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   > A mais pura verdade



Valéria Luciane Okano Halila
      CONTOS

A mais pura verdade

Sabe aquela velha história que todos contamos na escola (ao menos os que não eram cdfs):

– Professora! O cachorro comeu meu dever.

Nunca adiantava, mas estava sempre na ponta da língua.

Semana passada cheguei a uma importante conclusão: ainda não funciona.

Tenho uma cadelinha guapeca demoníaca, a Barriga. A insana devorou metade da casa em seus nove meses de vida, muito mais do que o necessário para nutrir seus cinqüenta centímetros de comprimento. Pois bem! Na terça-feira cheguei em casa e a encontrei muito entretida no jardim, mascando algum objeto não identificado. Curiosa, aproximei-me para desvendar qual seria a vítima da vez. Afinal, todos os meus grampos-de-roupa, minhas canetas e até minhas meias haviam sofrido o mesmo fim trágico. Ao ver-me, cerrou os dentes, ocultando seu manjar. Depois de bons minutos de luta inútil, tapei-lhe a fuça. Logo que abriu a boca, retirei a disputada substância: um pedaço roído de látex.

Vasculhando as profundezas de meu cérebro, lembrei que Neto, meu namorado, havia comprado uma série de preservativos na véspera, deixando-os na gaveta de meu criado-mudo. Corri para a cena do crime e logo o mistério foi solucionado. A gaveta estava entreaberta e seu conteúdo jazia no chão, despedaçado, após ter sido violentamente retirado de seu invólucro. Voltei-me para a culpada, mas essa havia fugido impunemente segundos antes.

Limpei toda aquela sujeira, blasfemando as piores injúrias que conseguia imaginar. Ao esgotar meu extenso repertório, recobrei a consciência. Devia suprir o estoque antes que Neto viesse. Olhei o relógio, faltavam quinze minutos. Correndo, fui à farmácia mais próxima e comprei as malditas camisas-de-vênus. Assim que as guardei, a campainha tocou. Ele entrou, comemos, falamos, nos beijamos, aquela coisa toda. Estava tudo bem. Ao menos foi o que pensei, até iniciarem os urros:

– O que significa isto? As que eu trouxe não eram dessa marca!

- Não?

- Não!

- Só tinha dessas na farmácia, hoje.

- O que fez com as que eu trouxe?

- Minha cachorra comeu.

- Que tipo de idiota você pensa que sou?

- É verdade!

- Sinceramente, não esperava uma coisa dessas! Não de você! Se fosse uma... Mas seis?! Em um dia?! E ainda mente na maior cara-de-pau?! Está tudo terminado!!

Desse modo, perdi o namorado, mas fiquei com a Barriga. Como se não bastasse, tenho que agüentar as fofocas da vizinha que jura por tudo que é mais sagrado que, não só traí o Neto, como gostei, e muito. Caso contrário não teria bradado todas aquelas sacanagens repetidas vezes antes dele chegar.

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