
O senhor grisalho não conseguia tirar os olhos daquele quadro, as lâmpadas do salão não conseguiam iluminar o suficiente para que pudesse apreciar os detalhes, mas podia claramente ver que era um bom trabalho, o garotinho em pé sobre a sacada (podia apostar que se tratava da sacada do quarto em que ele se hospedara), toda a frente da pensão estava iluminada pelo sol formando curtas sombras sobre o parapeito, mais abaixo, o jardim ressequido pelo sol estava manchado de vermelho, a entrada da pensão com seus frisos rachados na pedra... Tudo maravilhosamente pintado a óleo sobre tela, um trabalho realmente bom... Mas o que chamava mesmo a atenção era o rosto do garoto, um rosto gordinho, meio rosado, mas com um sorriso sarcástico, em suas mãos ele segurava alguma coisa, não dava para ver direito porque só mostrava a parte superior, um longo cabo de madeira, o restante estava escondido atrás da mureta do parapeito... Ótimo trabalho mesmo...
- Não quer me vender este quadro dona Carmem? Gostei dele...
- Não posso meu filho (ela era daquele tipo de pessoa que chama todos de filho, mesmo num caso como este em que ele poderia ser pai dela), foi um presente, você sabe... Presente não se vende...
- Tudo bem então... Mas se mudar de ideia... Sabe onde me encontrar...
Ele sorriu, deixou a garrafa de cerveja vazia sobre o balcão e voltou para o seu quarto, gostara mesmo do quadro, mas estava impaciente com outra coisa, tinha um velho caderno de notas sobre uma cômoda e estava ansioso para ler...
 
 
Inocência

 
- Eu sabia que isso ia acontecer… Falou o garoto enquanto saia de uma pequena moita a beira da estrada – Eu tinha certeza! Me ajude a tirar isto daqui! – Tinha os joelhos cheios de espinhos e esfolados, pequenas gotas de sangue saiam preguiçosamente dos arranhões e começavam a escorrer para suas canelas.
- Já vou! – Disse a garotinha com as mãos tampando a boca para disfarçar o sorriso, devia ser uns dois anos mais nova que o garoto, era baixinha e muito magra, com o rosto coberto de sardas, seus cabelos avermelhados esvoaçavam-se ao vento formando um emaranhado que caia em seus olhos, parte dele estava grudado firmemente à testa pelo suor que escorria em grandes gotas, ela sorria, não só com a boca mas com os grandes olhos azuis. Deixou a bicicleta rosa com uma meiga cestinha ornada de flores também rosas e desceu com cuidado a ladeira que dava para a mata.
O garoto se recostou numa fina árvore, provavelmente um pé de ipê, estava à sombra retirando cuidadosamente os espinhos do joelho, fazia uma careta tão cômica que era quase impossível não rir, ao contrario da garotinha, ele era gordo, não daquele tipo de gordo deselegante com aquela imensa barriga, este não, ele era todo redondinho, com as mãos gordinhas e a pele de um branco cremoso, parecia um anjinho barroco. Embora fosse uns dois anos mais velho, ou seja, tinha lá pelos seus dez anos, naquele momento ele parecia um bebezão,  sua bicicleta estava jogada a um canto repleta de terra e folhas, era uma bicicleta velha, mesmo assim ele olhava para ela com um ar de preciosidade, como se fosse a coisa mais valiosa de sua vida (provavelmente para um garoto de dez anos deveria realmente ser), fora presente de seu falecido pai, ele não se lembrava dele, seu pai morrera quando ele tinha seus dois anos (as coisas dessa época eram apenas borrões em sua lembrança), mas tinha aquela velha bicicleta, uma Prince Freestyle aro vinte, toda pintada de preto e mesmo com algumas partes amassadas e arranhadas, ainda podia-se ver que ele tinha um extremo cuidado com ela (cuidado de um garoto de dez anos é claro).
A garotinha finalmente chegou até ele – Deixa eu ver Max... Eu falei que não era pra gente descer tão rápido!
- Mas foi você quem pediu pra gente vir passear... Eu nem queria... Uhmm.. Agora tá doendo meu joelho... – Tirou mais uma farpa com um cuidado de um cirurgião fazendo uma operação de vida ou morte – Uhmm... Humm... Vá ver se não aconteceu nada com a bicicleta!
Ela saiu (não antes de dar mais um sorriso baixinho e rosnante). – Ela não tem nada! – Disse – É só se lembrar de lavar essa coisa quando chegar em casa... UGH... Essa coisa sua é muito suja! E nem tinha como ficar pior!!! Prefiro minha rosinha!
- Eu não pedi sua opinião! Só quero saber se não tem nada quebrado!
- Acho que está tudo bem... – Por um momento ela mostrou um pouco de preocupação – E você? Pode andar?
- Acho que sim... Mas mamãe vai ficar uma fera quando ver o que fiz com o meu joelho... – Tirou o último espinho com uma careta teatral tão exagerada que dava a impressão de ter levado um tiro ao invés de ter um pequeno espinho no joelho, depois limpou as mãos na bermuda de náilon vermelha e imunda que vestia – Vamos sair logo daqui Bia. Já perdeu a graça esse passeio...
Bia levantou pacientemente a bicicleta dele, era um pouco pesada para ela (mas não muito), segurou seu irmão pelo ombro como um ferido de guerra e o ajudou a subir a íngreme escarpa que dava para a estrada logo acima.
Como que por mágica, ao chegar ao topo Max saiu andando sozinho, mancando muito, mesmo assim pegou sua bicicleta, avaliou bem o estrago que a queda havia causado, tirou alguns raminhos presos entre os aros, depois montou e saiu pedalando, deus duas voltas fazendo um oito na estrada de terra batida e depois olhando para a íngreme subida que os aguardava e que havia causado sua queda, para trás, a estrada continuava indefinidamente, á sua margem o verde escuro da densa mata contrastava com o amarelo ocre da estrada, do outro lado, um enorme barranco de terra escura e pontilhado de pedras brancas se estendia ao céu fazendo sombra em boa parte da estrada, no mais, por todos os lados o sol filisteu banhava tudo de uma forma quase palpável, as duas crianças ignoravam todo o resto, concentravam-se na estrada a sua frente, estavam um pouco longe de casa agora, mas não muito, conheciam muito bem o caminho e mesmo com o pequeno contratempo da queda, ainda tinham muitas horas de sol para aproveitar. Max pareceu perdido em pensamentos, olhava fixamente para a estrada, apertava os olhos para ver mais longe no horizonte, depois voltou-se e falou seriamente:
- Não vamos para casa inda... Já que estamos aqui eu quero ir ver a bruxa!
Ao som destas palavras a garotinha estremeceu, ela sabia muito bem do que Max estava falando, ele era um bom garoto, mas teimoso, desde que haviam saído de casa naquela manhã ensolarada ele já havia dito que iriam ver “a bruxa”. A bruxa era uma velha senhora da cidade que havia morrido semanas atrás, Não tinha nada de especial nisso, só que todos na cidade tinham medo dela quando ela ainda estava viva (até mesmo os adultos), agora que não estava mais, todos os garotos queriam ir jogar uma pedrinha no seu tumulo - Isso é tão besta... – Pensou a garota.
- Deixa isso pra lá Max! Você sabe que a mamãe não ia gostar nada de saber que você foi no cemitério!
- Bia tá com medo! Bia tá com medo! Ela é mulherzinha e tá morrendo de medo!!!
- Eu não tô com medo não! Só acho que isso é besteira, coisa de gente boba que não tem o que fazer!...
- Se não tá com medo então não vai contar pra mamãe...
- Eu não quero ir lá... Eu não tenho medo, só que é um cemitério... Só tem gente morta por lá... E eu tô com fome e quero ir pra casa! Senão a mamãe vai ficar brava... Você sabe, da gente demorar tanto, e nem falamos pra onde a gente ia...
- Mais é rapidinho... Vai... É só a gente continuar um pouquinho e subir o morro depois da curva... Além do mais tá de dia... Não precisa ficar com medo... ... ... Os outros meninos da escola falaram que tem uma coisa esquisita na tumba dela... É que eu disse que não tinha medo... E eles falaram que se eu não fosse um medroso eu ia pegar a coisa e levar pra escola na segunda... Eu só ia aproveitar que a gente saiu pra andar de bicicleta e dar um pulinho lá antes que a mamãe saiba.
 - Mas Max...
- É rapidinho Bia...
- Só que a mamãe não vai gostar nada quando descobrir.
- Ela só vai descobrir se você contar.
- Você promete que é beemmm rapidinho?
- Prometo. A gente vai estar em casa pro almoço, que tal?
- Se é assim...
As sombras das duas crianças iam quase à frente dos pequenos corpos que pedalavam ladeira abaixo rumo ao cemitério da cidade, o cabelo loiro, curto e ralo do garotinho gordo chamado Max ainda tinha algumas folhas verdes que esvoaçavam-se ao toque do vento quente que batia em seu rosto, a garotinha ao seu lado sorria, parecia meiga e frágil contra toda aquela luz da manhã, o rosto suado de ambos demonstrava a alegria quase inexprimível da aventura e ao mesmo tempo o receio pelo que iam fazer.
O enorme morro que veio depois da descida tirou um pouco do entusiasmo da dupla, o sol escaldante secava o suor antes que ele pudesse molhar suas roupas e queimava suas peles de forma a deixa-las vermelhas e irritadas, ali não tinha o frescor da sombra oferecia pelo barranco, o sol era incessante e avassalador, neste ponto nem mesmo a força da juventude estava do seu lado, tiveram que desmontar de suas bicicletas e subir penosamente a pé pela estrada sinuosa.
- Eu sei por que você tá querendo ir lá no cemitério... É pra impressionar aquela menina da sua sala...
- Cale a boca! Você não sabe de nada! – Sua voz neste momento soou um pouco abafada, talvez por causa do esforço da subida – Eu só quero provar pros caras da minha turma que eu não tenho medo de nada... Eu vou levar alguma coisa da tumba da velha bruxa e mostrar pra todo mundo que não sou medroso! E não tem nada a ver com a Michele...
Seus olhos se desviaram um pouco da estrada, sonhadores, olhando para a mata ao redor, a pequena garotinha ao lado sorriu descaradamente, ela conhecia seu irmão melhor do que ele mesmo...
 
O cemitério era bem diferente do que eles haviam imaginado, era um lugar calmo, de longos muros que cobriam boa parte do morro, não havia ninguém por lá, os únicos sons eram dos pardais que chilreavam ao longe, entre as estreitas estradas de pedra calcaria que formavam um labirinto havia grandes espaços gramados, sobre a grama várias placas de pedra mármore marcavam pontos cinza a perder de vista com sua monotonia apenas quebrada por ocasionais cruzes de pedra que variavam em cores neutras, algumas lápides eram grandes, chegavam a ter duas vezes a altura das crianças, outras, apenas pequenos pontos de pedra com suas placas de latão gravadas. O lugar dava arrepios, não por ter nada de sobrenatural, não era medo, apenas aquela sensação de solidão, só um silencio tão denso que fazia com que se sentissem pressionados a compactuar com ele.
Enquanto andavam a esmo procurando por algum sinal que denunciasse a cova da bruxa (haviam deixado as bicicletas escondidas próximo ao portão de entrada), encontraram uma lápide estranha, não era a da bruxa, mesmo eles podiam perceber que não, pois esta era velha demais (a velha bruxa havia sido enterrada há apenas uma semana e mesmo eles tinham a noção, tanto que aquela lápide estava ali havia muito tempo, quanto que a que procuravam devia estar na área nova do cemitério), mas de qualquer maneira tinha uma coisa muito estranha naquela lápide de um mármore cinza desgastado pelo tempo. Logo acima da placa de pedra estava a estatueta de um anjinho gorducho, esta tinha ambas as asas quebradas e só havia ali metade da cabeça, nos braços roliços e cinzentos encontrava-se repousado um crânio de pedra, a parte da boca que ainda restava parecia desferir um sorriso tão carnal e pungente que até mesmo se tornava ameaçador, parte de um olho mortiço fitava o céu em aflição, dos joelhos, apenas se podia ver uma pequena parte rechonchuda que aparecia por debaixo das largas vestes, nela, a carne era dilacerada pelas penas que ainda restavam da asa perdida. O garoto parou por um momento, olhava para a estranha figura de pedra sobre o jazigo, estava fascinado por ela, baixou-se como que para pegar alguma coisa, tocou suavemente os frios pés de pedra da figura...  Estranho... Mesmo com o sol incidindo diretamente sobre a pedra ela estranhamente se mantinha fria. Não um frio exagerado, apenas uma sensação refrigerante, como algo que havia ficado na sombra por muito tempo...
Demorou um tempo para o garoto entender o que havia escrito na placa abaixo da estatueta, antes ficou ali, observando de perto as sombras que o corpo do anjinho produzia sobre o crânio (a maioria das crianças demonstraria repulsa ou medo, ele, ao menos neste momento, demonstrava apenas um interesse quase que religioso), parte da peça estava coberta de musgo, o vazio onde deveriam ficar a orbita dos olhos era apenas uma caverna escura, pequenas rachaduras demonstravam onde deveriam ser as divisões dos ossos, bem na fronte, em alto-relevo estava escrito uma pequena palavra: immortalità. Foi só então que baixou seu olhar para a grande placa de latão cravada sobre a lápide, nela estava escrito com uma grafia fina e bem trabalhada uma frase já quase apagada pelo tempo:
Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ...
Ele não fazia a menor ideia do que aquilo significava, nem mesmo sabia se estava lendo corretamente, muito provavelmente não, não sabia de que tipo de língua se tratava, apenas estava lá, aquela escrita estranha, numa língua estranha, sobre uma tumba de alguém desconhecido, ao pensar nisso sobreveio outro pensamento, não havia nome na lápide, nem mesmo data alguma, era um estranho e mesmo assim alguém muito importante, pois seu túmulo era refinado e não havia sido depredado, outra coisa também sobreveio sua mente como um raio que logo se esvai, um pensamento que se perdeu quase antes de ser formado: Como ele, um garoto de dez anos estava tão pensativo neste instante?  E como podia sentir (era sentir mesmo) que entendia o que estava escrito naquela lápide e até mesmo apostar que estava escrito em italiano, sendo que nunca sequer ouvira alguém falar em italiano?... Mas o pensamento já não estava mais lá... Ele se levantou, olhou um tanto quanto atônito para sua irmãzinha, depois sorriu meio sem jeito, como se estivesse acabado de fazer alguma coisa errada.
- Vamos Max, ou encontramos esse negócio logo ou vamos logo embora... Agora eu tô com bastante fome... E com um pouquinho de medo também...
Max olhou com amor para a garotinha a sua frente, sabia exatamente como ela se sentia, ele mesmo sentia medo agora, não aquele pavor irracional, mas ele tinha medo de uma forma que não podia explicar, e lá estava ela, sua pequena e frágil irmãzinha, parecia uma boneca de porcelana que poderia se quebrar ao menor toque, vestia um shortinho jeans desbotado deixando a mostra finas pernas que nunca se bronzeariam ao sol, usava também uma blusinha branca sem manga e com uma estampa do Piu-Piu destacando-se logo acima da barriga, seu pequeno anjo particular... Embora isso, ele tinha certeza que no fim das contas ela era muito mais esperta e mais forte do que ele jamais fora, é claro, tinha certa inveja, mas no fundo se orgulhava dela, até porque ele sabia que desde que seu padrasto (o pai dela) se fora, ele era o responsável por tomar conta de sua irmãzinha... E ele a amava ainda mais por isso...
- Tudo bem Bia, vamos para a parte nova, ela deve estar enterrada lá, depois vamos voando embora! Certo?
O cemitério estava localizado num aclive quase na metade do morro, de onde estavam dava para ver a parte com as covas novas se estendendo ao longe, um bom trecho de terra revirada e com os caminhos pavimentados ao invés de feitos de pedra, seguiram pelo caminho até alcançarem uma intersecção que os levava direto para o fundo do terreno, esta parte era visivelmente mais nova, as lápides eram em sua maioria feitas de cimento, raras estátuas ornavam os túmulos e a grama ainda não havia coberto todo o terreno crescendo de maneira desigual por sobre a terra acinzentada.
Mesmo de onde estavam puderam ver o tumulo da bruxa. Quando disseram que encontraria alguma coisa estranha nele, o máximo que lhe passara pela cabeça era alguma formação irregular de pedras ou talvez uma escrita demoníaca... Quando muito uma estátua com a feição de diabo... Agora, enquanto olhava de uma distancia de quase cem metros, podia ver claramente que se enganara quanto a isso, dava para ver ao longe o monturo de terra revolvida, vermelha, cor de sangue. Então era isso... Ele nunca havia visto nada assim, terra cor de sangue, nem ao menos sabia que existia, pelo menos por estes lados nunca havia encontrado nenhum local que tivesse uma terra vermelha. Mas de onde teriam trazido algo assim? Ele não sabia, e nem gostaria de descobrir, faria o que havia prometido, e de certa forma tinha sido fácil, era só pegar um punhado de terra e sair dali o quanto antes.
- Tá vendo lá Bia? Com certeza é o que viemos buscar...
- Não acha estranho toda essa terra vermelha Max? Eu nunca tinha visto isso.
- É mas não importa, eu só vou pegar um punhadinho dela e depois nós vamos para casa certo? E você não vai contar nada pra mamãe ok?
- Tá, mas eu não quero ir lá... Eu vou ficar aqui esperando você... Acho que agora tô com medo de verdade...
- Pare de ser chorona Bia... Não tem nada de errado, é só um pouco de terra, não tem nada aqui... Mas se insiste... Pode ficar aqui SOZINHAAAA...
- Seu bobo... Eu não quero ficar sozinha...
- Então vem comigo.
- Eu também não quero ir... Eu só quero ir embora...
- Bom eu já tô indo, se quiser vem junto, se não, pode ficar aqui... SOOOZINHAAA...
Ele saiu andando bem devagar, sabia que ela viria logo atrás, afinal, ele mesmo não queria ir para lá sozinho, é claro que era dia (nunca entraria num cemitério à noite), mas aquela falta de barulho o incomodava muito, e o fato de haver luz não exatamente ajudava muito. Ao longe o calor fazia o ar do meio-dia tremular distorcendo as coisas a sua volta. Ele continuou com passos incertos, cautelosos, ao longe um pássaro piou - Sem fim... Sem fim... – Sua coluna estremeceu, sentiu as suaves mãos de sua irmã tocar sua pele, deu um pulo, olhou para trás assustado, olhos grandes e azuis como os de sua irmã, agora ele parecia tão pequeno e tão frágil quanto ela, mas sentiu conforto quando ela apertou suavemente sua mão, caminharam juntos pela longa e estreita trilha (agora de asfalto) que era ladeada de túmulos ainda recentes, algumas flores murchas pendiam desoladas das lápides de concreto, aqui e ali eram exibidas algumas fotografias desbotadas dos que jaziam debaixo do solo, o pássaro piou novamente seu canto agourento – Sem fim... Sem fim... Sem fim... – Agora parecia mais perto, apertou um pouco mais a mão da irmã, ela retribuiu o aperto, parecia uma boa hora para dar a volta e ir para casa... Parecia mas não era, no fundo ele sabia que não importava o que ele queria, tinha que provar para os outros que não era só um gorducho medroso e chorão, tinha que mostrar para aqueles três valentões que ele podia fazer mais do que eles, só assim ele iria chamar a atenção de Michele.
Max apertou o passo, olhou em volta, procurava a ave que cantava, esperava vê-la pousada no alto de uma lápide com aquele canto medonho e um sorriso esganado no bico, nada, se estava lá devia estar muito bem escondida, não sabia se este pensamento o aliviava ou deixava mais nervoso, sua irmã não dizia nada, provavelmente se falasse ele a mandaria calar a boca, mas esperava desesperadamente que ela dissesse algo. Não demorou muito, mas pareciam ter levado uma eternidade para percorrer aquele caminho, agora de frente para a lápide (esta muito mais simples do que podia imaginar) ele descansou um pouco os nervos, era muito simples, nada de anormal (fora o fato de estar cheia de uma terra vermelha inexistente na região), a lápide era de concreto, não havia flores, fotos, ou qualquer outro objeto que demonstrasse cuidado por parte dos parentes, e, realmente era o tumulo dela. Seu nome estava gravado em alto relevo numa placa de latão modesta (Hellen Cassatt Manzzone, 1918 a 2010), logo abaixo porem algo lhe chamou a atenção, com uma escrita pequena, quase imperceptível sob os reflexos do sol, estava gravada uma frase, ele baixou um pouco o corpo e colocou a mão livre contra a luz para poder ler, mas antes mesmo que ele conseguisse focalizar uma sombra sobre a escrita já sabia o que ela continha:
No abismo dos deuses adormecidos, restam sempre partes que ainda não foram despertadas...
Mais abaixo ainda, riscada com alguma pedra sobre o cimento estava uma palavra escrita:
                                   Imortalidade
Sem perceber ele reclinou seu corpo ainda mais, pegou um punhado de terra e, como que num transe começou a pronunciar as palavras num crescente frenesi:
Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... ... ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevatiNell'abissodeglidèi addormentatorimanendo sempreazioni chenonsono statisollevatiNell'abissodeglidèiaddormentatorimanendo sempreazionichenonsonostatisollevati ...
Seus olhos se encheram de lágrimas, seu corpo tremia da cabeça aos pés, ele convulsionava, suas pupilas se dilataram enquanto ele caia de joelhos sobre a terra vermelha e seca do tumulo. Sua irmã o segurou o melhor que pode, o terror tomava conta de sua mente, queria sair correndo dali, queria sumir... Mesmo assim segurou o irmão enquanto ele caía, a mão que segurava a sua começava a apertar tanto que chegava a estalar os dedos, abraçou-o, segurou o largo peito de encontro com a pequena e fina mão livre e fez o máximo de força que pode para mantê-lo em pé, não pode, caiu de joelhos ruidosamente com ele enquanto ele entoava aquele falatório indecifrável, então uma coisa ainda mais assustadora aconteceu, neste momento desejava com todas as forças poder desmaiar também.
O que aconteceu não demorou mais que alguns segundos, para ela era como se acontecesse em câmera lenta, como se o tempo houvesse parado. A “coisa-fumaça” saiu de dentro da terra, subiu pela lápide em direção ao céu, mas antes parou, ela tinha certeza que a “coisa-fumaça” havia parado e de alguma forma havia olhado bem nos seus olhos... A “coisa-fumaça” não tinha olhos, era indefinida, mas mesmo assim podia jurar que fitou no fundo de seus olhos, diretamente dentro de sua alma, e chegou mesmo a sorrir enquanto esticava seus dedos-fumaça para ela, seu sorriso-fumaça de alargou, então ela se reclinou por sobre eles e desapareceu na tarde quente.
Simples, rápido assim, o garoto estava ajoelhado no solo como que rezando, ainda balbuciava algumas coisas sem sentido, suas pupilas estavam dilatadas e o rosto muito branco, sua irmã repetia seu próprio falatório perdida em seu mundo de desespero particular – Não vou gritar, não vou gritar nãovougritar nãovougritarnãovougritar...
Enfim se controlou um pouco, segurou seu irmão pelas axilas e tentou ergue-lo, nada, era muito mais pesado que ela, apertou-o junto ao corpo e falou em seu ouvido:
– Acorda Max... Por favor, acorda... Eu tô morrendo de medo... Por favor, não me deixe aqui sozinha...
Aos poucos (pareciam ter passado horas) o corpo do garoto foi criando um pouco mais de rigidez, ele estava voltando, estavam embainhados em suor, ela ainda segurava sua mão e debruçava seu pequeno corpo sobre as costas do irmão, o sol escaldante deixara marcas vermelhas por sua pele e seu cabelo era uma pasta emaranhada sobre sua cabeça. Ele levantou um pouco o corpo, só o suficiente para ela perceber e sair de cima dele, olhou espantado em volta, seus olhos voltavam ao normal agora, sua mente também, aos poucos... Levantou-se lentamente, não parecia se lembrar do que ocorrera, ainda tinha parte do corpo adormecia pelo peso de sua irmã, ainda estava atônito, antes de perguntar algo para a pequena garotinha ao seu lado (esta agora não se parecia em nada com a que o ajudara a voltar para a rua depois de sua queda ainda esta manhã, parecia agora muito menor, assustada e desgastada de uma forma que ele não podia explicar), ela olhou em seus olhos, então abraçou-o freneticamente e começou a chorar com o rosto colado contra seu peito.
- Vamos embora daqui... – Falou ela em uma voz abafada e tremida.
- Vamos. – Respondeu ele complacente.
Ambos saíram andando abraçados, descendo a trilha que dava para a estrada. Pegaram as bicicletas e passaram o portão, agora, fora daqueles muros e rumando para casa, puderam reparar que algo parecia estranho, tudo estava em seu lugar, o sol forte, a estrada poeirenta, os velhos muros do cemitério, o verde da mata mais a frente que se estendia a perder de vista, tudo estava lá, mas era como se não estivesse, as cores não eram as mesmas, estava tudo um pouco embaçado, como uma velha fotografia, e mesmo assim, estava tudo em seu lugar, só que não parecia certo, não parecia nada certo...
Era estranho que o sol ainda não estivesse a pino, saíram de casa antes do almoço e deveria ser pelo menos meio dia, senão mais, talvez até uma hora, mas suas sombras estavam as suas costas, quando deveria estar à sua frente.
- O que aconteceu lá...
- Eu não quero falar sobre isso Max. – Bia cortou seu comentário – Eu só quero ir para casa agora.
- Tudo bem...
Pedalaram por um bom tempo em silêncio, nada se movia ao redor, nenhum barulho, nenhum grilo ou pássaro, nem mesmo o vento quente de outrora se fazia valer, agora tudo estava tão parado e tão denso que pareciam estar andando dentro de um líquido espesso, o mundo era agora algo muito diferente e assustador.
Pedalaram suas bicicletas pelo que pareciam ser horas por um trajeto que costumavam fazer em apenas alguns minutos, estavam cansados, exaustos, mas ainda assim o sol se mantinha na mesma posição, a paisagem parecia oscilar entre a realidade a qual estavam acostumados e algo que não era exatamente aquilo, embora parecesse aquilo, ou seja, algo que eles não podiam explicar. Logo depois do último morro puderam avistar a casa, simples, tranquilizadora e aconchegante, ficava no sopé da colina, tinha uma árvore logo na entrada, um pé de ipê cheio de flores amarelas, a casinha, feita de tijolos à mostra, era pequena e rodeada de um gramado já um pouco amarelado pelo sol, um pequeno jardim onde crisântemos pendiam murchos esperando a sombra da tarde ficava logo em frente á uma varanda onde vasinhos de violetas se estendiam pela mureta formando um mosaico de formas e cores berrantes. Só que alguma coisa estava errada... Tudo era perfeito demais, as flores, a árvore, a casa... Tudo bem, haviam deixado tudo isso para trás quando saíram pela manhã, exceto  que faltava vida naquela imagem. Onde estava Rufos? O velho labrador que numa hora dessas deveria estar deitado à sombra da árvore, o cão que quando ouvia o barulho das bicicletas levantava as orelhas e vinha correndo feito um louco. Ou mesmo os beija-flores, a casa vivia rodeada deles nesta época do ano, sua mãe colocava um daqueles chamarizes em formato de florzinha e cheios de água com açúcar, deixava pendurado na varanda que ficava lotada das aves por todo o dia... Mas não havia nada disso agora, tudo estava lá, perfeito, fora o fato de que não havia vida naquela figura. Um sentimento de desespero começou a brotar em seu peito, o garoto sabia (sentia) que uma coisa ruim estava para acontecer, parou a bicicleta na entrada, desceu, deixou-a encostada na cerquinha de madeira, esperou sua irmã desmontar e fazer o mesmo, segurou sua mão, não sabia se ela tinha o mesmo pressentimento que ele, mas achava que sim.
- Mamãe não está em casa não é? – Perguntou a garotinha arregalando os olhos de uma maneira que só ele compreendia o significado, ela queria chorar.
- Acho que ela foi até a cidade... Logo ela chega.
- Eu não acho... Acho que ela foi embora e não volta mais...
- Não seja boba... - Falou ele sem muita convicção – A mamãe só saiu um pouco, ela nunca deixaria a gente sozinho! – As próprias palavras não pareciam convence-lo por completo, mas precisava fazer isso por ela, então encarou a irmã com a melhor e mais paciente cara que pode fazer, tocou as lágrimas que brotavam dos cantos dos olhos, depois sorriu e se virou para a entrada da casa.
As lágrimas corriam copiosamente de seu estreito rosto agora, a garota tinha os olhos vermelhos e esfregava-os com as costas da mão, passaram assim pelo pequeno portão de madeira, entraram na casa ainda de mãos dadas. O local era familiar e ao mesmo tempo lhes dava calafrios, estava escura a despeito do sol que brilhava lá fora, as portas não estavam trancadas, era como se esperasse por eles, demorou um pouco para os olhos se acostumarem à diferença da luz, houve um tempo de silencio, ambos encostados ombro-a-ombro no umbral da porta, o retângulo de luz que batia em suas costas formava uma alongada figura de sombra contra o piso de cerâmica azulada – Mãe! Tá deitada? – Sabia que não estaria, mas precisava confirmar, se neste momento ela aparecesse na porta de seu quarto ele provavelmente se sentiria um idiota, mas ela não apareceu, ninguém respondeu sua pergunta, ele não esperava que alguém respondesse, mas o silencio que se fez ainda o pegou de surpresa.
Parecia estar num sonho mal, como um pesadelo em que você se encontra sozinho no meio do nada, era obvio que ele não estava sozinho, mas se sentia assim do mesmo modo, a garotinha miúda ia encolhida atrás dele – Não posso estar com medo em minha própria casa – Pensou, mas estava com medo mesmo assim – MAAAÃEEE!? – Gritou só para ter certeza, nenhuma resposta. Max não sabia o que fazer, mas entrou na casa e abriu as portas e as janelas, deixou que a luz invadisse a casa, esperava que isso o fizesse se sentir um pouco melhor, não fez. O calor ali era opressivo, mas sabia que com o ar circulando pelas portas e janelas abertas não demoraria muito para o clima melhorar um pouco, sentou-se no sofá da sala e esperou um pouco, não tinha ideia do que viria a seguir, sua irmã foi para cozinha, perambulou por ali sem dizer nada, parecia uma sonâmbula pelos cômodos da casa, pegou um pouco de água na geladeira voltou e sentou-se ao seu lado, reclinou a cabeça sobre seu ombro e ficou ali, parada, com os olhos fechados e a respiração lenta. Sentia pena dela, não parecia a mesma criança que saíra pela manhã toda sorridente porque seu irmão mais velho iria passear com ela fora dos limites que sua mãe impunha, agora sequer parecia uma criança, era mais como uma boneca de corda que vira certa vez na feira da cidade, uma coisinha de cabelos vermelhos que a gente dava corda numa borboleta de plástico presa às costas, depois soltava e ela saia andando com passos duros, sua irmã estava assim agora, sentada ao seu lado, com a cabeça encostada no seu ombro mas sem relaxar, não de verdade, dura como um robô. Passou um braço sobre seu ombro, deitou sua própria cabeça sobre a dela e esperou, não sabia o que fazer, mas ia pensar em algo... 
Algumas horas haviam se passado, seu braço estava dormente e sentia agulhadas no ombro no local onde ela estava deitada, mas tinha medo de acordá-la, nem ao menos sabia realmente se estava dormindo, mas tinha medo de que ela surtasse, se isso acontecesse, não fazia ideia de como reagiria, provavelmente surtaria também. Mas não podia se dar ao luxo de enlouquecer, tinha uma irmã pequena para cuidar, se sua mãe não estava em casa, deveria estar em algum outro lugar, mesmo com tudo muito estranho e embaralhado em sua cabeça, talvez só fosse a falta de um adulto por perto para dar sentido às coisas... É claro... Como não havia pensado nisso antes! Como era burro!!! Tocou levemente a face dela, agora não tinha jeito, devia acorda-la e conversar seriamente sobre o que deveriam fazer.
Ela não estava dormindo, apenas mantinha seus olhos fechados, descobriu isso assim que segurou seus ombros, conhecia-a muito bem, sempre que não queria conversar, discutir sobre qualquer coisa, simplesmente fingia estar dormindo, ele a sacudiu levemente, deixou-a recostada no sofá e falou com o que poderia ser para as paredes:
- Eu sei que você está me ouvindo... Eu vou sair... Tenho que ir a cidade ver se encontro a mamãe ou alguém que saiba onde ela está.
Ela abriu os olhos, ao que parece isso a interessava tanto quanto a ele, abriu a boca para falar, mas ele a interrompeu – Você pode vir comigo ou pode ficar aqui...
- Eu vou com você! Não quero ficar aqui sozinha... Max... Você promete... ...
 
- Promete o que?
- Promete que não vai me deixar sozinha... Promete né... Eu não quero ficar sozinha...
- Prometo sim, eu nunca vou deixar você sozinha tá! Promessa de irmão. Então é melhor você levantar e lavar este rosto, porque nós vamos para a cidade, temos que encontrar a mamãe.
- Mas... A mamãe falou que não é pra gente ir para a cidade sozinhos... Ela disse que é muito perigoso...
- Só que a mamãe não está aqui, e já faz bastante tempo. Então fazemos assim, comemos alguma coisa, porque eu tô morrendo de fome, e depois vamos pra cidade, certo? Ou você quer que escureça e a gente fique aqui em casa sozinhos esperando a mamãe?
- Tá, mas vamos rapidinho...
A cozinha era pequena, limpa e muito bem arrumada. Comeram biscoitos com leite, uma vez que não havia nenhum almoço preparado, deixaram os copos na pia, voltaram a fechar a casa e saíram para o escaldante sol de um dia que parecia não terminar nunca.
- Aonde vamos primeiro? – Perguntou a garota – Segurava sua bicicleta entre as pernas e olhava inquisitiva para o irmão, amava-o, mas duvidava que ele pudesse resolver qualquer coisa sozinho, como da vez em que se perderam da turma numa excursão do colégio, primeiro ele achou que era o máximo estar longe de todo mundo e sem a professora para controla-lo, passado uns quinze minutos, ele já estava chorando sentado em um banco da praça e dizendo para sua irmã (com então seis anos) que queria sua mãe.
- Sei lá, acho que a gente pode ir para o centro da cidade, dar um pulo lá na praça... E se a gente não a encontrar... A gente vai à casa da dona Agostinha... Ela pode ajudar...
- Então porque a gente não vai à casa da dona Agostinha antes de ir pra cidade? É mais perto...
- Por mim tudo bem...
Agora a garota parecia estar mais animada, deixara aquele olhar perdido de lado e se fixava na nova aventura, ir à cidade era tão bom quanto qualquer outra aventura já que nunca seria aprovado por sua mãe, além do mais, se conseguissem encontrar a mãe poderiam considerar-se heróis.
A casa da dona Agostinha ficava a uns quinhentos metros de distância no sentido da cidade. Não tinha nada lá, tão vazia e tão morta quanto todo o resto, era como se o mundo todo houvesse desaparecido, como a história que o pastor da igreja que sua mãe frequentava em certos domingos (ela fazia isso umas quatro ou cinco vezes ao ano) contava – E a bíblia diz... Que todos os salvos serão arrebatados e os ímpios ficarão para sofrer o tormento eterno! E o Apocalipse virá, e todos os mortos se levantarão...
- E se for o fim do mundo? – Falou enquanto montavam nas bicicletas e começavam a pedalar rumo à cidade, dali ainda teriam uns quatro quilômetros e passariam por mais umas vinte propriedades isoladas, teriam tempo para pensar. – Lembra do que o pastor sempre dizia no sermão de domingo? Daquelas coisas sobre o fim do mundo?
A garotinha assentiu com a cabeça, pensou um pouco, depois falou com uma voz baixa: - Se for o fim do mundo... Só nos dois ficamos para traz...
Não falaram nada por um bom tempo, ambos pensavam nas coisas que haviam feito de errado nestes poucos anos de vida, casas vazias ficavam para traz enquanto avançavam pela estrada de terra, o mundo agora era um lugar vazio e ameaçador, e o sol escaldante às suas costas não dava tréguas, nem mesmo se movia na imensidão do céu.
O garoto andava de cabeça baixa, o sol inclemente não dava espaço para qualquer pensamento coerente, mesmo assim uma lembrança lhe sobreveio tão de repente e tão nítida, que quase o derrubou de seu frágil equilíbrio.

                                                     ***
O dia estava quente, não tão quente como agora, mas ainda assim muito quente, era primavera, e embora esta estação do ano seja sinônimo de dias amenos, nesta região as coisas se resumiam a dias chuvosos (no outono e no inverno) e dias quentes e ensolarados (primavera e verão), então estava quente e ensolarado. O garoto deveria ter seus seis anos naquela época, brincava com um balde de água a sombra da árvore em frente a sua casa, tinha alguns soldadinhos de plástico que sua mãe lhe comprara uma semana antes, quando fora a cidade, e outros dois heróis de plástico com armadura removível, estava feliz, podia se lembrar muito bem disso, sua mãe fazia tarefas na cozinha, ele podia ouvir seu cantarolar, era a coisa mais linda que já ouvira, sua irmãzinha dormia confortavelmente em seu berço, ele brincava de afogar os soldados, fazia barquinhos de papel (sua mãe lhe ensinara, e embora os dele não ficassem tão elegantes, ainda se mantinham flutuando sobre a água), podia ver claramente o verde claro das folhas da árvore que já dava espaço para a multidão de pequemos botões amarelos das flores de ipê, a grama verdejante e macia em que forrara sua toalha de praia, e mesmo as formigas que ocasionalmente subiam por suas pernas e lhe faziam cócegas.
Um filhote de pardal caiu de um dos galhos da árvore, ainda estava aprendendo a voar e por isso se tornava um alvo fácil, o melhor brinquedo de todos para um garoto de seis anos, correu, saltou sobre a pobre criatura enquanto esta corria sobre a grama tentando alçar voo, segurou-o com ambas as mãos e rolou para o lado deitado na grama fresca. A criaturinha era perfeita, linda, as peninhas rajadas de marrom e preto, o bico fino que piava sem parar pelo puro desespero, as asinhas frágeis que se debatiam sob suas mãos, as finas perninhas, tudo era novo e empolgante, uma coisa viva, não um boneco, mas algo que sentia dor, que se esperneava e lutava pela própria vida, e o melhor, ele era quem estava no comando, ele era quem controlava a vida do pobre animal. Estava extasiado, pensou em correr e mostrar para sua mãe, depois pensou bem, ela mandaria solta-lo, perderia toda a graça, este era seu segredo, seu novo amigo, um bichinho de estimação, um bichinho de verdade, não como Rufos que o arrastava pela grama e roubava a bola quando ia jogar com seus amigos, este estava totalmente sobre seu comando...
Por um longo tempo havia se esquecido de seus outros brinquedos, da bacia com água, dos barquinhos de papel, mas então sua nova atração deixou de ser tão interessante assim, ele queria brincar, mas se soltasse o passarinho, este iria embora, então pegou um dos barquinhos de papel, encontrou um pedaço de barbante na costura de sua bermuda, retirou-o com cuidado para aproveitar ao máximo, amarrou o filhotinho ao barco e colocou-o na bacia com água. Pronto, ali estava o enorme monstro em seu navio de batalha, destruindo todos os outros barcos e jogando no mar os soldados que tentavam se proteger, o pobre passarinho batia as asas tentando voar, o máximo que conseguia era fazer com que o barquinho de papel se deslocasse em círculos dentro da bacia com água, erguia o corpo tentando voar. Ele então pegou o pássaro nas mãos, colocou o barco de papel sobre ele e virou-o sobre a água, o filhote desceu, afundou no liquido enquanto o barquinho de papel enxia-se de água e afundava lentamente, ficou ali, olhando a pequena ave se afogar, estava vidrado e concentrado no que via, não demonstrava o menor ímpeto de tirá-lo daquela situação, o filhote se debatia freneticamente, subia a superfície, voltava a afundar, com o tempo o papel (pesado pela umidade) puxava-o para o fundo da bacia, o garoto apenas observava, atônito, não fazia nenhuma menção de salvá-lo, apenas ali, olhando, até que a pobre criatura não voltou mais para a superfície... Levou um longo tempo olhando o que havia feito, a pequena ave estava com o corpo parcialmente coberto pela água transparente, a cabecinha mergulhada na água, as asinhas esticadas, ele então apenas tirou a ave dali, cortou o barbante que prendia seu pé, levou-o até o latão de lixo que ficava próximo a rua e o depositou com cuidado lá dentro, depois voltou, olhou para o monte de brinquedos espalhados pela grama, juntou-os, jogou a água da bacia e entrou para casa dizendo para sua mãe que não queria mais brincar...

                                         ***
- Eu sou mau. – Declarou ele baixinho.
- O que você disse? – Perguntou ela.
- Nada... Deixa pra lá...
- Você não é mau, é meio esquisito e faz umas coisas sem sentido, mas não é mau...
- Sou sim... Você não me conhece... Se este for o fim do mundo, eu sei que fiz muita coisa errada. Você é muito nova para saber disso...
- Como se você fosse muito velho mesmo! É só dois anos mais velho, além do mais, não é o fim do mundo, e se for, não foi só você quem ficou para traz...
- Mesmo assim, eu sei que sou mau...
Não falaram mais, não estavam com clima para conversas, ainda mais depois de haverem passado por várias casas ao longo do caminho, e nenhum sinal de vida. O numero de casas aumentava enquanto chegavam próximos ao centro, o bairro pelo qual passavam agora era bonito, asfaltado e com enormes quebra-molas a cada cem metros mais ou menos. Belas casas por detrás de seus muros e grades enfeitavam o ambiente com suas cores e seus jardins, casas verdes, amarelas, azuis, e tantas outras mais... Nestas partes não se percebia muito a presença de pessoas, cada família passava seus dias no trabalho, na escola ou trancada dentro dos muros, nos finais de semana, saiam para a praia ou para casas de campo, quando a semana recomeçava, eles simplesmente voltavam para suas rotinas e diziam em seus trabalhos que gostavam de morar no subúrbio porque era muito mais calmo e tranquilo... Deve ser mesmo, nunca se vê uma viva alma por estes lados...
A escola primária estava deserta, isso não significava muita coisa já que era sábado, embora isso, a quadra deveria estar sendo utilizada por um bando de garotos suados e encrenqueiros que normalmente faltavam ás aulas no meio da semana e apareciam na escola religiosamente aos sábados para jogar futebol. Mas não havia nada ali, nenhum grito por detrás dos muros, nenhum barulho de bola, nada... Apenas aquele silêncio absurdo que cobria como um véu o dia que não tinha fim.
Passaram a escola e vários outros prédios comerciais, estavam agora bem perto do centro, nada muito grande, a cidade em si era uma piada, algumas lojinhas de roupas e uns mercadinhos, vez por outra encontrava-se (no lugar onde antes era um mercado ou um bar), alguma igreja evangélica, pipocavam pela cidade, cada qual com seu nome mais estranho que a outra, todas demonstrando o poder e a bondade de Deus... As crianças apenas olhavam para as placas sem dizer nada, parecia que aquele Deus havia deixado para trás mais que um mundo abandonado.
De onde estavam dava para ver a praça, seca, com algumas árvores velhas que destruíam parcialmente a calçada com suas raízes protuberantes, o gramado amarelado escasso e a terra esbranquiçada e poeirenta dentro dos canteiros, bem em frente á praça ficava a velha pensão, ninguém sabia como a senhora Hortides conseguia manter aquilo funcionando, já que não haviam muitos turistas por estas bandas e ninguém se hospedava ali já fazia anos, mas enfim, estava lá o prédio de dois andares, caindo aos pedaços e de portas abertas, assim como a lanchonete do outro lado da praça e a banquinha de jornais do seu João, tudo deixado para trás, aberto e às moscas, exceto que não havia nenhuma mosca por ali, nenhum mosquito sequer, tudo tão morto e quieto...
Chegaram à praça por uma rua de paralelepípedos desiguais que faziam com que as bicicletas saltassem sem rumo por quase todo o trajeto, o sol continuava forte e abrasador, sentaram-se então na sombra de uma das árvores do centro da praça, olharam em volta, nada se movia, nem sequer uma brisa, o relógio de parede dentro do lanchonete marcava 11:30 h – Impossível – Pensou – Deve estar atrasado... E muito... Nós saímos de casa lá pelas dez... Onze e meia... Era para nós estarmos saindo do cemitério a essa hora, ou seja, deve ser lá pelas três e meia da tarde, talvez mais, provavelmente mais... Ficamos em casa por um bom tempo esperando a mamãe, poderia ser até umas quatro e meia.
- O que você acha Max? Todo mundo sumiu mesmo... Parece que só tem a gente na cidade...
- Você não reparou que o dia parece não estar passando... – Falou ele sem prestar muita atenção a conversa, estava falando mais consigo mesmo – Deveria ser pelo menos três e meia, quatro horas talvez... E é como se fosse onze e meia... A hora em que saímos do cemitério... Como pode?
- E se nós não saímos? – Bia falava enquanto tocava no ombro de seu irmão, ele estremeceu ao toque, estava com medo.
- Como assim?
- É, e se nós ainda estivermos dormindo lá... Talvez desmaiados... Sei lá...
- Não pode ser... Nós levantamos e saímos de lá, não tem lógica...
- É claro que tem... Pelo menos tem mais lógica do que todo mundo da cidade ter desaparecido no ar.
- HAAAAAAAAAAAAA!!! - Ela gritou, mais com o susto do que com a dor do beliscão que levou no braço.
- Não... Acho que não estamos sonhando... Senão você não sentiria isso...
- Ai! Não precisava ter feito isso! Deixe-me fazer em você pra ver se é bom!
Ele se esquivou facilmente das mãozinhas finas dela, sorria enquanto corria pela grama perseguido pela irmã.
- Ei! Para! Para! Espere aí um pouquinho! Que tal se a gente for tomar um sorvete? Não tem ninguém por aqui mesmo... E tá um calor danado!
A garotinha parou, ainda sorria com um jeitinho meigo e inocente, mas levantava as sobrancelhas pensativa, fazia realmente muito calor.
- Não sei. Não parece certo...
- Mas não tem ninguém! E vai ser só um sorvetinho...
- Tudo bem então... Mas não vamos fazer bagunça, e quando a gente encontrar a mamãe, a gente conta pra ela.
- Mas você sabe que se a gente contar ela vai ficar brava...
A garotinha pensou por mais uns instantes, não gostava de fazer coisas escondidas, mas aquele dia não era comum, primeiro, haviam ido ao cemitério sem a permissão dela, agora estavam na cidade, sem permissão, então, tomar um sorvete sem permissão não seria nada...
- Tudo bem... Vai ser nosso segredo... Mas é só um sorvete tá?
- Você é quem manda. Quem chegar por último é mulher do padre!
As crianças correram pela praça em direção à pequena lanchonete do outro lado da estrada, entraram, estava relativamente mais fresco lá dentro, o pequeno ventilador de um branco encardido que estava pregado à parede jogava um vento quente, mas constante sobre o ambiente, havia sido deixado ligado, o que quer que tenha acontecido, não deu tempo nem mesmo de desligar os aparelhos da tomada. Um televisor chiava sem sintonizar qualquer canal num canto atrás do balcão, a geladeira, o frízer, a estufa de salgados, tudo estava ligado, mas o barulho não parecia ser exatamente igual, era abafado, estranho...
Não perderam muito tempo com considerações, não em frente a um frízer cheio de sorvetes e picolés... Cada qual encheu os braços com potes de diversos sabores, correram para o balcão, Max saltou-o (poderia ter passado pela portinhola, mas não teria graça nenhuma), pegou algumas travessas de plástico e encheu-as de sorvete, sua irmã fez a mesma coisa pelo outro lado do balcão, sentaram-se então nos banquinhos de madeira e se esbaldaram em doces com colherezinhas de plástico colorido.
- Não aguento mais... Tô cheio...
O garoto se esticou em frente ao ventilador, debruçou-se sobre o balcão e ficou mordiscando alguns amendoins torrados, a garota fez o mesmo, de onde estavam podiam ver a rua, a praça, e logo à frente, os jardins acabados por detrás da mureta semidestruída da velha pensão, os olhos da garota acompanharam a estrutura malfeita até avistar o telhado, depois deste, lá ao longe, onde as colinas arroxeadas tocavam o azul do céu, o pequeno ponto de pedra da velha catedral parecia reluzir ao sol, uma pérola no topo da montanha.
- Vamos para lá? – Exclamou enquanto apontava o fino dedinho branco para o céu.
O garoto levantou os olhos, estava sonolento, o dia havia sido cheio de aventuras e isso era desgastante, baixou a cabeça novamente para a tábua de madeira e falou em tom sonolento e distante:
- Depois... Agora é melhor a gente descansar...
- Mas Max? E a mamãe? Nós temos que procurar a mamãe...
- Vamos descansar primeiro, depois a gente procura.
Fechou os olhos e adormeceu quase que instantaneamente, o tempo estava quente, mas ali o vento refrescava um pouco, era bom, muito bom...
 
Ele estava dormindo, sabia que estava sonhando, mas não dava a mínima para isso, este era o sonho que ele tinha todas as noites, ele sabia que sonhava com isso sempre que ia para a cama dormir, sabia também que quando acordasse não se lembraria de mais nada, mas tão pouco isso importava, o importante agora era que ele estava chegando, achava que na verdade o sonho era mais uma lembrança que não conseguia se fixar durante o dia, algo que só aparecia enquanto estava dormindo. Estava em frente à sua velha casa, não a que eles moravam agora, antes que seu pai morresse eles viviam numa casa maior, o quintal era grande e todo gramado, havia uma cerquinha de madeira branca em volta, nos fundos, um enorme tanque com peixes e algumas galinhas, podia ouvir o pai chegando de longe, ele tinha uma enorme carreta que usava para trabalhar, no sonho, ele não era pequenino, tinha dez anos, a idade que tem agora, mas seu pai estava vivo... Podia ver o rosto dele através da janela da carreta, ele sorria, acenava enquanto fazia a volta para estacionar aquele monstro metálico.
- Pai! Pai! – Ele podia se ver correndo pelo gramado, a grama um pouco dura por ter sido cortada recentemente estalava ao contato de seus pés descalços, se pai descia pela escadinha da enorme carreta, sorria e vinha para abraça-lo... Nessa hora o sonho sempre acabava, ele sempre acordava em sua cama, na casinha em que morava agora com sua mãe o chamando para ir à escola. Dessa vez não, dessa vez seu pai o abraçou, levantou-o no ar e o segurou demoradamente contra o peito, depois falou com uma voz suave o grossa que ele não se lembrava de ter ouvido, mas que gostava assim mesmo:
- Esperei tanto tempo por isso meu filho!
O cheiro de sua loção pós-barba impregnava seu nariz, ele queria falar, dizer ao pai o quanto ele mesmo esperava por isso, falar o quanto sentia sua falta, o quanto ainda o amava... Mas não podia, as palavras simplesmente não saiam de sua boca, ele gaguejava, balbuciava, mas nada, então as lágrimas escorriam por seu rosto, seu pai o segurava fortemente contra o peito e falava ao seu ouvido: - Você precisa ser forte... Eu sei que sente saudades, mas você precisa ser muito forte, você tem que tomar conta de sua irmãzinha agora, ela não tem mais ninguém...
- Eu... Eu... Preciso de você...
- Você só precisa ser forte e se lembrar que eu vou sempre estar perto de você, é sua irmã que precisa de você agora, você é o homem da casa...
- E se eu não conseguir? Se eu não puder ser forte?
- Eu sei que você vai. Agora você já é um homem... Ajude sua irmã.
Então o cheiro de loção pós-barba se esvai, seu pai some, a casa em que morava quando era criança desaparece lentamente, o gramado, a cerca, tudo... Ele está no vazio agora, uma escuridão total, embora isso, pode ver suas mãos, mas se prestar bem a atenção, lá no fundo (não consegue distinguir se para cima ou para baixo), bem longe, uma pequena centelha de luz, pensa com ironia – A luz no fim do túnel – Mas não é a luz que chama tanto a sua atenção mas sim o som, no principio apenas um som indistinto, mas a media que se aproxima da luz ele pode também ouvir melhor, e o que ouve o deixa com medo, o que ouve é sua própria voz...
- Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ...
E lá estava ele... No fim do túnel, a luz que via era na verdade o momento em que estavam no cemitério, sua irmã o segurava no colo, estava muito assustada, mesmo assim o segurava com todas as forças, ele estava inconsciente e falava coisas sem sentido, por um momento pensou no que sua irmã lhe dissera, que ainda estavam no cemitério, desacordados, visto dessa forma parecia mais que possível, parecia até mesmo provável... Mas então o quadro virou, ele não estava mais olhando para seu corpo em frente à tumba da velha bruxa, agora ele estava entrando na floresta...
A floresta era escura e fria, de longe parecia um lugar muito bom para se estar, algumas aves cantavam escondidas na folhagem, parecia muito viva, convidativa. Ele olhava por sobre o mato alto próximo à divisa, estava em um pasto, atrás de si a casa da velha bruxa brilhava sob o sol da manhã, não parecia muito assustadora, apenas uma casinha no meio de um enorme pasto verdejante... Ao olhar para a imensidão verde, lhe veio à mente uma frase que ouvira em algum lugar, não consegui onde exatamente a ouvira, provavelmente daquele pastor da igreja que sua mãe frequentava algumas vezes no ano, de qualquer forma, não era importante, apenas as palavras que dançavam em sua mente faziam sentido agora - Andar-me faz por verdes pastos... – O restante estava perdido demais no fosso de seus pensamentos para ser resgatado. No final, apenas a floresta era importante e ela o chamava, e sua voz chegava a ser erótica, sensual, ele andou em direção a ela, queria entrar e descansar a sombra das árvores, queria sumir em seu interior, desaparecer... Mas então algo aconteceu, uma lembrança distante, em algum lugar, uma garotinha estava esperando por ele, ainda queria sumir, mas havia prometido que cuidaria dela, seus pés ainda caminhavam em direção a refrescante sombra da floresta, ela ainda o chamava, ainda o queria... Ele parou, olhou para trás, a casa da bruxa ainda estava no mesmo lugar, o campo, tudo estava lá, mas ele tinha algo mais importante, mais urgente, ele tinha que cuidar de uma garotinha pequenina que confiava nele, seu pai havia dito, e ele iria cumprir sua promessa...
Abriu os olhos, estava deitado sobre o balcão da lanchonete, sua irmã, sentada num dos banquinhos de madeira, estava debruçada sobre a ponta do balcão e dormia suavemente, levantou-se, saltou para o piso de cerâmica desbotada, olhava agora para as colinas mais a frente, sua coloração arroxeada se perdendo ao longe, o brilho catedral refletindo o sol imutável, acabou por compreender tudo, não estava mais em sua cidade, não encontraria mais sua mãe, nem mesmo outra pessoa sequer, estava preso em um lugar diferente, idêntico a sua cidade em tudo (exceto que não havia outras pessoas ali), mas de alguma forma que não compreendia, muito diferente. Então um movimento rápido passou pelo canto de sua visão, alguma coisa se movera na rua lateral da praça, ele desviou o olhar rapidamente das montanhas, mas não conseguiu ver quem era, apenas vislumbrou um vulto vestido de branco correr pela rua e desaparecer em instantes na esquina das lojas.
Olhou para trás, sua irmã ainda continuava em seu sono sobre o balcão, correu pesadamente para o calor do sol que banhava a rua, virou a esquina a tempo de ver novamente o vulto correr para a outra rua, continuou correndo, dessa vez gritando – Ei! Espere! Quem está ai! Espere um pouco!
O vulto continuava a correr, uma vez ou duas virou o rosto para trás, parecia-se muito com sua mãe, quase podia jurar que era ela. Esforçou-se mais, correu com todas as forças para alcançar a mulher (agora sabia com certeza que era uma mulher), mas cada vez que a chegava perto de alcança-la, ela desaparecia, depois simplesmente aparecia em outra rua, sempre correndo, por vezes, virava o rosto, sorria, podia jurar que era sua mãe, mas porque não parava então? Porque fugia dessa maneira? Ele não sabia, estava cansado de correr, voltou cabisbaixo para a praça e sentou-se debaixo de um enorme pé de árvore – Desistiu? – Gritou a voz de mulher – Mas eu estava apenas começando! – Ele olhou em volta procurando a autora da voz, nada...
- Ei Max! Você nunca foi muito bom nisso não é filho!
Então era mesmo sua mãe, mas o que estava acontecendo, ela nunca agia assim, era sempre fechada e preocupada – Não saia ao sol! Você vai se queimar! – Dizia – Não corra! Você vai cair! – Não faça isso, não faça aquilo... Era sempre esse o falatório de sua mãe, nunca a vira correr, brincar com ele, sorrir... O que era isso então.
- Max! Vem me pegar! Deixa de ser bobo! É por isso que todo mundo diz que você é um bebe chorão! Você nunca vai conseguir!
- Quem é você? Não é minha mãe!
- Olha o jeito como fala comigo menino! Sua irmã é muito melhor que você... Ela ao menos acredita em mim... E já que você não acredita, só ela vai voltar comigo para casa.
Ele olhou para trás, sua irmã não estava mais na lanchonete, de onde estava, podia ver somente o monte de embalagens de sorvetes sobre o balcão – O que você fez com ela?! Onde está a Bia?!
A voz havia cessado, não havia mais ninguém ali, ele estava sozinho na praça de uma cidade fantasma, e ele era o fantasma...
- CADÊ VOCÊ?! – Gritou para o nada, os ecos ecoaram no local vazio.
- BIAAA!!! BIAAA!!! CADÊ VOCÊEE????
Correu para a lanchonete desesperado, nada ali, apenas o lixo deixado para trás, saiu na porta sem saber o que fazer, não conseguia raciocinar direito, estava tudo tão embaralhado em sua mente que ele não conseguia pensar. Para onde fora sua irmãzinha? Quem era aquela pessoa? Será que era sua mãe?
Ele nunca fora muito bom em pensar, era Bia quem sempre o ajudava nisso. Ora bolas! Ele nunca fora muito bom em nada! Nunca fez o tipo atlético, sempre apanhava dos outros garotos na escola, nunca se saia bem com as garotas, tinha medo do escuro, e por que não... Morria de medo de ficar sozinho! Quem sempre o tirava das enrascadas era sua irmã mais nova, isso era mesmo ultrajante! Ele nunca soube se virar sozinho, sempre dependeu daquela criaturinha franzina para o tirar dos problemas, perto dela ele se sentia bem, longe, era só um bebezão...
- BIIIAAAA!!! – Tornou a gritar, estava ficando se folego agora, sentou-se na calçada, ao sol, baixou a cabeça, colocou as mãos nos olhos e começou a chorar... Não queria chorar, não era assim que as coisas deveriam acontecer, ele tinha que fazer alguma coisa, afinal era sua irmã que havia desaparecido. Quem ele queria enganar, todo mundo havia desaparecido, primeiro seu pai, depois sua mãe, agora Bia, merda! A cidade inteira havia desaparecido! Talvez o mundo todo! E ele estava sozinho sentado na sarjeta e chorando como um bebê... E o que mais ele poderia fazer? Era só um garoto com dez anos, ninguém poderia culpa-lo por não fazer nada...
A porta da pensão do outro lado da praça estava aberta, embora isso não dava para ver nada dentro do casarão, nas sombras, uma figura esquálida moveu-se furtivamente, os cabelos avermelhados balançando de um lado para outro, corria descalça pelos corredores apertados se aprofundando na escuridão. Ele reparou no vulto, primeiro pensou ser a pessoa que havia fugido pelas ruas da cidade, mas pensando bem, era pequena demais... Levantou-se num salto, correu para o meio da rua – BIIIAAA!!! BIIIAAA!!! BIIIAAAA!!! – Era sua irmã quem se escondia dentro daquele escuro corredor. Graças a Deus! Ela estava ali, bem. Graças a Deus ela estava viva!
Ele entrou na casa assustado, não pensava ser tão escura num dia claro como aquele, na verdade, bastava acostumar seus olhos à diferença de ambiente, o corredor estava na penumbra, era estreito e não tinha janelas, pelo pouco que podia ver, as paredes estavam adornadas com papéis de paredes contendo motivos florais, o piso de ladrilhos verde extremamente desgastado refletia a luz que vinha do final do corredor, provavelmente uma janela fechada – A luz no fim do túnel – Pensou. Caminhou por ali com extrema cautela, dessa vez tinha medo de fazer barulho, de dentro da casa não parecia muito sensato chamar por sua irmã, mesmo que a figura que estava lá quando ele chegou se parecesse com ela.
Depois que os olhos se acostumaram à penumbra ele pode andar um pouco mais depressa, empurrava as portas destrancadas dos quartos, colocava a cabeça entre a fresta e verificava os cômodos, cinco quartos no andar térreo, a última porta a esquerda era na verdade uma sala de estar, no final do corredor tinha realmente uma janela, por suas frestas pode perceber que não dava para um quintal como pensara, antes, dava para uma extensa lavanderia, o cheiro de sabão impregnava o ambiente, entrou na sala de estar, no canto direito, uma comprida escada levava para o segundo andar, no canto oposto, outra porta, esta era dupla e tinha apenas uma cortina de miçangas separando um cômodo do outro, atravessou este primeiro, se não a encontrasse no andar térreo, só então tentaria procura-la no piso superior. Enganou-se ao pensar que ali pudesse ser uma cozinha, era mais para uma sala de jantar, os móveis em madeira antiga estavam caindo aos pedaços, uma televisão (um pouco menor que a da sala de estar) ficava pregada na parede a um canto, uma meia parede dividia a sala da jantar da verdadeira cozinha, esta era pequena e muito mal organizada, panelas sujas estavam jogadas sobre a pia, outras, ainda com restos de comida, ficavam sobre o fogão, uma geladeira velha estava entre os dois cômodos, alguns imãs de geladeira pendiam empoeirados desta, num canto afastado da sala de jantar ficava um bar, um balcão de madeira com várias bebidas numa estante improvisada, alguns quadros retratando a própria cidade recobriam as paredes em cor pastel, a igreja no topo do morro, a linha do trem, algumas crianças passando pela praça do centro... Pareciam tão deslocados naquelas paredes encardidas, meio tortos, ali, pegando poeira... Passou por eles, sua irmã não estava por ali.
Deu uma breve olhada na pequena cozinha, nada, voltou para a sala de estar, no canto oposto ao da porta da cozinha estava uma porta pequena, feita de madeira, quase escondida ao lado de uma estante de livros empoeirada, na estante, algumas fotografias antigas da cidade pegavam poeira, estas combinavam muito bem com o lugar... Atravessou a porta e foi parar no amplo espaço da lavanderia, o piso feito de cacos de cerâmica multicoloridos, dois tanques de roupas, alguns varais feitos de arame, alguns baldes cheios de água, lençóis embolados em uma cesta de roupa suja, ao longe, um muro blocos à vista fechava a propriedade, encostado no muro estava uma pilha de lenha seca, mais a frente, um fogão à lenha feito de terra batida deixava boa parte do muro suja de fuligem, recostado neste, um velho machado descansava com o fio apontado para cima, o cabo curto e polido convidava para segurá-lo, o fio ainda brilhava um pouco ao sol. Deu dois passos em direção a ele, mas parou, um machado não seria muito útil agora, ele estava procurando sua irmã, e seja lá o que encontrasse, não pensava em usar um machado...
Subiu a escadaria para o piso superior, o corredor deste andar era um pouco mais escuro que o outro, mas os motivos florais na parede eram os mesmos, o piso por outro lado era feito de taco, cada passo seu parecia retumbar sobre a madeira, andou lentamente sobre as pontas dos pés, abriu a primeira porta, apenas mais um quarto com as paredes naquela cor pastel horrível, ouviu passos, ainda estava com a cabeça entre a fresta da porta quando algo passou correndo por suas costas, pode até sentir o vento roçando seu pescoço...
- Bia? É você quem está aí? – Falou ele baixinho – Se for, não tem graça nenhuma!
Olhava agora para o corredor vazio em sua frente, estava como muito medo, suas pernas tremiam e ele se obrigava a avançar, sua vontade era de sair correndo dali, sumir... Mas mesmo assim ele avançava, colocava a cabeça entre as portas, de um lado e de outro do corredor, no final deste havia outra janela, igual a do corredor de baixo, mas localizado em uma posição oposta, a luz daquele lado era um pouco menor. Podia sentir o calor, escaldante dentro daquele espaço fechado, o suor corria por todo o seu corpo, seus ralos cabelos estavam colados à testa, sua boca estava seca e com um gosto de cobre, ele andou, porta após porta, não podia parar, colocava a cabeça entre as frestas das portas e olhava os quartos vazios, um após outro, até chegar ao final do corredor. Não havia mais quartos para olhar, ela tinha que estar ali...
Empurrou a porta com cautela – Bia, você está ai? – nenhuma resposta veio, entrou, pé ante pé, este quarto era um pouco diferente dos outros, em uma das paredes havia uma grande porta de vidro, do tipo corrediça, dava para frente do hotel e tinha como vista a praça, tinha uma cortina de cor creme com um canto repuxado, ao lado da porta pela qual entrou, um quadro de Goya estava pendurado torto na parede, retratava um incêndio, era escuro e assustador, arrepio frio correu por sua nuca, avançou mais alguns passos, olhou para o banheiro que ficava em anexo, a porta estava aberta, não tinha muito que ver ali, a cama estava arrumada, num criado-mudo ao lado desta estava um caderno de anotações velho, caindo aos pedaços, a capa toda amarrotada e as folhas se soltando, uma pequena geladeira ficava do outro lado próxima ao pé da cama, fora isso, não viu mais nada, tudo parecia vazio ali também...
Estava voltando por onde viera quando a coisa tocou em sua nuca, era gelada, áspera... Ele virou-se em pânico, sabia, em algum ponto de sua consciência que aquele seria o fim... Nada... Não havia nada às suas costas, deu dois passos para trás, olhava assustado para o quarto vazio, de certa forma aquele cômodo parecia obsceno. A porta do banheiro bateu. Ele quase gritou de susto, teria gritado se ainda tivesse um pouco de fôlego, estava prendendo a respiração desde que a coisa o tocou no pescoço, o jato de ar saiu e voltou para dentro de seu corpo de uma forma tão rápida que ele se sentiu tonto.
Virou-se para a porta, estava prestes a correr, tinha realmente entrado em pânico, então, a coisa estava lá...
Ele não sabia descrever realmente o que via, era sua irmãzinha que estava ali, mas ao mesmo tempo não era... Esta... Coisa, bem, ela não tinha nada a ver com sua irmã. Os cabelos avermelhados, o corpinho pequeno e frágil, as roupas, tudo era da Beatriz, mas ela sorria para ele, um sorriso que congelava o sangue... Olhou para o quadro ao lado – Gostou? Fui eu quem colocou ali... – Endireitou-o na parede – Você sempre foi uma criança medrosa e chorona, mas eu gosto de você... Acho que é, sei lá, esse seu potencial escondido. Lembra daquele pobre passarinho que você afogou? Aquilo foi pura maldade! E o gato da vizinha que matou a pedradas? Ou da vez empurrou aquele garotinho do barranco e ele quebrou um braço? Aposto que você ficaria mais contente se ele quebrasse o pescoço...
- Eu conheço você melhor que você mesmo! Sabe por quê? Muito simples, porque eu sou muito bom nisso!
- Agora mesmo eu tenho uma menininha presa em algum lugar, e acho que ela está sofrendo bastante...
- O que você fez com a minha irmã?
- Eu? Ha ha – O rosto da criança se contorcia de uma maneira estanha, era como uma máscara de pele, e a coisa que estava por debaixo era disforme, tentava se parecer com sua irmã, mas era só uma capa mal acabada – Eu ainda não fiz nada com ela... Mas vou fazer... E você vai me ajudar, não vai? Eu sei que vai... Você é como eu, adora machucar as pessoas, adora fazer mal a quem não pode se defender... E não pense que tem uma lição de moral aqui não... Eu gosto mesmo do que você faz, talvez com um pouco de treino um dia possa ser como eu... E temos muito tempo para treinar aqui...
A coisa que parecia (mas não parecia ao mesmo tempo) sua irmã veio para ele, num instante estava encostada na porta, no outro, estava junto a ele, não deu para ver aquilo se mover. Se de longe era “quase” parecida com sua irmã, de perto não se pareciam em nada, a pele falsa deslizava sobre o que quer que estivesse por baixo, o sorriso era debochado, malicioso, o hálito, fétido, como carne apodrecida, mas por baixo daquilo tudo ele percebeu algo a mais, os olhos da coisa pediam socorro, os olhos ainda eram de sua pequena irmãzinha.
- E então – Falou a “coisa irmã” bem ao seu ouvido – Você vem comigo para a floresta? Se vier, vou te ensinar tudo o que sei... E você é um garoto esperto, tem o dom... Vai aprender rapidinho.
Ele estava paralisado ali, o corpo que falava com ele era da sua irmã, mas por debaixo dele, de alguma forma, a coisa havia entrado, vestindo-o como uma roupa , e ainda assim mais no fundo, sua irmã estava presa lá, sofrendo.  Ele sabia o que tinha que fazer... Só não sabia se teria coragem para tal, não sabia se era mau o bastante...
A coisa tocou seu rosto, aqueles dedinhos finos sobre sua pele, mas por debaixo daquilo (sempre tinha algo por debaixo) pôde sentir a intromissão, sentiu-se violado com aquele toque, seu estômago revirou, sentiu repulsa, a coisa que o tocava era nojenta, uma coisa que esquadrinhava seus pensamentos. A coisa percebeu isso, retirou vagarosamente os dedos de sua face e sorriu descaradamente para ele – Não, não, não... Você não vai fazer isso... Não vai porque não quer... E se for mau o suficiente, significa que é melhor do que eu pensei...
Ele arregalou os olhos e deu um passo para trás, a coisa dentro da pele de sua irmã não se continha mais, queria sair, começava a escorrer pelos poros, a saltar da face branca cheia de sardas, sentiu um arrepio, os olhos da garota à sua frente suplicavam, ele estava paralisado, a coisa avançava para ele sem que o corpo se movesse, vinha de todas as partes, ele andava para trás, passo após passo... E a coisa vinha, saltava no espaço que ficava entre eles sem realmente se mover, apenas estava lá. Mais um passo para trás, o sol bateu em seu corpo, havia atravessado todo o quarto e agora estava entre a porta de vidro e a varanda ensolarada, olhou para trás por um momento, toda a cidade a sua volta parecia reluzir ao sol, a despeito do calor que fazia, sentiu um enorme frio atravessar seu corpo, a coisa estava sobre ele, segurava seus braços e pressionava o corpo da menina contra o seu, tentou escapar, mas ela era forte demais, sentiu o que quer que fosse que estava debaixo daquela pele querendo sair, passava dos poros da menina para os seus, queimava, ardia, e era frio ao mesmo tempo... A coisa que estava na garota esquadrinhava sua pele e forçava entrada por seus pensamentos, ele lutava, tentava se afastar, tentava resistir, mas não conseguia, não era sua irmãzinha que estava ali, era uma coisa muito mais antiga, algo que tinha a idade do tempo, algo que era a personificação do mau...
Enquanto lutava, a coisa entrava ferindo sua pele e cantando em sua mente - Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ...
Por um instante ela parou, estacou em sua investida contra a mente dele, o garoto se sentiu mais forte, confiante, afinal talvez pudesse vencer esta batalha, talvez pudesse fugir... Então ela sorriu, não o rosto da menina, a coisa que já estava em sua cabeça... Ela sorriu e ele soube que já estava tudo acabado, ele nunca teve a menor chance... Agora ele podia ver através dos olhos da coisa, ou era ela que via através dos seus? Não sabia ao certo, mas compreendia o que estava acontecendo, não podia explicar, mas podia muito bem compreender tudo, desde o começo, muito antes de haver vida, muito antes de haver tudo... Ela estava lá, dormindo seu sono eterno, agora ela queria sair, e ele compreendia... Ele era a coisa, e a coisa era maior que tudo...
No abismo dos deuses adormecidos, restam sempre partes que ainda não foram despertadas...

                                                     ***
O garoto abriu os olhos, estava deitado sobre o duro balcão de madeira da lanchonete, seu corpo estava molhado de suor, suas articulações doíam, ele estava um bagaço... Então fora tudo um sonho... O pior pesadelo que já tivera (será mesmo? Falou uma voz em sua cabeça). Olhou em volta, sua irmã não estava lá, saltou, vistoriou o deposito, a pequena cozinha, nada, foi até a porta da lanchonete a tempo de ver o vulto da garotinha correndo para dentro da pensão do outro lado da praça – BIAA! – Gritou. Ela olhou para trás por um momento, pode ver de relance aquele sorriso maldoso em seu rosto... – É a coisa – Pensou – Então não foi só um sonho, a “coisa” realmente pegou ela, e agora quer me pegar também! Mas dessa vez eu vou fazer a coisa certa... Eu tenho coragem para isso...
 
                                                      ***
A garotinha acordou com os gritos do irmão, estava sentada num dos bancos de madeira e com a cabeça recostada numa das pontas do balcão. Ele estava deitado ali perto, esticado sobre o balcão de madeira da lanchonete, estava suando, gritava coisas sem sentido e golpeava o ar com força. Ela sentiu medo, um medo irracional, mas desde quando este dia havia sido racional? Teve aquela “coisa” no cemitério, todo mundo desaparecera (exceto ela e seu irmão), e esse sol... Essa enorme bola de fogo que fica parada no céu (já deveria estar passando das oito da noite e ainda parecia que não dera nem mesmo meio-dia)... Nada disso era racional.
Foi até o irmão, ele parecia preso no próprio sonho, grandes gotas de suor brotavam de seu rosto. Ela o empurrou, nada, balançava-o com de um lado para outro, nada, ele não iria acordar. Então seu rosto começou a mudar, não se parecia mais com um anjinho barroco, a pele começou a se mover como se houvesse algo a mais por debaixo dela, o couro se esticava e se movia em várias direções, ela encostou a ponta do dedo sobre a pele, parecia morta, era repugnante. Então a coisa aconteceu novamente... Ele começou a falar, repetir aquela frase que havia dito no cemitério, cantá-la...
- Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ... Nell'abisso degli dèi addormentato, rimanendo sempre azioni che non sono stati sollevati ...
Logo depois ele abriu os olhos, estavam completamente brancos, ela deu um salto, tropeçou num banquinho de madeira e quase caiu, saiu aos tropeções ainda sem conseguir tirar os olhos do corpo no balcão, encostou-se na parede ao lado da porta, queria sair dali correndo, mas não podia, então a coisa falou...
- Oi querida! – Sua voz era distorcida, gutural, não parecia sair da garganta de um garoto, era sarcástica também, exalava maldade.
- Chegue mais perto... Eu quero ver você.
O garoto virou o rosto para ela, os olhos ainda estavam completamente brancos, mas não duvidava que a coisa que estava dentro dele pudesse vê-la, ele sorriu... Uma risada velha e maldosa, seu rosto contorceu-se daquela forma estranha que se movia sem realmente se mover. A garota desviou os olhos, buscou uma rota de fuga, algum lugar onde se esconder.
- Não se preocupe com isso querida... Vou deixar você correr à-vontade! Nós temos todo o tempo do mundo! Ao menos eu tenho... De qualquer maneira, não teria graça se tudo acabasse aqui...
A garota correu o mais que pôde, não olhava para trás, tinha medo que quando olhasse a coisa que estava no corpo de seu irmão estivesse bem ali... Atravessou a rua, primeiro pensou em ir para a igreja no alto da colina, mas agora, enquanto corria, não conseguia pensar em nada, seus pés a levavam para o velho casarão que servia de pensão na cidade. Entrou, parou alguns instantes para se acostumar com a fraca luz, não conseguiu segurar a vontade, olhou de relance para trás, ele estava em pé junto à porta da lanchonete do outro lado da praça, sorriu sarcasticamente para ela... O jogo começara... Atravessou o pequeno espaço da recepção e seguiu por um estreito corredor cujas paredes exibiam motivos floridos em um papel de parede desbotado e sujo, no final do corredor encontrou a porta da sala de estar, atravessou-a sem prestar muita atenção aos móveis empoeirados, subiu o lance de escadas que dava para o piso superior, mais um corredor se estendeu à sua frente, idêntico ao outro. Testou as portas dos quartos, trancadas, correu para o final do corredor, a última porta estava aberta, ela entrou e trancou por dentro, a “coisa” estava se aproximando...
 
                                               ***
Era estranho como sua cabeça já não era mais tão boa, nunca fora muito de pensar, fazia tudo por impulso, mas agora sua cabeça estava em um branco total – Só pode ser este calor – Pensou. Mas sabia que não era, estava distraído, não conseguia se concentrar em nada...
- Tenho que achar minha irmã – Falou para si mesmo. Sabia onde ela havia entrado, mas... Nossa, era como se não pertencesse a este corpo...
- Aquela “coisa” está com ela – Lembrou-se do pesadelo... Daquela risada, de como a “coisa” tentava invadir sua mente, de como era fria... Seus pensamentos se perderam novamente, vagaram pela imensidão das coisas que sentira enquanto sua mente fora tocada pela “coisa”.
Olhou para os pés, estava agora no meio da rua, havia atravessado praça e nem mesmo notara, caminhava para o casarão à sua frente com uma calma que não sabia possuir (e que talvez nem mesmo possuísse), parou – O que estou fazendo? – Não sabia, mas tinha consciência do que queria fazer... E quantas vezes ele agiu assim...
Entrou no casarão, algo naquela penumbra lhe era familiar, a sombra era reconfortante... Entrou pelo corredor. Uma voz falava mansa em sua cabeça, uma voz alienígena, e nem por isso desagradável, uma voz que falava o que ele queria ouvir...
- Mate a coisa... Mate a coisa antes que ela acabe com sua irmã... Mate a coisa antes que ela acabe com você...
Ele tinha que matar, mas para fazer isso tinha que... Outro branco... Olhou assustado em volta, estava agora no final do corredor, à sua direita, a porta que dava para a sala de estar, entrou, olhou para a escada, deu dois passos em direção a ela, depois parou, havia se lembrado de algo, voltou, passou pela porta ao lado de uma estante empoeirada, o amplo espaço da lavanderia estava banhado pela luz do sol, atravessou-a, não questionava o que estava fazendo, apenas seguia o impulso, apenas caminhava para onde seus pés o levavam... Lá estava ele, brilhando sob o sol, recostado no muro ao lado da pinha de lenha seca... Aproximou-se com toda a calma do mundo, pegou o liso e desgastado cabo de madeira, virou-o de um lado ao outro, o reflexo do metal na ponta refletindo-se no muro, olhou-o com extrema satisfação... Ele tinha todo o tempo do mundo...
 
                                               ***
A garotinha empurrou penosamente a cômoda para frente da porta, não sabia muito que fazer, mas tinha que se esconder em algum lugar, entrou debaixo da cama, estava encolhida num canto em posição fetal, o ouvido colado ao chão, os olhos fechados com força... Ela chora...
De onde estava pôde ouvir quando ele entrou na sala de estar, os passos retumbavam por toda a casa, ele ainda usava aqueles tênis vermelhos que sua mãe lhe dera, uma coisinha barata que comprara na feira, com o solado de plástico duro... Era seu irmão que estava lá embaixo, era o mesmo garoto que jogava bola com ela no gramado em frente à sua casa, o mesmo que roubava pedaços de seus sorvetes e saia correndo com a boca cheia e dando aquela risada com covinhas na bochecha... Não dava para acreditar que era ele que estava lá embaixo (mas não era realmente ele, era uma coisa muito diferente que estava lá, algo que em nada se parecia com seu irmão). O som dos passos parou por alguns segundos, depois se afastou, fez-se um longo silêncio, o calor era insuportável, não conseguia respirar direito, tirou a cabeça para fora da cama, ficou ali por um momento, estava com medo de não poder ouvi-lo chegar, então olhou para as grandes portas da cômoda que segurava a porta...
Ali estava mais quente e mais escuro do que debaixo da cama, mas a sensação de segurança era maior, de fora parecia um grande armário, mas vista por dentro, a cômoda quase não comportava o pequeno corpinho da menina, ela se espremia com o rosto entre as pernas quase sem poder se mover, foi então que ouviu – THROP, THROP, THROP – Alguma coisa batia sistematicamente no piso inferior... Não... Não exatamente no piso inferior, alguma coisa batia nas escadas... Ele estava subindo, e tinha alguma coisa pesada nas mãos...
- THROP... THROP... THROP – Um, dois, três indiozinhos... Iam navegando rio abaixo... Quando o jacaré se aproximou... E o pequeno bote dos indiozinhos... Quase, quase virou... – THROP... THROP... THROP – Agora só tem dois indiozinhos... Um o jacaré comeu...
A garotinha chorava, não conseguia segurar o choro, colocou as mãos na boca, apertou, ainda soluçava baixinho, fechou os olhos bem apertados, queria rezar, queria muito, mas não se lembrava de nada neste momento.
- Deus... Eu não tenho muita prática com isso... A mamãe falou que o Senhor está sempre vendo a gente aí do céu... Não sei onde a mamãe está agora... Eu sinto falta dela... Ela também disse pra gente nunca pedir pra gente mesmo... Que quando pedimos para os outros, o Senhor (de alguma forma), inverte pra gente... Eu só queria que o Senhor ajudasse meu irmãozinho...
- THROP... THROP... THROP – Um, dois indiozinhos... Iam navegando rio abaixo... Quando o jacaré se aproximou... E o pequeno bote dos indiozinhos... Quase, quase virou... – THRRROOOO... Ele arrastava a coisa pelo corredor agora – Ops! Só temos um indiozinho agora! Dois o jacaré já comeu!
- HAHAHAHA! – Uma enorme gargalhada encheu o ar – PHOOOL – Ele golpeou uma parede – Cadê a minha indiazinha! Onde estará se escondendo a minha indiazinha de cabelos vermelhos? Vem brincar com o seu irmãozinho vem...
- PHOOOL – Ela ouviu o som de uma porta se quebrando, ele estava perto, e estava brincando, queria que ela ficasse com medo, para ele era só um jogo.
Os sons que vinham do corredor pararam por alguns instantes, ela ouviu alguma coisa ser jogada no piso, depois, a voz de seu irmão – O... Oque eu... Eu estava lá embaixo... O que eu... – Então a coisa parou novamente, o tempo parecia haver parado, podia ouvir sua respiração entrando e saindo de seus pulmões, podia ouvir seu coração retumbando no peito, parecia até mesmo fazer eco pelos corredores, de lá de fora, nada...
- Ah! Cansei dessa brincadeira de esconder – Falou finalmente a voz lá fora, estava muito mais próxima, talvez a duas portas de distância – Eu quero brincar de outra coisa... Que tal brincar de médico! Eu sou o cirurgião! – PHOOL, PHOOL, PHOOL – Outra porta arrombada – Não quer mesmo brincar de médico! Eu adoro brincar de médico... Então que tal... Um... Brincar de arrancar a cabeça da boneca... Só que não temos boneca... Ou temos... – PHOOL, PHOOL, PHOOL – E que tal uma bonequinha de cabelos vermelhos... Mas que droga! Eu tô tentando ser legal aqui! E você se importa? Naaaõ, você só pensa em si mesma, nada de querer brincar comigo... E esse seu irmão idiota ainda faz força pra te salvar...
Ela se encolheu ainda mais, podia ouvir os passos em frente à sua porta, dessa vez o trinco tremeu, pode ouvi-lo virando de um lado ao outro, mais uma pausa, o coração da garota parecia querer sair do peito.
- Eu sei que você esta aí... Então seja uma boa garota e abra essa porta... Você não tem para onde fugir, eu não tenho mais o que fazer, e essa brincadeira de esconder perdeu a graça três portas atrás, então abra essa porta e vamos acabar logo com isso.
PHOOL... PHOOL... PHOOL – Lascas de madeira voavam pelo quarto enquanto ele quebrava a fechadura da porta, ele empurrou, a cômoda moveu-se alguns centímetros com a garota ainda dentro.
- Bela estratégia essa sua, escorar a porta... Mas não acha mesmo que isso vai dar certo né?
Um pé voou contra o outro lado da porta, a cômoda se moveu mais um pouco, realmente não era uma boa ideia ficar ali. Ele voltou alguns passos para chutar novamente a porta, ela aproveitou, abriu as portinholas da cômoda e correu em direção à cama, parou uns segundos, ouviu o estrondoso chute contra a madeira, olhou para trás, uma pequena fresta começava a ser vista na porta, ela não tinha muito tempo, se ficasse ali, ele acabaria entrando e não demoraria muito, tinha que sair desse quarto... Olhou para grande porta de vidro que dava para a sacada, correu para lá, o único jeito de sair dali era pela sacada do prédio.
THRAPP – O novo chute contra a porta lançou a cômoda para longe, a porta estava escancarada – Querida, cheguei! Onde está o meu bebezinho...
O quarto estava vazio, olhou para o banheiro, nada, nada embaixo da cama também... A porta que dava para a varanda estava aberta, o sol escaldante entrava por ela deixando um retângulo de luz no quarto, ele andou para a sacada, parou próximo à cortina, puxou com toda a força, nada, arrastava o machado pelo piso enquanto andava...
- Onde você está meu benzinho... Não se lembra de mim? Não consegue se lembrar de seu irmãozinho Max? Se parar de se esconder e prometer ser uma boa menina, eu prometo que vou ser bem rapidinho...
Caminhou para a sacada, não tinha nada ali, apenas pequenos vasinhos de flores murchas pelo sol, olhou mais uma vez para dentro do quarto, não era possível que ela houvesse descido por ali, não tão rápido... Foi até o parapeito e olhou para baixo, não havia nada ali...
A garota mantinha uma pequena fresta na portinhola, quando ele chutou a porta, a cômoda correu pela sala, foi parar quase no meio do pequeno aposento, ele entrou, num primeiro instante achou que iria olhar diretamente para ela, então estaria tudo acabado, mas não, ele revistou o banheiro, embaixo da cama, atrás das cortinas, mas esqueceu-se de olhar para aquele móvel que havia chutado com tanta facilidade, era leve demais, mas ela também... Agora ele estava na sacada e olhava para os vasos de flores, virou o rosto para ela – Ele me viu – Pensou - Neste instante pôde ver o que a coisa fez com seu irmão, as faces rechonchudas e rosadas estavam disformes, a “coisa” se movia por debaixo da pele como vermes na carne morta, ele não sorria mais, não havia visto a garota, estava se perguntando onde diabos ela fora se meter, então, inclinou o corpo contra o parapeito da sacada, era baixo, para poder ver o jardim teve que inclinar o corpo perigosamente sobre o parapeito. Ela não pensou em nada, apenas se lançou de seu esconderijo, correu pelo pouco espaço que lhe restava e pulou nas costas do garoto sobre o parapeito.
- AAAAHHHH! – Não tinha consciência de que gritava enquanto corria pelo quarto, o garoto virou-se para olhar, mas era tarde demais, ela estava sobre ele, tinha os braços erguidos e as mãos empurravam seu rosto, o machado não caiu de sua mão, ele levantou e tentou golpeá-la, mas ela estava muito perto. O elemento surpresa não demorou a ser desfeito, ele era muito mais forte e um bocado maior, sorriu para ela – Oi amor... Eu sabia que você não iria embora sem se despedir...
Reclinou o corpo novamente para dentro da sacada, soltou o machado – Acho que não precisamos disso não é? – Sorria para ela, e mesmo com aquelas coisas se contorcendo por debaixo da pele, ainda pôde perceber as covinhas se formando nos cantos da boca. – Eu estou bem, sabe... Você tem que experimentar Bia... Essa sensação é ótima!
- Você não é meu irmão! – Falou corajosamente - Pode até estar usando o corpo dele, mas não é meu irmão!
Ele segurava os punhos fechados dela enquanto esta se debatia inutilmente, soltou uma de suas mãos, fechou-a lentamente sobre a garganta da garota, os olhos dela começaram a se encher de lágrimas – Não precisa falar nada, só vai levar um minutinho... – A mão solta dela bateou uma, duas vezes sobre seu rosto, depois parou, foi até a mão que segurava sua garganta, depois desceu lentamente para junto do corpo, ela estava perdendo a consciência...
 
                                                  ***
O garoto piscou os olhos, não acreditava no que via, estava segurando sua irmã pelo pescoço, ela já estava perdendo a consciência, afrouxou o aperto ainda olhando sem entender, o que estava fazendo? Por quanto tempo apagara? Meu Deus, ele estava matando sua irmã! Soltou o pescoço dela, ela caiu flácida no chão, tossiu um pouco, as mãos foram inconscientemente para a garganta. Ele ainda olhava paralisado para o corpo de sua irmã caído ali no chão... Seus pensamentos começaram a divagar... – Mate... Mate... – Branco... Dessa vez não, ele não iria ter outro branco agora, ele tinha que se concentrar...
Sua cabeça doía – Deus! Seu corpo todo doía! – Algo parecia formigar por debaixo de sua pele, era quente, coçava... Seja lá o que fosse, estava dentro de sua cabeça também, ele parecia uma marionete, um boneco de cordas... Estava perdendo o foco... Divagando... Sentia o sol forte bater em suas costas... Sentia o calor... Estava acontecendo novamente... Branco...
- Não! Dessa vez não!
- Você não é forte o bastante – Falou a voz alienígena dentro de sua cabeça – Nunca foi...
- Eu não preciso ser...
Dessa vez a dor em sua cabeça foi muito maior, colocou as nãos nos olhos, eles ardiam, uma coisa quente e viscosa escorreu por seu nariz... Sangue... Pontinhos vermelhos piscavam em sua visão, a “coisa” estava tentando fazer o seu trabalho, estava cavando mais fundo dentro de sua cabeça.
Começou a se lembrar das coisas ruins que fizera, de como era mal... Uma imagem de um pobre passarinho boiando na bacia de água cristalina... Um garotinho caído no chão e chorando... O gato morto... O... – NÃOOOO! – Ele gritou dentro da própria cabeça. Então lembrou-se de sua irmã, de como ela o ajudara a se levantar naquela mesma manhã, de como o carregara para a estrada, de como era frágil, pequenina... Ele se lembrou do que prometera... Iria tomar conta dela...
Olhou para a irmã caída no piso ensolarado da sacada, esta começava a se recuperar, abria os olhos, encarou aqueles grandes olhos azuis, sorriu para ela, no fim das contas, ele sabia exatamente o que fazer... E era sim, forte e mal o bastante...
Fechou os olhos, subiu no parapeito da sacada, estava tendo outro branco... Não importava... Inclinou o corpo para frente de deixou a gravidade fazer o serviço...
 
                                                  ***
A garota abriu os olhos a tempo de vê-lo sorrindo, quem estava ali não era mais a “coisa” (embora ela ainda se movesse por debaixo da pele dele), mais do que nunca amou aquele sorriso com as covinhas aparecendo, aqueles enormes olhos azuis... Então, ele subiu no parapeito, ela entendeu o que ia fazer, tentou se levantar, que estava sobre a mureta de cimento não era a coisa que a estava caçando, era seu irmão... Ela não sabia o que fazer, mas não podia deixar que ele fizesse isso, tentou se levantar, não foi rápido o bastante... Ele simplesmente caiu... A garota correu para o beiral, olhou para baixo, teve que inclinar o corpo no parapeito para ver, ele se debateu um pouco, havia caído de cabeça, o sangue formava uma poça ao redor de seu rosto, o tênis vermelho saia um pouco das moitas secas e ficava acima da mureta da entrada. Então aconteceu novamente, a mesma “Coisa-fumaça” que havia aparecido no cemitério começou a escorrer de seu corpo, saía pelos poros, subia ao ar preguiçosamente até se perder no ar seco, não tinha nenhuma forma dessa vez, apenas uma fumaça acinzentada se dispersando no ar...
 
                                                  ***
Estava muito cansada, sua garganta doía, debruçou-se sobre o parapeito e se colocou a olhar a praça, era engraçado como as sombras das árvores formavam aquelas figuras na calçada... Pareciam dedos velhos e retorcidos... Dedos de bruxa...
 
 
Prologo:

O senhor grisalho desceu as escadas para a sala de estar da velha pensão, ainda estava com as marcas do travesseiro sobre o rosto, atravessou o salão e foi direto para o balcão da cozinha. A velha gorda que cozinhava o desjejum sorriu para ele.
- Bom dia Sr. Norman! Dormiu bem?
- Eu nunca durmo bem... – Falou ele sorrindo, era verdade, ele nunca conseguia dormir bem, mas ultimamente as coisas haviam piorado, sempre que fechava os olhos, sonhava com coisas estranhas... Com crianças mortas, com aquele maldito diário...
- Tudo bem Sr. Norman? O senhor anda um pouco distraído ultimamente. – Falou a mulher enquanto empurrava um copo cheio de café para ele.
- Tá tudo ótimo, como eu disse é só falta de sono... Sabe como é...
A televisão estava ligada no noticiário da manhã, ele estava com um pouco de dor de cabeça também, então não conseguia se concentrar, mas ouviu mesmo assim as noticias enquanto tomava seu café. Ao que parece mais duas crianças da cidade haviam desaparecido, suas fotografias estavam estampadas da tela, uma garotinha ruiva e um garotinho meio loiro, irmãos, o repórter falou seus nomes, Max e Beatriz Manzoni... Pobres crianças...
Antes de sair, olhou novamente para o quadro na parede – Tem certeza de que não quer me vender este quadro? – Falou... Mas então... Não era mais o mesmo quadro, era muito parecido, mas definitivamente não era o mesmo... No lugar onde estava o garotinho gorducho, agora estava uma menininha, uma coisinha minúscula e magrinha de cabelos avermelhados, usava uma blusinha sem mangas com algum desenho amarelo estampado na frente, não tinha nada nas mãos. O jardim embaixo da sacada também mudara, não era mais vermelho, estava com galhos amarelos e ressequidos, e um pontinho no canto do jardim chamou sua atenção, estava quase encoberto pela vegetação, mas ainda se podia distinguir um pequeno ponto vermelho no formato de um tênis... Ele ficou ali, parado olhando o quadro na parede, depois perguntou à mulher que servia seu café da manhã a dois outros fregueses:
- A senhora trocou os quadros da parede ontem à noite?
- Não, nem tenho outros para colocar no lugar destes... Por quê?
- Por nada não, só impressão minha, achei que o quadro que vi ontem tinha um menino e não uma menina na sacada... Estava escuro, acho que me enganei...
O homem deixou o salão, tinha muito com que se preocupar naquele dia... Mas que ele havia visto um menino naquele quadro, isso havia...



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