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   > PROJETO SUPER LISA



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      RESENHAS

PROJETO SUPER LISA


PROJETO SUPER LISA



MODERNIDADE:

RESGATE DO PASSADO?



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© Tânia Gabrielli-Pohlmann
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A saudade do novo, do recém-descoberto parece estar preocupando o artista atual. Num contexto globalizado como o nosso, em que paradoxalmente se busca uma identidade na mescla do todo, vem-se tentando descobrir uma linguagem que atinja e derrube barreiras. De raças, de preconceitos, de artes descartáveis.

A questão da modernidade que toma por referência o passado traz, muitas vezes, resultados surpreendentemente requintados e aconchegantes. É o caso do CD Super Lisa, que há pouco recebi e que tenho ouvido com freqüência intencional para um especial em Brasil com S.

Mas quanto mais ouço, mais intensa é a percepção desta busca, desta questão do que é moderno, do que pode deixar de ser ultrapassado, do que corre o risco de ser esquecido.

Já desde a primeira canção sinto-me confrontada com a mescla inusitada de MBP e música eletrônica. Aliás, uma mescla inusitadamente de extremo bom gosto. De boníssimo gosto. Inclusive, senão especialmente, para o europeu, que desde um par de décadas vê-se entregue aos delírios eletrônicos, mas que atualmente tem-se descoberto em plena necessidade de diferenciais que o satisfaça também como indivíduo.

O que traz, portanto, a diferenciação neste CD é uma série de fatores, fugindo da injustiça de focalizar um único capaz de responder pelo todo. Os recursos eletrônicos em medida adequada. Os elementos brasileiros, equilibrados com os recursos eletrônicos. Os arranjos de Felipe Radicetti em perfeita harmonia com a voz excitante de Clarisse Grova. Textos instigantes, românticos sem pieguices; históricos elementos apontando dedos e fatos ao brasileiro de hoje, talvez por demais incauto para com nossa memória – musical, inclusive...

A produção do CD, tanto musical como graficamente enfocada, traduz sintonia com o belo qualificado. Bom gosto, como já citei, mas não conseguindo conter a redundância.

Faixas compostas – quase que na íntegra – por Clarisse e Felipe. Trabalho de tempo bem empregado, envolvendo auto-crítica, pesquisa, memória; pitadas de descobertas escondidas na manga, a fim de arrancar o fôlego do ouvinte menos preparado para a qualidade e a dosagem perfeita. Menos preparado ou desacostumado.

São treze faixas nas quais a tecnologia é colocada a serviço da arte, sem que se possa encontrar exageros desnecessários. Super Lisa, porém, envolve todo um projeto e não simplesmente a produção de um CD experimental ou despretensioso. Tendo a música o poder de trasncrever a linguagem universal, Felipe e Clarisse lançam mão do intercomunicador potente e indescutível da mescla nesta dança de regionalíssimos baiões, bossas novíssimas atitudes e popbaladeiras provocações textuais.

Neste primeiro CD chega-se à última canção já com a inquietude de quem fica à espera de mais, de continuidade, de querer sem limites. Ora compostas por ambos ou individualmente; ora com parcerias e releituras, tem-se a impressão de que a aventura se agiganta a cada dobrar de esquina, antes de se atirar de cabeça na faixa seguinte.

Cada canção é o ponto de partida para que o ouvinte retenha o fôlego e deixe-se surpreender pela total ausência da mesmice. Se na primeira faixa a agressividade vocal de Clarisse atira uma “Rude Pedra” na memória do pop rock, é preciso cuidar para que não se faça a injustiça de já conceituar a dupla como roqueira metida a mpbistas, antes de embarcar no “Tal Trem”- uma marcha com base perfeita e com flashes de nossos ícones a desfilar na memória, sob a agora doce voz de Clarisse:

“ Será que eu já passei da idade
Será que perdi o lugar no tal trem
Será que meu texto é bobagem
Que eu não entendi o que disse
Caetano, Buarque e Noel?

...

Será que isso é modernidade?

...

Quem sabe cantar Beatriz
Quem sabe da voz de Elis
Pede bis, por favor...”

E tem samba-funk, samba-canção, baião e tango; releitura de fado e marcha. Mas, não tendo formação musical, não posso me atrever a uma análise injusta, insuficiente. Para tanto, a crítica já se fez mais do que presente; comentários muito positivos de gente que conhece música, como Tárik de Souza, no Jornal do Brasil; Hugo Sukman, n’O Globo; Mauro Ferreira, em O Dia e tantos outros.

E tem reflexões posteriores aos textos bordados de ironia e humor, tentando com êxito, no entanto, trazer à tona a seriedade do tecido aberto, como no tango “Senhora”, de Felipe Radicetti e letra de Marcelo Biar, sob a interpretação impecável de Clarisse Grova:

“À noite eu abro as portas deste meu salão
E entram senhores que embora morem em imensas mansões
Possuem trancas nos seus portões
...

Banqueiros, burgueses, mais tarde o padre e o pastor
Juízes, rabinos e militares de alto escalão
Descansam a honra e a tradição
Sob os lençóis deste meu colchão

...

Eu sei o que eles precisam ter
E dou, mas cobro pra que eles pensem
Que têm o poder

...

No dia seguinte a ordem volta ao seu lugar
Nos lares perfeitos erguem cruzadas em prol do bem
O rio segue o curso normal:
Eles, o leito; eu, a marginal”

Super Lisa é dois, é um. É plural no símbolo do tempo sem marcas. Tem singular poder de seduzir e de provocar o que de mais acomodado no ser humano de hoje há.

* * *

A carioca Clarisse Grova é, segundo Ruy Castro, “uma das últimas cantoras puras do Brasil”. O contato com a música chegou cedo, em corais de igrejas e, mais tarde, em bailes, clubes diversos do Rio e de outros Estados brasileiros. Os festivais trouxeram-lhe, ainda, classificações e vitórias – como nos de Ouro Preto; no 1o. Festival das Mulheres nas Artes, em São Paulo e no 1o. Festival Latino-Americano de Foz do Iguaçu, com a música “Luz”, de Altay Veloso e Paulo César Feital.

Mas Clarisse não participou apenas de festivais. Abriu o projeto “Poeta, mostra a sua cara”, sob convite de Abel Silva, com quem percorreu o Estado do Rio e apresentou o show “É poesia e é canção”, no Night Rio’s.

Em 1996, sua participação na produção inglesa “Friends from Frio”, com a banda Cama de Gato, levou sua voz a Londres, onde o CD no qual interpreta “Para Lennon e Mc Cartney” foi lançado. Outro CD no qual Clarisse registra sua voz em três faixas: “Estão Voltando as Flores”, produzido por Paulinho Tapajós, com as cantoras Nana Caymmi, Aline, Kika Tristão e Fátima Regina. Também o CD “50 Anos”, de Aldir Blanc, conta com a presença de Clarisse; foi indicado para o Prêmio Sharp, em 1996, na categoria melhor disco de MPB.

A convite de Aldir Blanc, Clarisse Grova grava seu primeiro CD em 1997. “Novos Traços”, produzido por Rildo Hora, pelo selo “Alma”, traz canções inéditas de Aldir em parceria com Cristóvão Bastos.

O Projeto “Nara, uma senhora opinião”, de 1999, teve a participação de Clarisse Grova em seu encerramento. No ano seguinte, Clarisse interpreta a “Valsa em Se”, de Carlos Henry, no Festival da Música Brasileira, da TV Globo, e apresenta seu espetáculo “Brasileira”, no Teatro das Artes. Em 2002, é classificada para as semifinais do Festival VISA – edição intérpretes, em São Paulo.

Contatos com a cantora e letrista: clarisse@superlisaonline.com

O tecladista e compositor Felipe Radicetti também nasceu no Rio de Janeiro. Organista graduado pela Escola Nacional de Música da UFRJ, em 1983, Felipe continua aperfeiçoando sua formação, estudando Contraponto e História da Composição Musical com o Prof. Michel Phillipot, no Rio e, mais tarde, em São Paulo, freqüenta o curso de Alta Interpretação em Música Barroca Italiana, com o Prof. Renzo Buja, da Universidade de Verona.

Em 1983, recebe o segundo prêmio no “I Concurso Nacional de Órgão Antônio Silva”. Nos períodos de 1982/83 e 1984/85, foi presidente das Associação Carioca de Organistas. No ano seguinte, Felipe Radicetti apresenta um recital com obras de J. S. Bach para órgão, na ocasião da comemoração de seu terceiro centenário, através do Projeto Aquarius, entre outros.

Arranjador e tecladista do cantor e compositor Oswaldo Montenegro, em turnê de 1992, nos projetos do CD e do show “Mulungo” (91/92), no ballet Telas (93) e nos CD’s “Aos Filhos dos Hippies” (95) e “Vale Encantado” (97). Entre 1995 e 1996, Felipe Radicetti escreve e apresenta como ator e organista a peça teatral “Sebastian! Um Musical do Século XVIII”, sob a vida de J. S. Bach, dirigido por Oswaldo Montenegro, em circuito comercial de teatros e universidades no Rio de Janeiro, Niterói e Petrópolis.

Sua carreira inclui, ainda, direção musical da “Cia. Ensaio Aberto” e composição de músicas para produções teatrais, como “Bosnia, Bosnia”, de Ad de Bont, tendo sido premiado no I Festival de Teatro de Grupo da Prefeitura de Santos, como melhor trilha sonora, em 1996; “O Noviço”, de Martins Pena, “Die Mütter”, de Bertold Brecht, “O Interrogatório”, de Peter Weiss e “Cabaret Youkali”, com arranjos e direção musical de Kurt Weill.

A trilha sonora do longametragem “Castro Alves”, de Sílvio Tendler, também é de sua autoria. Em 1999 torna-se membro do Royal College of Organists, em Londres. Seu nome é inscrito como compositor no livro Repertorium Orgelmusik 1150-1998, de Klaus Beckmann, Ed. Schott, por sua “Fuga Dórica” para órgão.

A canção “Moleque Marraio”, oitava faixa do CD Super Lisa, é interpretada por Cláudio Nucci no Festival da Música Brasileira, da Rede Globo, e classificada para as semifinais. Em 2002, Felipe Radicetti vence o FAMPOP, o festival de música de Avaré, com a canção “Indiviso”, em parceria com Cristina Saraiva e também presente no CD em questão.

Contatos com Felipe Radicetti: feliprad@unisys.com.br

* * *

CD: Super Lisa (Independente)

Arranjos, programação de sampler, computador e execução dos teclados: Felipe Radicetti

Vocais: Clarisse Grova

Gravado e mixado nos estúdios Nova Onda, RJ, por Raphael Bessa

Fotos: Ana Paula Rêgo

Projeto Gráfico: Cristina Amiran

Parcerias:


Luísa Haranda – “Rude Pedra” (Letra)

Cristina Saraiva – “Indiviso” (Letra); “Guerra e Paz” (Letra)

Marcelo Biar – “Senhora” (Letra); “Moleque Marraio” (Letra)

Paulo César Feital – “Um Outro Fado” (Letra)

Carla Aka – “É Tarde” (Letra)

J. Ribamar – “Ternura Antiga” (Música. Letra: Dolores Duran)

Participações:

Victor Biglione – Guitarra e violão de aço

Chico Adnet – Violão de nylon

Ovídio – Pandeiro

Flávia Belchior – Percussão

João Cantiber – Violão de aço

Oswaldo Carvalho – Violino

Fabíola e Myrna – Coro

Ricardo Pontes – Sax alto


* * *


Uma dupla que traz em sua história a marca do consenso.

* * *

Maiores informações a respeito do Projeto Super Lisa: www.superlisaonline.com


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Tânia Gabrielli-Pohlmann é escritora, tradutora paulistana, radicada na Alemanha, onde produz e apresenta dois programas de rádio, dedicados à história, à cultura e à música brasileira: “Brasil com S” e “Revista Viva” (este com Clemens Pohlmann)
Contatos: a-casa-dos-taurinos@osnanet.de




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