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   > A caneta do Presidente



Airo Zamoner
      CRôNICAS

A caneta do Presidente

Lá fora, o barulho era ensurdecedor. O som despótico atravessava todos os obstáculos e se instalava em todos os recintos. Olhou a turma alvoroçada pela vidraça blindada e coçou a barba antiga e embranquecida. Buscou entender pensamentos tumultuados, caóticos. Ameaçou abrir a janela e pular sobre a multidão revoltada. Quem sabe voltaria a se fundir com ela, num amálgama indestrutível!

O vazio se espalhava pelos salões da consciência saudosa. Punhos cerrados, lá fora, amigos de antanho vociferavam impropérios. Por que contra ele, se ele próprio os conduzira numa caminhada de glórias até os píncaros do poder emancipador? Certo que não libertou ninguém. Sentiu muito tarde que o poder não era poder. Mas como aquela turba poderia entender o que ele, só agora, entendia tão bem?

Por um instante, deixou de ver o povo lá embaixo. Seu reflexo no vidro embaçado se fortaleceu diante de seus olhos. Viu-se velho, exausto, perdido. Há tão pouco tempo ali entrara ovacionado. Cheio de esperanças para seu povo esperançoso. Tudo parecia fácil! Havia posto a mão na quimera do poder. Com ele firme entre seus dedos, colocaria tudo no lugar e os sonhos se realizariam. As mazelas desapareceriam. A justiça prevaleceria. A alegria tomaria conta de todos. Todos sem exceção alguma. Suas energias se potencializavam, dia após dia.

Voltou as costas para a janela barulhenta e encarou seus assessores. Gente subitamente desconhecida. Onde estariam os velhos companheiros de tantas lutas? Ele sabia! Sofreu com o abandono paulatino, irremediável. Outros iam surgindo do nada, cheios de soluções e de ambições desmedidas. Olhou demoradamente cada um e a dor no peito se agigantou. Os amigos mais próximos se foram em busca de outras praias e estavam lá embaixo gritando, vaiando, odiando. Os amigos novos, conselheiros suspeitos, abusavam de sua ignorância infantil, inocente e o conduziam por caminhos de perdição. Voltou-se novamente para a janela. Olhou mais uma vez a multidão de velhos amigos em fúria. Milhares de olhos atiravam ódio em forma de raios vermelhos que atingiam seu coração cansado. Queria tanto falar a eles. Não o faria jamais. Todas as tentativas dos últimos tempos eram abafadas com vaias e impropérios insanos. As palavras que conhecia, já não tinham significado algum. Gastara todas e todas se desgastaram. Perderam significado e substância. Sobrou a revolta, a acusação de traição, a chacota da ignorância outrora consentida e até elogiada.

Como queria descer aos pulos e se juntar a eles! Cerrar os punhos contra esse poder corrompido dos palácios e gritar palavras de ordem. E quantas ele ensinara! E elas se voltaram contra ele. A dor no peito vinha da alma em chagas. Uma alma simples, própria da ignorância dos felizes. A mão arrancou a faixa-símbolo na tentativa de aliviar o sofrimento. O peito arfava. Alternava olhares entre a janela e os assessores. Neles percebeu sorrisos irônicos e lá embaixo gritos de morte. Veio uma saudade atroz dos primeiros discursos que empolgavam e convenciam a multidão. E veio o medo desses mesmos discursos que nos últimos tempos suscitavam o ódio e não duravam mais que um minuto.

A sala estava agora muito cheia de assessores, ministros, secretários. Perguntou contrariado qual era o conselho. O que afinal deveria fazer? A resposta foi uma gargalhada infernal, ensurdecedora. O som despótico atravessou todos os poros e se instalou em todos seus órgãos. Olhou a turma desordenada pela vidraça blindada e coçou mais uma vez a barba, antiga e embranquecida. Entendeu seus pensamentos confusos e assinou mais uma vez.

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