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   > Diário de viagem: o trem para Jundiaí



altair almeida
      CONTOS

Diário de viagem: o trem para Jundiaí

   Acho que já tinha os meus dezoito sim, dezesse ou dezoito anos na verdade, tinha meu fiel amigo Antonio e tinha minha namorada Preta, minha primeira namorada, de verdade mesmo, como manda o figurino. Eu não gostava desse seu apelido, achava que não fazia juz a sua beleza morena, a seus belos cabelos pretos até a cintura, a seus dentes branquíssimos, que mais tarde fui descobrir que um deles era um pivô totalmente igual a todos os outros dentes naturias e perfeitos em sua boca, isso não maculava de forma alguma a beleza e o jeito terno e meigo de Preta.
     Pior ainda quando a chamavam de Poty, apelido copiado de uma bailarina do programa do Chacrinha, que a meu ver era o brega do brega dos programas de auditório da época, mas se todos achavam que era uma justa homenagem para Preta, como eu poderia discordar?
Por fim, no nosso dia-a-dia, em nossa convivencia quase que diária, passei a gostar do apelido Preta e seu nome, Cleonice, não fazia mais parte de nosso vocabulário.
Tinhamos sempre nossas briguinhas, éramos ciumentos, nos adorávamos e pior de tudo éramos adolescentes.
     Quando ela fazia ingles no Senac, ía as vezes busca-la, e certo dia Nazareth sua mãe, entre tantas broncas que vivia me dando, me pediu para não ir mais com ela ao inglês, por que suas notas estavam terríveis, também vira e mexe ela não entrava na aula, ficávamos ali perambulando pelas ruas  ou sentados nos bancos duros e frios de concreto da estação Armenia do Metrô.
     Quando conhecí seu amigo do ingles chamado Nestor, não simpatizei muito com ele não, pois o danado fazia o tipo muito rebelde para o meu gosto e muito observado pelas meninas, ele era do tipo cabelos compridos, bem cuidados, com inúmeras poses ensaiadas de rebelde e sempre na melhor linha festival de Woodstock fazia pose mascando cravos, era para fazer tipo óbviamente, mas meninas adoravam.
     Tivemos algumas crises eu e Preta, por conta  de meus ciúmes do Nestor que eram seguidas por alguns momentos ternos e cheios de paixão, enfim, era uma ciranda interminável, nossa paixão e nossos ciúmes.
Com Nestor, lembro bem, tive um dos meus primeiros contatos com o rock'n'roll, quando ele me falou de um grupo chamado Genesis e que usava um instrumento "do outro mundo" chamado sintetizador (lembro dele mostrar o album Foxtrot) e Pink Floyd. Aquilo para mim era coisa de outro mundo, meu chauvinismo era exagerado na época, então, música boa, era só Chico Buarque, Bethania, Gil...Onde andará Nestor a  essa altura do campeonato? Onde andará?
     Em uma quinta-feira, Preta me ligou e falou -- Querido, acho que vou viajar e passar o final de semana com meus tios em Jundiai, esta bem? -- Pensei instantaneamente -- Puxa, que bom, vou ter o final de semana para mim, vou passear de bicicleta sem destino, sem preocupação com horário....
     Na sexta, Preta viajou, ela estava bonita como sempre, em um vestido florido, contrastando com sua pele morena, seus olhos e cabelos pretos e seu sorriso branco e brilhante.
Dei um abraço, daqueles bem apertados, beijei-a discretamente, pois toda a sua família aguardava impaciente nossas despedidas e lá se foi Preta no carro de seus tios rumo a Jundiaí.
     No sábado, acordei em pânico, a idéia de não ter Preta por perto, para brincar, rir, namorar e principalmente fazer-me companhia foi o estopim para o meu pânico. prematuro.
Comecei a andar para lá e para cá em casa, estava um tanto quanto perdido, ou melhor, totalmente sem rumo, sentia falta de seu cheiro, de seu deboche, de sua paixão por literatura, por Jorge Amado, de seus comentários inteligentes  de livros, de como ela estava sempre dançando as canções de candomblé que havia aprendido com seus parentes do Rio.
Andei para lá e para cá incessantemente dentro de casa, liguei e desliguei a tv, caminhei um pouco na rua, passei de bicicleta disfarçadamente algumas vezes em frente sua casa e resolvi pedir ajuda a Antonio, meu desespero tinha ainda a agravante de estar me deixando cada vez mais confuso, pois não sabia o que fazer.
-- Tonho? A Preta foi para Jundiaí, tenho que ir atrás dela. -- Foi a primeira coisa que eu disse quando cheguei a casa de Antonio totalmente transtornado.
-- Voce enlouqueceu é? Descansa o facho, segunda-feira ela já está aí de volta, vai arrumar o que fazer rapaz.
-- Mas Tonho não vou aguentar esperar até segunda-feira, estou com saudades dela, tenho que vê-la, vou atrás dela, vamos comigo?
-- Você tem o endereço?
-- Não tenho, mas os tios dela são advogados, não deve ter muitos em Jundiaí e a cidade não é tão grande assim, não é?
-- Você quer que eu vá para Jundiaí contigo procurar a Preta e sem endereço? Você enlouqueceu de vez.
-- Na Estação da Luz, tem trem que vai para Jundiaí...
-- Caraca, você me enfia em cada fria, vamos para a estação da Luz.
     Meu mundo era a zona norte da cidade, conhecia aquilo com a palma de minha mão, tudo o que extrapolasse a zona norte em termos de geografia, era o "estrangeiro" para mim, então viajar para Jundiaí para mim, era como viajar para uma bela cidade na Suiça, ou conhecer alguma cidadezinha no norte frances, era o máximo.
Viajar de trem então, era o mesmo que visitar a Disneylandia, partimos eu e Antonio em busca de meu cálice sagrado, e mais uma vez colocava meu amigo em minhas aventuras e histórias sem pé e sem cabeça.
Andar de trem, partindo da Estação da Luz, foi realmente o máximo, íamos lá eu e Antonio, brincando, rindo, debochando das pessoas que achavamos engraçadas, contando histórias, íamos atravessando todos os vagões do trem e fomos parar no último vagão, eu diria que "nos fundos" do trem, onde íamos vendo as vilas, casas e estrada de ferro que ficava para trás, naquele dia de sol brilhante e céu completamente azulado.
Foi uma viagem inesquecível, pois tudo nos alegrava e nos distraía.
     Chegando em Jundiái, descemos da estação de trem e já saímos em uma praça, parecia ser uma praça importante pois o comércio era forte no local, havia alguns pontos de táxi, uns dois ou tres telefones públicos e algumas poucas pessoas pelas ruas.
Ficamos um pouco acanhados a princípio e aos poucos perguntei para algumas pessoas, se conheciam o Dr. Rodolfo ou sua esposa Nilce, todos respondiam que não conheciam e a cada pessoa que parava para perguntar sobre o Dr. Rodolfo ou Dra. Nilce, além de obter sua negativa, recebia instantaneamente o olhar de desaprovação de Antonio.
     Percebí logo, que não iria chegar a lugar algum, parando e questionando as pessoas na rua.
Resolví caminhar pela cidade, perambulamos um pouco pelas ruas, pois acreditava que de um momento para o outro a encontraria caminhando pela rua, ou encontraria seus tios, ou mesmo veria o carro deles em algum lugar.
     Andamos, andamos, andamos....até que percebí que não seria tão fácil assim encontra-la, após mais algum tempo caminhando, desistí por completo.
Voltamos para São Paulo de trem, cansados e rindo um pouco desse tipo de loucura, desembarcamos na Estação da Luz e seguimos de onibus para a casa de Antonio.
No domingo, saímos eu e Antonio em nossas peregrinações de bicicleta, e o dia, apesar de toda a minha ansiedade, terminou rápidamente.
     Quando encontrei com Preta, quando ela desceu do carro, a sensação que tive era que havia encontrado meu Santo Graal, pois a felicidade que me invadiu foi tremenda, a abracei e beijei dezenas de vezes e dessa vez não me importei se estava agradando sua família ou não. Ela parecia estar mais bonita, mais radiante, mais morena e fiquei olhando para ela e imaginando, como uma pessoa poderia alternar tão facilmente um lado totalmente moleque, de jogar capoeira, de dançar, de brincar e ao mesmo tempo ser tão feminina, tão delicada, tão mulher, tão inteligente.  Decerto, esse meu julgamento está impregnado da parcialidade da paixão que sentia por Preta.
      Após esse dia tive a certeza, que nosso amor seria infinito, plagiando Vinícius, enquanto durasse.
Quando segurava suas mãos morenas com as pontas dos dedos horríveis, pois ela vivia roendo as unhas ou quando sentia seu cheiro ou mesmo quando a beijava, sentia que alí estava uma pessoa que eu amava e que me fazia imensamente feliz.
     Voltei outras vezes para Jundiaí, sempre a trabalho, Jundiaí, que me perdoem continua feia como sempre achei, quando desmanchamos o namoro, ou melhor,simplesmente paramos de nos ver percebí que alí, aqueles momentos, foram os mais belos capítulos de minha história, acredito que na dela também. Infelizmente, não restou nenhuma foto, nenhum objeto que lembrasse essa paixão, restou apenas seu olhar, seu belo sorriso meio malandro, entortando o canto da boca, contudo, o melhor dessa nossa bela história, tem sido a fé em nós mesmos e a fé no mundo, imersos em nossos sonhos e nossa pureza.
A vida segue, todos tem as suas histórias e que elas sejam preservadas, as boas ou as ruins, pois todas de alguma forma nos ensinam e ajudam a mostrar os nossos trajetos particulares para nossos "Jundiaís" e moldam nosso caráter e maturidade, isso se escolhermos crescer e aprender com essas experiencias. 


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