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   > UMA REFLEXÃO SOBRE A RELIGIÃO COMO OBJETO DE ESTUDO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL.



roberta lopes augustin
      ARTIGOS

UMA REFLEXÃO SOBRE A RELIGIÃO COMO OBJETO DE ESTUDO NAS CIÊNCIAS SOCIAIS NO BRASIL.

 Resumo: Este ensaio tem como objetivo refletir, a partir das compreensões de Durkheim e Simmel, acerca do espaço da religião como objeto de estudo nas Ciências Sociais. Trazendo à discussão a formação do objeto religião para as Ciências Sociais no Brasil, fundamentada em Otávio Velho.
 
1 INTRODUÇÃO
 
Este ensaio tem como premissa refletir sobre a religião como objeto de estudo, tendo como cenário as Ciências Sociais no Brasil. A escolha por refletir sobre essa temática tem como principal motivo algumas inquietações plantadas a partir da disciplina Religiões e Ciências Sociais no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Quando em aula, discutíamos sobre autores clássicos como Émile Durkheim e Georg Simmel e nos deparávamos com leituras de cientistas sociais, inclusive os autores brasileiros, que questionam a religião como objeto de estudo, manifestando também sua preocupação com a relação à atitude científica do cientista social estudioso da religião.
Questionar o espaço em que estabelecemos nossas ações exige a compreensão dos fatos que contribuem para a existência da realidade em que nos inserimos como investigadores. A tomada de uma postura frente aos problemas sociais parte, então, de uma investigação social, originada da necessidade de proporcionar diferentes visões acerca de problemas de um determinado contexto. A inter-relação da religião com a sociedade e as formas de interação dessas é o escopo dos estudiosos da religião, impulsionados por inquietações referentes à influência da religião sobre as ideias, os impulsos sobre as formas sociais.
As atuais mudanças sociais produzem diferentes fenômenos, momento no qual aprendemos a olhar o dinamismo social e suas novas configurações, das relações de poder, do tempo e do espaço. Conforme Simmel,
de um lado, as formas que ligam a vida religiosa a uma serie de objetos não satisfazem mais. Por outro lado, o anseio religioso não foi liquidado, mas procura caminhos e objetivos diferentes [...] o misticismo permite a suspensão da definição fixa e delimitação de formas religiosas. (1997, p.20).
 
Esses contextos exigem do cientista social um redimensionar, rompendo com o paradigma tradicional, que já não responde mais às necessidades da dinâmica social. Sabe-se que a ciência moderna nasce afrontando a religião, esta sempre teve a proposta de desenvolver um conhecimento a par das crenças religiosas, a busca da objetividade científica requer um afastamento do espaço religioso. 
Em face desse cenário, é fundamental que repensemos nossas categorias de investigação do social, pois se continuarmos no esfacelamento do social; na diluição dos conflitos sociais; na separação do sujeito do objeto no ato de produção do conhecimento; continuaremos a reproduzir. Desse modo, cada área das Ciências Sociais privilegiou diferentes aspectos do interesse da religião. Entende-se, nessa perspectiva, que o conhecimento das Ciências Sociais precisa do reconhecimento de distintas observações sobre determinados espaços sociais, e compreendendo os atores sociais como articuladores e dinamizadores dos seus próprios contextos. Pensar a religião como objeto da Ciência Social, como elemento dinamizador na partilha de experiências e na interlocução dos conhecimentos permite o avanço para um descondicionamento progressivo dos ranços da perspectiva tradicional.
A religião sendo um dos objetos centrais na e para as ciências sociais, tanto em sua construção quanto execução para o processo de solidificação como ciência autônoma, é inegável. Essa discussão sobre a religião e seus pesquisadores nas ciências sociais perdura desde o século XIX, uma vez que as Ciências Sociais e, em particular a Sociologia, apresenta sua consolidação a partir da secularização, comprovando esse fato observamos os autores clássicos das Ciências Sociais, que têm como ponto de análise a religião, enfatizando a relação religião e sociedade, empenhando-se em cientificizá-la a partir de um desenvolvimento lógico e argumentação racional.
 
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
 
2.1 A religião como referência clássica nas Ciências Sociais
 
Para Émile Durkheim, com seu realismo sociológico, a religião é compreendida como um lugar de reflexão e proporciona uma análise profunda sobre a representação coletiva, sendo que, para esse autor, a religião é um espaço de manifestações e representações simbólicas. A religião é vista como essencial e permanente na humanidade, um fenômeno coletivo. Em sua célebre obra, “As Formas Elementares da Vida Religiosa”, é evidente que seu objetivo é elaborar uma compreensão geral da religião, fundamentando e valorizando as formas elementares para obter a essência de um fenômeno social. Salienta ele,
propomo-nos a estudar neste livro a religião mais primitiva e mais simples atualmente conhecida, analisá-la e tentar explicá-la. Dizemos de um sistema religioso que ele é o mais primitivo que nos seja dado observar, quando preenche as duas seguintes condições: em primeiro lugar, é preciso que seja encontrado em sociedade cuja organização não seja superada por qualquer outra sem simplicidade; é preciso alem disso que seja possível explicá-la sem introduzir qualquer elemento emprestado de uma religião anterior.(1984, p.147). 
 
Portanto, para Durkheim, investigar as religiões primitivas permite analisar a organização e suas representações sem influências e consequências construídas ao longo do tempo. Logo, o primitivo é um espaço de construção metodológica que visa à compreensão de uma religião geral, voltando-se a uma perspectiva positivista. Descreve:
na base de todos os sistemas de crenças e de todos os cultos deve haver, necessariamente, um certo número de representações fundamentais e de atitudes rituais que, apesar da diversidade de formas de que umas e outras possam se revestir, tem sempre a mesma significação objetiva e preenchem as mesmas funções. Esses são os elementos permanentes que constituem aquilo que há de eterno e de humano na religião; eles são o conteúdo objetivo da ideia que se exprime quando se fala da religião em geral. (1984, p.151).
 
Acrescenta Durkheim ainda que
 
As representações coletivas são o produto de uma imensa cooperação que se estende não apenas no espaço, mas no tempo: para fazê-las, uma multidão de espíritos diversos associaram, misturaram, combinaram suas ideias e sentimentos, longas séries de gerações acumularam aqui sua experiência e seu saber. (1984, p.216).
 
O autor concentra seus esforços no que as religiões primitivas emergem a partir da sua simbologia e seus ritos e o quanto estes são socialmente construídos, porque a religião é criação e expressão da sociedade, como também é a base para qualquer pensamento inclusive o científico. Assim,
sem dúvida, quando se considera apenas a expressão das fórmulas, essas crenças e práticas religiosas parecem por vezes desconcertantes e pode-se ser tentando a atribuí-las a uma profunda aberração. Mas sob o símbolo é preciso saber atingir a realidade que ele expressa e que lhe dá sua verdadeira significação. Os ritos mais bárbaros ou mais bizarros e os mitos mais estranhos traduzem algumas necessidades humanas, algum aspecto da vida, seja individual, seja social. As razões que o fiel dá a si próprio para justificá-las podem ser, e o mais das vezes o são, erradas; verdadeiras não deixam de existir; é uma tarefa para a ciência descobri-las. (idem, p 148).
 
Enfim, na busca de uma teoria geral da religião, o autor limita o campo da sociologia e por esta ser uma ciência positiva necessita ter a essência da religião para articular as leis gerais. Criticando os evolucionistas, Durkheim reorganiza a investigação religiosa para a gênese evolutiva, investigando seus significados e funções, fundamentando a reflexão entre ação e representação contida em sua obra. Inquestionavelmente, a religião não é um reflexo de uma visão etnocêntrica e sim a essência e classificação do real, sendo esta o ponto de referência. Dessa maneira,
Existem na base de nosso julgamento um certo número de noções essenciais que dominam nossa vida intelectual [...] são as categorias de entendimento: noções de tempo, espaço, de gênero, de número, causa, substância, personalidade, etc. Elas correspondem às propriedades mais universais das coisas [...] são como quadros rígidos que encerram o pensamento [...] quando se analisam metodicamente as crenças religiosas primitivas encontram-se naturalmente em seu caminho as principais destas categorias [...] nasceram na religião e da religião são um produto do pensamento religioso. (1984, p. 211).
 
            Reafirmando sua apreensão social, explana “é pelo fato de que a sociedade existe que é possível pensar as categorias de tempo e espaço, que nada mais são do que classificações”. A magia a religião são manifestações sociais dependente da crença, portanto, coletivas. Tendo em vista que Durkheim entende a religião como o fenômeno social e a percebe como um sistema, enfatiza que: “Os fenômenos religiosos ordenam-se naturalmente em duas categorias fundamentais: a crença e os ritos. As primeiras são estado de opinião, consistem em representações, e os segundos, são modos de ação determinados” (1984, p. 68).
Essa percepção de sistema é fundamental para o seu objetivo central, para a construção de uma teoria geral da religião; e necessário classificá-las, organizá-las, por isso, se a crença é coletiva a religião requer uma classificação. Define, dessa forma, o sistema classificatório do Sagrado e do Profano, investigando o toteísmo que considera a forma mais elementar da religião:
O aspecto característico do fenômeno religioso e o fato de que ele pressupõe uma divisão bipartida do universo conhecido em dois gêneros que compreendem tudo o que existe, mas que se excluem radicalmente. As coisas sagradas são aquelas que os interditos se aplicam e que devem permanecer à distância das primeiras. (1984, p.161).
        
Delimitado o que é a religião geral, Durkheim analisa a religião mais elementar o Toteísmo, avalia os elementos do que ele entende por religião, e concentra-se nas crenças e na distinção entre o Sagrado e Profano, objetivando e sistematizando-as.
Outro autor, considerado um grande clássico das Ciências Sociais Georg Simmel, com seu formalismo sociológico, despertou nos sociólogos a Sociologia Analítica, buscando na filosofia de Kant, a ciência moral. Negando uma verdade absoluta, o autor compreende que a realidade “não é o mundo em si, mas um mundo formado, por exemplo, pela arte ou religião, sendo o mesmo material colocado em modelos diferentes” (SIMMEL, 1997, p.140). Focaliza seus estudos em uma análise microssociológica, explana uma sociologia capaz de investigar as ações e reações dos atores sociais em interação. Portanto, enfatizando as diferentes variedades e variantes das relações sociais.
            Para Simmel, os fenômenos sociais imersos na realidade social, para serem objeto de interesse do cientista social é necessário desenvolver categorias ou modelos analíticos. A complexidade da realidade social exige para o autor essa categorização do real, visto que ele entende que modelo ou categorias não são, em nenhum momento, uma simplificação do real, muito menos hipóteses despóticas utilizadas por cientistas sociais que questionam o real.
            Assim, para o autor acima citado, a dimensão religiosa é completamente humana, “a religiosidade é um ser particular, uma qualidade funcional da humanidade, por assim dizer, que determina inteiramente alguns indivíduos, mas existe apenas rudimentarmente em outros” (SIMMEL, 1997, p.13).
Portanto, o fenômeno religioso é constantemente recriado “a religiosidade é o tom íntimo a partir do qual o conteúdo original se desenvolveu e continua a desenvolver-se” (SIMMEL, 1997, p.20), e está permanentemente nas sociações. Nesse ponto, a perspectiva simmeliana abrange o olhar da sociedade a partir da interação entre indivíduo e focaliza uma diferenciação entre a forma e conteúdo. O autor destaca a sociação como a forma pela qual os indivíduos desenvolvem uma integração para atenderem a seus interesses, sendo a forma e conteúdo indissociáveis. “[...] O espaço da vida é permeado por aquela unidade íntima entre humildade e certeza, tensão e paz, perigo e consagração que só pode ser chamada religiosa”. (SIMMEL, 1997, p.20).
Por conseguinte, conforme Simmel,
 
a religiosidade é um ser particular, uma qualidade funcional da humanidade, por assim dizer, que determina inteiramente alguns indivíduos, mas existe apenas rudimentarmente em outros. Esse traço fundamental leva habitualmente ao desenvolvimento de artigos de fé e à adoção de uma realidade transcedental. (1997, p.5).
 
Desse modo, Simmel afirma “uma pessoa religiosa é sempre religiosa, independentemente se acredita, ou não em Deus” (1997, p.5). Como a atenção de sua obra é sobre as formas de interação social, o autor destaca a religiosidade como fundamental para a alma, uma contínua relação, “comportamento religioso traz a paz às forças opostas e incompatíveis que trabalham no interior da alma” (SIMMEL, 1997, p.36). Do mesmo modo, Simmel identifica:
o significado subjetivo da religião para a alma é reflexo do que Deus, como objeto da religião, realiza por nossa visão de mundo [...] humildade ou elevação, esperança ou remorso, desespero ou amor, paixão ou repouso [...] a essência da religiosidade é criar espaço igual para pares de opostos [...] Essas forças conflitantes sugerem uma unidade mais profunda e escondida como se fossem as funções de diferentes membros que sustentam a vida de um organismo comum. (1997, p. 36).
 
            Enfim, esses poucos pontos destacados acima por esses dois autores clássicos referenciam o quanto uma observação simples e rápida demonstra que a religião é um objeto transversal a todas as áreas, uma vez que em uma pesquisa sobre violência ou gênero, por exemplo, é quase impossível não investigar o fator religioso que ali se insere. Pensando em qualquer outra temática, que abrange problemas de cunho científico das Ciências Sociais, é evidente a transversalidade da religião.
 
3 Refletindo sobre a religião como objeto de investigação
 
Como referenciado anteriormente, as relações da ciência e religião têm sido foco de diferentes estudos e discussões acirradas sobre a carência da validade científica, bem como autonomia da produção científica, conduzindo à dúvida constante de sua objetividade. A racionalização das análises sociais deve ser concebida diferentemente da concepção positivista ou da interpretativa da racionalidade no trabalho do cientista social, ou seja, não adotamos apenas pontos objetivos, imutáveis acerca das condições que permeiam nossa realidade, não podemos ser denominados “objetivistas, dando prioridade à consideração objetiva do conhecimento como independente do observador”, nem tampouco “subjetivistas, admitindo que os entendimentos subjetivos dos agentes são a base para interpretar a realidade social”. Reconhecendo os aspectos objetivos e subjetivos que compõem a situação concreta, existencial que urge no clamor de mudanças sociais.
No entanto, essas fervorosas reflexões é que têm estruturado de diferentes formas o campo do estudo das religiões, bem como a dependência das diversas conjunturas histórico-políticas.  No contexto brasileiro, não foram e não são diferentes as constantes indagações sobre a cientificidade deste campo de estudo, presente no cenário nacional desde o século XIX, mas é no século XX que os estudos sobre religião no Brasil ganham destaque, salvo a dependência da situação política.
Na primeira metade do século XX, a religião recebe no Brasil uma visão analítica, privilegiando as religiões afro-brasileiras, tendo como principais fontes de análise a perspectiva psicológica e médica. Outra característica interessante nesse período refere-se às mudanças e à diversidade religiosa que sociedade brasileira apresentava, e a falta de estudo sobre essa situação, principalmente, a carência de reflexões sobre as influências das diferentes expressões religiosas sob o catolicismo, religião “oficial” daquele período.
No entanto, na segunda metade do século XX, essa configuração é alterada e os cientistas sociais aprofundam suas observações e investem sua atenção nos fenômenos religiosos a partir de uma perspectiva agora sociológica, entendendo a religião como um elemento essencial para a investigação do social. Entretanto, é necessário ressaltar que a transição da primeira para segunda metade do século, salientando os anos 50 e 60 foram marcados por estudos que aprofundaram a realidade brasileira, que passara por um processo de industrialização e urbanização, ficando a religião à margem do foco dos cientistas sociais, mas nenhum deles desprezou-a de todo.
A religião, como um campo de estudo no Brasil, acompanhou o desenvolvimento da formação do próprio campo das Ciências Sociais. Assim, a religião como objeto de estudo não teve exclusividade ou prioridade, mas sempre foi acompanhada como um fenômeno social intrínseco, sobretudo no cenário brasileiro, já que por mais que não fosse o foco da produção intelectual, é preciso refletir sobre ela, devido à sua carga de diversidade, de especificidade que o cenário religioso brasileiro comporta; compreendendo a religião como um ingrediente social fundamental para diferentes análises sociológicas. Desse modo, a sociologia acadêmica no Brasil, nesse período, enfatizou seus esforços intelectuais na compreensão do lugar da religião na sociedade contemporânea, investindo seus estudos na observação de distintos fenômenos como, messianismo, umbanda entre outros.
Outro ponto de destaque para a compreensão da constituição da religião como área de estudo das Ciências Sociais foram as diversas missões estrangeiras para a institucionalização das Ciências Sociais no cenário brasileiro. Diferentes levas de autores estrangeiros influenciaram muito essa área de estudo, sendo o maior exemplo a própria construção do departamento de Ciências Sociais na Universidade de São Paulo, que contou com autores renomados para a formação e institucionalização das Ciências Sociais no Brasil, bem como financiamento advindo de instituições de fomento internacionais como a própria UNESCO.
Destaca-se ainda, neste primeiro período, a posição da Igreja Católica, que investe no desenvolvimento de estudos de cunho sociológico, como fonte para constantes adaptações no seu planejamento de inserção social. Essa Igreja, até a constituição republicana, era a religião oficial no Brasil, a partir desse fato retira-se qualquer expressão de vinculação religiosa com o Estado. Por conseguinte, a Igreja Católica aposta em uma sociologia religiosa para seus interesses, e é nesse contexto que as Ciências Sociais brasileira defendem e realizam seus estudos paralelos a essa ideia de sociologia religiosa entendendo a necessidade de uma sociologia da religião. É por esse motivo que Antonio Pierucci, sociólogo de destaque na área de estudo da religião, defende a origem impura dos estudos da religião nas Ciências Sociais brasileira.
Nesse sentido, a segunda metade do século XX é caraterizada por diferentes períodos que redefinem, a partir das conjunturas histórico-políticas, a religião como objeto de estudo das Ciências Sociais. Entre os anos 60 e 70 do século XX, a área de estudo da religião privilegiou investigar a atuação da religião na política, seu desempenho e influências.  Já nos vinte anos que antecedem o fim do século, o foco de análise é a consciência religiosa, bem como indagações aos limites, ao campo religioso.
Existem distintas pesquisas no cenário brasileiro sobre a religião como objeto de estudo, diferentes abordagens, discussões e defesas acirradas sobre o espaço da religião nas Ciências Sociais brasileira. No entanto, como este texto constitui-se em um ensaio sobre a reflexão da religião como objeto de estudo nas Ciências Sociais brasileira, opotou-se em direcionar e refletir sobre uma abordagem, e identificou-se um autor que compartilha suas inquietações e especulações para esta análise.
Assim, o autor escolhido é o antropólogo Otavio Guilherme Cardoso Alves Velho, pesquisador renomado pela sua produção acadêmica e reconhecido por sua atuação na consolidação institucional da área dos estudos religiosos nas Ciências Sociais brasileira. A opção em refletir acerca desse autor acontece, justamente, em virtude de sua trajetória intelectual, apresentada como relevante para este ensaio; a transição de sua temática e perspectiva teórica. No primeiro momento de sua carreira, esse autor tinha como temática principal a questão agrária, fundamentada pela teoria marxista; para ilustrar as principais obras desse período, encontram-se: Frentes de Expansão e Estrutura Agrária, dissertação de Mestrado, defendida em 1972 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional; em 1976 obteve o título de Doutor pela Universidade de Manchester com a tese entitulada: Capitalismo Agrário e Campesinato. Ainda nesse período: Sete Teses Equivocadas sobre a Amazônia e Processos Sociais no Brasil pós-64 (1983), capítulo inserido no livro Sociedade e Política no Brasil pós-64.
No segundo momento, mais especificamente em 1986, publica Religiosidade e Antropologia: O Cativeiro da Besta-Fera (1987), e  Religião e Modernidade (1994), publicados na Revista Religião e Sociedade; Globalização: Antropologia e Religião (1997) capítulo desenvolvido para o livro Globalização e Religião; Orientalização do ocidente: comentários a um texto de Colin Campbell; O que a religião pode fazer pelas Ciências Sociais? (1998), publicados pela Revista Religião e Sociedade; Ensaio Herético sobre a Atualidade da Gnose (1998), publicado pela Revista Horizontes Antropológicos. Esses textos foram elencados por meio de uma pesquisa realizada pela internet no endereço eletrônico oficial da Revista Religião e Sociedade. Além disso, relendo algumas das suas produções impressas e disponíveis no site da revista acima citada, bem como pelo Scielo, endereço eletrônico cujo objetivo é socializar diferentes coleções de revistas e artigos científicos.
Para um maior aprofundamento na discussão, foi selecionado o estudo publicado pela revista Religião e Sociedade, de 1998, entitulado “O que a religião pode fazer para as Ciências Sociais?”, texto de maior interesse para este ensaio, que na próxima seção desenvolve algumas reflexões, alicerçando seu objetivo.
 
 
4 O que a religião pode fazer para as Ciências Sociais?
 
Velho, nesse artigo, questiona a constante discussão entre autores secularizados e religiosos, indaga sobre a necessidade da continuidade dessa percepção. O autor discorre sobre os riscos, as incertezas de estudar a religião como objeto, pois entende que o pesquisador necessita ser um observador cuidadoso (mas ativo), buscando diminuir lacunas existentes entre esses estudiosos, “de um lado, o risco de o estudioso, por motivos de crença, comportar-se como um nativo; de outro, a falta de reconhecimento em nosso meio secularizado”. (VELHO, 1998, p.9).  
É notória em suas produções a relevância de não se pensar a religião em si mesma, mas às questões epistemológicas que essa suscita, consequentemente, a indagação que ele demanda aos estudiosos da religião é justamente esta. A diversidade, as peculiaridades, as analogias desenvolvidas neste campo de estudo são tão diversas e ricas que seus cientistas precisam deter-se em construir um diálogo interdisciplinar, visto que a religião é um grande fio condutor para distintas análises epistemológicas, devido a seu caráter transversal.
Nessa perspectiva, Velho pela sua abordagem relativista, utiliza-se de metáforas como a da tradução, na qual sublinha
uma via de mão dupla em que aquilo que é traduzido afeta a linguagem para qual é traduzido e afetado (tal como no caso do observador na mecânica quântica) pela tradução. E aí estaria sugerida uma postura distante igualmente da objetificação forte e do tornar-se nativo. (VELHO,1998, p.11).
 
Assim, o autor propõe para os pesquisadores uma postura diferenciada que abuse da observação, que os estudiosos se libertassem de algumas amarras acadêmicas, que buscassem refletir sobre suas categorias e sua rigorosidade disciplinar. Sistematiza algumas questões para pensar os estudos religiosos nas Ciências Sociais: Como os atores sociais percebem e vivenciam a investigação da qual fazem parte e têm suas vozes interpretadas por profissionais que utilizam seus instrumentos e ferramentas para socializar suas ações, suas concepções? Quais as repercussões desta conjuntura: na investigação, no investigador, no ator e em seu espaço social? Velho adota o estudo da religião como um locus do olhar para reorganizar outros aspectos da sociedade contemporânea, o que para ele é o mais interessante, visto que a religião situa-se num contexto de reflexão sobre a “crise da modernidade”, alicerçando, dessa forma, a crítica epistemológica, referente à visão dualista do mundo.
Por isso, o trabalho investigativo nas Ciências Sociais, que tem como objeto a religião, requer o envolvimento do investigador como sistematizador de suas observações, que trocará informações, estabelecendo o diálogo acerca dos diferentes aspectos das situações observadas. Esta troca possibilitará uma retomada mais abrangente junto ao espaço social pesquisado e compreendendo uma ação conjunta dos envolvidos.
 
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
           
Algumas opiniões minhas foram relativizadas sob o argumento extra-científico de que pertenço à determinada instituição religiosa. Não fui criticado a partir da propriedade ou não das ideias, mas a partir de argumento “extra-campo”. Porém, pergunto: onde está o cientista absolutamente virgem quanto a preconceitos culturais, de formação etc.? Alguém poderia afirmar com total segurança que caminha na direção de um objeto de estudo absolutamente nu, desarmado? Mesmo que assevere que, em relação à religião, seu objeto de estudo é ateu (conceito já carregado de paradoxal compromisso), agnóstico ou materialista, já contaminou suas posições. O que conduz o cientista a determinado objeto é a paixão, seja a afirmação ou a negação em relação ao objeto. (ANTONIO GOUVÊA MENDONÇA).
 
            O conhecimento interpretativo dos atores sociais envolvidos em um determinado contexto é a pedra fundamental para a compreensão das situações que conformam a realidade concreta. Contudo, estabelecer as relações possíveis entre a prática, seus entendimentos e a situação social em que essas ocorrem, requer a “ruptura” de crenças acerca do trabalho investigativo. Ou seja, é preciso esclarecer que este não se postula a “teorias implícitas”, muito ao contrário, pois é resultado de uma ação humana, que por sua vez foram concebidas por alguém.
Assim, a religião como objeto de estudo das Ciências Sociais abre essa possibilidade para as distintas reflexões. Velho compreende que é a partir deste campo de estudo que versam indagações epistemológicas que têm implicações para o conjunto da sociedade. Questiona também o excesso da distinção dicotômica entre os pesquisadores, classificados como secularizados e religiosos; sugerindo uma mudança na postura científica; aconselhando a uma releitura dos clássicos e ao abandono do privilégio da observação. Além disso, enfatiza a ruptura dualista, condenando as leituras unilaterais.
Novas perspectivas e influências possibilitam a reorientação do enfoque social, essas transformações aprofundam o saber social e possibilitam a descoberta de novas abordagens; desmoronando a continuidade, o questionamento de abordagens globalizantes do real; permitindo, assim, o questionamento do discurso. Dinamizando, por conseguinte, as relações sociais e influenciando a abertura de perspectivas, as quais tipificam e diversificam o gênero; o imaginário; a representação; o cotidiano; buscando e preservando as especificidades, assim como identificando compreensões profundas das relações, das interações sociais.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
REFERÊNCIAS
 
 
DURKHEIM, É. A Sociologia de Durkheim. In: Durkheim Sociologia. Org.: José Albertino Rodrigues. Coordenador: Florestan Fernandes. SP: Ática, 1984.
 
HERRERA, Sonia Elisabeth Reyes. Reconstrução do Processo de Formação e Desenvolvimento da Áreas de Estudos da Religião nas Ciências Sociais Brasileira. Porto Alegre: UFRGS:2004. Tese (Doutorado em Sociologia), Programa de Pós-Graduação em Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Sio Grande do Sul, 2004.
 
HERVIEU-LÉGER, Daniele. Le Pèlerin et le Converti. Paris: Flammarion, 1999. 198p.
 
MORAES Fº, E. (org.). Simmel.São Paulo: Ática, 1983. Col. Grandes Cientistas Sociais.
 
SIMMEL, G. Essays on Religion. Yale: Yale University Press -Durham, 1997. 223p.
 
SIMMEL, G. Questões Fundamentais da Sociologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.
 
VELHO, Otavio. A Orientalização do Ocidente: comentários a um texto de Colim Campbell. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 18/1, agosto 1997.
 
____________. Ensaio Herético sobre a Atualidade da Gnose: Horizontes Antropológicos. Porto Alegre, ano 4, n.8, 1998.
 
_____________. Globalização: antropologia e religião. In: ORO, Ari Pedro; STEIL, Carlos ALBERTO (Orgs). Globalização e Religião. Petrópolis: Vozes, 1997.
 
_____________. O que a Religião pode fazer pelas Ciências Sociais? Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 19 (1), 1998.
 
_____________. Processos Sociais no Brasil pós-64: as ciências sociais. In: VELASCO e CRUZ, Sebastião et al. Sociedade e Política no Brasil pós-64. Ed. Brasiliense, 1983.
 
_____________. Religião e Modernidade: roteiro para uma discussão. Anuário Antropológico 92. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1994.
 
_____________. Religiosidade e Antropologia. Religião e Sociedade, Rio de Janeiro, 14/1, 1987.
 
_____________. Besta-fera: recriação do mundo. Ensaios críticos de antropologia. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1995.
 
 


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