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   > Diário de viagem: a chegada e a partida de Janice



altair almeida
      CRôNICAS

Diário de viagem: a chegada e a partida de Janice

 Minha mãe, desde a minha mais tenra idade, sempre criou suas versões da verdade e sempre me perguntei -- Porque ela simplesmente não fala a verdade? -- mas sempre entendí, que devido a inúmeras dificuldades, desde financeiras a familiares, a verdade para ela sempre se definiu a "o melhor a ser dito de acordo com a ocasião". Custei a entender isso e quando garoto muitas vezes fiquei totalmente confuso ao tentar interpretar as colocações de minha mãe que constantemente eram totalmente contraditórias entre sí, pois suas "verdades" eram colocadas com tantas certezas que não havia como não acreditar.
Sem querer ser dramático, a condição que vivíamos, bem precária, talvez o manuseio da verdade fosse uma questão de sobrevivencia também, pois havia a necessidade de alcançar-se o dia seguinte, nossa meta de sobrevivencia em determinada época, resumia-se a alcançar o dia seguinte. Os detalhes, preservando minha querida velha, não vem ao caso e já foram ouvidos diversas vezes em inúmeras histórias de pobreza e famílias descontruídas  nesse país em seus jornais e noticiários na televisão.
O detalhe intrigante é que talvez no meu quase meio século de vida, busco conviver com algumas interrogações que tenho certeza nunca terei a resposta correta e tenho certeza levarei comigo até onde alcançar a minha existencia, uma dessas interrogações foi Janice, e sempre que lembro desse capítulo, sinto aquele profundo nó na garganta por ter sido tão impotente frente a uma situação que um garoto de uns cinco ou seis anos de idade poderia ter tido alguma ação, mas ao mesmo tempo pergunto-me -- O que um garoto de seis anos poderia ter feito a época? -- Esse questionamento, é mais um ingrediente ao questionamento maior que compõe esse capítulo de minha vida.
Anos 60, vivíamos uma fase de pobreza, eu e minha mãe, pobreza total. Bem, reconsiderando, como podemos definir "pobreza total"? O que seria "pobreza total"? Cada um de nós, tem a sua definição, mas, que ao final de tudo, guia-se pelos mesmos parametros que partem da satisfação de necessidades básicas como alimentação, moradia, etc
Minha "pobreza total", não beirava a miséria, mas tinha seus desconfortos, como não ter alguns caprichos da infãncia, o sacrifício para termos o básico de uma boa alimentação, a família de minha mãe desestruturada pois todos eram brigados entre sí, a família de meu pai ,totalmente ausente, um pai biológico de presença esporádica, sempre que a situação "apertava" para o seu lado, em todos os sentidos.
Vivíamos apenas eu e minha mãe, em uma vida itinerante, buscando sempre um lugar para nos instalarmos, pois após a partida de meu pai e a separação de minha mãe do restante da família, ficamos meio a esmo, meio perdidos vagando pelas ruas. Após um período um tanto quanto complicado, foi quando surgiu seu primeiro emprego em São Paulo de operaria em uma confecção. Lembro que o único teto que ela com seu parco rendimento conseguiu nos proporcionar na época, foi alugar uma garagem, que não tinha portas, em um pequeno cortiço. Tínhamos alguns móveis velhos que trouxemos de quando ela tinha sua casa com meu pai (o biológico). Lembro dela fechar a entrada da garagem, com um grande acolchoado e para dormirmos empurrávamos um velho armário por detrás desse acolchoado para fechar sua entrada e também proteger do frio.
A situação era precária, mas como sempre há um lado belo e positivo em tudo, éramos muito fortes e unidos. Não lembro exatamente quanto tempo vivemos ali, lembro que ela aos poucos estabilizava-se em seu emprego, mas era jovem e sempre cedia as suas fraquezas carnais, nas raras visitas de meu pai (o biológico).
Refiro-me ao pai "biológico", apenas como "biológico", pois seu papel nessa história toda, foi apenas esse, a de fecundar minha mãe. 
Nessa mesma época minha mãe engravidou, e lembro da correria naquele pequeno cortiço que vivíamos, o dia em que Janice veio ao mundo, as mulheres corriam para lá e para cá e eu ouvia assustado minha mãe gritar e chorar, dentro de um quarto, sua barriga estava imensa e eu estagnado parado no meio de um grande quintal, junto aos vira-latas que a cada grito protestavam com seus latidos altos e desencontrados. Mulheres corriam para lá e para cá, uma gritava pedindo toalhas, outra pedindo um pouco de calma, os garotos do pequeno cortiço olhavam-me com os olhos arregalados, todos sujos e assustados e sem entender muito bem o que estava acontecendo e eu petrificado sem mover um músculo de meu corpo.
No decorrer do dia a situação pareceu que foi ficando controlada, eu sentei em um banquinho, e passei o dia alí de frente a janela fechada do quarto, da casa que parecia a maior do cortiço, onde ouvia os gemidos de minha mãe, sei que em um determinado momento, ouví o grito --É menina! -- ouví um choro agudo e descontrolado e vieram os risos e os gritos de alegria em seguida. Eu continuava a  não entender, e lembrei exatamente do dia em que andando pela rua na altura de meus 4 ou 5 anos de idade, fiz o seguinte questionamento -- Porque será que só as pessoas casadas tem filhos? Acho que Deus deve ter um controle lá no céu e só deixa os casados terem filhos-- Pronto, sintetizei "sábiamente toda a criação. 
Passaram-se os dias e aos poucos fui percebendo que ganhei uma pequena e mirrada irmã chamada Janice, não lembro de praticamente nada de nossa convivencia, lembro-me apenas desse dia e de um ou outro momento em que estavamos todos juntos, eu, Janice e minha mãe, isso é de certa forma triste, porque vejo que não temos a história de minha irmã e tenho uma grande lacuna em minha memória para esse capítulo de nossas vidas. 
Desse momento, só recordo-me do momento seguinte e esse é rico em detalhes, é o dia em que levamos a Janice ao médico, em um grande hospital.
Nesse dia, saímos caminhando pela rua, os tres sempre juntos e chegamos ao hospital, como mencionei, um grande e belo hospital, todas as paredes branquinhas, o chão brilhante, reflexos para todos os lados, grandes e imponentes lustres, tudo reluzia, tudo era de uma limpeza impressionante. 
Sentamos os tres em um banco de espera, próximo a uma escada, que ligava o térreo ao primeiro andar, após alguns minutos, um moço jovem e de boa aparencia, com um avental também branco veio ao nosso encontro. Minha mãe afastou-se um pouco e em um canto começou a conversar com o moço que eu deduzí que seria um médico.
-- Filho, fica sentadinho, não saia daí, mamãe já volta - E lá se foi ela com Janice em seus braços acompanhando o tal "médico" pelos corredores adentro.
Em minha mente a confusão de perguntas colidia para todos os lados -- Será que a Janice está muito doente? Será que elas voltam logo? Estão demorando...Porque não pude ir junto? Será que o problema é comigo? Será que vou ficar aqui para sempre? -- O tempo passou, talvez tenha sido pouco tempo, mas foi um tempo interminável para mim. 
Contorcia os dedos, revirava-me sentado no banco duro de madeira, olhava para o corrimão e para a escada a minha frente e não me atrevia a sair do lugar.
Foi quando surgiu minha mãe sorridente --Vamos embora filho? -- Sentí um alívio tremendo, agarrei rápidamente sua mão, comecei a sorrir e começamos a descer a escada bem devagarinho. Ela começou a contar algumas histórias, falava de seu trabalho, o quanto era aceita e querida por lá, de nossa falta de dinheiro, e que com certeza a vida iria melhorar, ela começou, como quando estava muito animada a falar incessantemente, sempre terminando e recomeçando as mesmas histórias que como comentei, acreditava cegamente. 
Iá rindo e caminhando aliviado ao seu lado, apertando sua mão e ia repassando na mente detalhes de nossa vida, em como dormíamos sempre juntos e bem agarrados, em como queria ter uma casa com uma porta branca muito bonita, como as do hospital....foi quando levei um choque tremendo e dei um grito que assustou minha mãe -- Mãe, cade a Janice? Mãe esquemos a Janice.
Nesse momento ela parou na rua e abaixou-se a minha frente, e com aquele seu olhar que mistura tristeza e desespero, mas nesse momento cheio de ternura, falou bem calmamente olhando bem no fundo de meus olhos -- Filho, a Janice morreu.
Foi quando levantou-se segurou firme em minha mão e continuou muda a caminhar e a me arrastar bem lentamente. 
Ficamos mudos por todo o trajeto, ficamos mudos quando chegamos em nossa casa, ela partia para o seu trabalho todas as manhãs e eu ficava em casa e pelo menos por uma semana, sua partida e sua chegada eram mudas.
Eu passei semanas com diversos questionamentos, com todas as interrogações da situação e de minha idade -- Ela morreu? Mas como? É assim? Morre-se e pronto? Onde está Janice?...-- Aos poucos toda aquela situação foi fugindo de, digamos, minha "memória presente" que me acompanhava durante todos os meus dias, mas ficou alí, guardada em uma gaveta de arquivo, de minha consciencia.
Nunca toquei nesse assunto com minha mãe, pois sei que o assunto é avassalador, aliás muitas coisas de minha infância nunca falamos a respeito, pois sei que para ela é muito difícil Mas sempre penso em Janice, penso no episódio, sempre com os mesmos questionamentos que resumem-se a um grande e sonoro "por que?".
Contudo, reconforto-me e reconforto minha mãe de outras formas, fazendo minhas orações e pedindo para que tudo esteja bem com Janice, onde quer que ela esteja.
Só gostaria de não conviver com esse questionamento, de ter essa lacuna em minha vida, mas sei que é simplesmente assim, tenho que conviver com isso, assim como minha mãe tem que conviver com alguns "buracos" e fantasmas em sua vida.
Por outro lado, a força leonina de minha mãe em tantos e tantos momentos, nos trouxe até aqui, e acho que meu maior orgulho e minha maior riqueza é olhar para meus filhos e ver que um pouco de minha mãe segue com eles e um pouco de Janice também.
Hora de ligar para minha mãe e dizer que estou morrendo de saudades...


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