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   > A GUERRA



Luiz C. Lessa Alves
      CONTOS

A GUERRA

            A GUERRA   
 
            Por questões alheias a meus interesses, já no segundo semestre do meu primeiro ano escolar, fui transferido para a tarde. Além de preencher com aulas melhor turno para minhas brincadeiras, perdi, também, os melhores parceiros e amigos que continuaram estudando na parte da manhã.       
Minha mãe até buscava me distrair, lembrando sempre que às vezes um mal floresce para um bem frutificar.
Certa manhã, desconsolado, sentado à sombra de um pé de araçá-mirim, eu rabiscava a areia, quando alguém veio por trás devagarzinho...
- Por que está cabisbaixo? Devia estar brincando! 
- Que susto, vô! Não tenho com quem brincar: todo mundo tá na escola.
- Em criança, quando eu não tinha amigos, brincava sozinho mesmo!
- Mas brincar sozinho é chato; e eu nem tenho brinquedo!
- Então faça seus brinquedos! Na sua idade, eu já construía minhas coisas para brincar!
- Mas eu não sei fazer nada!
- Você já tentou?
- Não.
- Começa, agora, então, fazendo isso que você desenhou aí? É assim que se aprende!
Imediatamente alisei o chão, dizendo que não tinha feito nada.
- Eu vi! Não queira me enganar!
Fui obrigado a confirmar o que havia esboçado, porque ele odiava mentiras. Adorava criança, mas não tolerava sonsas, abusadas nem respondonas. 
- Se você sabe desenhar, pode construir! As mãos fazem o que o cérebro ordena.
- Mas...
- Inteligência é um dom; cabe a cada um desenvolver.
Na ocasião eu nem sabia o significado da palavra “dom”, mas, logo veio a explicação:
- Esse dote natural, Deus dá a todos os seres vivos.
- Aos animais também?
- Até às plantas! Senão, como eles aprenderiam a se defender de inimigos, reproduzir e frutificar?
- É mesmo! Lembro das raposas, guaxinins como pulam e correm, quando o senhor atira, mesmo sendo pra cima.
- Pois é; eles não sabem, por isso correm! Deus dá o dom, cabe a todos praticarem.
- Mas eu nem sei como começar, vovô.
- Soldado não pode esperar a guerra iniciar para aprender a atirar.
- Mas eu não sou soldado, võ! Eu só tenho sete anos!
- Mas, sua guerra já começou. Vamos, soldado! Prontidão!
Pronunciando tais palavras de ordem, ele saiu, retornando logo depois, com faca, serrote, martelo, tábuas e pregos. Arriando a meus pés, disse:
- Tem, aí, todo arsenal necessário. Vamos! Lute!
- Mas vovô...
- Vou ensinar você como atirar nos inimigos durante essa sua batalha de hoje!  
- Que batalha, vovô? E quem são os inimigos? 
- Batalha é a dificuldade de todos os dias; tédio e solidão são os seus grandes inimigos hoje!
- Mas vô...
- Vamos, comece a atirar, antes que acertem você!
- Mas eu...
- Você é um soldado do exército da inocência, e como tal, não pode nem deve perder, ainda, nenhum combate!
- Por quê?
- Para não suprimir alguns dos melhores dias da sua vida!
- Eu não tô entendendo nada do que o senhor tá falando!
- Cada dia é uma batalha, onde criança não pode perder uma luta sequer; só os velhos.
- Por que só os velhos, vô?
- Porque a eles faltam-lhes vitalidade e algo para sonhar.
- Mas vovô...
- Como é; quer ou não, vencer esse combate, acabar com essa peleja e ganhar a guerra de agora?
- Mas que combate? Que peleja? Que guerra, vovô?
- A construção de seu carro, seu tédio e esse seu vazio!
            Até então, eu nada sabia, mas, a partir daquela manhã, aprendi muitas coisas incríveis! Coisas capazes de brotarem doces frutos, ainda que nascidas de entre pedras e cascalhos.
           

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