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   > ZORTA, A IGNORÂNCIA



Airo Zamoner
      CONTOS

ZORTA, A IGNORÂNCIA

O grupo foi se reunindo, clandestinamente, ao lado de Zorta que não havia completado ainda seus cinco anos de vida, quando a primeira intrometida foi se achegando. Aproximou-se quieta, tímida, calada. Pelo menos foi assim que Zorta entendeu. Passou a sentir medo pelo resto do dia. Bem que tentou se livrar daquela presença, mas não houve jeito.

Irritada, deixou os brinquedos lá dentro e invadiu o quintal ensolarado. Correu o que pôde, na velocidade que pôde, com o ímpeto que pôde e fez tudo isto até cansar. Mas a danada corria junto, na mesma velocidade e com o mesmo ímpeto. Não teve esforço que resolvesse.

Veio a noite e com ela todos os fantasmas do bem e do mal a povoar as telas sonhadoras de Zorta. E ela não conseguia dormir. Abria os olhos e lá estava a enxerida, qual sentinela perfilada. Fechava-os e ela invadia sua intimidade, insistente, teimosa, intrigante, perturbadora de sua felicidade infantil.

Nos meses seguintes, apesar da inconfortável presença, já começava a se acostumar com a primeira, quando chegou a segunda. E com o mesmo abuso, mas um pouco mais obscena, escancarada.

Azucrinava a cabecinha de Zorta dia e noite. Até que numa tarde quase tranqüila, as duas, de forma intempestiva, uma de cada lado, começaram a tagarelar em seus ouvidos, provocando gritos desarvorados, desesperados.

Seus pais, desolados, apelaram para pediatras, depois pedagogos, psicólogos que a duras penas conseguiram aparentemente acalmá-la.

Em seu íntimo Zorta se desesperava com as duas impertinentes. Só ela, e ninguém mais, nem mãe nem pai, nem professora, nem as amiguinhas, conseguia compreender a abrangência de seu pequeno grande drama.

E Zorta completava seu décimo aniversário, um tanto conformada, habituada com elas. Suportava as presenças inconfortáveis com a resignação dos monges prematuros. Tentar ela tentou, inúmeras vezes, explicar com riqueza de detalhes o que se passava. Ninguém parecia ouvir, ou entender, ou descobrir a origem do incômodo e sofrido mistério.

Numa noite de primavera. Madrugada. Zorta levantou-se num pulo. Sentiu tocarem sua testa. Nem precisou acender a luz, pois a maldita recém-chegada era recebida com festas pelas duas veteranas. As três não a deixaram dormir mais. O toque na testa era o convite para que Zorta entrasse na bagunça. A mãe, ainda sonolenta, empurrou enfastiada a porta do quarto, acendeu a luz e encontrou Zorta de olhos esbugalhados, tentando expor a prova física de suas angústias; expor à mãe o trio maldito que a torturava. A mãe se restringiu a um longo bocejo e uma ordem para dormir; um virar as costas, um empurrar de porta.

Zorta hoje completa a maioridade. Acostumou-se com o grupo das vinte e tantas alucinadas que foram chegando ao longo da vida. Sim, as três se tornaram mais de vinte. Chegou ali, decepcionada com as promessas de que o maldito grupo se dissiparia, fosse embora, ou ao menos diminuísse o quorum, quando entrasse, e depois quando saísse do primeiro grau, do segundo, da faculdade. Mas nada se cumprira. Assim mesmo, aprendera a conviver com elas martelando sua testa nas madrugadas, cutucando seu descanso, aborrecendo sua lógica.

Livrou-se de algumas, acomodou-se com outras e agora passa horas e horas nas bibliotecas. Por que nas bibliotecas? Ah, sim! Porque foi ali que ela começou a se livrar do indesejável grupo que enlouqueceu sua cabeça ao longo da vida. Foi ali que descobriu ter inteligência privilegiada. E quem a tem, tem o poder, mas com ele vem gratuitamente a desvantagem daquelas presenças. Outros, muitos outros, esbanjam a felicidade própria dos que desfrutam uma ignorância atroZ, assim mesmo, com este “z” maiúsculo no final. E estes jamais foram invadidos como Zorta por um bando de perguntas sem respostas.


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