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   > Manifesto



Renato Araujo
      ARTIGOS

Manifesto

É incrível como certas coisas na vida são importantes, mas relegadas a segundo plano: a arte, de uma forma geral, é uma delas. Fora aqueles que já têm uma noção formada de como se pode através da música, do cinema, da literatura, etc., transformar a realidade ao nosso redor e, por meio de observações e discussões, torná-la mais agradável ou, diria até, suportável, para a nossa e para as próximas gerações, a imensa maioria da população tem sido convencida ao longo dos tempos de que se trata de uma inutilidade cultivada por pessoas sonhadoras que querem chamar a atenção para si mesmas, não se importando com as coisas práticas da vida e deixando de lado todo o resto que não seja arte: dinheiro, família, a realidade nua e crua. Tem sido convencida também de que apenas os iluminados podem ou conseguem criar obras artísticas, obras que chamem a atenção dos outros a ponto de serem recomendadas para os amigos, familiares, o mundo, divulgando idéias inovadoras ou remodeladas que contribuam para o enriquecimento da língua e cultura local ou nacional, podendo, inclusive, vir a influenciar a arte em nível mundial. É difícil convencer do contrário, mas acredito que alguns argumentos podem mudar o rumo dos acontecimentos de uma forma geral e, se não chegar a fazer isso, pode pelo menos, de uma forma particular, plantar a semente da dúvida na cabeça dos que precisam de um ponto de apoio para dar um rumo artístico à sua própria vida.

 

A poesia, atualmente, ocupa uma das últimas posições no ranking das artes, sendo esquecida e ignorada no Brasil e no mundo, seja pela falta de incentivos à literatura em geral ou em decorrência do pré-conceito de que ler, ouvir ou escrever poesia é chato, sendo considerada uma tarefa inútil e sem valor, destinada só para os românticos, intelectuais, homossexuais e por aí vai em uma infinidade de preconceitos a ela relacionados. Tenho percebido que, além disso, muitas pessoas com vontade de colocar para fora seus pensamentos e sentimentos através de algum meio artístico desistem antes mesmo de começar pelo fato de outras pessoas comuns ou autoproclamadas cultas desaconselharem-nas friamente com frases do tipo: “Você não leva jeito pra coisa!”, “Você não tem talento!”, “Em vez de ficar perdendo tempo escrevendo, leia Drummond, Mário Quintana…”, “Você nunca vai ser um grande artista!” e por aí vai. Para desencorajar, existe um mundo inteiro; para encorajar, pouquíssimas pessoas abrem a boca. (Às vezes, a mãe ou, mais dificilmente, o pai, considerados suspeitos por natureza, acredita no potencial dos filhos artistas). A verdade precisa ser dita: não espere reconhecimento para as suas idéias geniais, menos ainda no início. Se lhe dá prazer, ponha seus pensamentos e sentimentos no papel. “Artefique” suas vontades, independente das vontades alheias.

Não se iluda também, achando que é fácil; nada é fácil na vida. Há vários graus de aceitação para toda e qualquer obra que você vier a produzir: obras que vão agradar somente a você mesmo (sendo extremamente crítico consigo mesmo ou não), que vão agradar as pessoas mais próximas e aquelas que vão romper fronteiras e ganhar o mundo com status de obra-prima. O céu é o limite. Não importa se você escreve poemas para passar tempo, se divertir, encantar alguém, expressar, de alguma forma, o que se passa em sua mente e em seu coração ou até mesmo porque pretende ser um poeta famoso, o importante, em primeiro lugar, é que lhe traga satisfação pessoal. Não adianta satisfazer o resto do mundo todo, se não satisfizer primeiro o seu pior e melhor crítico: você mesmo.

Quem se aventura pelos caminhos artísticos, ou seja, pretende escrever poesia para ser lida, apreciada ou criticada positiva e negativamente pelos outros, deve estar preparado para se deparar com o enorme preconceito existente para com a produção artística nacional. Muitas vezes, as pessoas se recusam de antemão a ler qualquer obra que não seja referendada por algum crítico renomado. Ignore completamente todo e qualquer comentário recheado de patriofobia. Há pessoas que torcem o nariz para qualquer coisa que seu conterrâneo consiga fazer no campo da arte, esporte, ciência, etc., só passando a dar algum valor depois que todo o resto do mundo já aprecia e divulga há um bom tempo. É aquela velha história de o que vem de fora é melhor, mais culto, mais chique. Se parar para pensar, verá que isso acontece com pessoas que menosprezam o seu próprio país o tempo todo; que creditam o sucesso de quem está próximo à sorte e não ao talento e que preferem dizer que nós, brasileiros, nascemos para imitar e somente imitar o que está na moda na Europa ou nos Estados Unidos. Nem sequer se dão conta de que todos esses estrangeiros imitaram em determinada época outras culturas até desenvolverem seus meios particulares de criar cultura própria; afinal de contas, todo produto bem acabado requer um processo de tentativas e erros. Assim como eles, tente e erre até acertar.

 

Engraçado que, de algumas décadas para cá, o país tenha se destacado bastante em campos que antes eram dominados exclusivamente pelos países chamados desenvolvidos. Nossos músicos, por exemplo, vêm produzindo músicas de qualidade nos mais diferentes gêneros: mpb, bossa nova, samba, axé, etc., que às vezes fazem mais sucesso no Japão, Europa e Estados Unidos do que no próprio país. Com exceção do futebol, ocorre um fenômeno parecido no esporte em geral: antigamente, a equipe brasileira olímpica muito mal conseguia ganhar uma medalha individual; hoje em dia, consegue mais medalhas, não só em esportes individuais, mas também em esportes coletivos de pouco investimento no país. O vôlei, por exemplo, tem surpreendido o mundo na última década, tanto no masculino, quanto no feminino. Nas décadas passadas, não conseguiam ganhar nenhum campeonato, mas a vontade de vencer, o aprimoramento nas técnicas e o intercâmbio com outras equipes estrangeiras, ajudaram a melhorar o nível dessas equipes a ponto de se tornarem bem competitivas e até excelentes no que fazem, mesmo com a renovação dos jogadores na equipe ao longo do tempo.

 

Aonde quero chegar com esses exemplos? A qualidade e o desempenho superior, como se pode verificar, vêm com a prática e o aperfeiçoamento contínuo. Com raríssimas exceções, temos pessoas que nascem verdadeiros gênios, mas, na maioria das vezes, o que encontramos são pessoas que se dedicam de corpo e alma durante várias horas todos os dias por anos a fio, desenvolvendo as suas habilidades e aperfeiçoando as suas técnicas, tendo, por um certo período, a orientação de professores ou treinadores dedicados, exigentes e interessados no sucesso. Além desse fator importante, deve-se destacar a necessidade de haver mais incentivo e investimento por parte do poder público e da sociedade para que haja um aumento na produção artística de qualidade. No esporte, por exemplo, com a criação de centros de educação, ginásios de treinamento, projetos e programas que tiram meninos e meninas das ruas, levando-os a treinar e se desenvolver, observamos o crescimento e desempenho superior de nossas equipes e desportistas individuais. Pode-se tomar como exemplo a China que, em menos de uma década, tornou-se competitiva em esportes que antes não se destacava, incentivando e investindo na base da pirâmide, ou seja, nas crianças e nos jovens, chegando ao ponto de superar os Estados Unidos, o país que mais investe em esporte em todo o planeta, em número de medalhas ganhas nas Olimpíadas de 2008.

 

E sabe o que é mais interessante? Que independente do nível que se deseja atingir tanto nas artes como nos esportes, o que realmente importa é o prazer que proporcionam. O prazer de praticar, sabendo que há limitações, mas há também progressos lentos ou rápidos que aumentam ainda mais o prazer pessoal, o que conduz a mais prática, num crescente círculo virtuoso. No esporte, mais uma vez, podemos observar várias pessoas colocando o corpo e a mente para trabalhar todo fim de semana nas peladas de futebol, dando seus chutes a gol, pisando na bola, suando a camisa, se divertindo com outros jogadores amadores, que curtem o bom futebol – o profissional – com os grandes ídolos dos melhores times do planeta, mas não dispensam de jeito nenhum aqueles momentos de diversão temporária em que às vezes perdem; em outras, ganham, saem até machucados ou frustrados por jogarem mal, mas sempre acabam rindo dos momentos bons ou ruins durante o churrasco após o jogo.

 

Nas artes em geral, não existe quase incentivo nenhum; muito pelo contrário, não se vê por aí escritores incentivando as pessoas a escreverem, mas sim a lerem seus livros publicados. (Talvez com medo da concorrência ou por se acharem superiores; não importa!) Não existe campanha para que as pessoas comuns “batam sua bola”; em outras palavras, coloquem suas idéias, sejam elas ingênuas ou revolucionárias, no papel. Tudo bem que estamos em um país em que as pessoas mal sabem ler, quanto mais escrever! Mas acredito que, havendo um incentivo, as pessoas possam, assim como os jogadores de futebol amadores, começar a praticar a poesia como uma atividade de lazer. Com o tempo, algumas vão desistir, outras vão se aprimorar, outras vão se destacar, como resultado do que disse acima: a qualidade vem da quantidade. Como uma futura consequência, já é possível sonhar com uma melhora substancial na educação em geral; afinal de contas, quanto mais escritores, mais leitores, uma vez que, para se escrever melhor, é necessário ler mais: clássicos e modernos, nacionais e estrangeiros, famosos e anônimos, tentando encontrar os caminhos que mais lhe agradem.

 

Outro aspecto frustrante que precisa ser destacado é a questão da falta de interesse do público em relação à poesia, uma arte que era muito cultivada no início das civilizações e que agora é praticamente ignorada, rejeitada, desprezada, não recebendo quase nenhuma atenção da mídia. Ora, a poesia sempre existiu, existe e sempre vai existir, e, como toda arte, tem seu público conquistado e um público imenso ainda a ser conquistado. O que precisa ser feito então para mudar a atual situação? Primeiramente, é fundamental que se transforme a leitura de poesia nas escolas em algo prazeroso e não traumatizante, em algo para se apreciar e não para se interpretar, valendo nota somente. De certa forma, lembro-me bem das minhas próprias experiências com aqueles poemas barrocos cheios de hipérbatos, metáforas complicadas, entre outras figuras de linguagem, que mais assustavam e me afastavam dos poemas do que me faziam entrar no mundo lírico dos autores.

 

Em segundo lugar, é preciso intensificar, desde cedo, o exercício da poesia nas escolas, nas praças, nos teatros, em todos os lugares, pois o gosto por qualquer atividade começa muitas vezes na infância ou na adolescência (mas nunca é tarde demais para se começar). Hoje em dia, por exemplo, acho estranho que alguém goste de passar horas e horas pescando, assim como outros devem achar estranho que eu fique horas e horas tocando violão. Culturalmente, os pais costumam passar para os filhos os seus gostos, que são mantidos vida afora muitas das vezes quando começam de forma lúdica e não forçada. O que acontece é que pescar, por exemplo, não é somente o prazer de fisgar um peixe grande – a vitória -, mas os momentos vividos em família, a cumplicidade entre pai e filho, o prazer de ensinar e o encantamento de aprender. Por isso, o costume da pescaria passa de pai para filho, segue adiante e se torna uma cultura familiar. O mesmo acontece com qualquer momento de prazer que se repete em família, seja contar histórias, ler poesia ou jogar futebol.

Introduzir a poesia na vida das pessoas o quanto antes é, com certeza, um meio de desenvolver nelas a vontade de ler mais e mais ou de escrever mais e mais, o que faz com que elas passem o tempo livre exercitando a mente ao mesmo tempo em que se divertem, lendo, ouvindo ou escrevendo, para rir, se emocionar e, por que não, voltar à realidade com mais de uma visão do mundo, uma visão que pode lhe ajudar a melhorar a realidade através do autoconhecimento ou do conhecimento de outras realidades ou fantasias.

Pratique a poesia! Comece com algumas frases curtas e descubra o poeta que existe dentro de você. No início, todos os poetas têm dificuldades para encontrar as palavras certas que possam expressar com exatidão aquilo que sentem e pensam. Mas com o tempo e a prática, acabam por encontrar o caminho, ou seja, sua forma única e particular de escrever. Assim como os bebês, os poetas engatinham, levantam, começam a andar, caem e levantam várias vezes até se sentirem firmes para andar com equilíbrio e finalmente voar. Não pense que os poetas sabem tudo; ninguém sabe! Mas vamos fazendo os poemas, trabalhando as palavras, as imagens, a realidade e a fantasia para, no fim, vermos que, apesar das dificuldades, fizemos nossa parte… fizemos nossa arte.

www.renatoaraujo.com
 



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