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   > O Olhar do cão



altair almeida
      CONTOS

O Olhar do cão

   

Sentou-se a mesa no mesmo horário de sempre para o mesmo desjejum de sempre, na cadeira de sempre. O jornal era o mesmo, os talheres também, a manteiga, a mesma de muitos anos, o ritual, o relógio, as roupas. 

Anos e anos, dias e dias, horas e horas, o horário de acordar era sempre o mesmo, fazer a barba, banho, trocar-se e sair para mais um dia, fazer o mesmo trajeto, desviar dos mesmos buracos, cair em outros mesmos buracos, ver as mesmas placas de sinalização e  passar pelas mesmas ruas.
No horário de sempre ligou o carro, e saiu acelerando-o lentamente, sonado e tropego, ligou o rádio do carro, começou a ouvir o noticiário enfadonho e repetitivo como todos os dias. 
Saindo de sua casa, sua grande casa, que comprara depois de muitos e muitos anos de dedicação extrema a seu trabalho, seguiu por 500 metros até a primeira curva, quando avistou o cão.  O cão era deslumbrante, era altivo, magro, acinzentando, mas o que o assustou era  o olhar do cão, um olhar de origem altiva, mas que trazia estampado na janela desse seu olhar, um choque tremendo, havia algo de devastador, de horripilante nesse olhar, um pavor, um desespero como nunca havia visto antes e que rendeu um pequeno calafrio.
Desacelerou o carro e ficou hipnotizado por aquele olhar, o cão seguia lentamente, no trote cadenciado e altivo, talvez procurando algo, talvez procurando alguém, talvez procurando entender o porque de sua própria presença ali naquele cenário, que não parecia ser o seu cenário, que não parecia ser o seu lugar. 
Seguiu o seu caminho e seguiu também o seu dia hipnotizado por aquele olhar, jamais vira olhar tão desesperado, jamais sentiu-se tão impotente, o belo cão, o cão altivo seguiu cadenciando seu trote em sua altivez e desespero, trotando não se sabia para onde.
Para onde iria esse cão? De onde viria esse cão?  E o desespero mesclado com a solidão? O "por que" desse desespero mesclado com solidão?
Sua rotina o chamava de volta, sentar-se a mesa no mesmo horário, cumprir as mesmas tarefas de todos os dias, almoçar no mesmo horário, ler os mesmos jornais, as notícias que faziam questão de se repetir.
Terminar o dia no mesmo horário, seguir de volta para a casa, a mesma caminhada até o carro, as mesmas alamedas, o caminho de volta para casa que apesar de suas variáveis de rota, eram sempre as mesmas tres ou quatro  opções.
O jantar frio o esperava, montar seu prato, esquentá-lo no microondas, sentar a frente da tv no mesmo horário, assistir o noticiário, mas o olhar do cão o perseguia, o desespero o perseguia e a sensação de impotencia aumentava, poderia te-lo resgatado da rua, ele não era dalí, poderia te-lo salvo, poderia ter feito algo, mas preferiu a segurança de sua rotina, não envolver-se seria seguro, seria sua auto-preservação.
Acordava e ia dormir por dias e dias com o desespero do olhar do cão estampado em sua mente e seguindo-o por onde quer que fosse.
Sonhava com aquele olhar, vía o olhar refletido nos espelhos e vidros, vía aquele olhar nos faróis, nos olhos de todos e não entendia o porque daquele olhar incomodá-lo tanto, não entendia mas tinha a certeza de nunca ter visto olhar tão desesperado em sua vida.
Passaram-se quase 20 dias, acordava as madrugadas com a camisa empapada de suor, acordava debatendo-se e em seu sonho lutando para proteger o cão, protegia o cão de lobos miseráveis, de chamas ao seu redor, protegia o cão de olhares malévolos, de lanças e espadas lançadas em sua direção.
O sonho repetia-se todas as madrugadas e os sonhos, viraram com o decorrer do tempo pesadelos, que começaram a afetar totalmente seu relógio biológico, portanto, começou a ficar sonado, começou a parecer um zumbi, pois estava sempre encostado em um canto cochilando e começou também  a simplesmente "apagar" por períodos curtos durante o dia, mesmo nas conversas com colegas, com amigos, em casa ou no bar, começou a "apagar", a ausentar-se momentaneamente de qualquer lugar, para minutos depois voltar como se nada tivesse acontecido.
Estava mergulhado novamente em sua rotina, só que dessa vez estava quase que totalmente fora de órbita com sua sonolencia constante e suas "ausencias" constantes.
Numa manhã de domingo, seguia novamente por uma grande avenida, seu novo e silencioso carro, deslizava suavemente, curva a esquerda, curva a direita, acelerava um pouco mais, diminuía, e sorria internamente pensando no conforto desse seu novo carro. Foi quando ao passar por baixo de um viaduto, tomou um choque tremendo, pisou bruscamente no freio, ouviu o carro de trás frear, e mais uma freada e outra também. Parou o carro.
Parou e ficou alí estupefato, pois a cerca de 20 metros o cão altivo e de olhar desesperado caminhava novamente. A princípio acompanhado do choque, imaginara que o havia visto na primeira vez a cerca de quinze quilometros dalí.  O transito parou, carros começaram a vagarosamente contornar o seu carro, ouviu buzinas, ouviu impropérios dos mais variados, carros sendo acelerados bruscamente, mas ficou alí, vendo o cão que seguia altivo novamente e com seu olhar desesperado, com todo o desespero e dor que existiam grudados em seu olhar arregalado. 
O tempo parou, acompanhou o cão que parecia mais desesperado ainda, trotando levemente na direção oposta a sua. Queria fazer algo, seus olhos pediam desesperadamente por ajuda, toda a sua alma, todo o desespero e medo que poderiam existir estavam alí, imersos naquele olhar. Mas oque fazer se o cão já sumia no meio das árvores e das construções. O que fazer?
Subiu novamente em seu carro e seguiu seu caminho, era mais um domingo, um domingo como outro qualquer, de um dia ensolarado qualquer, em uma cidade como mais outra qualquer.
Sua insonia e pesadelos aumentaram, noites mal dormidas, seguidas de febre, de suor, de forros de cama e roupas molhadas. Voltou a acordar com o olhar do cão, voltou a dormir com o olhar do cão. A sensação era mais intensa agora, todo o desespero do cão passou a ser seu desespero, como se fossem irmãos siameses, tinha que salvar o cão, tinha que resgatar o cão e jurou para sí mesmo achar o cão e salvá-lo, salvar o cão era salvar a sí mesmo, era resgatar a sí mesmo.
Passou a vasculhar todos os cantos, todas as esquinas, todos os antros, viadutos e os reconditos da cidade. Passou a perguntar a todos sobre o cão -- Um cão cinza, grande, de olhar altivo e desesperado -- dizia para todos, mas ninguem viu o cão, ninguém sabia do cão.
Vasculhou ruas, vielas, morros e vales mas nem sinal do cão. Distribuiu panfletos, ligou para amigos e todos já estavam mostrando um pouco de cansaço com essa história maluca de um cão com o olhar desesperado.
Seus amigos começaram a debochar assim como sua familia que já o achava um bom tempo um pouco esquisito. Sua ansiedade em achar o cão, além de tirar seu sono, tirava-o de órbita agora, passou a trocar os nomes das pessoas, passou a esquecer rostos, a cumprimentar estranhos, sua sonolencia aumentou pois trocava a noite pelo dia.
Iria salvar o cão, iria resgatá-lo de seu desespero, seriam amigos, seriam como nos livros e nos filmes, fiéis e inseparáveis amigos, um cão e seu dono. 
Em outro dia qualquer, caminhava pela rua, subia uma ladeira com o coração acelerado, ofegante, quando encontrou seu vizinho, seu caro vizinho que sempre o ajudava em alguma necessidade. Seu vizinho sorriu e perguntou para onde ele iria naquele momento.
Não sabia dizer, porque também não sabia para onde ía, simplesmente ía, ía caminhar, ía quem sabe tentar entender o porque daquele olhar, e o porque daquele olhar tão desesperado simplesmente tirá-lo tão desesperadamente de seu eixo, de seu falso equilíbrio.
-- Sabe de uma coisa? -- disse seu vizinho-- ví um cão tão bonito, grande e acinzentado atropelado na estrada, e que olhar...que olhar...
Suas pernas fraquejaram, e seus joelhos se dobraram, sentiu a urina quente escorrer por suas pernas -- Não pode ser...não pode ser...-- seu vizinho olhou o estupefato, pois não entendia o que estava acontecendo, ele também não entendia, sua cabeça começou a girar, pois não conseguira salvar o cão, não conseguira salvar o ser mais desesperado que já havia visto, e agora o que iria fazer?
Quando acordou já estava em casa, deitado em um sofá, sua mãe  o olhava fixamente, com os olhos embargados, seu vizinho falava baixinho em seu ouvido.....o olhar do cão estava alí a sua frente e ele não conseguira salvá-lo, era só isso o que vinha a sua mente.
Ele teve a oportunidade mas não o salvou, ele teve a oportunidade mas não o salvou...
Olhou nos olhos de sua mãe que em seu olhar dizia que tudo estava bem e seguiria bem. Virou para o lado e soluçando baixinho começou lentamente a dormir.
Em seu sonho, corria ao lado do cão, que não tinha mais o olhar desesperado, mas um olhar grato e aliviado, pois seu desespero por ter sido abandonado era um olhar gratificado e feliz, um amigo desconhecido o havia salvo.
Ele não queria mais acordar e pelo que sabe nunca mais voltou de seu sono, sua mãe está lá todos os dias, virando o para os lados para livra-lo das escaras, limpando o suor de seu rosto, trocando suas roupas, cantando algumas canções e esperando por seu retorno um dia e ele continua lá, agora tranquilo e feliz correndo ao lado do cão do olhar agora gratificado. 
 


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