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   > A DOCE LUDMILA



Airo Zamoner
      CONTOS

A DOCE LUDMILA

O pensamento célere, o raciocínio castiço contraditava com os bloqueios amargos. Extenuado, via esforços derramados em vão. Seus olhos deslizavam pelas paredes decrépitas em busca de alguma referência. Suas mãos revestidas de laivos do tempo ensaiavam tremores ansiosos, derrotados pela desconexão nervosa.

O rosto navegou esforços perdidos à cata da atenção lógica de seus amados. Na multidão minúscula dos íntimos a saracotearem por perto, deveria ter alguém que o enxergasse de verdade. Insistia na procura da criatura que pudesse compreender a juventude, a sorrir incomodada dentro da carcaça esclerosada.

Finalmente, ela o encara cheia de comunicação. Ele devolve ares inteligentes de súplica, enquanto os olhos claros se enchem de alegria infantil. A pequena Ludmila sorri. Sorri para ele. Sim! Ele confirma novamente. É para ele! Só para ele. É ela. É ela a perceber tamanha adversidade.

Num esforço arrebatado, lançou esgares e foi correspondido. Pensou em lançar no espaço a voz de outrora, forte e cristalina. Ouviu apenas um murmúrio fosco, fraco, desmaiando a poucos centímetros dos lábios ressecados. Já não conseguia saber se o que ouvia sair da garganta prisioneira era exatamente o que os outros escutavam. Certamente não era!

Num gesto mecânico, quase bruto, limpam os cantos de sua baba, sem encará-lo, sem interromper a conversa animada com todos. O grande e úmido lenço cobre seus olhos por um pingo de minuto. Tenta escapar do desconforto. As mãos desobedientes tudo querem, nada podem. O pescoço rebelado não gira e quando a paisagem retorna, já não vê Ludmila. Carregada no colo apressado, desaparece pela porta da cozinha. Desesperado, debate-se com violência, sapateia com energia, grita o nome da única a compreendê-lo plenamente, mesmo que num só átomo de tempo. Mas ninguém percebe o gesto, ninguém ouve o berro. Tudo acontece apenas no ludibriado pensamento naufragado. Numa ponta, o cérebro comanda com lucidez cristalina seus desejos. Na outra, o corpo em despedidas, não se importa, não responde.

E agora? Como reencontrar aqueles olhos amados que se cruzam com os dele com tamanha lucidez e compreensão? Olhos amarrados na porta, conjugam a expressão de angústia com a de súplica inútil no rosto abandonado.

Percebem e comandam.

– Ele quer comer. Tragam chá. Comida.

Ele não tira os olhos da cozinha...

E trazem. E entopem-no de chá que ele não vence rejeitar com veemência. Estilhaços de biscoitos pipocam pelo babador adulto. Tenta desvencilhar-se e fixar-se à espera de Ludmila, até que um esperto qualquer percebe e grita para dentro que ele não quer nada, que está jogando tudo fora.

Levam-no ao quarto. Decidem que deve descansar. Não fazem idéia de quanto descansa e que o descanso é sua tortura. Na escuridão e no silêncio dorme inconformado, sem saber por quanto tempo.

Acorda num sobressalto. Olha o relógio ao lado. Pula da cama com a agilidade dos gladiadores. A mulher geme as dores do parto iminente. Duas horas, duas longas horas depois, entra no quarto da maternidade enfeitada e a esposa sorri, mostrando em seus braços, a mais linda criatura do mundo: a doce Ludmila.

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