Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (217)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2529)  
  Resenhas (131)  

 
 
Paisagens-02-049
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)



Ruínas-01-110
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > Um segundo depois da meia-noite



Kacius Felipe Ribeiro
      CONTOS

Um segundo depois da meia-noite

Uma janela aberta, um sopro, uma brisa, algo que move levemente as cortinas do quarto escuro... Noite quente, uma lua cheia, como um olho branco e gordo no negro céu. Os ponteiros do relógio giram mudamente sobre a fraca luz amarela do poste que ilumina a calçada.
Um corpo revira-se na cama, suspira seus sonhos doces, os lençóis empurrados para um canto. As mãos embaixo do travesseiro procuram algo que não está lá. Do outro lado das paredes de tijolos, a noite se estende como um manto sobre a rua deserta, todas as coisas esperam, não há gatos sobre os muros, nem grilos cricrilando, nenhuma coruja pia... Tudo está deserto, esperando o tempo acontecer.
A brisa para de soprar, as cortinas se imobilizam, o relógio se arrasta lentamente (o único que nunca espera), conta o tempo que não chega a existir.
Lá no alto céu, pontinhos luminosos atravessam a escuridão, alheios à vida aqui embaixo, talvez, alguém olhando da janela possa perceber as pequenas luzes da cidade, outros pontinhos luminosos em meio à escuridão, o mesmo que podemos ver deles, algo romântico, mas impessoal. E se olharem do alto por um segundo amais, talvez possam perceber quando tudo se apaga...
O relógio bate – Meia-noite – Por apenas um segundo, não mais que isso, tudo no mundo muda... As luzes da cidade piscam, apagam-se. Lá no céu não se vê mais os pontinhos luminosos, nem mesmo se percebe as estrelas, todas se apagam... Mesmo a lua gorda e cheia torna-se sem brilho, como um osso velho e seco pregado no tecido negro do firmamento. Em algum ponto indistinguível da existência acontecem revoluções, guerras e genocídios... Em algum inferno as almas lamentam a eternidade de um segundo.
Toda obra da criação para, prende a respiração, espera com paciência eterna que se passe aquela fração do tempo que vem depois da meia-noite...
O relógio continua a se arrastar, leva consigo o movimento do mundo, vai a lugar algum, mas deixa para trás todo o ato da existência, afinal, apenas conta o tempo, algo sem valor se comparado com a eternidade, e ainda assim... A coisa mais preciosa do mundo...
Então o ponteiro se move novamente, apenas um segundo... As luzes se acendem, provavelmente, lá do alto, ninguém nem mesmo vê. A brisa sopra suavemente as cortinas, lá ao longe um grilo cricrila na grama, um gato pula no muro, talvez se possa ouvir um cão ladrar...
Um corpo se revira na cama, procura inconscientemente pelo lençol que deixara de lado, a noite parece mais fria... Uma ruga de preocupação aparece na face que antes suspirava pelos amores da noite, talvez um pesadelo... Algo sobre revoluções, guerras... Genocídios... A mão procura alguma coisa sob o travesseiro, algo que não está lá, então descansa, ao que parece o pesadelo já passou, durou apenas um segundo... Ou uma eternidade... Tanto faz, foi só um momento depois da meia-noite...
 

            “É desconcertante que, em tal ano cósmico, a Terra não se tenha condensado a partir da matéria interestelar antes do início de setembro; que os dinossauros tenham surgido na noite de Natal; que as flores tenham emergido no dia 28 de dezembro e os homens e mulheres tenham aparecido às 22h 30min do último dia de dezembro; e o tempo compreendido entre o declínio da Idade Média e o presente ocupa pouco mais que um segundo. Mas, em virtude de ter sido feito o arranjo desse modo, o primeiro ano cósmico acabou de findar. E, apesar da insignificância do instante que ocupamos até agora no tempo cósmico, é claro que o destino das coisas na Terra e em suas proximidades dependerá muito do conhecimento científico e da sensibilidade própria da humanidade”. (texto retirado de livro Dragões do Éden publicado em 1980, de Carl Sagan)



CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui