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   > Liberdade e o brilho das estrelas



altair almeida
      CONTOS

Liberdade e o brilho das estrelas

 Apoiou-se nas frestas da parede, da parede irregular e cheia de frestas de sua casa, encaixou só os dedos dos pés e foi subindo, o pé em uma fresta, outro pé em outra fresta e foi indo, bufando um pouquinho, gemendo um pouco também. -- Mas que droga de parede...-- Começou a chover fino, aquela garoinha que era marca registrada de sua cidade -- Agora a chuva, droga, droga, droga... -- Alcançou o telhado, pendurou-se por uma mão na calha, a outra continuava firme segurando a parede. Um estalo, a calha se soltou e quase o arremetou em um  curto vôo até o chão.
O sangue subiu por seu rosto, imaginou-se incendiando aquela casa, a 9a. de Beethoven tocando, enquanto a chama ardia, e seus olhos em um tom maléfico, brilhavam no meio da chama. -- Credo, isso é coisa de se pensar? -- Pergunto para si mesmo, soltou a calha, deu uma respirada funda e pendurou-se nas telhas e foi aos poucos subindo no telhado.
Sentou para descansar um pouco -- Caramba, não pensei que fosse tão difícil assim, o vizinho vive pendurando-se no telhado mexendo naquela maldita parabólica...-- a garoa apertou, era quase uma chuva agora, a lua estava prateada e totalmente cheia, olhou para ela, pensou nos olhos de Amanda, uma bola de futebol, pérolas, sim via pérolas também, bolas de gude -- O que serão aqueles desenhos? Mares? Vulcões? São Jorge e o dragão? -- Sim porque sua mãe, em suas histórias dizia, que o desenho da lua era a eterna luta de São Jorge contra o dragão do mal, o bem e o mal.
Subiu na parte mais alta do telhado, ficou na ponta dos pés e esticou o braço para alcançar a lua -- Ah ela é uma pequena bola, macia,branca e gelada pendurada sobre minha casa -- Acariciou a lua, a lua era sua, viu os pontinhos de luz no céu -- são lindas e brilhantes -- pensou, e foi pegando uma a uma e colocando em seus bolsos, que começaram a brilhar, pareciam agora um holofote em cada bolso.
Sua alegria era tanta que pulou do telhado, cinco metros abaixo, caiu e rolou mas as estrelas continuavam lá em seu bolso, as estrelas continuavam lá.
As estrelas agora eram suas, mas o que fazer com elas? Devolve-las? Não, não faria isso, elas eram suas, foram duramente conquistadas e poucos sabiam que ele era dono de estrelas, não iria devolver nada para ninguem.
-- Não, não e não, são minhas!! -- Seus olhos brilharam e um esboço de um sorriso tomou conta de um canto de sua boca. Elas eram suas e seriam suas para sempre.
Lembrou que não tinha nenhuma riqueza, seu chevrolet velho ainda o levava para a cidade, pela estrada esburacada que ligava Casa Redonda a Ibiporã, eram 80 quilometros de buracos e todos os acidentes, mas o fordão ia firme -- Esse fordão, já aguentou de tudo. --lembrou de sua casa, que vira e mexe aparecia algum barbeiro rastejando pelo chão.
Não, não era o de cortar cabelo, era o barbeiro da doença, o que se aloja no coração.
Os filhos haviam partido, todos bem educados, bem formados, apenas João -- Aquele peste, só me deu trabalho até hoje -- que como boa ovelha negra era do contra para tudo.
Mas Yasmin e Fabrício esses eram exemplo.
-- O que fazer com as estrelas? -- Olhou para os bolsos, estavam lá brilhando como dois holofotes, esbanjando sua luz.
Pensou em sua conta bancária, na previdencia privada e entristeceu-se mais um pouco -- Não tenho absolutamente nada mesmo.
Ia guardar as estrelas embaixo de seu travesseiro -- É isso! -- Quem sabe teria sonhos iluminados e noites repletas de sonhos maravilhosos e esperançosos.
Não, melhor ainda, espalharia as estrelas pelos jardins de sua casa, sua casa teria durante todo o ano uma iluminação de natal.
-- Sómente eu com essa iluminação, os vizinhos vão morrer de inveja. Vão mesmo. --
Não, pensando melhor vou colocar as estrelas no teto de minha casa, para iluminar toda minha casa, mas e a noite? Quando eu quiser apagar as luzes?
Olhou para o pedaço de céu onde colheu as luzes, havia uma parte vazia no céu, ao mesmo tempo tirou as estrelas do bolso e esparramou pelo chão e percebeu que sua luz transbordante estava tímida agora, que diminuíra, adquirindo um tom amarelado, opaco.
Não tinha nada e queria as estrelas, os filhos se foram, sua casa caía aos pedaços, não saberia dizer quando teria dinheiro novamente, então, só tinha as estrelas.
Sentou-se de cócoras e começou a conta-las -- Uma, duas, tres....-- e percebeu que não tinha nada, iniciava-se a sinfonia de goteiras vindas de seu telhado quebrado, sons estranhos surgiam da mata ao lado de sua casa, além das estrelas, não tinha nada nos bolsos, não tinha nada, mas tinha tudo, pois tinha a sua liberdade.
Olhou para as estrelas no chão, agora praticamente sem brilho nenhum e pensou em como não tinha nada mas tinha tudo, tinha liberdade, estava em paz, tinha seus livros que eram suas janelas para o mundo, tinha seus dedos para apontar estrelas e caminhos, tinha seus sonhos, que incensava e cultivava todas as noites, tinha seus magros braços mas que aguentavam fazer muita força ainda, tinha, enfim, sua liberdade.
Olhou para as estrelas, juntou todas uma a uma, colocou as novamente e cuidadosamente em seus bolsos, escalou novamente as paredes de sua velha casa, praguejou novamente, escorregou e caiu, retomou a subida a sua casa, foi escorregando escalando o telhado, parou lá no ponto mais alto do telhado e foi cuidadosamente pegando as estrelas uma a uma e recolocando-as novamente no céu, sentiu que o tom apático de seu brilho foi aos poucos sumindo, foi dando lugar a um novo brilho cheio de vida.
Após devolver todas, passou pela lua e vez um leve carinho. Desceu cuidadosamente e saiu assobiando a cansado que mais gostava -- "...the answer my friend is blowing in the wind".
 


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