Busca: 

Apelido:

Senha:


Esqueci minha senha
 
  Área do autor

Publique seu texto
  Gêneros dos textos  
  Artigos (641)  
  Contos (940)  
  Crônicas (724)  
  Ensaios (169)  
  Entrevistas (35)  
  Infantil (217)  
  Pensamentos (651)  
  Poesias (2528)  
  Resenhas (129)  

 
 
Enredos do Meu Tempo
Roberto Villani
R$ 30,50
(A Vista)



Arquitetura-03-418
Airo Zamoner
R$ 104,00
(A Vista)






   > Luiz Lázaro traiu Poliana Volnéia



Airo Zamoner
      CRôNICAS

Luiz Lázaro traiu Poliana Volnéia

Foi na igreja que o primeiro encontro aconteceu. Poliana Volnéia ainda usava aquele véu extemporâneo de filha de Maria. Virgem recatada, mãos postas, rezava contrita, maltratando seus joelhos sedutores no genuflexório purificante. A dor física amainava desejos, enquadrava pensamentos carnais, santificava e glorificava o Criador.

Luiz Lázaro, em pé no corredor lateral, alternava seus olhares investigativos entre devoções à cruz imponente ao fundo do altar e o rosto angelical e olhar feiticeiro da jovem religiosa que mal disfarçava paixões enrustidas.

Como entender a complexidade dos sensores femininos? Eles indicavam alguma energia a dançar a seu lado, chamando por ela, implorando por ele. Não resistiu. Desviou seu nínfio olhar esverdeado, atingindo em cheio a luz azulada dos melosos olhos de Luiz Lázaro.

Foi algo lampejoidal de uma efemeridade sutil, mas gravou-se definitivamente nas áreas pouco espirituais daqueles dois. Sim, foi esse o primeiro encontro.

Das missas dominicais às novenas diárias, as chispas de olhares geraram códigos de comunicação inimagináveis entre Luiz Lázaro e Poliana Volnéia. O encontro atrás da sacristia foi acertado sem palavras e sem palavras pesquisaram-se anos sem conta.

A ansiedade de Luiz Lázaro levou-o a cometer um ato de vandalismo egocêntrico, maldosamente interesseiro, quebrando a pedradas, madrugada adentro, as parcas luzes do fundo da sacristia. Sorrateiro, preparava o ambiente para pesquisar aquele corpo saboroso que só permitia carícias de olhares rápidos, primeiro deixando cair o véu que desnudou seu rosto encabulado, depois avançando pretextos, polegada por polegada, arrepio por arrepio até chegar despudorado ao consolo dos joelhos feridos.

O mistério das luzes destruídas no longínquo despertar de suas histórias foi esquecido deslavadamente, quando Luiz Lázaro tocou a pele de Poliana Volnéia pela primeira vez. Ela se viu mergulhada num mundo estranho, diabólico, sedutor, irresistível. Não mais combateu seus apelos. Desnudou-se de seus recatos. Entregou-se devotamente aos desejos, aos sonhos, às esperanças das orgias mais pródigas.

Desgastada a fase dos olhares e toques, Luiz Lázaro, que desejava avançar muito mais, submeteu-se à vontade feminina e dedicou-se relutante às pesquisas anímicas e, ladino, sabia dizer a palavra esperada, aprofundando certezas num futuro de bonança. Intuitivo, sabia romancear calculadamente suas virtudes e desfilar os valores indestrutíveis de suas pretensas concepções. Foi o que bastou para que a avassaladora paixão da ingênua Poliana Volnéia abrisse todos os caminhos.

Nas vésperas do nascimento do primeiro rebento, a verdadeira história se desenhou abjeta. Poliana Volnéia, viu estarrecida seu amado Luiz Lázaro mostrar-se um vândalo, revelando como se livrara das luzes da sacristia e mostrando que seus princípios navegavam sob as ordens fortuitas do vento.

Deslumbrado por exibir-se ao lado da mais linda jovem do país, seu companheiro esqueceu-se das promessas feitas nas alcovas improvisadas, e revelou-se por inteiro um folgazão arredio aos estudos, adepto das noitadas intermináveis, dos amigos interesseiros, da preguiça irresponsável, provocando o choro convulsivo da companheira.

Poliana Volnéia se derreteu em lamúrias, assistindo Luiz Lázaro desfilar o esbanjamento de seus favores femininos, negando um a um seus sagrados princípios, na verdade nem sagrados, nem princípios, apenas um conjunto de engodos armados ardilosamente para obter a posse e depois se deliciar nas curvas do corpo voluptuoso de Poliana Volnéia, irremediavelmente traída.

Daquele dia em diante, o casal sofreu as maledicências de muitos, que impuseram a eles, apelidos fáceis, montados na justaposição de cada uma das sílabas iniciais de seus inusitados nomes.


CADASTRE-SE GRATUITAMENTE
Você poderá votar e deixar sua opinião sobre este texto. Para isso, basta informar seu apelido e sua senha na parte superior esquerda da página. Se você ainda não estiver cadastrado, cadastre-se gratuitamente clicando aqui