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   > CRIME CONSENTIDO



Airo Zamoner
      CONTOS

CRIME CONSENTIDO

Nunca tinha conversado com tanta calma e tão intimamente com ela. Ildo estranhou, é claro! Ficar assim, frente a frente, com tanta serenidade, era alguma coisa estridente demais para as vibrações de sua alma decepcionada.
Quis saber o que faltava para decidir-se de uma vez por todas. Falou, com certa aspereza nas sílabas pausadas, que estava descrente das promessas e insinuações e que se ela não tomasse a decisão exaustivamente ansiada, ele próprio assumiria tudo para acabar de uma vez com aquela agonia absurda. Ela ouviu silenciosa, pacientemente, tolerante com sua exasperação intempestiva. Indiferente, ele continuava sem parar, ora elevando a voz para expulsar antigos ódios, ora adoçando a fala, lembrando tempos suaves que deixaram saudades. Logo voltava a gritar, exigindo que ela se decidisse naquele mesmo instante.
Que motivos poderiam existir para delongar a espera? E continuava discursando sem parar. Ela continuava doce e paciente a ouvir; lânguida, insinuante como sempre. Tinha esse poder transcendental. Assustava com sua identidade traumática e ao mesmo tempo atraía com seus olhares mortiços, seus gestos indecorosos, sua voz sussurrante, suas promessas veladas de felicidade sem medida. Criava sempre em seus interlocutores essa contradição de sentimentos. Ildo, porém, não estava mais disposto a servir seus interesses que ele nunca soube identificar com clareza. Tanto ela fez, tanto rodeou suas emoções caóticas, tanto o seduziu que ele se cansou de fugir e caiu em seus braços.
Se fosse um crime, que ela o cometesse com todos os requintes imagináveis. Ele consentia, ele queria, ele ansiava desesperadamente por um final, fosse qual fosse. Que acabasse para sempre com esta história de ciúmes, desesperos, sedução, medo, perigo, alianças e ameaças de um crime definitivo. Ele se achava pronto para enfrentar suas garras, ou seus encantos.
Seus pensamentos em brasa, ferventes diante dela, vagavam entre o desejo incontido de se entregar a seus abraços, ao mesmo tempo em que resquícios de sua razão dormente retesavam músculos, adrenalinavam o sangue exprimido em turbinas pelas safenas apodrecidas, querendo fugir de sua presença.
Mas isso de nada adiantava. Bastava ela virar as costas e ele confundia as sinapses em curto fatal, ensaiando um colapso irreversível. Implorava vergonhosamente por sua volta, como se essa volta fosse sua vida e não seu fim. Ela o atendia incontinenti com a presteza de enamorada. Voltava, atirando despótica seu olhar soberanamente vitorioso, majestosamente tentador, irresistivelmente confortador. E tudo se repetia, dilacerando as fibras esfiapadas de sua vontade num processo ziguezagueante em direção à decrepitude abjeta, final.
Cumpriu a promessa. Aproveitou a presença que ela ofertou naquele dia. Desabafou suas neuroses e suplicou que decidisse. Rogou com tal veemência, com tal paixão, atirando um olhar de súplica tão humilhantemente arrebatador que ela, racional e precisa em seus atos, não resistiu à tentação. Ele, para comprovar a força de sua determinação, escreveu o bilhete definitivo.
O mundo mudou depois daquele dia. A imparcialidade deixou de existir. Ela não podia ter se deixado envolver, mas aconteceu irremediavelmente pela primeira vez no universo diminuto de ilusões ingênuas. Ildo caiu suavemente infertilizando o solo faminto. A expressão de seu rosto era serena. Insatisfeita, ela esvoaçou pelo éter enquanto riscava antecipadamente de sua agenda mais um nome. O bilhete foi encontrado. A investigação de sua morte foi dispensada. O bilhete, insofismavelmente definitivo. O crime, consentido. A Morte flutuou seus encantos indo apaixonar-se alhures.

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