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   > Passageiro insólito



OSMAN JOSÉ DE OLIVEIRA MATOS
      CONTOS

Passageiro insólito



PASSAGEIRO INSÓLITO

Surreal

Escrito por Osman Matos

CAPÍTULO I - RIO DO BRAÇO

       A boquinha da noite ia comendo as sombras que cresciam em vão no entardecer.  A de Cicílio, comprida e esquálida, escalava o majestoso e antigo pé de cajá que ficou inquieto tentando entender a sombra do velho embornal de couro, sujo e surrado que passava devagar. Por que Cicílio carregava tanto peso?

       Cada vez mais gigante e menos nítida, a sombra agora ia avançando deformando-se nas pedrinhas de cascalho do caminho, matutando o nada que nós somos, o que seríamos quando já não formos e agora já tragada pela noite.

       E aquele mesmo chão pisado por ele ao longo dos anos que bem o conhecia pela palma dos pés, estranhara aquele andar descadenciado e sem pressa.  Parecia que Cicílio tinha os pés maiores que o próprio corpo como em “Abaporu” de Tarsila do Amaral. Mas porque Cicílio estava de sapatos?

       Avistou o primeiro poste aceso que o percebeu e em seguida via-se quase todo o Rio do Braço. Fixou o cansado olhar no velho casarão, sobrado construído em 1927 pelos Catalões, na Rua Comerciante Osvaldo Pereira de Matos, mais tarde cenário da novela Renascer da Rede Globo. O velho casarão o reconheceu de longe, mas por um instante duvidara: Cicílio vestido de branco?

       Por um calçamento de pedras naturais, dirigiu-se a  um afluente do Rio Almada, chará do povoado, que cortava o Rio do Braço por trás. Cicílio agachou-se na margem do rio  e tocou a lua molhando a ponta dos dedos. A lua ecoou sorrindo e o semblante de Cicílio fragmentado pela água bongada, tinha os cílios grandes e negros refletidos. Mesmo assim o rio o reconhecera, - Quando a água treme, a verdadeira imagem nossa que nós somos se revela. – Lavou o rosto e tragou uns goles. A água excedente que caía da boca, amargava muito e não se misturava com a do rio. Mas por que Cicílio estava barbeado?

       Tuuuuummmmmmmmm... Ressoou o Poço da Bomba. Desligou o disjuntor com a responsabilidade e a pontualidade de sempre.

       Tac!

       Silêncio.

       — O chafariz do povoado encheu. – Pensou o poço – Mas por que Cicílio estava com as unhas cortadas e limpas?

       Voltou ao Rio do Braço 10 minutos caminhando e deitou-se num banco de tábuas comprido em frente à venda da velha Idalice. Lembrou-se de uma vela que esquecera, mas não se importou. Conformou-se achando que a vela vela a espera em de novo vê-lo; que a mão, trêmula, apaga a vela e ilumina o vento e que se a sua mão fosse firme,  apagava o sopro e iluminava a vela; e que a mão, a vela e o sopro seriam cenários incertos?

       Depois tentou pegar um cigarro de palha e um isqueiro platibanda movido a querosene, espoleta e pavio, mas não conseguiu. Suas mãos doeram, apertando-se no velho embornal de couro sujo e surrado. Havia um elefante dentro dele. Continuou sereno e aceitou sem remorso a sua decisão de dias atrás: a de emborcar o embornal.

       O elefante, livre,  barriu alto e disparou em direção a Mutuns, quebrando a paz e a tranqüilidade do lugar.

       CAPÍTULO II - O PRESSENTIMENTO

       Na casa da velha Percilita Bobodina, mãe de Cicílio, um barulho: Pamm! Nela, o som do mau pressentimento. Levantou-se, acendeu o candeeiro e viu o antigo papeiro de alumínio caído no chão. O pendurou de volta no paneleiro. Onde andaria seu menino desaparecido há mais de cinqüenta  anos? Acendeu uma vela, rezou e benzeu-se.

       CAPÍTULO III - TREM DE FERRO

       Um dia o trem de ferro o  percebeu como um  passageiro insólito e o aconselhou, num trajeto que fizera a Castelo Novo, que percebesse as árvores, os bois e as boiadas:

       — Olha, Cicílio, a inquietude é uma força, muita força, muita força que apita, - piuíii! piuíí! Mas depois que ela passar e esfriar a brasa, é só você voltar a caminhar pelo seus trilhos até a próxima estação. Parar de reclamar desse trem de vida e passar a observar melhor a vida de trem. Então você vai ver, Cicílio, que as árvores, os bois e as boiadas passam; na verdade ficam. Nós somos quem passamos apressados com a cabeça repleta de bobagens e não apreciamos as belíssimas paisagens.

       Mas Cicílio, ao cismar sozinho, refletia calado que tudo passava quando ele passava de trem; na verdade tudo ficava. Ele é quem passava descrente de tudo, com um trem na cabeça maior que ele próprio, e a mente perdida no labirinto de um caminho, antes, conhecido.

CAPÍTULO IV - O FORMICIDA TATU

       Hoje cedo, antes de chegar ao Rio do Braço,  Cicílio tinha ido ao Remanso despedir-se de Turíbio e de D. Bidudu:

       —Turíbo! Bidudu! dessa nôthe eu num passo! Vim me dispidi d’ocês! Tá veno esse sapatim preto nos pé e essa rôpinha toda branca? É pra í bem arrumado! Tomei um bâ-i,  bã-i mermo! Cortei os cabelo, alimpei as unha dar mão e dos pé,  fiz a barba qui é pra í bem direitim e num dá trabaio a ninguém! Óia aqui a formicida! (Tira do bolso  o produto químico de matar formigas e mostra). Eu num fui onte na camioneta de seu Gervázo? Foi pra comprar a danada, óia! É pah! Puf! Formicida Tatu!

       O casal estava pasmo por ver Cicílio arrumado e nem ligaram para o que ele disse.

       CAPÍTULO V - O CORPO

       Na Manhã seguinte via-se o corpo de Cicílio estirado no banco de tábuas comprido em frente à venda da velha Idalice e começava a crescer. Os moradores se apertaram. O braço esquerdo já alcançava as escadarias da igreja São Sebastião que lhe reconheceu as mãos por tantas vezes conduzir o andor da procissão em tantos vintes de janeiro. A mão direita tocou o rio e afundou, ficando o antebraço próximo a encanação de ferro do Poço da Bomba.

       Dôgle, um cachorro vira-latas,  latia muito querendo entrar na água para salvar Cicílio. Os pés já encostavam a sola nas salas da velha escola Maria Victória, desativada. O retrato ainda na parede amarelado de D. Maria Arlete, sua primeira professora, o reconheceu e sorriu, lembrando daquele menino cabreiro que abandonou a escola pouco tempo depois porque tinha que trabalhar, menino.

       A cabeça de Cicílio ficou justamente em cima de toda estação de trem, um  colo. Por muito tempo roçara a linha de ferro da The State Of Bahia South Western Railway Company Limited, deixando tudo limpo e capinado para a Maria Fumaça passar. Os cabelos confundiam-se com as folhas de três imponentes pés de amêndoas da estação. O peitoral, a cintura e a barriga de Cicílio bloqueavam as estradas que davam acesso a Ilhéus, Jacarandá, Salobrinho, Banco do Pedro, Sequeiro de Espinho, Lavapés, Uruçuca, Itajuípe, Mutuns, Poirí, Mucambo, Castelo Novo...

       O corpo de Cicílio estirado por todo o Rio do Braço não parava de crescer e os moradores cada vez mais incomodados, nem notaram o retorno do elefante que apreciava as belíssimas paisagens, circulava calmo ao redor e a tudo assistia.

       Alguém subiu no topo do extremo Everest ciciliano e sentou na ponta do nariz para dar ordens que ninguém cumpria. No dedo anular esquerdo, procuravam o estado civil do respeitável cidadão e nos bolsos não havia nada que valesse certidão. Na boca semi-aberta, nos punhos,  e do colarinho branco até a floresta peitoral, nada que compensasse uma atenção especial. E numa disputa a rapel pelo pisante lustroso, escalavam pelo cadarço o cume do sapato preto do ilustre, o prêmio.

       O Corpo  de Cicílio já estava maior que o Rio do Braço todo e os moradores cada vêz mais pequenininhos não eram capazes de movê-lo dalí.

       E por que Dôgle balançava tanto o rabinho e latia?



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