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   > CONVERSA SÉRIA COM UM BEBÊ



thelma b oliveira
      CRôNICAS

CONVERSA SÉRIA COM UM BEBÊ

Ele ainda é um bebê, tem 3 aninhos, embora  já esteja na escola. O desfralde começou cedo: mãe viu o ‘método’ num programa de TV e resolveu aplicá-lo, com aplausos entusiasmados das ‘tias’. Só que a vitoria inicial deu lugar a uma fragorosa sensação de derrota: bebê tem voltado da escola com a cuequinha suja de cocô! Cada vez que isso acontece, lá vem bilhetinho e advertências.  Pais estão desesperados pois cantaram vitória antes da hora.

Que bebê que nada! Pai resolveu ter uma conversa com ele, coisa de homem pra homem. Com muita seriedade e o dedo em riste, falou de como é viver em sociedade, que ele andava fedendo e envergonhando a todos. Bebê afundou no sofá, sentindo-se a última das criaturas. Em seguida, mamãe juntou-se ao papai e, ameaçadora, levou-o para o quarto, fechando a porta: -Vê se você aprende! Não sabendo o que pensar, sentiu mesmo foi vontade de morrer, de nunca ter existido. Sentiu-se um... cocô!

Enquanto remoía seus pensamentos, fez uma minibiografia: Nasceu prematuro, ficou 40 dias na incubadora, a mãe visitava-o diariamente, olhava-o através da cobertura plástica, pegava seu pezinho mas jamais o tirou daquela masmorra sufocante. Quando voltou pra casa, havia um quarto esperando-o, com um berço enorme, onde ele se sentia tão perdido quanto nos dias de incubadora. Lá pelo menos sempre passava alguém e ele esticava o olho para acompanhar aqueles passos. Seria a mamãe? Por que ela não me levanta daqui? Gostaria tanto de ficar no colo. Tem um coleguinha apelidado de canguru: a mãe passa o dia ali por perto, carregando seu bebezinho, amarrado a ela por um pano.

Ele começou a achar que nascer tinha sido um mau negócio. Muita obrigação e pouca compensação. Não sabe o que é mamar: a comidinha lhe vem num vidro com um bico de borracha. Ele mama e dorme, assim escapa de maus pensamentos. A cada 3 horas, lá vem a mamadeira, ele suga e dorme. Ele ansiava por chegar a sua casa, lá certamente as coisas seriam bem melhores. Engano seu! Ficava no berço, pois sua vovó decretara que bebê não pode ficar mal acostumado no colo. Ele não alcançou bem o que isso queria dizer, mas sacou que estava destinado a passar o dia no berço. Coisa que se repetiria na escolinha ou maternal.


Foi lá que começou o ‘método’ do desfralde. Era humilhante, ele era levado a um piniquinho de tantas em tantas horas para aprender a deixar ali a caca. Em casa, a mãe continuava tentando, mas nem sempre dava certo. Seu pai só falava em xixi e cocô, com enorme ansiedade e desgosto. Era sempre com nojo que se desincumbia da missão de limpá-lo. Ele sabia que não dispunha ‘ainda’ dos comandos certos para exercer tais funções com dignidade e regularidade. Passou, então, a prender o cocô. Pelo menos passaria dois ou três dias livre daquela obrigação estafante.

O passo seguinte foi terapia. Ele era levado pela mãe ou pelo pai ou até pelo avô para conversar com uma doutora legal. Brincava com uma caixa de areia e fazia desenhos. Mas o cocô continuava vazando na cueca. Mãe levou-o a um neuropediatra, que pediu um eletro e outros exames. Hoje ele frequenta uma equipe de terapeutas, pois desenvolveu um TOC: mania de lavar as mãos. Toda hora ele sai da sala para lavar as mãos. Sente-se sujo e nojento. E isolado dos demais. Não brinca com a turma, prefere ficar sozinho. Quase não conversa com os pais, tem medo da seriedade e braveza deles. E da vergonha que não conseguem esconder.

Vai começar a usar ritalina e um remédio pra dormir pois desenvolveu terror noturno. Tem medo de crescer e não ser amado. Desenha corações tingidos de preto. Escuros feito sua alma. Jamais se esqueceu das conversas ‘sérias’ e hostis de seus pais. Ninguém nunca lhe perguntou o que achava disso tudo. Desconhece  o que é alegria, tornou-se uma criança ‘séria’. Não tem iniciativa e é desajeitado com suas coisas. Não sabe escolher uma roupa, depende da opinião da mãe - que é severa e zombeteira. Largou os esportes, o pai o acompanhava com olhar severo, exigindo boa performance. Refugia-se nos livros, escreve muito e fica horas no computador. Sozinho, é claro. 


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