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   > Ricardo Alfaya



Tânia Gabrielli-Pohlmann
      ENTREVISTAS

Ricardo Alfaya

RICARDO ALFAYA ENTREVISTADO POR TÂNIA GABRIELLI-POHLMANN


Aqui, a entrevista do escritor brasileiro Ricardo Alfaya à radialista, escritora e difusora cultural Tânia Gabrielli-Pohlmann, brasileira radicada na Alemanha, feita pelo sistema de troca de “e-mails”, para divulgação no site Protexto, a partir da edição de Airo Zamoner. A matéria trata da vida e obra do jornalista, poeta, cronista, contista, ensaísta e articulista Ricardo Alfaya (1953), num momento muito significativo, uma vez que, em setembro de 2003, Alfaya tem a alegria de ver editado o conjunto “Sujeito a Objetos”, 25 poemas de sua autoria. A publicação se dá na coletânea “Rios”. Trata-se da maior quantidade de trabalhos seus, em livro, desde a obra de estréia,“Através da Vidraça”, de 1982. Entretanto, embora sem lançar obra individual, durante esses 21 anos o autor participa de 20 antologias, está presente em mais de 70 periódicos impressos, atua em exposiçoes nacionais e internacionais de arte postal, participa de recitais, aparece na Internet, e edita, com sua esposa Amelinda Alves, o Nozarte Informativo Impresso e Eletrônico, desde 1995. Obtém 22 prêmios literários, considerando entre eles a participação na coletânea “Rios”, organizada e patrocinada por Márcio Catunda. Nela se reúnem cinco expressivos nomes de nossas letras (Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta). Vários escritores e críticos especializados situaram “Rios” entre os melhores lançamentos de poesia brasileira de 2003. Na entrevista, Ricardo Alfaya abre o jogo para Tânia Gabrielli, falando de sua maneira muito particular de entender a poesia. Expõe ainda o projeto original que dela deriva que, sem pretender que se transforme em mais um “ismo”, serve-lhe de guia.

1) Comecemos pela origem de tudo. Onde e quando você nasceu?


-Nasci na cidade do Rio de Janeiro, em 08 de agosto de 1953, filho do espanhol Ricardo Ambrosio Alfaya Garcia e da mineira, descendente de italianos, Maria do Carmo Ingenito Alfaya. Meu nome completo é Ricardo Ingenito Alfaya.

2) Por que, artisticamente, elimina o sobrenome Ingenito?


-Em parte porque a sonoridade Ricardo Alfaya me parece mais fluente, um nome fácil de gravar. Antes de começar a publicar textos escritos tive uma breve passagem pela extinta gravadora Continental. Duas músicas minhas em parceria com Arthur Linneu Vecchi, da então editora Vecchi, foram gravadas por um cantor estreante, Rosário, e meu nome no compacto simples, como compositor, saiu apenas Alfaya. Isso foi em 1977. Porém, quando o cantor se apresentava em rádio ou dava alguma entrevista, referia-se a mim como Ricardo Alfaya. Desse modo, fui-me acostumando a essa forma de identificação artística.

3) Você nunca me falou dessa fase, não sabia que havia gravado um compacto…


-De fato, não faço muito alarde a respeito. A Continental não devia ir muito bem das pernas, não investiu seriamente em nós. Pouco tempo depois, estava fechando. Jovens, idealistas, inexperientes no assunto, não soubemos, por nossa vez, transformar aquela oportunidade tão rara num meio de nos projetarmos no cenário artístico. Acabou dando em nada.


4) E você ainda compõe músicas?


-Muito raramente ainda me dou ao trabalho de escrever letra e música para alguma canção. Com a decepção de 1977, perdi o entusiasmo de fazer isso. Entretanto, eventualmente me ocorrem melodias. Minha mente se deleita em brincar de fazer sinfonias, cantos corais e uma série de arranjos e orquestrações que nem tenho como trazer para o papel. Tampouco executo qualquer instrumento, o que dificulta ainda mais as coisas. Tudo começa e acaba na minha cabeça, na maior parte das vezes, sem qualquer forma de registro.


5) Em geral seus relatos biográficos começam em 1979, com sua atuação no jornalismo...


-De fato. Em geral pulo a etapa da gravação do compacto e começo minha biografia em 1979, quando, aprovado em concurso, ocupei uma das cinco vagas oferecidas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), para estágio remunerado em Jornalismo. Lá fiz resenhas de livros e matérias avulsas para o "Informativo". Um aspecto curioso é que ali se deu meu primeiro contato com um escritor conhecido, o José J. Veiga, ficcionista que trabalhava numa sala em frente à minha, motivo pelo qual nos avistávamos com freqüência. Veiga, hoje falecido, deixou-me então uma impressão muito favorável.


6) Depois veio a Fundação Mudes. Por que trocou a FGV pela Fundação Mudes?


-Bem, essas fundações tinham seus prazos para estágio. Não se podia ficar além, pois seria necessário criar um vínculo empregatício permanente e isso não interessava nem a eles, nem a mim. Afinal, tratava-se de uma atividade que vinha fazendo, paralelamente a minha atuação como funcionário do Banco do Brasil S.A., no qual trabalhava desde 1974. Seja como for, houve uma chance de ficar na FGV um pouco mais. No entanto, optei pela Fundação Mudes porque lá eles faziam o Perspectiva Universitária, que estava passando da forma de boletim para a de jornal tablóide, sendo distribuído em várias universidades, bibliotecas e escolas. Era a minha chance de fazer reportagens de verdade, escrever breves ensaios, fazer cobertura de eventos. Enfim, praticar jornalismo no sentido mais completo da palavra. E lá ainda participávamos da elaboração da pauta editorial, da diagramação, da titulação das matérias, da revisão, etc. Era uma equipe que trabalhava muito unida, sob o comando de Jorge Arêas, também editor de esportes do jornal "O Dia". Foi uma época muito boa, que durou de meados de 1980 ao final de 1981.


7) Uma vez disse que lá conheceu a sua esposa?


-Sim, lá conheci Amelinda Alves da Silva, minha esposa, que então trabalhava como repórter, redatora e revisora.


8) Em 1982, você lançaria o primeiro livro, intitulado "Através da Vidraça". Como foi esse processo? O que o levou a publicar um livro de poesia?


-Depois de 1977, desisti de ficar escrevendo letras de música. Porém, a prática de textos apenas em prosa não me satisfazia inteiramente. Sentia falta de redigir em verso, que constitui um processo criativo muito especial, no qual o escritor se sente mais artista, uma vez que, mesmo quando realiza poesia discursiva, possui maior liberdade em relação às imposições das normas gramaticais e da retórica lógico-linear. Sobretudo na poesia sem preocupação com métrica e rima. Comecei, então, a escrever também poesia, que era para mim um exercício de liberdade, a sensação mais próxima da liberdade de pensamento que me fora permitido experimentar. Para quem passou toda sua juventude sob um duro regime militar, tal hábito tinha um valor inestimável. Entretanto, não nutria, em verdade, a intenção de publicar os poemas. Pensava em seguir o jornalismo e havia interesse em editar, se pudesse, um livro de contos. Aliás, nada sabia a respeito desse processo tão comum em que o autor autofinancia a edição de seu livro. Ocorre, entretanto, que existia uma poeta, Eva Creuza de Oliveira, que lançara um livro, “Transparência”, em conjunto com outras duas autoras, Maria Lygia Faria Rodrigues e Eliana Andreazzi. Eva era funcionária do Departamento de Desenvolvimento e de Seleção Pessoal do Banco do Brasil, na seção do Rio de Janeiro, na qual, por coincidência, eu estava fazendo um curso promovido pela Empresa. Durante um intervalo de aula, alguém estava lendo o livro. Pedi para dar uma olhada na obra, li vários poemas, comentei que havia gostado. A pessoa que me emprestara estimulou-me a dizer isso a uma das autoras, pois ela "ficaria feliz em saber". Muito surpreso, descobri que Eva Creuza de Oliveira trabalhava numa sala muito próxima dali. Desse modo, logo se daria nosso encontro e quando ela soube que eu escrevia também, quis dar uma olhada nos poemas, terminando por incentivar-me a publicá-los. A obra saiu pela Poeco, atual João Scortecci Editora, de São Paulo, a mesma que lançara “Transparência”. Thereza Christina Rocque da Motta participou da realização do livro e escreveu um dos prefácios. O outro foi redigido por Eva Creuza.


9) Em geral os escritores têm sérias restrições a seu primeiro livro, muitos até o renegam inteiramente, como se dá isso com você?


-Em termos de livro solo, inteiramente individual, "Através da Vidraça" foi o único que pude realizar até o momento. Se o rejeitar, perco um significativo ponto de referência. Além disso, existem peças ali que aprecio até hoje. Por sinal, não apenas eu, vários editores de periódicos e suplementos literários reproduziram poemas do livro, e houve também quem se desse ao trabalho de resenhar a obra, comentá-la. Assim, embora haja alguns poemas ali que hoje considere um equívoco, houve acertos importantes. Minha maneira de escrever modificou-se, tornou-se mais objetiva, mais concisa. Por outro lado, certas tendências e procedimentos que viria a aprofundar depois, acham-se já presentes naquela obra, de modo que se faz mister referir-me a ela.


10) Um desses aspectos estaria relacionado com a temática "Sujeito a Objetos", presente em "Rios", lançado recentemente? Lembro-me de ter lido um comentário seu a respeito no PD-Literatura.


-De fato, esse é um dos aspectos. Ao fazer, 21 anos depois, a preparação para o maior conjunto de poemas que consigo reunir em livro desde 1982 (25 poemas na coletânea "Rios"), pude perceber muitas coisas, tanto no que diz respeito ao projeto estético quanto mais propriamente conteudístico de minha obra. E o que acho fascinante é notar que alguns desses sinais já se acham em "Através da Vidraça".


11) Você menciona com ênfase a questão da totalidade em sua obra...


-Sim, quando falo, no PD-Literatura, do que disse Thereza Christina no prefácio a meu livro de estréia, cito os dois seguintes trechos: a) ela comentou que o livro assinalava a "inegável voracidade" do autor; b) Notou ainda que "poeta e paisagem confundem-se, entre observador e objeto, para ressurgir após, como questionador das manhãs". Isso existia potencialmente no "Através da Vidraça". Se nele havia em potencial, diria que a atitude se confirma e se expande para além dos próprios gêneros poéticos, no decorrer de minha vida e obra. E em "Sujeito a Objetos", encontra-se presente ao longo de todo o livro. Devo acrescentar que o aspecto foi igualmente percebido pela crítica e teórica da literatura Cecy Barbosa Campos, de Juiz de Fora-MG, que escreveu uma excelente resenha sobre esse meu segundo livro. Disse ela num trecho: “A partir de “Sujeito a Objetos” somos levados a considerar a importância das partes em relação ao todo, ou do individual em relação ao universal (...)”.


12) "Sujeito a Objetos" seria então um livro temático?

-Sim, "Sujeito a Objetos" é um livro temático. Ele foi o desenvolvimento de um capítulo que se vinculava a um projeto anterior. No momento de escolher os trabalhos e o tema para publicação do livro, notei que estaria melhor representado se conseguisse aprofundar aquele capítulo, realçando-o. Foi o que fiz. Já "Através da Vidraça" não é temático, embora mantenha uma certa unidade de estilo. "Através da Vidraça" é uma reunião de poemas nos quais predomina uma forte crítica social, tanto política quanto de costumes. Isso existe em "Sujeito a Objetos", mas ali há indagações e investigações de natureza mais filosófica e sutil.


13) Como foi participar de “Rios”, e que importânica acha que a obra terá em sua trajetória?


-Foi excelente estar ao lado de quatro expressivos nomes de nossa literatura e, ainda por cima, a convite de Márcio Catunda. Considero um prêmio literário. Como se sabe, a obra reúne cinco poetas, Elaine Pauvolid, Márcio Catunda, Ricardo Alfaya, Tanussi Cardoso e Thereza Christina Rocque da Motta. Trata-se de um lançamento recente, pela Ibis Libris, do Rio de Janeiro, ocorrido em cinco de setembro de 2003. Penso que a obra significará muito para tornar mais conhecido o trabalho de todos os que dela participaram. Espero também que contribua para deixar mais claro meu projeto geral e que possa enriquecer minha fortuna crítica.


14) E por falar em “fortuna crítica”, tem sido boa a receptividade de “Rios”? O que as pessoas estão achando de “Sujeito a Objetos”?


-Não é novidade para ninguém que atualmente no Brasil o público consumidor de poesia, com raras exceções, é aquele que também a produz, o poeta. Há ainda os estudiosos e criticos literários que por ela se interessam. Esse é um dado histórico que reduz as pretensões de um poeta à seguinte realidade: ou ele pensa numa atividade paralela que lhe possa abrir as portas da grande mídia, de forma a se tornar mais “popular” ou ele se empenha em tentar conquistar o reconhecimento de seus iguais. Se houver condição, pode também tentar as duas coisas. Dentro da atual estrutura da grande mídia, não vejo como eu poderia ter acesso a ela. Assim, dedico-me à segunda alternativa. Enviei “Rios” para alguns críticos e poetas de projeção. Outros, por sua vez, tomaram a iniciativa de procurar-me para saber sobre a obra. Estimulei os destinatários a emitirem opiniões sobre o livro e sobre a minha parte. De um modo geral, todos teceram comentários favoráveis aos cinco autores. Muitos escreveram sobre “Sujeito a Objetos”. Recebi desde parágrafos curtos, porém expressivos, até análises mais longas. Houve também quem prefirisse destacar poemas do livro e publicá-los em seus periódicos. Uma lista de agradecimento sairá publicada no Nozarte 12, em fase de conclusão. Você, aliás, faz parte dela. São os seguintes (em ordem alfabética): Adriana Zapparoli, Alcides Buss, Almandrade, Ana Luísa Peluso, Anderson Braga Horta, Antonio Carlos Secchin, Antonio Junior, Antonio Luiz Lopes (Touché), Aricy Curvello, Avelino de Araújo, Branca Bakaj, Carlos Furlan, Cecy Barbosa Campos, Cláudio Feldman, Cynthia Dorneles, Dalila Teles Veras, Denise Teixeira Viana, Djanira Pio, Douglas Lara, Edgard Guimarães, Eduardo Waack, Enéas Athanázio, Eunice Mendes, Fabio Rocha, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Glenda Maier, Goulart Gomes, Greta Benitez, Hugo Pontes, Izacyl Guimarães Ferreira, Jairo Pereira, Jayro Luna, João de Abreu Borges, Joaquim Branco, Jorge Domingos, José Geraldo Neres, José Antonio Martino, Jurema Barreto de Sousa, Karla Barros Leite, Leila Míccolis, Luiz Alberto Machado, Luiz Otávio Oliani, Maurício Carneiro, Moacy Cirne, Mônica Montone, Nina de Almeida, Nilto Maciel, Olga Savary, P.J. Ribeiro, Reynaldo Valinho Álvarez, Ricardo Mainieri, Rogério Salgado, Rosa Born, Sammis Reachers, Selmo Vasconcellos, Sérgio Gerônimo, Sérgio Vale, Soares Feitosa, Tânia Gabrielli-Pohlmann, Tuca Ribeiro, Vânia Moreira Diniz, Zanoto.


15) Alguns poetas e até mesmo alguns críticos acham que a análise minuciosa da poesia é uma atitude inadequada, que o bom poema responde por si, não precisa de guia. Como vê essa questão?


De fato, tenho lido opiniões em que ora poetas, ora os próprios críticos se manifestam contra a análise minuciosa de poemas ou de livros de poesia. Que isso acaba com a poesia, que a análise que expõe “as vísceras” do poema o destrói, etc. Verdade que num determinado momento cheguei a endossar parcialmente essa idéia (para quem leu, recordo minha introdução à resenha dos “poemínimos” de José Geraldo Neres, por exemplo). Entretanto, tenho refletido muito sobre o assunto e hoje penso de forma diferente. Se a poesia de alguém se vê “destruída” porque um leitor ou crítico a analisa profundamente, então, ela não possui qualidade artística. Alimentar idéia contrária é levar o conceito de necessidade do enigma em arte à mais extrema conseqüência, num grau que beira o absurdo. Então a obra não pode ser comentada em minúcia, há que permancer virgem, intocada, fechada, velada, oculta? Por outro lado: que análise crítica, por mais profunda que seja, consegue esgotar completamente uma obra de real valor? Basta o leitor pensar nos poemas que ama, sobretudo naqueles que sabe de cor, naqueles que, como diz Borges, “o acompanharão até o fim”. Será que o leitor os ama porque deles não consegue extrair o significado oculto ou, muito pelo contrário, os aprecia justamente porque as palavras que nele encontra repercutem um sentido especial? Será que conhecidos versos, como: “em que espelho ficou perdida a minha face?”, de Cecília Meireles, tornam-se queridos de seus leitores porque seu significado é abstruso ou porque expressam com clareza uma dor universal? E mais, não será ainda porque fazem isso com singular beleza, elegância, ritmo e harmonia, causando incansável prazer sua leitura e pronúncia? Existe ainda outro aspecto muito interessante: se a obra é rica, complexa, cada leitor que com ela se defronta tende a ressaltar aspectos diferenciados. Ocorre aqui uma interação dinâmica, dialética, entre a “bagagem” do leitor e a obra em apreciação. Tenho o hábito de ler todos os prefácios e comentários. Às vezes o faço antes, às vezes depois do texto principal do autor, conforme o caso. O que tenho observado é que quanto mais rica a obra, maior diversidade e riqueza surgem também nas apresentações. E que, por mais que esmiúcem, não conseguem esgotar os prazeres e segredos de um bom texto.


16)Somente um escritor vivendo uma fase de maturidade poética seria capaz de escrever o conjunto “Sujeito a Objetos”. Por outro lado, até hoje você desenvolve gêneros poéticos muito diferentes do que podemos encontrar naquela obra. Não teme que isso possa prejudicá-lo, no sentido da crítica interpretar tal atitude como uma busca típica de quem ainda não atingiu a maturidade como poeta?


-O exercício da literatura é minha atividade física mais próxima do pensamento e da meditação. E apenas quando penso ou medito me sinto no pleno exercício de minha liberdade. No mundo físico a única ação de natureza material que faz algum sentido para mim é, portanto, a prática da literatura. Por outro lado, reconheço que, como tudo que existe na Civilização, a literatura se insere no jogo social, o que significa possuir regras. Entretanto, se as regras limitam, são elas que permitem o jogo. Os gêneros para mim são isso: diferentes jogos dentro do jogo maior da literatura. Em quanto mais gêneros me aplicar, maior espaço terei de liberdade. Assim, embora saiba que corro o risco de ser interpretado equivocadamente, persisto na prática diversificada, para que o ato de fazer poesia continue a significar um exercício de liberdade. Desse modo, comecei fazendo poesia escrita discursiva em 1982; hoje, continuo a fazê-la. Em meados dos anos 80, iniciei procedimentos neoconcretos, interessei-me pelo poema visual e pelo poema processo, passei a fazê-los. Adotei ainda o poema curto, a poesia minimalista escrita, em suas várias formas. Observe-se que não tive uma "fase" discursiva, depois uma concreta, depois uma neoconcreta, depois uma visual, daí larguei essa ou aquela para dedicar-me a uma outra. Continuo até hoje a dedicar-me a cada uma delas, num processo que entendo menos de fragmentação do que de incorporação. A tal "voracidade", já aqui antes mencionada, na verdade expressa uma tendência à expansão da consciência, à busca de um sentido de totalidade. Meu, digamos, "esforço épico", tem sido sobretudo no sentido de lidar com essas formas tão diferentes e dentro de cada uma delas procurar desenvolver o melhor de mim. Não são diferentes "eus", nem propriamente a busca de "um" estilo definitivo após muitas experiências, mas o "eu" que se expande e incorpora,visando deixar sua marca e, ao mesmo tempo, sendo marcado pelo contato íntimo com cada um dos estilos em que se aplica. Se será bem entendido, se disso resultará uma obra que fique, não sei dizer. Mas prefiro a sinceridade libertária desse procedimento do que a prisão beletrista da prática repetitiva de maneirismos que consolidem um estilo à custa do artificialismo e da estratitificação. Ser múltiplo e cultivar o paradoxo; esse, o meu estilo.


17) Dentro dessa proposta, qual o sentido que existe em “Alfayeus”? Como ele surgiu, o que significa, ele se integra a essa visão de totalidade ou constitui sua negação?


-O alterego Alfayeus surge publicamente no Nozarte n. 8, de 1999 / 2000, numa nota um tanto absurda a um pensamento de minha autoria ali transcrito. Emitir conceitos breves, escrever falsas epígrafes, realizar notas de rodapé, entrar e sair de poemas ou ser neles referido têm caracterizado sua participação. Ao contrário dos heterônimos e outros personagens, Alfayeus não se apresenta com uma forma fixa, nem se acha sempre no mesmo tempo ou lugar. Sua característica tem sido a de ser mutante, parecendo estar em várias partes ao mesmo tempo. Penso que se integra também a meu projeto holístico, sem contradição. Minha poesia teima em afirmar o ser e rejeitar tanto o materialismo quanto o niilismo. E isso já desde o poema de abertura de "Através da Vidraça", que tem o estranho título de "Sob os Efeitos da Notícia da Bomba de Nêutrons". Noticiava-se então nos jornais que essa bomba seria capaz de matar pessoas sem destruir os objetos. É o pragamatismo norte-americano levado ao delírio. Digo nesse poema: "Desprezo à higiene inumana / Que deseja matar sem verter sangue / Desprezo aos edifícios, a toda tralha / Materialista que permanecerá de pé / Entre cadáveres". Aqui há um detalhe interessante, pois não se despreza a "tralha material", porém, a "tralha materialista", numa licença poética que expande o sentido da palavra em direção às ideologias e sistemas materialistas.


18) E qual será o futuro de tais procedimentos?


-É difícil dizer. Em "Através da Vidraça" escrevi um poema intitulado "Fragmentado". Os editores sugeriram que o retirasse, uma vez que destoava do conjunto, quebrando a unidade. Afinal, o livro era de poesia discursiva e aquele era um poema discusivo que terminava empregando recursos de poesia concreta. Teimei em mantê-lo, e hoje acho que fiz bem. Não que seja uma grande peça literária, mas por ser um registro de minhas inclinações. Ele anuncia oficialmente meu interesse por um tipo de caminho que não se restringiria às possibilidades da poesia discursiva. E em muitos poemas tenho retomado à prática da fusão de mais de um gênero. Porém, hoje quando o faço busco um equilíbrio geral na estrutura. Reconheço que optei por um caminho um tanto solitário e difícil em poesia.


19) Em 2003 você participou também de “Onze Autores da Web”, antologia coordenada por Douglas Lara, de Sorocaba-SP. Nela você entrou com 19 poemas. São trabalhos que dão continuidade a “Sujeito a Objetos”?


-Participei de “Onze Autores da Web” com novo conjunto, “Dez em Cantos Sedutores e Nove Poemas ao Mar”, reunindo 19 poemas inéditos, alguns feitos especialmente para o livro. São poemas curtos, de linguagem mais lírica, consideravelmente mais leves do que os de “Sujeito a Objetos”, embora não falte a alguns o espírito de crítica social e de perplexidade existencial que, no meu entender, caracterizam boa parte de minha produção. A atuação nesse livro foi uma decorrência direta de minha presença no outro, dele participando em troca de 15 exemplares de “Rios”, pois “Onze Autores da Web” foi uma antologia feita por sistema de cooperativa. Considero também um momento importante, pois além da divulgação permitiu-me o registro de poemas que considero significativos em minha produção.


20) Quanto a sua literatura em prosa, o que tem realizado?


-Tenho produzido muitos ensaios e crônicas. Os três contos que resolvi divulgar na Rede foram muito bem recebidos, mas meu projeto mais imediato em prosa é voltado para a área de ensaio e crônica. Estou certo de que tenho, tanto num gênero quanto em outro, uma quantidade suficiente para um livro. Seriam pelo menos dois livros, portanto e, certamente, mais um de contos. Aliás, creio que conseguiria selecionar material para um livro de poesia visual, outro de poesia neoconcreta, outro de poesia minimalista e uns dois de poesia discursiva. Falo em obras que tivessem em torno de 150 páginas, pelo menos.


21) Ricardo, nosso contato se deu a partir do Nozarte, que sempre ofereceu um espaço bastante significativo à divulgação cultural, sob rara credibilidade. Fale um pouco sobre o Nozarte e quando o teremos de volta?


-A história do Nozarte Informativo Impresso e Eletrônico é um caso à parte, tanto que a contei num texto de bom tamanho, que esteve registrado no site Nozarte, dedicado à publicação. O site se achava no Intermega, da Globo, mas houve um novo problema por lá. Dessa vez o hospedeiro sumiu inteiro e junto com ele se foram vários sites, deixando inúmeras pessoas sem saber o que fazer. Quanto a mim, estou estudando a feitura de sites e tenciono reabrir o Nozarte em outro lugar assim que puder. Terei de criar um site novo, do zero, pois não tenho como resgatar o antigo. Felizmente, pelo menos disponho dos arquivos de texto que nele se achavam inseridos. O informativo existe desde 1995, tendo começado no circuito impresso. Na Rede apareceu em dezembro de 2001. Saía em média uma a duas vezes por ano, dirigido a uns 400 escritores ou apreciadores de literatura, achando-se atualmente com 12 números editados. Porém, a partir do número 13 haverá profundas modificações. Dentre elas, a publicação impressa diminuirá o número de páginas e será distribuída apenas aos que nela forem citados. Em compensação, tencionamos aumentar a periodicidade de edição. A medida decorre da impossibilidade prática de fazer e manter o informativo nos moldes anteriormente realizados. Trata-se, portanto, de uma estratégia de sobrevivência.


22) Aqui na Alemanha o que se tem, ainda, discutido muito, é a tendência que a literatura está tomando em se manifestar no registro histórico – especialmente o momento atual, firmando-se com maior intensidade na problemática da pluralidade de culturas em convívio. A leitura que fizemos no Revista Viva de seu depoimento, por exemplo, a respeito do ataque ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2000, causou impacto nos ouvintes mais ingênuos. A temática social na literatura brasileira não deixa de ser, também, um processo de registros históricos. Como você interpreta esta necessidade temática em confrontação com a forma?


-A literatura, em seu sentido abrangente inclui o verso e a prosa. Nos gêneros literários em prosa como a crônica, o ensaio, o depoimento, a carta, o artigo, penso que a presença do político e do social causará menos atrito ou dificuldade formal, salvo se a peça for excessivamente panfletária ou se contiver inverdades, argumentação inconsistente ou ainda tendenciosa. Nunca até hoje ouvi alguém condenar um escritor por produzir amiúde crônicas cujo conteúdo fosse de caráter político ou social. Mesmo porque tal crítica seria, de certo modo, contraditória. Embora se admita a ficção na crônica, ela se caracteriza, mesmo quando especializada num tema, pelo comentário aos fatos do cotidiano, estando, portanto, intrinsecamente vinculada à realidade. O texto de minha autoria citado por você, por exemplo, pertence a esse gênero. Porém, e sobretudo quando pensamos em poesia e ficção em prosa, há uma acesa polêmica quanto à questão da validade da arte socialmente participativa. Em particular, quando concentra sua temática no social. A questão é complexa e escrevi alguns artigos a respeito, divulgados em "Poética Social", revista virtual de José Geraldo Neres e grupo. Particularmente, o que venho tentando fazer em minha obra é conciliar a idéia de que a arte deva servir somente a ela mesma com a da necessidade de expressão da verdade interior de seu autor. Nesse ponto, compartilho da visão “gestaltiana”, a exemplo de Carl Rogers. Isto é, há um todo que forma o ser, que inclui tanto o que se acha “dentro” quanto o que se acha “fora” do indivíduo. Cada pessoa é também a cidade em que nasceu e cresceu, as pessoas com quem convive mais intimamente, os ambientes que freqüenta, as leituras que faz. Quando falo da política de meu país, das questões ecológicas que afligem o mundo, das músicas de Mozart que amo, estou também falando de mim. É de mim que falo e do mundo que falo. Conta-se que Ramakrishna viu um homem ser espancado perto de um rio. O santo sentiu em suas costas as dores das chicotadas que eram dirigidas ao outro, além disso, suas costas ficaram marcadas. Não tenho, naturalmente, o mesmo grau de consciência da Totalidade que Ramakrishna veio a adquirir. Entretanto o tenho o suficiente para perceber que nos ligamos afetivamente tanto a seres quanto a coisas, e que esses elementos passam a ter significados para nós; significados que, por sua vez, nos explicam, dizem de nós. Conforme a compreensão desse fato se torna cada vez mais presente, minha poesia tende a tratar "sujeitos e objetos" de uma forma crítica, porém cada vez mais investigativa e multidirecionada do que jamais foi antes. Por outro lado, essa escolha de caminho, embora encontre respaldo e apoio na Razão, segue uma tendência que parte de uma necessidade de natureza existencial. Não veria sentido em produzir arte de outro modo. Naturalmente, digo isso em relação a mim. Não pretendo impor nenhuma norma ou regra. Penso que há lugar para tudo e para todos e que as práticas diversas alimentam a beleza que existe na variedade do conjunto.


23) Tenho insistido na questão do papel social do escritor. E em nossas “conversas” virtuais temos falado muito a respeito. Você, inclusive, enviou-me o poema “Cartilha em Pó”, que retrata um certo desencanto com o criar literário diante de nossa realidade. Como pode o escritor, assim, encontrar um ponto de equilíbrio diante desse paradoxo que vivemos? Qual, sob seu ponto de vista, o papel social do escritor – especialmente o do brasileiro?


-Uma das características de minha poesia tem sido a de assumir publicamente os aspectos contraditórios, paradoxais de minha personalidade e da existêcia em si, num sentido amplo. Há muitos poemas de minha autoria em que a questão da poesia em si é discutida. Em “Cartilha em Pó”, apresento um dos aspectos mais terríveis da situação. Diz o poema:


CARTILHA EM PÓ
(um pó ema de Ricardo Alfaya)


Cada poema que nasce
Já nasce tão velho
Que no primeiro verso
Já disse o bastante
Cada palavra por escrever
Já se acha pronta
Completamente pronta
Para morrer
Ó Vindouros!
Que farão de nós
Dos ossos frágeis
De nosso magro tesouro?
Vocês
Que com Razão
Nunca rezarão por nós
Predadores

Ricardo Alfaya

Não sou propriamente adepto do “tudo já foi dito”, embora reconheça que o poema acima deixa semelhante impressão. Todavia, entre outros, posso citar “Ainda sobre Nuvens”, um poema importante em minha história pessoal, em que defendo a validade do dizer sobre qualquer tema. Assim, a declaração inicial do poema deve mesmo ser associada à ausência de conseqüência social mais perceptível e imediata em relação ao que escrevemos. Isso, de certo modo, envelhece o texto, o torna prematuramente uma peça de museu, um beletrismo. Para fugir ao desalento completo, poderíamos nos refugiar na idéia de que talvez os “vindouros” nos resgatem, nos salvem do marasmo, do esquecimento. O problema é: até que ponto a poesia feita hoje irá interessar aos que virão? Em cada época, muitos os que se julgam chamados; poucos, pouquíssimos, os que logram confirmar semelhante desígnio. Porém, mesmo isso, o que significa exatamente? Qual ilusão a mais? É um tema complexo e para expor minuciosamente o que penso a respeito teria de escrever um ensaio. Por outro lado, há um aspecto relevante no tópico da “importância social” do escritor, que gostaria de mencionar: o Rodrigo de Souza Leão, do informe virtual Balacobaco, costuma perguntar com certa freqüência a seus inúmeros entrevistados qual "o papel social do escritor?" Uma boa quantidade deles responde apenas: “escrever”. Penso assim também, isto é, se consideramos que o papel do escritor é em si socialmente importante, ele, escrevendo, já estará cumprido a sua parte. E, conforme se pode depreender do que disse antes, isso não implica que tenha de escrever sobre essa ou aquela temática. Todavia, considero deplorável o quadro de isolamento a que chegamos, sobretudo no setor da poesia. Poetas escrevem para poetas e praticamente para mais ninguém. Já vi quem considere o fato perfeitamente aceitável, mesmo desejável, e até acrescente que a História mostra ter sido sempre assim, isto é, o público ilustrado tem-se caracterizado por ser minoritário. Escritores sempre produziram para elites intelectuais. Ora, naturalmente, isso pode ser. Porém, o que se torna muito frustrante é que com a democratização do ensino e com os recursos tecnológicos de que hoje dispomos, o interesse pela literatura, inclusive pela poesia, poderia ser bem maior. Percebe-se que houve uma "traição" pelo caminho, sobretudo em países como o Brasil nos quais, conforme observa o teórico da Comunicação, Luís Costa Lima, passou-se praticamente da cultura oral para a audiovisual, sem que a população tivesse assimilado inteiramente a cultura letrada. Ficamos então nisso, de falar poesia para poetas. Alimenta-se um círculo vicioso. Conforme disse em entrevista ao site VMD/Nascente (Vânia Moreira Diniz e Luiz Alberto Machado), servimos banquetes para quem não tem fome e oferecemos bebida a quem já se acha embriagado. Então, cada um de nós sofistica e sofistica a linguagem, desenvolve escritos que exigem cada vez maior capacidade de exegese, maior vocação analítica, conhecimento lingüístico, erudição, leituras paralelas. Para entender a poesia contemporânea o sujeito tem de ser um iniciado. E precisa ter noções de psicanálise, estruturalismo, lingüística, semiologia, mitologia, cultura greco-romana, ocultismo, taoísmo, zen-budismo, física quântica, artes plásticas, história, economia e até literatura –com suas centenas de escolas e movimentos e principais autores independentes, mortos e vivos. Pretender escrever poesia hoje é aceitar o desafio de tentar ser um sol num mundo de sóis. A claridade é tanta que ofusca a todos. E o povo se mantém distante.


24) Alguma coisa que deseje acrescentar antes de encerrarmos?


Desejo apenas agradecer a você e a todos pela oportunidade de falar sobre minha obra. Peço perdão pelos excessos. É difícil falar de si mesmo sem cometer algum tipo de excesso, seja para mais, seja para menos. Também, que se alguém desejar entrar em contato poderá fazê-lo pelos endereços abaixo:


ricard50@ig.com.br

ou

RICARDO ALFAYA
Caixa Postal 18032
Ag. Méier
Rio de Janeiro-RJ
20720-970
(Brasil - Brazil)



Rio de Janeiro, 25 de junho de 2004.


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