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   > SENTIMENTAIS



erivan machado
      CONTOS

SENTIMENTAIS

Dallan estava sentado na última mesa da cafeteria A2. Ele sempre gostou  daquele canto, ninguém nunca se sentava por ali, quase ninguém o enxergava ali. Seu pedido era o de sempre: café expresso com chantili e raspas de chocolate. Mesmo indo todos os sábados naquela cafeteria, ninguém que trabalhava ali o reconhecia. Dallan sabia o nome do dono e do atendente:
 – Hei, Sam! O café está uma delicia!
Ele sempre elogiava o Sam, que sempre ria, mas, na verdade, ele ficava a pensar ‘’quem é esse cara que eu nunca vi aqui?’’.
    Paloma entrou na cafeteria a passos rápidos. Carregava sua bolsa preta de couro, parecia que algo a incomodava. Ela olhou para os lados, parecia procurar algo ou alguém. Lá do fundo Dallan estendeu a mão e logo Paloma o percebeu e foi ao seu encontro:
- Por que a mesa do fundo?
            - Gosto do silêncio, lá na frente tem pessoas conversando demais, assuntos idiotas, a televisão está ligada, isso tudo tira minha atenção, não consigo saborear o café.
- Eu odeio esse canto longe de tudo e de todos, para o atendente vir aqui temos que acenar umas duas vezes ou mais, esse canto é depressivo. Paloma acenou duas vezes para Sam:
– Um café gelado, por favor, e um pão de sal sem miolo com uma fatia de queijo.
Sam anotou o pedido de Paloma e saiu. Dallan terminara seu café, sua respiração estava ofegante, parecia que tinha algo pesado sobre os ombros.
           
              – Pode falar, disse ele encarando Paloma.
 
A moça o encarou por alguns segundos fazendo uma cara de desentendida
              – Falar o que? Perguntou cruzando as pernas, e começou a balançá-las feito um balanço de parquinho. Dallan, pos as duas mãos sobre a mesa, inclinou seu rosto pra frente dizendo:
               - Primeiro: você entrou nervosa olhando pros lados, seus olhos pareciam que iam saltar das orbitas. Segundo: sua feição mudou quando você começou a falar e terceiro: você reclamou do lugar onde nós sempre nos sentamos quando viemos aqui. Na verdade, você não quer falar sobre o lugar onde estamos, Você que falar outra coisa, sua perna não para de mexer, você parece nervosa.
Paloma ficou sem ação. A moça nem conseguia abrir a boca pra argumentar, sua pele  branca começou a ficar vermelha, de vergonha.  Parou de mexer a perna. Nesse mesmo instante Sam veio com seu café e seu pão.
                   – Aqui está seu pedido, Madame.
Sam, educadamente, deixou a bandeja e se retirou. Paloma pegou o açucareiro e começou a colocar cubos de açúcar no café. Tomou um gole e se pôs a falar:
                     – A quem estou querendo enganar? Eu sou uma boba.
 Enquanto ela falava, sua mão ia ao açucareiro. Paloma estava nervosa. Dallan riu.
                    - Você não é boba, só não sabe mentir.
 
Paloma Também riu, tomando outro gole de café. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, até Paloma quebrar o gelo do silêncio.
                   - Eu gosto de você, passamos bons tempos juntos, mas... Eu não te amo como pensei que te amava, eu estou lhe deixando.
Dallan pigarreou e cruzou os braços fazendo uma cara de poucos amigos.           
                    – Você tem um bom motivo pra fazer isso, certo? Ele perguntou, e ficou atento, aguardando a  resposta que Paloma. A moça, sem perceber, colocava cubos de açúcar demais no café. Dallan segurou sua mão antes que mais um cubo fosse posto no café, Paloma lhe encarou:
                     – Eu quero uma vida sem regras, não quero uma vida presa a ninguém, eu não sou boa nessas coisas. Dallan tomou a colher de sua mão e a colocou de volta no açucareiro.
                    – Estamos casados há dois anos, não há dois meses, nem há dois dias. São dois anos, e você vem com essa historia?
Dallan endureceu o rosto, parecia uma estatua de um homem mau. Paloma não conseguia encará-lo e isso o irritou.
                     – Nem consegue olhar nos meus olhos, olha pra mim! Tenha decência de fazer isso pelo amor de Deus!
Paloma o encarou, seus olhos estavam vermelhos, ela tentava conter as lágrimas, mas não conseguia impedi-las de cair, borrando sua maquiagem. Depois de um tempo ela enxugou as lágrimas dizendo:
                     - Essa coisa de casamento não dá pra mim. Começamos bem, mas de um tempo pra cá tudo ficou monótono, a casa ficou sufocante...
Dallan a interrompeu com uma pergunta:
                     – E como fiquei eu sob seu ponto de vista?
Paloma começou a tamborilar os dedos:
                     - Eu ia chegar nessa parte. Você ficou sendo o centro das coisas monótonas. O problema não e você, o problema sou eu. Dallan riu, bateu uma curta palma, poucas pessoas perceberam.
                     – Deixa ver se eu entendi bem:  o casamento vai acabar porque está chato, monótono,  e eu sou o centro da monotonia,  mas o problema não sou eu, é você! Paloma percebeu que o café estava mais que gelado, estava péssimo.  Passou do ponto de ser tomado. Paloma levantou a mão. Sam veio ao seu encontro.
                     - Dois cafés expressos com chantili e raspas de chocolate.
Sam anotou os pedidos e saiu.  A moça se ajeitou na cadeira, voltou seu raciocínio de onde havia parado, encarou Dallan e recomeçou a falar:
          – Lembra da viagem de uma semana com a banda de rock do seu amigo, que eu não quis ir, mas você foi? Eu passei uma semana sozinha em casa refletindo que você e eu não somos um par. Após terminar de falar Paloma soltou o cabelo e voltou a prende-lo. Esse foi o tempo que ela deu pra Dallan pensar em uma resposta, e o rapaz pensou, e não poupou palavras:
           – Você está culpando aquele dia? Nós tivemos a oportunidade de viajar pelo Brasil de graça e escutar música boa de graça, e o que você falou? “Não”.
Eu queria ir e fui. Você poderia ter ido pra casa de sua mãe em vez de ficar lá na casa, sozinha, pensando besteira.
Dallan endureceu mais ainda a expressão, sua respiração ficou ofegante. Sam veio com os dois expressos os colocou sobre a mesa.
 – Valeu, disse Dallan agradecendo e tomando um gole do expresso. Sua afeição logo mudou, parecia que o café tinha feito uma transformação em seu rosto. Paloma continuou a falar.
 – Você tinha que ter ficado. Isso não é egoísmo meu, eu queria você ao meu lado, eu nunca deixei você e você sabe disso. Ela o encarava, esperava a resposta de Dallan.
 – Você nunca me deixou, eu concordo, mas todas as vezes que você estava comigo só falava da vida alheia, ou ficava com a cara enfiada no computador, seu corpo estava comigo, mas sua mente vagava por ai.
Os dois se calaram, foram calados pelo café expresso, mas logo retomaram o assunto. Paloma tomou a frente:
 - E as mentiras? Quando você me falava que ia sair do trabalho tarde pra onde você ia? A pergunta fez Dallan engasgar.
 – Como assim? Eu sempre saí tarde do trabalho, não vem com essa historia que essa não cola. O rosto de Dallan ficou corado, Paloma continuou a falar:
 – Uma noite, quando eu saí pra ir ao centro, vi você parado, olhando pra uma vitrine.  Na mesma hora eu te liguei perguntando onde você estava e o que foi que você me falou? ‘’ estou no trabalho ainda meu amor’’ foi isso que você falou! Paloma berrou. Todos olharam na direção da mesa do fundo. Para tentar amenizar a situação Dallan deu uma gargalhada.
 – Naquele dia eu queria ficar sozinho, e parei em frente à livraria. Foi isso. Eu fui pra lá e fiquei a pensar se um dia algo meu será publicado. Você sabe que eu gosto de escrever. Desculpe.
Nesse mesmo estante Paloma abriu sua bolsa e tirou de dentro um bloco de folhas. Era um manuscrito de Dallan. Ele o tomou das mãos da moça e a fuzilou com os olhos.
 – Como você o achou? quem lhe deu o direito de pegar esse manuscrito, de mexer nas minhas coisas?
Paloma riu dizendo:
             – A historia idiota de um cara que larga a família e sair pra curtir com os amigos! Essa é sua historia real! Você escreveu tudo no livro, uma bela autobiografia de Dallan!
Enquanto você ficava na frente da vitrine eu lia sua vida. Você queria se separar de mim, mas não teve coragem e decência de falar, se escondendo atrás de personagens! Eu não vim até aqui para terminar com você.
Dallan ficou sem sem palavras certas pra dizer. Coçou a testa, respirou fundo, e por fim respondeu:
            – Aquela historia de terminar era tudo mentira? Então por que você falou que queria as eparação? Paloma riu novamente, pegou o manuscrito da mão de Dallan e o abriu, passou algumas página até chegar onde queria.
              -‘’Capitulo dez. : Diogo convida Mariana para  cafeteria. Ela pensa que vai ser mais um dos encontros amorosos, mas, na verdade , Diogo a convidou para terminar o noivado’’.  Você me chamou aqui pra terminar, não foi?
Dallan não conteve as lágrimas.
              - Eu ia fazer isso, mas me arrependi. Eu te amo, Paloma! Não me deixe, por favor.  Eu fui idiota, egoísta, pensei apenas em mim. Enquanto você não chegava, eu refletia sobre várias coisas que passamos juntos, e minha vida sem você não vai ser nada, juro por Deus, juro por tudo que é mais sagrado!
Paloma não conteve as lágrimas, mas se manteve firme.
               - Você não escreveu um final para sua historia, então eu vou lhe ajudar, vou lhe dar  uma ideia:  ‘’Mariana pagou a conta e foi embora, e Diego se arrependeu amargamente de ter dito aquelas palavras duras’’.
Paloma se levantou em desespero, pois  Dallan começou a rasgar o manuscrito.
               – Essa historia não é minha, essa não é a minha vida! Você é minha vida!
 À medida em que ele falava, Paloma ia se distanciando e Dallan rasgava o manuscrito. Todos pararam para ver aquela cena. Ninguém entendia nada. Dallan se levantou e berrou:
               – Paloma, pelo amor de Deus! Não me deixe! Eu te amo! Me perdoe, vamos recomeçar uma nova historia. Não te deixarei mais sozinha, não vou vacilar.
Paloma o encarou com os olhos cheio de lágrimas.
               – Eu achei que você não gostava mais de mim, por isso armei essa encenação toda,  pra saber e o que você sentia por mim era amor. Eu quero escrever uma nova historia com você.
Dallan correu até sua amada e a beijou. Todos que assistiram aquela cena não acreditaram, acharam que tudo era uma encenação, algo proporcionado pela cafeteria. Todas as pessoas começaram a aplaudir. Dallan e Paloma não entediam o motivo dos aplausos, mas mesmo assim fizeram uma reverência em agradecimento.
  
‘’ No final ninguém precisa morrer. sofrer já é o bastante’’ (Sam Cop)
 
                        
Dizem que todas as noites são iguais, que quem viu uma, viu todas.  De certa forma isso é verdade. Cabe-nos mudar nosso ponto de vista. Tudo pode mudar, basta olharmos com olhos de curiosos. (Salmos Abran)
 
 
 


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