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   > Zé do povo



Tony Pent
      CONTOS

Zé do povo


Zé do povo e o presidente

Tony Pent


Nesse dia o Zé do povo estava contente quando voltou para a favela.
Também pudera! Ali aonde ele havia comprado alguns palmos de terreno e levantado a custo, uma pequena casinha de três cômodos, hoje por fim aquilo tudo era seu.
Fazendo o maior dos estardalhaços ele entrou no barraco trazendo em uma das mãos uma garrafa de vinho para comemorar com a “Nega” a posse definitiva do barraco e na outra, uma carta que lhe dava os plenos direitos sobre a propriedade. O papel com que ele se abanava havia até um selo para dar mais confiabilidade ao documento.
Depois de abraçar a Nega e os filhos ele foi até a porta do barraco e vendo a muitas casinhas iguais a sua ele imaginou as loucuras que fizera juntamente com esposa e os pequenos filhos naquela construção. Serviu ele por seis meses de pedreiro, amassando e carregando o barro, quebrando tijolos e laboriosamente foi levantando as paredes. Quando tudo estava pronto, ele trouxe os trens que estava na casa alugada e passou a morar naquilo que no futuro seria seu. Hoje era um grande dia, pois ele havia acabado de pagar a ultima prestação do terreno.
Quando ele ali chegou - comentava o Zé com a esposa e enchendo de orgulho e respeito os olhinhos daquelas crianças que via no pai toda a esperança de que estavam protegidas -, o que era só terreno prosperou de um dia para o outro, ganhando forças e enchendo-se de gente. Em pouco tempo àquela laboriosa gente humilde da favela já tinha construído com o suor dos rostos quase trezentas casinhas iguais a dele. A maior felicidade de todos os moradores daquele lugar era o de ter um endereço fixo e de ter um lugar para onde pudesse voltar quando a noite chegasse. No burburinho da vizinhança o bonito era quando chegava às cinco horas da manhã e a favela acordava com os seus moradores abrindo as infinitas janelas e as portas alinhadas para dar um bom dia para a manhã que nascia dando a cada morador um motivo de orgulho e de esperança. O barulho dos bocejos que vinham dos barracos e o cheiro quente do café que corria a vizinhanças era a melodia que o Zé trazia guardada nas lembranças. Nesse confuso rumor das manhãs, os choros das crianças se misturavam ao cacarejar das galinhas, dando ao Zé a sonora vida feliz dos simples moradores.
A neblina se formando por cima do rio que corria a céu aberto, assim que as torneiras de cada casa eram abertas, o vapor aumentava, para depois se dissolver de encontro com a luz tenra da aurora, mostrando aos moradores que se iniciava mais um dia e que Deus os chamava para o trabalho.
As roupas dependuradas que ficavam na véspera nos varais seguiam com os seus proprietários para mais um dia de labuta.
Tudo isso eram lembranças que o Zé guardava do dia a dia. Mas aquela tarde era especial.


Tanta era a alegria do Zé, que mesmo sendo um péssimo cantor, ele cantarolou uma canção dentro do barraco e apresentou a todos os seus familiares, o papel da posse definitiva.
- Esse chão é nosso, minha Nega! – dizia ele quase chorando.
A “Nega” depois de ouvi-lo, desgrudou a criança que trazia agarrada na teta e lascou-lhe um demorado beijo de agradecimento,
Mais que depressa a pequena mesa escorada por dois caixotes e coberta com uma toalha de chita, serviu de palco para dois copos de requeijão que ela correu para buscar na pia e o Zé com toda cerimônia os encheram de vinho.


Na suprema felicidade pela qual passava a família o Zé levantou o seu copo em um brinde demorado aquele momento e depois de dar um longo gole, virou-se como fazia sempre e brindou ao presidente Lula, que em uma de suas fotos de campanha fora parar na casa do Zé e que servia agora para dividir um dos cômodos.
- Obrigado conterrâneo!- dizia o Zé para a fotografia do presidente tanto nas horas boas como nas ruins.
Com o restinho que sobrou de vinho na garrafa o Zé colocou um pouquinho água e açúcar e fez uma “bega” para as crianças beberem como se fosse um suco.
As seqüências das lembranças esquecidas no meandro do passado do Zé o álcool do vinho o fizera se apresentar agora mais nítidas.


Zé passou a compreender que estava sendo um bom pai, dando aos filhos e a esposa aquilo que nunca tivera. Até aquele dia ele sabia que pagaria a submissão com a honra e o bem até com a própria vida se preciso fosse. Mas em tudo isso ele via a sua recompensa nos sorrisos de cada filho. Outra felicidade era numero de crianças que acompanhava a casa e ele tinha um bom motivo para dividi-la em cômodos do tamanho de um caixa de geladeira e fazer dos quais, o ninho para a sua prole, que com a regularidade de um gado procriador, não deixava de nascer uma cria por ano.
Há seis anos tudo havia começado e da barriga da amorosa Nega já havia saltado cinco bacuris.
Na embriagues das ilusões daquela noite o amor caiu e mansamente a favela adormeceu. O Zé ainda com os olhos pregados na folha de zinco e ora na figura sorridente do presidente ele foi deixando que o torpor tomasse conta de seus olhos e quando veio o silêncio ele murmurou baixinho.
- Obrigado conterrâneo!
A manhã que se apresentou no outro dia não se parecia em nada com as outras, coisa que nem mesmo o galo cantou na madrugada. O sol já ia raiando e como de costume, as portas iam se abrindo e quando o cheiro de café ia percorrer a vizinhança, um barulho ensurdecedor rompeu no pé da favela. Um baque de cacete batendo no escudo soou coordenado. Os sons das botas das milícias zunindo de encontro às pedras do chão pareciam que os barracos se acendiam de terror.


Gente corria. Gente se escondia. Um berraria infernal dava vida a um formigueiro em guerra, que se arrastava por tudo que se encontrava pelos caminhos. Das janelas, os gritos e os choros se misturavam às bombas de efeito-moral e as balas de borracha.
Tudo não passava de uma reintegração de posse, ordenada pelo juiz e que se seguia num nobre papel, acompanhado pelo oficial de justiça.
Assim que o homem a mando da autoridade leu às seis horas da manhã, sem nenhum morador como testemunha ocular dos fatos, a milícia se pôs a subiu armada e logo em seguida, o trator veio derrubando tudo que encontrava pela frente.
A primeira mulher que viu seu barraco ser destruído partiu de murros contínuos, desgrenhada, ofegante, cabelo embaraçado sobre a cara, gritava como que alucinada, com a boca escorrendo sangue.
As palavras de baixo calão cruzavam de todos os pontos e os homens seminus corriam atirando pedras e tudo que encontravam pela frente.
Os entremeios dos barracos se enchiam de povo e mais povo. A milícia mesmo a contra gosto não dava trégua.
Móveis eram atirados e incendiados no meio da rua para formar uma barricada, na loucura de impedir o avanço da tropa. Nada era barreira para a voz da ordem e do direito.

O Zé não pensou em nada a não ser na família. Sem compreender o que vinha pela frente, tratou de dar guarida aos pequenos e a mulher. Mas ao se sentir impotente para combater o demônio que serpenteava pelas ruas da favela, ele pediu que ela corresse e levasse as crianças consigo.
Agarrando-se a escritura de posse ele correu para frente da sua casa e tentou proteger aquilo que ele achava por direitos, ser a sua propriedade inviolável.
A voz embargada do Zé com pedido de compreensão foi abafada diante do poder. Uma saraivada de cacetadas foi à resposta que lhe explodiu de encontro ao seu corpo.
Com a embriagues de quem se vê por perdido, logo percebeu que fora enganado e que seus documentos não passavam da mais sórdida mentira e que até mesmo a sua vida não passava de um embuste.
Sua primeira saída foi a de fugir, mas ao olhar em torno de si, percebeu que era tarde demais para ser respeitado pelos filhos.


Olhando aterrado para policia, o Zé arrancou uma “peixeira” que usava para subir o morro e de um só golpe certeiro rasgou o próprio ventre de lado a lado.

Cambaleando dois passos caiu moribundo em uma poça de sangue.
Enquanto nos olhos dele era refletido o escombro a que se transformara o seu barraco, a fotografia sorridente do presidente, ainda presa a um pedaço parede do quarto lhe deu a ultima visão.
- Você não tem culpa companheiro! – fechou os olhos.



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