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   > Quem nunca ouivu falar disso?



Zallas Avlys
      CONTOS

Quem nunca ouivu falar disso?

Quem nunca ouviu falar disso?
BENA ITAN foi aluno de uma das escolas por onde passei. Menino novo, inexperiente como toda criança bem educada, sem nenhuma habilidade para a malandragem, meio preguiçoso, mas com ideias inovadoras na cabeça. Filhos de pais inteligentes e ressabiados com a sociedade, daqueles casais que se conheceram na vida de militantes políticos nos idos da década de setenta/oitenta, na igreja católica, quando não se podia expor idéias diferentes das que reinavam comumente e qualquer um podia ser um cagüeta dos milicos. Viram muitos dos colegas serem detidos, ir para o pau de arara, desaparecer misteriosamente, de repente atropelados e sem nenhuma testemunha do ocorrido de modo que alguém soubesse dizer como, quando, onde e por quem.  Enfim,  aquela parte da história que o museu da resistência conta muito bem. Este dispositivo político social de então deixou traumas com relativas seqüelas na geração em causa. Naquela época os jovens tinham inspiração e sonhavam com uma sociedade democrática, justa e igualitária. Por melhor que fossem as aulas de histórias, poucos davam créditos para a história oficial contada nas escolas e embora tivessem de decorar aquilo era somente para fazer as provas. Aqueles jovens, - não eram todos – acreditavam que a verdadeira história se escreve no dia a dia com suor e luta política. Não se tratava de candidatos gratuitos à mártires, isto não. Eram sim, jovens que sabiam o que queriam, conheciam os riscos, mas não se dobravam diante do fantasma da ditadura. Então não era possível ficarem de braços cruzados esperando acontecer. Conheciam de cor e salteado a música de Geraldo Vandré, “Pra não dizer que não falei de Flores” e tinham-na como hino da resistência. A igreja serviu de guarida para esta geração de pensadores jovens revolucionários, hoje quase sexagenários.
O tempo passou e então estes jovens militantes foram amadurecendo e embora  descobrissem ali dentre eles seus pares de casamento a idéia de realizá-lo era postergada em função da luta. Com muitos deles foi assim e com os pais de BENA ITAN não foi diferente. Mais tarde casados, vem outra luta. Vigiar para que a “democracia” em curso se configurasse de fato e de direito. Mais uma vez a idéia do crescimento da família fica postergada, porque as reuniões políticas, a militância partidária, as campanhas eleitorais, a luta para elegerem seus candidatos impunham restrições. O casal envelhecendo e sem filhos decide ter pelo menos um filho. Nasce assim o menino BENA ITAN, seguido de uma irmãzinha AQUIRA dois anos depois. O casal de filhos cresce em meio a um ambiente altamente politizado, as músicas de conteúdo político, os programas de TV e de rádio eram escolhidos a dedo, os livros, os amigos da família eram os próprios candidatos petistas, os filmes, as conversas, as brincadeiras entre eles, tudo girava em função de dar aos filhos uma visão menos glamorosa da vida, mas sem estragar o prazer das crianças em viver a infância espontaneamente. Naturalmente que uma criança desta quando adolescente não haveria de engolir aulas de história sem um significado mais apropriado com explicações dos fatos políticos à altura. Querendo melhor entender as aulas e fazer o debate acontecer era inevitável as perguntas. Uma professora ranzinza que dava aula apenas, mas não militava no ramo do conhecimento, não estaria ela interessada em debater, discutir, elucidar pontos históricos quaisquer que fossem. Além da carranca, da grosseria e maus tratos a saída era enquadrar um a um como inconveniente, perturbador, sem educação e, etc.  Então fez-se assim:
A Direção desta Unidade Escolar convoca uma reunião extra com os pais urgente.
Motivo: A indisciplina e necessidade de orientações diversas quanto à postura em sal de aula.
Os pais, surpresos com a convocação interrogaram o filho em casa para tomar pé da situação e já disposto a acochar melhor o cinto antes que as calças caiam.
- Então, meu filho, explique-se: que negócio é este de indisciplina e falta de compostura com seus professores? É isto que nós temos te ensinado? Está fazendo escola para ser mau caráter, bancar o engraçadinho para as coleguinhas? Quer aparecer? Vamos explique-se:
O moçinho temendo um desfeche pior, sem nem saber que ele era a causa da reunião extra embaraça-se um pouco, mas consegue se sair bem.
Tá bom meu filho, se esta é a questão então não há problema com você. Vá dormir.
O casal se confabula depois a sós e conclui que se havia erro não era com o filho e sim com o sistema da escola que o considerava um palerma quando ele não o era. Reconheceram ali que eles mesmos haviam preparado os filhos para uma escola que não correspondia àquela.
Assim, a mãe, vai para a reunião consciente, mas sem intenção de agredir. Ela que havia dedicado parte da vida para mudar a sociedade não iria agora afrontar ao “estafe” pedagógico da escola. Mas também não poderia deixar de expor sua opinião frente aquilo que ouvira do filho em casa e tudo o que tinha ouvido em silêncio na reunião extra, cuja convocação lera várias vezes durante as falas dos professores, coordenação e direção e já estava para explodir de vontade de falar. Tendo pedido a palavra, apontou algumas variantes pedagógicas condenando a pedagogia do silêncio, procurando garantir aos alunos o direito de questionar, até para melhor entender as aulas, vez que não se tratava de decorebas sendo mais interessante entender dentre outras coisas a história do país como um fato dado e vivido por pessoas de carne e osso como nós. Não conseguiu terminar. Foi acusada de prepotente, pretensiosa e convidada a vir dar aulas, já que os professores não o sabiam.
Acuada, a mãe se retirou sem que seus algozes percebessem sua saída de cena, tamanha a elevação do clima da reunião. Este escriba que teve na sua formação a influência de Paulo Freire, tendo lido “A educação como prática da liberdade” , “Pedagogia do oprimido”, dentre outros títulos do autor e outros autores  da mesma linha, não podia participar de uma reunião desta sem se indignar. Foi então que no corredor aguardando o fim da reunião ( não consegui ficar na sala ouvindo aquelas pérolas)  vem a mãe explodir sua indignação e raiva contra aqueles  que deveriam ser guardião da liberdade de expressão porque educadores, fazendo o contrário, praticando a educação bancária onde alguém, imaginando-se dono do saber, impõe aos alunos o dever de calar-se a qualquer custo. E o que estava por trás disto. O filho desta senhora, ela que lutara contra a ditadura, militante partidária, de esquerda, consciente politicamente, não elitista, cidadã atuante, exatamente seu filho era nada menos que “presidente” de um JORNAL que fora criado nas aulas de arte cujo nome escolhido pelos alunos da turma ( 7ª série A), ficou sendo “JORNAL LIBERDADE DE PENSAR”. Então, ninguém mais que o professor de artes era o signatário daquelas descomposturas todas, a vista de que vinha alimentando nos seus alunos o desejo de saber para além das aparências. Queriam aqueles alunos debater, falar e opinar. Requeiram o papel de protagonistas na sala de aula e não depositários de um conhecimento mofo dos professores.

Detalhe: O referido JORNAL foi antes apresentado como um projeto de leitura à direção e coordenação para ser discutido com os professores. Não foi aceito por ser o propositor um professor de artes quando o assunto era foro da disciplina de português, razão pelo qual foi o propositor execrado na sala dos professores. Em função deste episódio e outros que se imbricaram ao longo do ano, nasce um poema que denominei: análise sintética das coordenadas não objetivas, publicado aqui no “protexto”
Prof. Zallas Avlys,
Fatos ocorridos em 1998, somente relatado em 2011.



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