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Helga Soares Campos
      CONTOS

DASSEIS

Moro no Rio de Janeiro, precisamente em Copacabana, exatamente na Rua Barata Ribeiro, infelizmente em uma pequena quitinete cara pra chuchu. Moro em um prédio com 18 andares, assim como eu acho que umas 200 família, moram no edifício. Pouco conhecia os moradores. Muito mal conheço uns dois vizinhos. Elis a vizinha do 1203 e o . Roberto o senhor do 1204, que era o sindico, à vizinha ou vizinho do 1205 eu nunca vi. Acordo todos os dias às 7h00 da manhã, aliás, acordava, de um tempo pra cá, tenho acordado às 6h00, isso porque, tenho escutado um canto, um cantar parecido com o canto de um pássaro.
Muitas das vezes acordo esse horário e fico olhando para o teto esperando O canto acabar, aí então eu desperto e vou trabalhar.
Certo dia convidei uma amiga pra dormi lá em casa. Imediatamente  relatei sobre o que vinha acontecendo todos os dias as 6h00 da manhã, ela não acreditou muito, disse que eu estava imaginando coisas, não questionei suas insinuações,  adormecemos.
No dia seguinte exatamente ás 6h00 da manhã, começou aquele fabuloso canto, durava exatamente uns 30 segundos, chamei minha amiga tentando corda-la, para minha surpresa ela já estava acordada, assim como eu, fascinada pelo canto, levantamos vagarosamente e vasculhamos por todo o apartamento, até o  corredor do meu andar, Imaginávamos mil coisas, porém ao certo não sabíamos de onde vinha, o que era, ou quem era, apenas ouvíamos o misterioso canto.


Eu sou secretária, vez em quando vendo umas bijuterias no calçadão de Copacabana, eu mesmo as faço, faço isso para completar meu orçamento e pagar  meu  aluguel. Eu morava em Duque de Caxias com minha mãe, vim morar aqui pois fica perto do meu trabalho, além do mais zona sul é sempre zona sul, não desmerecendo os maravilhosos bairros do Rio de Janeiro. A partir do dia em  que eu passei a escutar esse canto todos os dias às 6h00 horas da manhã, minha vida teve um só objetivo, desvendar o mistério, parei até de visitar mamãe.
Antes eu era uma pessoa, reservada e de poucas palavras com vizinhos não conhecia quase ninguém do meu prédio, depois do maravilhoso som matinal, passei a fazer parte do conselho do condomínio, levantei uma legião de investigadores, tudo pra saber de onde vinha aquele canto no qual intrigava tudo e todos,  Elis a mais fofoqueira, me disse que eu levava muito a sério essa besteira de canto, tinha que namorar e dá motivos para que ela falasse da minha vida também, assim   como ela fazia com algumas mocinhas que namorava na escada, ou a nova garota de programa que acabara de se mudar. Pouco dei ideia para aquela mulher suas opiniões não valeria de nada, ela apenas se importava com seus 14 gatos pretos, quanto a fedentina do seu apartamento é melhor nem comentar.
O fato do canto ser misterioso intrigava a todos que ali morava, todos queriam saber o que era, percorremos todos os cantos, acordávamos sempre 15 min para 6h00 da manhã, sempre na expectativa de descobrirmos o verdadeiro local , de onde vinha o canto, até nome resolvemos dá ao cantar. Algumas pessoas achavam o prédio mal assombrado, outras achavam que era brincadeira das crianças que lá moravam, já que elas eram as mais interessadas. Até nome deram ao cantar, passando a se chamar "DASSEIS". O Sr. Roberto, o sindico, até recompensa ofereceu na tentativa de descobrir realmente o que se passava ali, em vão, nada foi descoberto e cada vez mais aumentava a expectativa de descobrir o mistério.
Durante um mês eu me intriguei com o cantar. Certo fim de semana eu já cansada daquelas investigações, resolvi ir pra casa de mamãe. Peguei um ônibus até a Central e outro a Caxias, era sexta e pensava em retornar pra casa somente no domingo, eu estava acostumada a fazer isso antes de conhecer o cantar de "DASSEIS".
No sábado pela manhã, já na casa de mamãe escutei um cantar, não era de DASSEIS, mas sim de uma Ave Maria no qual tocava pela manhã, vinda do radinho de pilha que mamãe fazia questão de escutar todos os dias, sentir um frio na espinha, consequentemente o locutor desejava um: -BOM DIA CAXIAS! Em seu papel matinal.
Tive a ligeira impressão de que eu deveria voltar pra casa e que de fato aquele dia eu iria saber de onde vinha "DASSEIS", troquei de roupa, me despedi de mamãe e voltei pra Copacabana. No trajeto pra casa eu tinha um certo aperto em meu coração, não sabia dizer o por quê. Fiz o mesmo trajeto de quando fui à casa de mamãe. Ao me aproximar do prédio em que eu morava, notei que o motorista parou em um ponto no qual eu não estava habituada a parar, notei também que havia uma multidão aglomerada, tinham repórteres e polícia na frente do meu prédio. Desci desesperadamente no ponto seguinte, corri em direção ao ocorrido, quanto mais eu tentava me infiltrar na multidão, mais me parecia difícil saber o que estava havendo na porta do edifício Dasseis,. A cena era trágica uma senhora de braços aberto estendida no chão, lembrava-me a figura de um pássaro que aterrissava sem muito sucesso, minha cabeça girava e as lágrimas caiam. Por que eu imaginava que ela era meu doce DASSEIS? Não sabia, apenas pensava naquela possibilidade. Um policial que registrava tudo ali e ao mesmo tempo dava entrevista a uma dessas emissoras sensacionalista dizendo: -Essa e dona Maria Anduras, uma senhora de 80 anos, vítima da solidão, esquecida por tudo e todos, estava trancada em seu apartamento, obedecendo a ordem de seu filho no qual fez uma visita repentina e nunca mais voltou, ela em seu desespero assobiava toda manhã, dizem alguns moradores, que seu assobio parecia com o canto de um pássaro, chamando por socorro, ela era moradora do 1205, em um ato de desespero ela se jogou do 12° andar. Ao escutar aquilo, passei a entender e fazer uma retrospectiva de tudo que ocorreu até ali. Minhas lágrimas caíam, eu não queria dá muito a entender ao policial do que eu sabia ou não sabia, tratei de me retirar vagarosamente sem que ele percebesse minha presença. DASSEIS era dona Maria Anduras, uma mulher de 80 ano que assim como um pássaro preso quando se liberta não sabe voar. Nunca mais me esqueci de DASSEIS, tento entender seu ato de desespero, não a culpo, não questiono mas não entendo, não sei o que realmente aconteceu aquele dia.
Continuo como secretária não vendo mais bijuterias , vez em quando passeio pela orla de Copacabana e fico a olhar o mar, a imensidão me faz ver um vazio que as vezes trago dentro de mim, posso dizer que eu não sou feliz e muito menos infeliz , apenas vivo cada minuto como se fosse o último, Acordando sempre às 6h00 da manhã.
Helga Soares

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