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   > Eles estão entre nós



Kacius Felipe Ribeiro
      CONTOS

Eles estão entre nós


 O homem descia em disparada pela colina lamacenta, olhava espantado para as mãos vermelhas, manchadas de um sangue que não era seu. O terreno íngreme era de difícil acesso, escorregava na lama enquanto descia, caiu uma... Duas vezes... Levantou-se, continuou descendo, não queria olhar para trás, sabia que a coisa estava logo ali, em seu encalço, sabia também que não tinha muita chance, mesmo assim continuava correndo, tinha que fazer isso por dois motivos. O primeiro era que ele havia prometido para alguém, mas neste momento, não conseguia lembrar se fora para o garoto que ficara para trás ou para a moça que sangrara até a morte em seus braços... De qualquer forma, havia prometido, mas não era bem por isso que ele ainda corria, era simplesmente porque não havia outra saída e ele não queria morrer. Estava ficando cansado, suas pernas tremiam pelo esforço da corrida desenfreada, seu destino não ficava muito longe, mas isso não lhe dava nenhum ânimo.
            Tropeçou numa raiz, rolou ladeira abaixo, dava cambalhotas no meio da lama enquanto descia como um míssil. A chuva recomeçou, caia forte agora, logo teria uma enxurrada descendo o morro e levando tudo o que estivesse em seu caminho, isso tinha seu lado ruim, ela dificultaria sua descida se quisesse chegar ileso, mas não era tão ruim assim, já que podia ver a estrada logo abaixo, não entendia como ainda se mantinha correndo, ele estava mais lucido agora do que esteve por toda sua vida, e o mais importante, a coisa ainda não conseguira alcançá-lo...
            Afinal conseguiu manter-se em pé por alguns segundos, tempo suficiente para olhar para trás. Ela vinha em disparada, começava a ganhar terreno, mas ainda estava longe, era difícil enxergar, a noite estava escura e a chuva, que neste momento era torrencial, não ajudava em nada... Ele tremia, não era frio, era adrenalina, recomeçou a correr, era bom nisso, mesmo com este terreno acidentado, mesmo com toda essa chuva, ele se saíra melhor que os outros, de todos que subiram o morro naquela noite, apenas ele tivera a chance de sequer tentar fugir, e até agora vinha fazendo um bom trabalho, já podia ver seu carro estacionado entre a folhagem. Mas o que faria (se) quando chegasse nele? Dirigiria é claro... Para o mais longe que pudesse deste lugar...
            Olhou novamente para trás, uma vez que fazia isso, virava um vício difícil de controlar. A criatura estava lá, saltava por entre os troncos das árvores, no escuro, parecia com um esquilo, uma sombra saltando pelos troncos, um esquilo de quase dois metros de altura e com o corpo pegajoso feito piche. Ele correu... Não podia entrar em pânico, se caísse novamente não teria outra chance de se levantar...
            A água da chuva caia em seus olhos, lavava seu rosto, fazia escorrer a lama que impregnava seu cabelo, ele descia a última etapa do morro com as mãos e as pernas, parecia um cão saltando, às vezes rolava pela lama cheia de gravetos e moitas de capim que agora eram carregados pela torrente de água que descia do morro, não tinham mais árvores por ali, apenas um mato alto e cortante que ficava entre a divisa da mata sobre o morro e a estrada, dava para ver ao longe as luzes da cidade, um pouco mais adiante, podia ver também o alambrado que cercava a estação de energia, podia ouvir por sobre o barulho da chuva o zumbido das linhas de alta tensão, caiu os últimos metros de barrancos levado junto com a correnteza de água lamacenta, foi parar na estrada de terra ralando os joelhos e as palmas das mãos, fora isso, estava bem, e mesmo que não estivesse, que escolha tinha...
            Conseguiu correr para o carro, olhava para o alto e escuro morro esperando que a coisa saltasse a qualquer momento, mas pelo que pode perceber ela não se movimentava assim tão bem em espaços abertos, sorte a sua... Colocou as mãos no bolso, apalpou por toda a calça, não conseguia encontrar as chaves do carro, um desespero começou a tomar conta de seu corpo, algo que mesmo enquanto ele corria floresta adentro não havia sentido, agora estava ficando gelado, a sensação ainda não tomara conta de sua mente, mas ele sabia que não tardaria a acontecer... Respirou fundo, não dava tempo para muita coisa, mas tinha que pensar, tentou controlar a tremedeira, apalpou novamente os bolsos da calça, dessa vez encontrou o que procurava. Olhou novamente para trás, lá estava a coisa (o bicho ou sei lá o que), movia-se penosamente pela terra encharcada, dava para ver melhor agora que saíra do matagal, com as luzes da estação de energia ali perto, iluminando aquela parte do terreno, embora isso, a chuva torrencial não dava muito espaço para a visão, mesmo assim, ele ficou ali, paralisado, olhando a coisa se mover lentamente amassando o mato molhado... – Meu Deus como é horrível! – Pensou.
            O que quer que fosse que descia a íngreme ladeira não se parecia em nada com um esquilo agora, estava mais para uma lesma gigante, mas tão pouco parecia com isso também, era realmente viscosa, negra como a noite, mas era grande... Enorme, talvez com dois metros de comprimento, ou de altura, já que era meio quadrúpede, meio rastejante e as vezes parecia estar em pé, não dava para descrever o jeito que ela se locomovia, sabia apenas que com toda aquela água, lama e entulho descendo da encosta ela não conseguia fazer muito bem seu trabalho, em alguns momentos lançava-se ao ar, saltava por vários metros, mas não fazia isso muito bem no descampado, no mais, ainda estava muito escuro para poder ver, apenas uma coisa conseguia chamar a atenção para aquela criatura, mesmo no escuro, seus olhos... Uma dúzia deles brilhavam no topo de sua cabeça disforme refletindo a luz neon dos postes da subestação. Enfim conseguiu quebrar o transe e tentou colocar a chave na porta do carro, tremia muito, arranhou toda a pintura azul metálico do velho opala, enfim, com muito esforço conseguiu abrir a porta. A criatura já se lançava pela borda do barranco, agora, assim tão perto, ela não perecia ter dificuldades para avançar, pode notar mais uma coisa, não tinha boca, toda a face eram apenas olhos, olhos que pareciam maliciosos e famintos, e provavelmente inteligentes também...
            Entrou no carro e trancou aporta, menos de um segundo depois, a coisa se lançou contra o vidro traseiro, o carro todo tremeu e chacoalhou sobre as molas, quase morreu de susto, sua cabeça foi lançada para frente e para trás num movimento involuntário, olhou pelo espelho e viu a mancha negra que se esparramava pelo vidro traseiro. Ligou o carro, suas mãos tremiam mais que nunca, o rádio ligou-se automaticamente, engatou um marcha ré e saiu numa disparada contra o barranco às suas costas. O carro sacolejou, bateu contra a massa de terra do barranco no outro lado da rua e ali parou atravessado na estrada sob a enxurrada de água e entulho que caia do alto, não conseguia ver nada à sua frente, ligou os faróis e o limpador de para-brisas, depois tentou engatar a primeira, arranhou a marcha, o carro tentou sair do lugar, nada, estava atolado sobre a lama... Tentou mais uma vez... Nada. O rádio gritava alto uma musica do Capital -“PREGADO NUMA CRUZ, DIRIGINDO SEM AS MÃOS... JOGANDO FORA O FUTURO... SEM MOTIVO PRA PEDIR PERDÃO*"...- Ele tentou mais uma vez, o carro quase saiu, subiu em algo muito grande, provavelmente a coisa, depois voltou... Passou a mão sobre a testa enlameada, os pensamentos começavam a se encaixar na sua cabeça, fechou os olhos, podia ver a enorme coisa se arrastando da escuridão, não dava para ver direito, apenas uma sombra, primeiro, pensou ser alguém, mas quando chegou mais perto, reparou que não tinha uma forma definida, era apenas uma sombra escura contra a noite chuvosa. Um relâmpago rasgou o céu, podia se lembrar de ver aqueles olhos amarelos, dúzias deles, todos brilhando no escuro, vindo na direção deles, os outros estavam de costas para a coisa, ele quis gritar, mas não sabia o que dizer, apenas apontava para o mato com os olhos arregalados e balbuciava algo que nem ele mesmo conseguia entender.
            O garoto magricela que tivera a brilhante ideia de ir ver a cratera gargalhou, devia achar que ele estava chapado, todos provavelmente estavam, mas o que ele via não era nenhuma alucinação, não acreditava que qualquer coisa no mundo pudesse causar uma alucinação dessas, e se pudesse, ele nunca experimentaria... Não fazia nem meia hora desde que saíram de seu apartamento para ver a luz que caíra na mata, nossa, aquilo tudo não demorou nem dois minutos, e parecia ter levado uma eternidade... Ele ofegava sentado no banco de seu carro – meu Deus! – Exclamou, quase não conseguia falar, tentou mais uma vez sair com o carro, nada, abaixou a cabeça e procurou por algo no porta-luvas, tateou em meio a um monte de papel e quinquilharias até achar o que procurava, o pequeno celular estava jogado lá no fundo, não era o seu, este havia caído enquanto corria pela mata, era uma coisa antiga que ele havia abandonado quando comprara o novo, mas ainda funcionava, poderia ao menos ligar para a emergência. Tentou discar algo, teve que parar e se acalmar, olhava para o vidro traseiro do carro, podia ver uma massa gosmenta e negra esparramada por todos os lados, mas definitivamente não era a coisa, será que ele a havia matado, provavelmente havia conseguido passar com o carro por cima dela, mas será mesmo que estava seguro ali? Tinha quase toda certeza que não, se pudesse ao menos telefonar...
            A luz do aparelho ascendeu, mas antes que pudesse ligar por completo, apareceu o ícone avermelhado no canto da tela indicando que estava sem bateria, depois ela apagou novamente... Ou seja, estava no meio do mato, com um monstro gosmento debaixo do carro que estava atolado, e o celular estava sem bateria... Sem contar que o mesmo monstro havia matado todos os seus amigos... Fechou os olhos novamente, não queria pensar naquilo, tinha que dar um jeito de sair dali... Mas como? O carro estava atolado, e ele não colocaria o pé para fora daquele carro nem em um milhão de anos... Talvez fosse melhor esperar alguém passar... Mas e se não passasse ninguém? Pelo menos até a coisa que estava lá fora encontrar um jeito de entrar? Afinal aquela estrada era bem deserta...
            As memórias começaram a atormenta-lo novamente... O jeito como a coisa se movia, sorrateira, passando pelas sombras, esgueirando-se até chegar perto o bastante para atacar... E nossa! Aquela coisa só podia ter saído daquele buraco!
            Eles ouviram falar no rádio que estava ocorrendo uma chuva de meteoros, a maioria iria cair no pacífico, mas alguns poderiam atingir o continente, nada muito perigoso, afirmou o meteorologista, apenas uma coisa bonita de se ver... Então, saíram para a varanda de seu apartamento, estavam tomando umas cervejas e fazendo um churrasco com algumas garotas, ideia do Bili. Foi ideia do Bili também ir ver a cratera do meteoro que parecia ter caído ali perto, todos estavam na janela quando viram o clarão e sentiram o prédio todo tremer. Estava enroscado no pescoço de uma moreninha, bêbado demais para discutir quando o garoto deu a ideia, e o pior de tudo, ele era o único responsável ali, o único que podia entrar num bar e comprar bebidas sem ter que mostrar documentos...
 
            O rádio continuava gritando – “SE DESESPERE NINGUÉM ESTÁ DO SEU LADO... DÁ TUDO CERTO SE FIZER TUDO ERRADO*”...
            Olhou para o painel aceso, luzes azuis vermelhas e amarelas se alternavam piscado do rádio, então, do nada, a coisa bateu no fundo do carro – TROOLL – Chegou a levantar o veículo, balançou tudo por dentro – TROOLL... TROOLL - Começou abater novamente, desta vez com mais intensidade, afinal, a coisa estava viva...
            - Meu Deus do céu... Meu Deus do céu... Meudeusdocéu... Meudeusdocéumeudeusdocéu...
            A criatura batia no assoalho do carro, levantava-o, estava entrando em pânico, não tinha como sair dali, não tinha a menor chance... Segurou-se no banco até os nós dos dedos ficarem brancos, o carro saltava cada vez mais alto – TROOLL – TRROOLL – TRROOLL – Apertou o mais que pode os olhos, dessa vez, quando o carro levantou, ele ligou-o novamente, girou a chave e apertou o acelerador até o fundo... Os pneus cantaram sobre alguma coisa, mas não saiu do lugar. Continuava apertando o acelerador até sentir o cheiro de queimado da coisa sob o pneu... Não era um cheiro nada agradável...
 
            Lá estavam eles, um garotinho que deveria ter seus dezesseis anos, duas garotas, provavelmente da mesma idade, e ele, um cara com vinte e cinco... Todos estavam bêbados, e em certo ponto da história que ele não conseguia lembrar direito, alguém havia aparecido com aquele cigarro de maconha... Nada demais, não depois de um dia cheio ensinando crianças incompetentes a correrem atrás de uma bola. Olhavam boquiabertos para a enorme cratera que havia no meio da mata, cabia um carro nela, não era fumacenta como nos filmes, só um enorme buraco que estava enchendo de água, naquele momento, a chuva havia parado, mas estava chovendo torrencialmente já há duas semanas, então o terreno estava todo encharcado. As garotas haviam parado de rir, estavam abraçadas neles, ele sequer se lembrava do nome delas, eram bonitas, mas o que ele estava fazendo ali com uma menina de pouco mais que quinze anos? Percebeu então que o efeito da bebida estava passando... Foi quando viu a coisa, não mais que uma sombra se movendo pela mata, pensou ser um dos guardas da subestação fazendo sua ronda ali por perto, já estava se preparando para explicar porque estavam ali, com um bando de garotos menores de idade, no meio do mato, com latas de cerveja e o que parecia ser um cigarro de maconha... Apontou a lanterna que sempre carregava dentro do carro, e não havia mais nada lá – Só minha imaginação – Pensou, mas então, lá estava a sombra entre as árvores, ele apontou novamente o facho de luz da lanterna, dessa vez pode ver quando a coisa se esgueirou para dentro dos arbustos, tentou dizer alguma coisa, tinha certeza de que vira algo, ao que parece, só ele estava ficando sóbrio... O garoto do outro lado da cratera deu uma gargalhada, virou-se num movimento exagerado, agarrou a garota que estava com ele pela cintura e quase caiu na lama...
 
            Ouviu um guincho embaixo do carro, um som feio que lhe gelou os ossos. Parou de acelerar, seu pé perdeu a força.
 
            A coisa que pegou o garoto não era bem definida, estava muito escuro ali, mesmo assim, parecia apenas uma sombra saída do nada. Segurou o garoto pelas pernas e o levantou como se fosse um graveto, ela parecia vir do chão, expandia-se para o alto como uma bolha se formando em uma superfície líquida, depois lançou-o contra uma grande árvore, deu para ouvir o estalo quando sua espinha dorsal se partiu, ele ficou ali, caído, as mãos ainda se movendo, a boca falava sem que saísse som algum. A coisa não estava mais lá, a garota que estava com ele, uma coisinha pequena e gordinha, se encontrava agora caída no meio da lama, tinha os olhos tão arregalados que pareciam querer saltar das órbitas, o homem se virou para correr, um braço o segurou, olhou incrédulo para a mão que não queria sair do lugar, só então se deu conta da coisinha morena que o segurava pelo braço com as duas mãos, estava desesperado, empurrou-a com todas as forças, ela caiu e o largou. Então a coisa voltou... Saltou de algum ponto da escuridão, olhou pacientemente para o garoto caído próximo à árvore, não se importou muito com ele, depois, virou-se para a garota próxima a cratera, não chegou a saltar sobre ela, apenas lançou um braço protuberante que saiu não se sabe de onde, acertou a cabeça dela, ouviu-se um estalo oco, depois ela caiu dentro da cratera, foi escorregando pela borda, mole como uma boneca.
            O homem começou a correr, ouviu o grito da outra garota, não quis olhar para trás, apenas correu, até ser derrubado por uma coisa que veio do alto. Achou que fosse a criatura, caiu, já estava quase saindo da região de mata fechada, mais abaixo o mato alto era parcamente iluminado pela luz que vinha dos postes de neon da subestação, ele rolou pelo mato até bater numa das últimas árvores, então viu o que estava sobre ele. A garotinha morena de braços finos estava toda ensanguentada, não dava para ver muito bem no escuro, mas parecia não haver mais um rosto ali, só uma massa disforme de carne e sangue... Então ela gemeu, tossiu um pouco engasgando no próprio sangue, ele a empurrou o mais que pode, saiu se arrastando pela lama até começar a descida, depois virou-se, havia um braço estendido ali, a garota pedia ajuda, ele ficou por um segundo a olhar para aquilo, depois ouviu outra coisa, provavelmente foi o que salvou-o naquele momento, o garoto gritava do escuro da mata, pedia ajuda...
            - Eu volto com a ajuda! Eu prometo! – Gritou e recomeçou sua corrida morro abaixo, a lanterna havia caído em algum lugar lá para trás, estava escuro, tentou pegar o celular no bolso, então ouviu um barulho no mato logo atrás dele, ele sabia o que era... Embaralhou-se com o pequeno aparelho nas mãos, caiu no mato molhado... Não estava mais com o celular, mas não havia tempo para parar, nem mesmo para entrar em pânico, então correu...
           
            A coisa havia parado de bater no fundo do carro, no rádio, em meio a estática pode ouvir o locutor anunciar as noticias do dia, mais de uma centena de meteoros havia abrilhantado a noite em diversos estados do país numa das maiores chuvas do gênero que o mundo já viu, infelizmente não era possível vê-los de boa parte do país em consequência das fortes chuvas... Ele desligou o limpador de para-brisas, abriu novamente o porta-luvas e pegou um maço de cigarros... Se o que estava pensando fosse verdade, a coisa embaixo de seu carro seria apenas uma fração do problema... – Será que enfim morreu, ou desistiu? Tenho que avisar para todo mundo antes que seja tarde demais...
            A resposta veio rápida... Do fundo do carro, a coisa começou a se mexer, primeiro levantando a parte traseira lentamente. Ele ligou novamente o motor, engatou a primeira e acelerou o mais que pode... Mas ela não estava mais debaixo dos pneus, agora levantava o carro como se fosse feito de algodão. Não lançou ele para frente, apenas levantou até o ponto do veículo capotar e ficar de cabeça para baixo. O homem estava colado no para-brisa dianteiro, então uma gosma negra parecida com piche saiu lentamente pela lateral do veículo, depois, bem devagar, começou a pressionar o vidro, sem pressa, nada de pancadas, apenas apertava aquele monte de olhos amarelos contra o para-brisas do carro, do outro lado o rosto brando do homem colado no vidro, olho contra olho... Num segundo ele entendeu tudo, não haveria mais volta... Para ninguém...
            Surgiu uma pequena trinca, depois mais outra, e outra a seguir...




 *Trecho da música "Ressurreição" da banda Capital Inicial.



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