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   > Análise de Discurso Princípios e Procedimentos



Thiago Barbosa soares
      RESENHAS

Análise de Discurso Princípios e Procedimentos


Orlandi, Eni P. Análise do discurso : princípios e procedimentos, Eni P Olandi 7ª Edição, Campinas, SP : Pontes, 2007

Eni de Lourdes Puccinelli Orlandi possui graduação em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Araraquara (1964), mestrado em Lingüística pela Universidade de São Paulo (1970), doutorado em Lingüística pela Universidade de São Paulo e pela Universidade de Paris/Vincennes(1976). Foi docente na USP de 1967 a 1979, onde ensinou Filologia Românica, Lingüística e Sociolingüística. Depois, atuou como docente do Departamento de Lingüística do IEL, na Unicamp, de 1979 a 2002. Atualmente é coordenadora do Laboratório de Estudos Urbanos da Unicamp, professora do mestrado em Linguagem e Sociedade da Universidade do Vale do Sapucaí e professora colaboradora do IEL da Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Lingüística, com ênfase em Teoria e Análise Lingüística, atuando principalmente nos seguintes temas: análise de discurso, lingüística, epistemologia da linguagem e jornalismo científico. Além de autora de diversos livros publicou em 2007 a obra “Analise de Discurso Princípios e procedimentos” sobre a qual se discorrerá a seguir.
A obra citada anteriormente é de fundamental importância para os estudos básicos de Analise de Discurso. É dividida em três partes que são precedias por um preâmbulo que deixa claro as intenções da autora de reflexão sobre a linguagem, o sujeito, a história e a ideologia, que são fatores apresentados como intrinsecamente ligados.   
            Na primeira parte (O Discurso) O discurso, segundo Orlandi, “[...] é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando”. Nesse trecho a autora do livro explica que o discurso não trata somente da língua ou da gramática, trata do uso que nós, seres humanos, fazemos dela ara nos expressarmos. Orlandi diferencia a análise de discurso da análise do conteúdo, dizendo que esta última procura extrair sentidos do texto, enquanto a outra considera que a linguagem não é transparente e vê o texto tendo uma materialidade simbólica própria e significativa e uma espessura semântica, ou seja, não leva em consideração somente o texto analisado para compreender e identificar os significados presentes nele.
São consideradas então as condições de produção de um determinado discurso que compreendem os sujeitos, a situação e a memória. Os sujeitos nada mais são do que os produtores desse discurso influenciados sempre pela exterioridade na sua relação com os sentidos. Situação trata-se do contexto, imediato ou amplo, levando sempre em consideração o momento histórico que se estava vivendo na época da produção. E a memória é o que sustenta os dizeres desse discurso, tudo que já se disse sobre o assunto tratado. “O fato de que há um já-dito que sustenta a possibilidade mesma do dizer, é fundamental para se compreender o funcionamento do discurso e sua relação com os sujeitos e com a ideologia”, afirma Orlandi.
            No livro de Eni P. Orlandi são explicados alguns recursos da análise de discurso utilizados para identificar as características ideológicas dos sujeitos. A primeira delas é o “esquecimento” que é explicado de duas formas: primeiro na ordem da enunciação ela diz que “[...] ao falarmos, o fazemos de uma maneira e não de outra, e, ao longo do nosso dizer, formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro”, isso quer dizer que acabamos expressando a nossa impressão da realidade através da escolha que fazemos por determinadas palavras ou expressões. Já o esquecimento ideológico consiste na retomada de algo que já foi dito como se tivesse se originado no sujeito que o faz. Ele faz isso inconscientemente, pois mesmo antes de ele nascer esse discurso já estava em processo. Outro recurso explicado pela autora são a “paráfrase” e “polissemia”. Segundo ela, “essas são duas forças que trabalham continuamente o dizer, de tal modo que todo discurso se faz nessa tensão: entre o mesmo e o diferente”. Paráfrase é aquilo que se mantém nos dizeres e polissemia é a ruptura disso. Logo, temos que tanto as constantes quanto as contradições existentes nos dizeres de um mesmo discurso ajudam-nos a identificar muito da situação e da ideologia desses sujeitos, uma vez que sem essas transformações não haveria o movimento dos sentidos, nem a particularidade dos sujeitos. Orlandi completa o pensamento dizendo que nem os sujeitos, nem os sentidos, nem os discursos já estão prontos e acabados, estão sempre se fazendo, estão sempre em movimento na tensão entre paráfrase e polissemia. E essa incompletude é que condiciona a linguagem e cria os diferentes sentidos de um discurso.
            “Um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis”, inicia Orlandi quando explica que, ao dizer, o sujeito se sustenta em outros dizeres e também visa seus efeitos sobre o interlocutor, sendo que esses efeitos variam quanto à relação de poder que o interlocutor tem com o sujeito. Isso porque o imaginário que um tem do outro interfere em como a mensagem será entendida, e em como o sujeito pensa que ela será entendida. Por muitas vezes os sujeitos antecipam isso, imaginando qual será a imagem que causará nos interlocutores, buscando, através dessa antecipação, que sua imagem seja aquela que ele quer ter para os interlocutores.
            A autora demonstra mais adiante que uma “formação discursiva” é que determina o posicionamento ideológico de um discurso. “As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam.”, ou seja, a partir do momento em que relacionamos os diferentes sentidos que se pode ter de uma determinada palavra com o sujeito que a usa em seu dizer, isso nos permite compreender o processo de produção dos sentidos e sua relação com a ideologia, levando-nos cada vez mais próximos ao sujeito e a sua intenção ao dizer. A essa transferência de significação de uma palavra para outra, na análise de discurso, se dá o nome de “metáfora”.
            Ao afirmar que a presença da ideologia se dá através da interpretação dos sentidos a autora do livro demonstra que tanto os sentidos quanto os sujeitos de um discurso também dependem da ideologia que adotam, e ao mesmo tempo são constantemente influenciados pela linguagem, pela história em que se inserem. Orlandi ainda afirma que o gesto de interpretação se faz entre a memória institucional, que é aquilo que está incorporado ao sujeito desde sempre, e os efeitos da memória constitutiva, que é o dizível, o interpretável, o saber discursivo. Considerando as afirmações da autora pode-se perceber que o sentido que percebemos nos dizeres também estão sujeitos a deslocamentos, apesar de muitas vezes parecerem inalterados, pois somente com ideologia o indivíduo se torna sujeito com identidade.
            Ainda no mesmo capítulo, Orlandi expõem que a forma histórica de um sujeito assim como a ideologia da sociedade em que vive, pode alterar sua percepção sobre determinados discursos. Como por exemplo, no capitalismo, onde existem processos de individualização do sujeito pelo Estado, que o submete a um reflexo da realidade aparentemente livre e responsável, provocando o assujeitamento dos indivíduos. A autora também ressalta que “[...] é pela sua abertura que o processo de significação também está sujeito à determinação, à institucionalização, à estabilização e a cristalização”, e que por isso temos que trabalhar continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento.
            O capítulo seguinte trata de como o analista deve proceder, tendo em vista todos os conceitos levantados anteriormente. Como ele deve trabalhá-los, a ponto de, através deles, conseguir extrair de um determinado dizer os sentidos e ideologias do sujeito. Segundo a autora do livro “a Análise de Discurso não procura o sentido ‘verdadeiro’, mas o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica.” A partir daí, Orlandi descreve como devem ser desenvolvidos os dispositivos para aprimorar a análise e reforça as bases que devem ser consideradas, que são as condições de produção em relação à memória, onde intervém a ideologia, o inconsciente, a falha, o equívoco.
            A seguir, o livro traz alguns métodos para ordenar o processo de análise de discurso e organizar as aplicações feitas no objeto de análise. O primeiro deles mostra que o primeiro passo para a análise é o levantamento dos elementos do contexto de produção como o papel social do produtor e interlocutor, lugar social, momento da produção. Feito isso, o próximo passo indicado pela autora é o trabalho com as paráfrases, polissemias, metáforas e a relação dizer/não dizer. Neste último, deve-se construir uma nova versão do objeto de análise, dizendo de outra forma o que é dito, isto para demonstrar que, ao contrario do que parece, o dizer pode sim ser dito de outro modo, sem alterar sua definição semântica, mas podendo alterar a forma como significa dentro do discurso. Após isso, é preciso identificar relações do discurso com formações discursivas que estejam agindo sobre ele, e assim relacioná-lo à ideologia do sujeito para, enfim, poder tirar conclusões a partir dos sentidos de discurso já realizados, imaginados ou possíveis.  
 Orlandi em vários pontos lembra a importância e a repercussão da memória no discurso. Quando a autora diz “Os processos parafrásticos são aqueles pelos quais em todo dizer há sempre algo que se mantém, isto é, o dizível, a memória”, a priori pode-se dizer que a memória não somente é fundamental para os processos de polissemia e paráfrase como também um sustentáculo do discurso. Como se pode notar a memória está presente em praticamente todas as áreas do saber humano, dando limo ao passado com o presente, em grosso modo, ligando o já conhecido com o que pode-se conhecer. Como se poderia esquecer um já dito se o mnemônico não estivesse em ação? È claro que só há o processo de esquecimento por meio da memória, a qual A. D dá primordial importância. No tocante sociohistórico que a A.D é desenlaçada (desenvolvida), ou seja, a memória é componente capital para a sua ocorrência (para que possa haver análise de discurso). Pode-se perceber que o mnemônico está, mormente, ligado à A.D de forma a dar-lhe subsídios.
            Tanto a fundamentação dos conceitos, quanto a orientação de como aplicá-los em um objeto de análise, feitos por Eni P. Orlandi em seu livro demonstram de forma clara os pontos que devem ser considerados na análise de discurso. Entendidos e desenvolvidos esses pontos, podemos não só aprimorar nosso estudo em relação aos textos (discursos), como também estar cada vez mais familiarizadas com uma análise socio/histórica (sociohistórica) que possa proporcionar maior entendimento em/para/e com textos (discursos), não só contribuindo para área lingüística (áreas da Linguagem) e sim para todas, de modo efetivo.   
 
 
 
 
 
 
 


A.D sigla abreviada de Análise de Discurso.


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