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   > O ENCONTRO COM O AMOR DE MINHA VIDA



Zallas Avlys
      CONTOS

O ENCONTRO COM O AMOR DE MINHA VIDA

Vivaldo é um moço novo de cordatas experiências de vidas. Branco, bonito, inteligente e capaz de realizações pessoais não comuns. Filho de lavradores do sul do país veio com seus tios para São Paulo para estudar. Desamparado das figuras paternas e em meio ao corre-corre da cidade grande se viu jogado à própria sorte. No colégio impressionava colegas e professores com seu jeito sisudo, mas cavalheiro, companheiro, amigo de alguns poucos, mas cheio de preconceitos. Trazia de casa os mandamentos paternos. Tudo pode ser, mas amigos pixains aqui não, diziam seus pais. Ouvindo isto desde criança e obediente olhava-os desde sua pequena estatura e presumia haver problemas com negros. Seriam os negros más pessoas?  Conhecia alguns negros de longe, pois na propriedade de seu pai não os tinha por perto. Não eram admitidos para trabalho nenhum. Na escola que freqüentava não os via. Nunca seus pais lhes davam detalhes porque sisudos e de poucas palavras. Com o tempo foi assimilando tais ensinamentos e passou a ver tudo de mal nos negros. Conheceu uma negra, certo dia numa situação curiosa. Rapaz feito não podia ficar na dependência dos tios em São Paulo. Saiu à procura de emprego. Endereço na mão seguiu o destino. Pegou trem, desceu no final (estação Julio Prestes) depois caminhou um bom trecho e foi tomar o ônibus (CMTC) no antigo vale do Anhangabaú. Depois de muito ter rodado o ônibus, desceu num ponto e encaminhou para a rua citada. Localizando a casa do referido número, que pensava ser a empresa, portão aberto, entrou e tocou a campainha. Atendeu, depois do segundo toque, uma moça negra, muito sorridente que prontamente mandou-o entrar. Estranhou o ambiente, mas inexperiente, dezesseis anos apenas, tinha certeza que estava na empresa. A moça pediu que a aguardasse uns instante e já voltava. Saindo da sala, passou por uma porta, que a fechou atrás de si e foi avisar sua mãe que o rapaz havia chegado. Vivaldo ficou ali aguardando. Quando a moça volta, e inicia a conversa, se dá conta de que estava em lugar errado. Esclarecido o motivo de sua estada ali, ambos puseram-se a rir. Ela, de sua vez, esperando um rapaz que viria entrevistá-la. Ele, sem o saber, entrou porque pensou ser a empresa. Esclarecido os fatos, Vivaldo se retira um pouco envergonhado, mas não tanta porque àquelas horas do dia, já ia onze horas da manhã, acabou tomando um lanche na casa daquela família. Além da mãe da moça duas outras irmãs menores estavam na casa. Desde incidente nasce uma amizade e dela várias correspondências entre eles. Ficou amigo da família e de tempo em tempo a visitava. A impressão má contra os negros incutido em sua cabeça pelos pais diminuiu, mas o ranço preconceituoso lá estava. Chegou a conversar sobre isto com a família, donde o pai da moça, homem de esmerada formação intelectual operou nele mudanças significativas. Tratava-se, este senhor o pai da moça, de um professor de Escola Técnica Federal. Desta amizade, segue que mais tarde Vivaldo se torna aluno da referida escola donde cinco anos depois do encontro acidental, sai formado.
Homem feito e já formado volta para sua terra onde acaba, dois anos depois, se casando num arranjo entre famílias de mesmo padrão. O tempo passa, nascem os filhos e os dramas da vida o empurram de volta para São Paulo. Já contava aí, mais ou menos trinta e cinco anos. Das posses da família Vivaldo acaba comerciante do ramo de alimentação. Batalhador incansável, Sr. Vivaldo procura dar conta das demandas dos filhos, esposa e atender os luxos advindos de sua posição de empresário na grande São Paulo. Os amigos empresários, as festas, as exigências das filhas, esposa e tudo o mais. Sr. Vivaldo já não é mais moço e começa a perder as forças, os filhos já crescidos, formados, mas sugando-lhes o sangue. Cansado, dá um basta, e pede paz. “Quero morrer descansado”.., dizia,  já prestes a aposentar de suas atividades. Gozava de privilégio dentre os amigos e clientela nobre da cidade. Sua intransigência em não mais carregar fardo nas costas, afinal já não tinha mais criança para cuidar, indispôs-se-lhe com a família, inclusive genros. Na certa, surge no horizonte, a separação da esposa coisa que não esperava. Seu padrão de vida cai horrendamente.
Agora, Sr. Vivaldo, velho, não tão velho assim, melhor dizendo não mais moço, cinqüenta e quatro anos, se vê só, com poucos recursos, tendo de começar tudo de novo. Não se fez por esperar. Jogou a toalha, empenhou toda energia, dispensou funcionários, fechou o comércio antigo e em novo endereço começou tudo de novo. Não por acaso, foi de encontro com a moça com quem a mais de trinta anos havia conhecido acidentalmente de quem fora amigo tanto tempo antes do casamento. Ambos descasados e vivendo assim sós, tornam-se marido e mulher. Ela, já feita na vida e sem outra atividade assume o comércio, uma pizzaria, com ele.  Tiveram de construir uma nova casa. Surpresa para Sr. Vivaldo: sua atual esposa, negra, forte, saudável e sem as etiquetas e vaidade das brancas, que tanto recurso consome dos maridos, pega firme no batente ao seu lado. Bate massa, carrega tijolos, recolhe areia, faz o almoço, serve-lhe água gelada, tudo ao mesmo tempo e ainda sobra tempo para cafunés e palavras de ânimo em plena construção, quando ele queda cansado na pia de tijolos. A noite juntos na pizzaria até quase meia noite de segunda a domingo. Se o carro pifa no meio da rua, é ela quem sai do carro para dar um tranco. Se faltar ingrediente na pizzaria é ela quem providencia a lista e faz contato com fornecedores. Se há compras para fazer, seja da casa ou do comércio ela esta lá, junto do marido. Sr. Vivaldo nunca viveu isto antes. Tinha de assumir tudo, abrir e fechar o comércio, empregados, pagamentos, compras, organização de cardápio, gráfica, enfim, nunca tivera em quase trinta anos de casado uma companheira de fato na vida. Tinha-a de direito. Se quebrasse uma descarga de um banheiro na casa quem lhe falava disto era a empregada, nunca a esposa. Se havia conta para pagar quem o avisava era a empregada. Se a empregada faltasse, a esposa quase o enlouquecia pelo telefone. Assim, depois de velho viera saber o que os negros tinham de errado, a cor da pele. Pela experiência da amizade com a família do professor da escola técnica federal, entendeu na época o que significa o preconceito e a discriminação contra os negros. Mas o ranço racista só saiu agora depois de velho, vivendo entre os negros (netos e netas, genros, filhos e filhas) da sua atual esposa negra. E ainda se pergunta: o que há de errado com os negros? Só lhe resta dizer, ainda há tempo, que nunca outrora conhecera amor verdadeiro, aquele desinteressado, sem etiqueta e sem os adornos da pseudo elite. Os amigos comerciantes de antes, se foram todos. Certamente não lhes faz falta nenhuma. Desnecessário dizer que filhos, filhas netos também o desprezam. Mas e daí? Onde está a felicidade?


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